UM PORTO SEGURO

     NICHOLAS SPARKS


Nos momentos mais difceis,   o amor  o nico refgio.

         Traduo
   Ivar Panazzolo Jnior
                                        Copyright  2010 by Nicholas Sparks
                                       Copyright  2012 Editora Novo Conceito
                                            Todos os direitos reservados.

2Esta  uma obra de fico. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos so produtos da imaginao do
           autor. Qualquer semelhana com nomes, datas e acontecimentos reais  mera coincidncia.

                                                 Verso Digital  2012

                                              Edio: Edgar Costa Silva
                          Produo Editorial: Alline Salles, Lvia Fernandes, Tamires Cianci
                                        Preparao de Texto: Erika Alonso
                               Reviso de Texto: Elisabete B. Pereira e Lilian Aquino
                               Diagramao: Crayon Editorial Ltda., Vancia Santos
                                     Diagramao E-pub: Brendon Wiermann
                                                  Capa: Jorge Parede

                        Este livro segue as regras da Nova Ortografia da Lngua Portuguesa.

                               Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
                                       (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)


Sparks, Nicholas
Um Porto Seguro / Nicholas Sparks ; traduo Ivar Panazzolo Jnior. -- Ribeiro Preto, SP : Novo Conceito Editora,
2012.

Ttulo original: Safe haven.
ISBN 978-85-8163-004-5
E-ISBN 978-85-8163-144-8

1. Fico norte-americana I. Ttulo.
12-01550 CDD-813


                                             ndice para catlogo sistemtico:
                                       1. Fico : Literatura norte-americana 813




                               Rua Dr. Hugo Fortes, 1885  Parque Industrial Lagoinha
                                         14095-260  Ribeiro Preto  SP
                                         www.editoranovoconceito.com.br
   Dedicado  memria
 de Paul e Adrienne Cole,
minha maravilhosa famlia.
J sinto saudades de vocs.
                          Agradecimentos
QUANDO TERMINO CADA UM de meus livros sempre me pego refletindo sobre as pessoas
que me ajudaram no decorrer da elaborao da obra. Como sempre, a lista comea
com minha esposa, Cathy, que no somente tolerou minhas alteraes de humor
motivadas pela criatividade, mas que tambm teve que passar por um ano muito difcil,
no qual ela perdeu seus pais. Cathy, eu amo voc e gostaria que houvesse algo que eu
pudesse ter feito para diminuir a dor da perda que voc est sentindo. O meu corao
est com voc.

  Tambm quero agradecer aos meus filhos -- Miles, Ryan, Landon, Lexie e
Savannah. Miles est na faculdade, os dois mais novos esto na terceira srie, e
acompanhar o crescimento deles  sempre uma fonte de alegria para mim.

  Minha agente, Theresa Park, sempre merece meus agradecimentos por tudo o que faz
para me ajudar a escrever minhas melhores histrias. Tenho sorte por trabalharmos
juntos.

  A mesma coisa posso dizer sobre Jamie Raab, minha editora. Ela me ensinou muito
sobre a arte de escrever, e eu sou muito grato por t-la presente em minha vida.

  Denise DiNovi, minha amiga em Hollywood e produtora de vrios dos meus filmes,
 uma fonte de alegria e amizade h anos. Obrigado por tudo o que voc fez por mim.

  David Young, diretor da editora Hachette Book Group,  inteligente e uma tima
pessoa. Obrigado por tolerar o fato de eu sempre atrasar a entrega dos meus
manuscritos.

  Howie Sanders e Keya Khayatian, meus agentes cinematogrficos, trabalham comigo
h anos e eu devo muito do meu sucesso ao trabalho duro que eles fazem.

  Jennifer Romanello, minha relaes-pblicas na Grand Central Publishing, trabalha
comigo em cada um dos livros que escrevo. Considero-me uma pessoa de muita sorte
por tudo o que ela faz.

  Edna Farley, minha outra relaes-pblicas,  profissional e esforada e faz um
excelente trabalho para garantir que minhas viagens ocorram sem problemas.
Obrigado.

  Scott Schimer, meu advogado na indstria do entretenimento, no  apenas um amigo,
ele tambm  um negociador excepcional quando  necessrio analisar as mincias dos
meus contratos. Sinto-me honrado em trabalhar com voc.

   Abby Koons e Emily Sweet, dois aliados no Park Literary Group, merecem meus
agradecimentos por tudo o que fazem com as editoras estrangeiras que publicam meus
livros, meu website e quaisquer contratos que chegam at mim. Vocs so os melhores.

  Marty Bowen e Wyck Godfrey, que fizeram um timo trabalho na produo de
Querido John, merecem meus agradecimentos por seus esforos. Eu gostei muito de
ver o cuidado que eles tiveram com o projeto.

  Da mesma forma, foi timo trabalhar com Adam Shankman e Jennifer Gibgot,
produtores de A ltima Msica. Obrigado por tudo o que fizeram.

  Courtenay Valenti, Ryan Kavanaugh, Tucker Tooley, Mark Johnson, Lynn Harris e
Lorenzo Bonaventura -- todos eles mostraram uma enorme paixo pelos filmes
inspirados nos meus livros, e quero agradec-los por tudo.

  Agradeo tambm a Sharon Krassney, Flag e  equipe de preparadores e revisores
que tiveram que trabalhar at tarde da noite para que este livro estivesse pronto para
ser impresso.

  Jeff Van Wie, que foi meu parceiro na criao do roteiro de A ltima Msica,
merece meus agradecimentos por sua paixo e seu esforo na produo de roteiros,
junto com sua amizade.
                                          1



ENQUANTO KATIE CIRCULAVA por entre as mesas, uma brisa vinda do Atlntico lhe
acariciou os cabelos. Levando trs pratos na mo esquerda e outro na direita, ela usava
uma cala jeans e uma camiseta com os dizeres: Ivan's: Experimente nosso peixe,
pea o linguado. Ela levou os pratos para quatro homens que usavam camisas polo; o
que estava mais perto dela lhe chamou a ateno e sorriu. Embora ele tentasse dar a
impresso de que era apenas um rapaz amistoso, Katie sabia que ele continuava a
observ-la enquanto ela se afastava da mesa. Melody havia mencionado que os homens
eram de Wilmington e estavam procurando locaes para serem usadas em um filme.

  Pegou uma jarra de ch gelado e voltou a encher os copos dos rapazes antes de
voltar para a copa. Ela deu uma olhada na paisagem. Era fim de abril, a temperatura
estava perto da marca ideal e o cu se estendia azul at o horizonte. Alm dela, a
hidrovia intralitornea estava calma apesar da brisa e parecia espelhar a cor do cu.
Um bando de gaivotas estava empoleirado no corrimo que circundava o restaurante,
esperando para disparar por entre as mesas se algum deixasse um pedao de comida
cair no cho.

  Ivan Smith, o proprietrio, as odiava. Ele dizia que eram ratos-com-asas e j havia
patrulhado a rea do corrimo com um desentupidor em punho, tentando espant-las.
Melody havia falado ao ouvido de Katie que estava mais preocupada com o lugar onde
o desentupidor estava do que com as gaivotas. Katie no disse nada.

  Ela comeou a fazer outro bule de ch, limpando o balco. Um momento depois,
sentiu que algum lhe tocava o ombro. Virou-se e viu que era a filha de Ivan, Eileen,
uma garota bonita de 19 anos, com o cabelo amarrado em um rabo de cavalo. Ela
estava trabalhando meio perodo no restaurante como recepcionista.

  -- Katie, voc pode atender a uma outra mesa?
  Katie olhou pelo restaurante e observou as mesas. --  claro -- disse ela.

  Eileen desceu as escadas. Katie conseguia ouvir fragmentos de conversas vindos das
mesas prximas. As pessoas falavam sobre amigos, famlia, o tempo ou sobre
pescaria. Em uma mesa, que ficava no canto do salo, ela viu duas pessoas fechando os
cardpios. Foi at eles e anotou o pedido, mas no ficou perto da mesa tentando
conversar sobre amenidades com os clientes, como Melody fazia. Katie no era muito
boa para puxar assunto, mas compensava isso com sua eficincia e cortesia. E os
clientes pareciam no se importar.

  Ela trabalhava no restaurante desde o comeo de maro. Ivan a contratara em uma
tarde fria, em que o cu estava limpo e tinha um tom azul-turquesa. Quando disse que
poderia comear o trabalho na segunda-feira seguinte, Katie teve que se esforar para
no chorar na frente dele. Ela esperou at estar longe do restaurante, a caminho de
casa, para se esvair em lgrimas. Naquela poca, ela no tinha dinheiro nenhum e no
comia h dois dias.

  Katie percorreu o salo, enchendo copos com gua e ch gelado antes de voltar para
a cozinha. Ricky, um dos cozinheiros, piscou para ela como sempre fazia. H dois dias
ele a tinha convidado para sair, mas Katie disse que no queria se envolver com
ningum que trabalhasse no restaurante. Ela teve a impresso de que ele logo tentaria
de novo e esperava que seus instintos estivessem errados.

  -- Duvido que o movimento v diminuir hoje -- comentou Ricky. Ele era loiro e
esguio, talvez um ou dois anos mais novo do que ela e ainda morava na casa dos pais.
-- Toda vez que eu acho que vamos ter um momento para respirar o restaurante volta a
encher.

  -- O dia est bonito hoje.

  -- Mas por que essas pessoas esto aqui? Em um dia como este, elas deveriam estar
na praia ou pescando. E  exatamente isso que eu vou fazer quando terminar o
expediente.

  --  uma boa ideia.

  -- Quer que eu a leve para casa mais tarde? -- Ele se oferecia para lev-la para
casa pelo menos duas vezes por semana.

  -- Obrigada, mas no  preciso. Eu no moro to longe daqui.

  -- No  problema nenhum. Eu ficaria feliz em lev-la -- insistiu ele.

  -- Caminhar me faz bem.

  Ela lhe entregou a folha de papel com os pedidos anotados e Ricky a pregou no
quadro com os outros. Katie pegou um dos pedidos que devia levar de volta ao salo,
foi at a parte do restaurante onde estava atendendo e serviu os clientes.

  O Ivan's era uma instituio local, um restaurante que funcionava h quase trinta
anos. Desde que comeara a trabalhar ali, Katie identificara os clientes habituais e,
enquanto atravessava o salo, seus olhos iam em direo a pessoas que ainda no tinha
visto. Casais flertando, outros se ignorando mutuamente. Famlias. Ningum parecia
estar deslocado naquele lugar, e ningum pedira informaes a seu respeito. Mesmo
assim, havia pocas em que suas mos comeavam a tremer, por isso ela ainda deixava
uma luz acesa quando dormia.

  Seu cabelo, de um tom castanho-avermelhado, era tingido na pia da cozinha da
pequena casa que alugara. Como ela no usava maquiagem, sabia que seu rosto
acabaria se bronzeando um pouco, talvez um pouco demais, ento lembrou a si mesma
de comprar protetor solar. No entanto, aps pagar o aluguel e as contas da casa, no
sobrou muito dinheiro para itens suprfluos. At mesmo o protetor solar iria
estrangular suas finanas. O emprego no Ivan's era bom e ela estava feliz por trabalhar
ali, mas a comida que o restaurante servia no era cara -- e isso significava que as
gorjetas que ela recebia no eram as melhores. Por causa de sua dieta habitual,
composta por feijo com arroz, macarro e mingau de aveia, ela perdera peso nos
ltimos quatro meses, e at conseguia sentir suas costelas por baixo da camiseta.
Algumas semanas atrs, ela tinha crculos escuros ao redor dos olhos, os quais
imaginava que nunca conseguiria tirar do rosto.

  -- Acho que aqueles caras esto olhando para voc -- disse Melody, com um
meneio de cabea em direo  mesa dos quatro homens do estdio de cinema. --
Especialmente aquele de cabelo castanho. O mais bonito da mesa.
  -- Ah -- disse Katie. E comeou a preparar outro bule de caf. Qualquer coisa que
ela dissesse  Melody certamente cairia nos ouvidos das outras pessoas. Ento, Katie
normalmente no conversava muito com ela.

  -- O que foi? Voc no o achou bonito?

  -- Eu no prestei muita ateno.

 -- Como voc pode no prestar ateno quando um cara  bonito? -- perguntou
Melody, descrente, olhando para ela.

  -- No sei.

  Assim como Ricky, Melody era dois anos mais nova do que Katie, talvez com 25
anos, mais ou menos. Ruiva, de olhos verdes e sem papas na lngua, ela namorava um
cara chamado Steve, que fazia entregas para uma loja de materiais de construo e
reforma do outro lado da cidade. Como todos os outros funcionrios do restaurante, ela
havia nascido e crescido em Southport, a qual descrevia como sendo um paraso para
crianas, famlias e idosos, mas o lugar mais triste e modorrento do mundo para
pessoas solteiras. Pelo menos uma vez por semana ela dizia  Katie que desejava se
mudar para Wilmington, que tinha bares, danceterias e muito mais lojas. Melody
parecia saber tudo sobre todo mundo. Katie s vezes pensava que a verdadeira
profisso da colega era a fofoca.

 -- Ouvi dizer que Ricky convidou voc para sair, mas voc recusou -- disse ela,
mudando de assunto.

  -- No gosto de me envolver com pessoas do trabalho -- respondeu Katie, fingindo
estar absorta com a organizao das bandejas que continham os talheres.

  -- Podamos sair os quatro. Ricky e Steve saem para pescar juntos.

  Katie imaginou se Ricky estava realmente interessado nela ou se tudo aquilo era
ideia de Melody. Talvez fossem as duas coisas.  noite, depois que o restaurante
fechava, quase todos os funcionrios ficavam ali por mais algum tempo, conversando e
tomando uma cerveja. Com exceo de Katie, todos j trabalhavam no Ivan's h anos.
  -- No acho que seja uma boa ideia -- comentou Katie.

  -- Por que no?

  -- Tive uma experincia ruim certa vez -- disse ela. -- Namorar com um homem
que trabalhava no mesmo lugar que eu. E, desde ento, assumi como regra no voltar a
fazer isso.

  Melody revirou os olhos antes de sair em direo a uma de suas mesas. Katie
entregou duas contas e recolheu pratos vazios. Ela se manteve ocupada, como sempre
fazia, tentando ser eficiente e invisvel. Mantendo a cabea baixa, se certificava de que
a copa estava brilhando. Aquilo fazia seu dia passar mais rpido. No flertou com o
homem do estdio, que, quando saiu, no olhou para trs.

   Katie trabalhava durante o horrio do almoo e do jantar. Enquanto o dia se
transformava em noite, ela gostava de observar o cu passar do azul para o cinza e
depois para o laranja e o amarelo na borda ocidental do mundo. Ao pr do sol, a gua
reluzia e os veleiros cruzavam as guas, empurrados pela brisa. As folhas finas nos
ramos dos pinheiros pareciam brilhar. Assim que o Sol se punha no horizonte, Ivan
ligava os aquecedores a gs e as espirais de metal comeavam a resplandecer como
abboras de Halloween, com suas faces engraadas. O rosto de Katie j estava ficando
um pouco queimado pelo Sol, e as ondas de calor que saam dos aquecedores faziam
sua pele arder.

  Abby e Dave Grando substituam Melody e Ricky no turno da noite. Abby estava no
ltimo ano do ensino mdio e ria bastante e Dave Grando preparava os jantares no
Ivan's h quase vinte anos. Casado, com dois filhos e uma tatuagem de escorpio no
antebrao direito, ele pesava quase 140 quilos e, na cozinha, seu rosto estava sempre
brilhoso. Ele costumava colocar apelidos carinhosos em todos, e a chamava de Katie
Kat.

  A movimentao do jantar durou at as nove da noite. Quando as coisas comearam
a ficar mais calmas, Katie limpava e fechava a copa. Ela ajudava os lavadores de
pratos a levar a loua para a lavadora enquanto suas ltimas mesas terminavam o
jantar. Uma delas estava ocupada por um casal jovem, e ela viu os anis em seus dedos
quando eles se deram as mos por sobre a mesa. Eles eram belos e pareciam felizes, o
que fez Katie sentir um dj-vu tomar conta de si. H muito tempo ela tinha sido como
eles, pelo menos por um momento. Ou pensou que havia sido, porque hoje sabia que
aquele momento era apenas uma iluso. Katie desviou os olhos do casal feliz,
desejando poder apagar sua memria para sempre e nunca mais voltar a ter aquela
sensao.
                                          2



NA MANH SEGUINTE, Katie foi at a varanda da sua casa com uma xcara de caf,
sentindo as tbuas do piso rangerem sob seus ps, e se apoiou contra o parapeito.
Lrios haviam brotado em meio  grama alta que cobria um canteiro de flores, e ela
levantou a xcara, apreciando o aroma enquanto tomava um gole.

   Ela gostava deste lugar. Southport era diferente de Boston, da Filadlfia e tambm de
Atlantic City, com seus sons incessantes de trnsito, os odores e as pessoas correndo
pelas caladas. Alm disso, era a primeira vez em sua vida que encontrara um lugar
para chamar de seu. A casa no era grande, mas era sua e discreta, e isso bastava. Era
uma de duas estruturas idnticas localizadas no fim de uma ruela de cascalhos, antigas
cabanas usadas por caadores com paredes de madeira construdas entre um grupo de
pinheiros e carvalhos, compondo a orla de uma floresta que se estendia at o litoral. A
sala e a cozinha eram pequenas e o quarto no tinha armrios embutidos, mas a casa j
era mobiliada, incluindo cadeiras de balano na varanda, e o aluguel at que era
barato. O lugar no estava caindo aos pedaos, mas estava coberto pela poeira devido
aos vrios anos em que permanecera fechado. O proprietrio oferecera para comprar
os produtos de limpeza e manuteno se Katie se oferecesse para dar um jeito na casa.
Desde que se mudara para l, Katie passava uma boa parte do seu tempo livre
ajoelhada no cho ou em p sobre cadeiras fazendo exatamente isso. Ela esfregou os
azulejos e as louas do banheiro at que tudo estivesse brilhando; lavou o teto com um
pano mido e limpou as janelas com vinagre. Katie passou horas ajoelhada na cozinha,
tentando remover a ferrugem e a sujeira acumuladas no piso de linleo. Ela cobriu os
buracos na parede com massa corrida e depois lixou tudo at que a superfcie estivesse
lisa. Chegou at mesmo a pintar as paredes da cozinha em um tom alegre de amarelo e
os armrios com tinta branca brilhante. Seu quarto agora tinha paredes em tom azul-
claro, a sala de estar era bege e, na semana passada, ela havia colocado uma nova capa
sobre o sof que fez com que ele parecesse ser novo em folha.
   Depois de completar a maior parte do trabalho, Katie gostava de se sentar na
varanda da casa durante as tardes e ler os livros que pegava emprestado na biblioteca.
Alm do caf, a leitura era o nico luxo a que ela se permitia, j que no tinha
televiso, rdio, telefone celular, micro-ondas, carro, e todos os seus pertences cabiam
em uma nica mala. J contava 27 anos, no tinha amigos e havia deixado de ser uma
mulher loira de cabelos compridos h algum tempo. Ela tinha se mudado para aquele
lugar sem praticamente nada e, alguns meses depois, ainda tinha pouco. Ela guardava
metade das gorjetas que ganhava e todas as noites dobrava o dinheiro e o punha em
uma lata de caf, que deixava escondida sob uma tbua do piso perto da varanda. O
dinheiro ficava guardado para emergncias e ela preferia passar fome a ter que us-lo.
Simplesmente saber que a lata estava ali fazia com que conseguisse respirar um pouco
mais aliviada, pois o passado sempre estava  espreita e poderia retornar a qualquer
momento. Um passado que cruzava o mundo procurando por ela, e ela sabia que sua
fria crescia a cada dia que passava.

  -- Bom dia. Voc deve ser Katie -- chamou uma voz, interrompendo seus
pensamentos.

  Katie se virou. Na varanda da casa ao lado viu uma mulher com uma cabeleira
castanha despenteada, acenando com a mo. Ela parecia ter mais de 30 anos e usava
uma cala jeans, com uma blusa de botes que tinha as mangas arregaadas at os
cotovelos. Um par de culos de sol repousava sobre os cachos emaranhados na cabea
dela. Nas mos, ela tinha um pequeno tapete e parecia estar debatendo consigo mesma
se devia estend-lo para tirar o p antes de finalmente deix-lo de lado e vir at onde
Katie estava. Ela andava com a energia e a tranquilidade de algum que estava
acostumado a se exercitar.

  -- Irv Benson me disse que seramos vizinhas.

  "O dono das casas", pensou Katie. -- Eu no sabia que outra pessoa viria morar
aqui.

  -- Acho que ele tambm no sabia. Ele quase caiu da cadeira quando eu lhe disse
que ficaria com a casa.

  Naquele momento, ela j havia chegado  varanda de Katie, e estendeu a mo. --
Meus amigos me chamam de Jo.

  --  um prazer -- disse Katie, cumprimentando-a.

  -- D para acreditar nesse tempo? Est perfeito, no acha?

  -- A manh est uma beleza -- concordou Katie, apoiando o peso do corpo na outra
perna. -- Quando voc se mudou?

  -- Ontem  tarde. E, por ironia do destino, passei quase a noite toda espirrando.
Acho que Benson juntou toda a poeira que conseguiu encontrar e a guardou na minha
casa. Voc no acreditaria na sujeira que existe l dentro.

  Katie apontou para a porta da sua prpria casa com um movimento da cabea. --
Esta casa estava do mesmo jeito.

  -- No parece. Desculpe-me, mas no consegui evitar em dar uma olhada pelas suas
janelas quando eu estava na minha cozinha. A sua casa  clara e alegre. Por outro lado,
o lugar que eu aluguei  uma masmorra empoeirada e cheia de aranhas.

  -- O Sr. Benson me deixou pint-la.

  -- Tenho certeza de que deixou. Desde que eu faa todo o servio, eu aposto que o
Sr. Benson me deixar pintar a casa tambm. O imvel dele fica limpo e bonito e eu
acabo fazendo todo o trabalho -- disse ela, com um sorriso torto. -- Faz tempo que
voc mora aqui?

  Katie cruzou os braos, sentindo o Sol da manh lhe aquecer o rosto. -- H quase
dois meses.

  -- No sei se vou aguentar tanto tempo. Se eu continuar espirrando como na noite
passada, minha cabea provavelmente vai explodir.

  Jo pegou seus culos escuros e comeou a limpar as lentes com o tecido da camisa.
-- E o que est achando de Southport?  um mundo totalmente diferente, no ?

  -- Como assim?
  -- Voc no parece ser daqui. Imagino que seja de algum lugar ao norte.

  Depois de alguns segundos, Katie fez que sim com a cabea.

  -- Foi o que pensei. Demora um pouco para as pessoas se acostumarem com
Southport. Sempre gostei muito daqui. Tenho um lugar especial no meu corao para as
cidades pequenas.

  -- Voc nasceu aqui?

  -- Cresci aqui, depois sa e voltei aps um bom tempo.  assim que sempre
acontece, no ? Alm disso,  difcil achar lugares empoeirados como minha casa em
outras cidades.

  Katie sorriu e, por um momento, nenhuma das duas disse qualquer palavra. Jo
parecia contente em ficar diante dela, esperando pelo prximo movimento. Katie tomou
um gole do seu caf, olhando em direo s rvores, e se lembrou da boa educao que
recebeu.

  -- Aceita uma xcara de caf? Acabei de fazer.

  Jo voltou a colocar os culos de sol sobre a cabea, prendendo-os entre os cabelos.
-- Sabe, eu estava esperando que voc dissesse isso. Eu adoraria tomar uma xcara de
caf. Todas as coisas da minha cozinha ainda esto encaixotadas e meu carro est na
oficina. Voc faz ideia do quanto  difcil passar o dia inteiro sem cafena?

  -- , eu imagino como deve ser.

  -- Bem, para que voc saiba, eu sou uma verdadeira viciada em caf. Especialmente
em dias como hoje, em que preciso desembalar minha moblia e minhas coisas. J
mencionei que detesto desencaixotar?

  -- Acho que no.

  -- Olhe, provavelmente  a pior coisa que existe. Tentar descobrir onde colocar
cada coisa, bater os joelhos enquanto anda entre a moblia e as caixas... Mas no se
preocupe, eu no sou o tipo de vizinha que pede ajuda para organizar a casa. Por outro
lado, uma xcara de caf...

  -- Entre -- disse Katie, convidando-a. -- S no repare na moblia. Quase tudo j
estava aqui quando eu cheguei.

  Depois de atravessar a cozinha, Katie tirou uma xcara do armrio e a encheu at a
borda. Ela a entregou para Jo. -- Lamento, mas no tenho chantilly nem acar.

  -- No  necessrio -- disse Jo, pegando a xcara. Ela soprou o caf antes de tomar
um gole. -- Bem... a partir de agora, voc  oficialmente minha melhor amiga no
mundo inteiro. Este caf est delicioso!

  -- Fico feliz que tenha gostado.

  -- Benson disse que voc trabalha no Ivan's.

  -- Sou uma das garonetes.

  -- Dave Grando ainda trabalha l?

  Quando Katie fez que sim com a cabea, Jo prosseguiu: -- Ele est l desde quando
eu ainda estava no ensino mdio. Dave ainda coloca apelidos carinhosos em todo
mundo?

  -- Sim -- disse Katie.

  -- E Melody? Ela ainda comenta quando acha que algum dos clientes  bonito?

  -- Todos os dias.

  -- E Ricky? Ele ainda passa cantadas nas novas garonetes?

  Quando Katie assentiu novamente, Jo riu. -- Aquele lugar no muda nunca.

  -- Voc trabalhou l?

  -- No, mas Southport  uma cidade pequena e o Ivan's  uma instituio aqui. Alm
disso, quanto mais tempo voc mora neste lugar, mais compreende que aqui no
existem segredos. Todos sabem da vida de todos e algumas pessoas... como Melody,
por exemplo... transformaram a fofoca em uma forma de arte. Antigamente, isso me
deixava louca da vida.  claro, metade das pessoas que mora aqui  igualzinha a ela.
No h muito para fazer em Southport alm de fofocar sobre a vida dos outros.

  -- Mas voc voltou.

  Jo deu de ombros. -- Sim, voltei. O que posso dizer? Talvez eu goste de gente louca.

  Ela tomou outro gole do caf e apontou para a janela. -- Sabe, mesmo antes de eu
sair da cidade, nem sabia que estas casas existiam.

  -- O dono delas disse que eram cabanas de caa. Eram parte de uma fazenda at que
ele as transformou em casas de aluguel.

  Jo balanou a cabea. -- No consigo acreditar que voc se mudou para c.

  -- Mas voc tambm se mudou para c -- argumentou Katie.

  -- Sim, mas a nica razo pela qual considerei este lugar foi porque eu sabia que
no seria a nica mulher morando no fim de uma rua de cascalhos, no meio do fim do
mundo. Este lugar  meio isolado.

 " exatamente por isso que eu quis viver aqui", pensou Katie consigo mesma. --
No  to ruim. Acho que j me acostumei.

  -- Espero conseguir me acostumar tambm -- disse Jo, soprando seu caf para
esfri-lo. -- E ento, o que a trouxe a Southport? Tenho certeza de que no foi a
possibilidade de uma carreira de sucesso no Ivan's. V oc tem famlia aqui? Pais?
Irmos ou irms?

  -- No -- disse Katie. -- Apenas eu mesma.

  -- Veio por causa de um namorado?

  -- No.

  -- Ento voc simplesmente... se mudou para c?
  -- Sim.

  -- E por que voc quis fazer isso?

  Katie no respondeu. Eram as mesmas perguntas que Ivan, Melody e Ricky haviam
feito. Ela sabia que no havia outros motivos ou intenes por trs daquelas perguntas,
apenas uma curiosidade natural. Mesmo assim, ela nunca soube direito o que
responder, alm da verdade.

  -- Eu queria um lugar onde pudesse recomear a vida.

  Jo tomou outro gole do caf, aparentemente ponderando a resposta dela. Mas, para a
surpresa de Katie, no continuou a fazer perguntas. Simplesmente fez que sim com a
cabea.

  -- Isso faz bastante sentido. s vezes, comear de novo  exatamente o que uma
pessoa precisa. E eu acho que  algo admirvel. Muitas pessoas no tm a coragem
necessria para fazer algo assim.

  -- Voc acha?

  -- Eu tenho certeza -- disse ela. -- E ento, que planos voc tem para hoje? O que
vai fazer enquanto eu estiver bufando e reclamando da vida, desembalando minhas
coisas e limpando tudo at que minhas mos estejam em carne viva?

  -- Tenho que trabalhar mais tarde. Mas, fora isso, poucas coisas. Preciso ir ao
supermercado e comprar algumas coisas.

  -- Voc vai ao Fisher's ou a algum outro lugar na cidade?

  -- Acho que s ao Fisher's.

  -- J conversou com o dono do lugar? Aquele homem de cabelos grisalhos?

  Katie fez que sim com a cabea. -- Uma ou duas vezes.

  Jo terminou de tomar seu caf e colocou a xcara na pia antes de soltar um suspiro.
-- Certo, certo -- disse ela, sem muito entusiasmo. -- Chega de procrastinar. Se eu
no comear agora, nunca vou terminar de arrumar minha casa. Deseje-me sorte.

  -- Boa sorte.

  Jo deu um breve aceno. -- Foi timo conhec-la, Katie.



OLHANDO PELA JANELA DA COZINHA, Katie viu Jo sacudir o tapete que havia deixado de
lado anteriormente. Ela parecia ser bem amistosa, mas Katie no sabia se estava
preparada para ter uma vizinha. Embora fosse bom ter algum com quem pudesse
conversar de vez em quando, ela se acostumara a ficar sozinha.

  Mesmo assim, sabia que viver em uma cidade pequena significava que seu
isolamento autoimposto no duraria para sempre. Ela tinha que sair para trabalhar,
fazer compras e andar pela cidade; alguns dos clientes do restaurante j a reconheciam.
Alm disso, ela tinha que admitir que havia gostado de conversar com Jo. Por algum
motivo, ela sentia que Jo tinha algo alm daquilo que deixava transparecer. Algo que a
tornava digna de confiana, mesmo que no pudesse explicar o que era. Ela tambm
era uma mulher solteira e aquilo era definitivamente um ponto positivo a seu favor.
Katie no queria imaginar como teria reagido se um homem tivesse se mudado para a
casa ao lado, e ela se perguntou por que nunca havia considerado aquela possibilidade.

  De volta  pia, lavou as xcaras de caf e depois as colocou no armrio. Como
aquele ato lhe era muito familiar -- guardar duas xcaras aps o caf, pela manh --,
por um instante se se sentiu dominada pela vida que deixara para trs. Suas mos
comearam a tremer. Forando uma contra a outra, respirou fundo algumas vezes, at
conseguir se acalmar. H dois meses, no seria capaz de fazer isso. Mesmo h duas
semanas, havia pouco o que ela pudesse fazer para impedir aqueles tremores
involuntrios. Embora Katie estivesse feliz em conseguir evitar que os ataques de
ansiedade a dominassem, tambm significava que ela estava se sentindo confortvel
aqui, e isso a assustava. Afinal, sentir-se confortvel significava que ela poderia
abaixar suas defesas, o que era algo que ela nunca poderia deixar acontecer.

  Mesmo assim, Katie estava satisfeita por ter vindo parar em Southport. Era uma
pequena cidade histrica com alguns milhares de habitantes, localizada na foz do rio
Cape Fear, bem no ponto onde ele se encontrava com a hidrovia intralitornea. Era um
lugar com caladas, rvores frondosas e flores que brotavam do solo arenoso. Musgos
pendiam dos galhos e trepadeiras se enrolavam nos troncos encarquilhados das
rvores. Ela havia observado crianas andando de bicicleta e jogando futebol pelas
ruas, e ficou maravilhada com o nmero de igrejas que havia na cidade. Praticamente
uma em cada esquina. Grilos e rs cantavam ao cair da tarde, e mais uma vez ela
pensava em como aquela cidade parecia ser o lugar certo para ela, pois, desde o
comeo, ela a fazia sentir-se segura, prometendo-lhe ser um santurio.

  Katie calou seu nico par de tnis, um All Star velho. As gavetas da cmoda
estavam quase vazias e praticamente no havia comida na cozinha, mas, ao sair de casa
e encarar o Sol que brilhava do lado de fora enquanto caminhava para o supermercado,
ela pensou: "Esta  minha casa". Respirando fundo, sentindo o perfume dos jacintos e
de grama recm-cortada no ar, ela sabia que no era to feliz assim h anos.
                                          3



O CABELO DELE havia ficado grisalho poucos anos depois do seu vigsimo aniversrio,
o que provocou alguns comentrios e piadinhas de seus amigos. Alm disso, a mudana
no foi gradual, com alguns fios aqui e ali adquirindo tons prateados. Em vez disso, em
janeiro ele tinha a cabea coberta por cabelos negros, e, em janeiro do ano seguinte,
apenas uns poucos fios negros ainda resistiam. Seus dois irmos mais velhos no
tiveram o mesmo destino, embora ambos houvessem ganhado alguns fios brancos nas
costeletas nos ltimos anos. Nem sua me nem seu pai foram capazes de explicar
aquilo; at onde eles sabiam, Alex Wheatley era uma anomalia para os dois lados da
famlia.

  Estranhamente, aquilo no o incomodava nem um pouco. No exrcito, ele chegou a
suspeitar de que os fios grisalhos o haviam ajudado na carreira. Ele trabalhava na
Diviso de Investigao Criminal, ou DIC, que tinha bases na Alemanha e na Gergia e
passara dez anos investigando crimes militares, desde soldados que simplesmente
desapareciam dos quartis at casos de invaso de domiclios, maus-tratos domsticos,
estupros e at mesmo assassinatos. Ele fora promovido vrias vezes, at se aposentar,
aos 32 anos, com uma patente de major.

   Depois de completar seus afazeres e concluir sua carreira no exrcito, ele se mudou
para Southport, a cidade natal de sua esposa. Eles eram recm-casados e o primeiro
filho estava a caminho. Embora sua primeira ideia fosse a de procurar um emprego na
polcia ou em alguma outra organizao que promovesse o cumprimento das leis, seu
sogro havia feito uma oferta para que ele comprasse o negcio da famlia.

   Era uma loja construda em estilo antigo que vendia artigos rurais, frutas, verduras,
geleias e outras conservas. O imvel havia sido feito com tbuas brancas, com
venezianas azuis e alguns bancos do lado de fora; era o tipo de estabelecimento que j
tivera seus dias de glria h vrios anos, mas que, praticamente, no existia mais. Os
quartos para a famlia ficavam no segundo andar. Uma imensa rvore de magnlias
trazia sombra para um dos lados da casa, e um carvalho ficava logo em frente. Apenas
metade do estacionamento era feita de asfalto, enquanto a outra metade era coberta por
cascalhos -- e, mesmo assim, o lugar quase nunca ficava vazio. Seu sogro havia
inaugurado a loja antes que Carly nascesse, quando no havia muita coisa alm de
fazendas e pastos ao seu redor. Mesmo assim, o homem se orgulhava de entender as
pessoas e queria manter em estoque qualquer coisa de que eles precisassem -- o que
resultava em um lugar que chegava a ficar desorganizado com o excesso de produtos.
Alex tinha a mesma opinio e mantinha a loja quase do mesmo jeito. Cinco ou seis
corredores ofereciam frutas, verduras e produtos de higiene pessoal; refrigeradores ao
fundo da loja transbordavam com todo o tipo de bebida, desde refrigerantes e gua at
cerveja e vinho, e, assim como em qualquer outra loja de convenincia, tinha vrias
prateleiras de salgadinhos, doces e muitos tipos de alimentos industrializados que as
pessoas compram quando esto perto da caixa registradora. Mas era ali que as
similaridades terminavam. Tambm havia inmeros tipos de equipamentos para pesca
nas prateleiras, iscas vivas e um outro balco com uma churrasqueira e uma chapa
quente operados por Roger Thompson, que j havia trabalhado em Wall Street e que se
mudara para Southport em busca de uma vida mais tranquila. Ao lado da churrasqueira,
onde se podia comprar hambrgueres, sanduches, cachorros-quentes e outras delcias,
havia algumas mesas e outros lugares para sentar. Havia tambm DVDs para alugar,
vrios tipos de munio, capas impermeveis e guarda-chuvas, alm de uma pequena
seleo de best-sellers e clssicos da literatura. Alm disso, a loja vendia velas
automotivas, correias para motor e latas de gasolina, e Alex fazia cpias de chaves
com uma mquina nos fundos. Ele tinha trs bombas de gasolina para os carros e outra
no ancoradouro, caso algum barco precisasse encher o tanque -- o nico lugar onde
era possvel fazer aquilo fora da marina. Vrios potes de picles, sacos de amendoim
cozido e cestas de legumes frescos cobriam o balco.

  Surpreendentemente, no era difcil controlar o estoque da loja. Algumas
mercadorias saam regularmente, outras no. Como seu sogro, Alex notava aquilo de
que as pessoas precisavam assim que elas entravam em sua loja. Ele sempre percebia
e se lembrava de coisas que outras pessoas no conseguiam, uma caracterstica que o
havia auxiliado imensamente nos anos em que tinha trabalhado para o DIC. Hoje em
dia, ele passava um bom tempo examinando ou testando as mercadorias do seu estoque,
tentando acompanhar as mudanas de preferncias dos seus clientes.
  Alex nunca imaginou que um dia faria algo assim, mas a deciso que tomara no lhe
desagradava. Pelo menos ele podia ficar de olho nas crianas. Josh estava na escola,
mas Kristen s comearia suas aulas quando o outono chegasse. E, assim, ela passava
os dias com ele na loja. Ele montou uma pequena rea para brincadeiras atrs da caixa
registradora, em que sua filha, inteligente e comunicativa, parecia estar mais feliz.
Embora tivesse apenas 5 anos, ela sabia como usar a caixa e calcular o troco, subindo
em um banquinho para alcanar os botes. Alex sempre se entretinha com as
expresses no rosto dos estranhos quando ela comeava a calcular o valor das
mercadorias para eles.

  Mesmo assim, no era uma infncia ideal para a menina, ainda que ela no tivesse
condies de perceber. Sendo honesto consigo mesmo, Alex tinha que admitir que
cuidar das crianas e da loja demandava toda a energia que ele tinha. s vezes, sentia
que mal conseguia dar conta de tudo -- fazer o lanche de Josh e deix-lo na escola,
preencher os formulrios de pedidos para os fornecedores, reunir-se com os
representantes de vendas e atender aos clientes, tudo enquanto se ocupava em manter
Kristen entretida. E aquilo era apenas o comeo. Ele se esforava bastante para fazer
coisas de que seus filhos gostavam, como andar de bicicleta, soltar pipas e pescar com
Josh, mas Kristen gostava mesmo era de brincar com bonecas, desenhar e fazer
artesanato. E nem mesmo quando ele finalmente conseguia colocar as crianas na cama
era possvel relaxar, porque sempre havia algo mais a fazer. A verdade era que Alex
nem sabia mais o significado da palavra "relaxar".

  Depois que as crianas estavam na cama, ele passava o resto de suas noites sozinho.
Embora parecesse conhecer quase todas as pessoas na cidade, ele no tinha realmente
muitos amigos. Os casais que ele e Carly s vezes visitavam para jantar ou quando
eram convidados para churrascos haviam se afastado de maneira lenta e inexorvel.
Uma parte era por sua culpa -- trabalhar na loja e criar seus filhos ocupava a maior
parte do seu tempo --, mas, s vezes, ele tinha a sensao de que sua presena deixava
os outros casais desconfortveis, como se os lembrasse de que a vida era imprevisvel
e assustadora e que as coisas precisam de um nico instante para dar errado.

  Era uma vida cansativa e, s vezes, isolada, mas ele mantinha o foco em Josh e
Kristen. Embora com menos frequncia do que antigamente, ambos continuavam tendo
pesadelos depois que Carly se fora. Quando eles acordavam no meio da noite,
chorando de maneira inconsolvel, ele os segurava nos braos e sussurrava em seus
ouvidos que tudo ficaria bem. At que os pequenos conseguiam finalmente adormecer.
No comeo, todos haviam passado por uma psicloga. As crianas faziam desenhos e
falavam sobre o que sentiam. No pareceu ajudar tanto quanto ele esperava. Os
pesadelos continuaram por quase um ano. De vez em quando, ao pintar figuras com
Kristen ou ao pescar com Josh, seus filhos ficavam quietos e ele sabia que eles sentiam
saudades da me. Kristen chegava a mencionar isso numa voz parecida com a de um
beb, trmula e incerta, enquanto as lgrimas lhe escorriam pelo rosto. Quando isso
acontecia, Alex tinha certeza de que conseguia ouvir seu corao se estilhaar, porque
ele sabia que no havia nada que pudesse fazer ou dizer para melhorar as coisas. A
psicloga havia lhe garantido que as crianas eram fortes e que, desde que soubessem
que eram amadas, os pesadelos iriam se tornar cada vez menos frequentes. O tempo
provou que a psicloga tinha razo, mas agora Alex tinha que enfrentar um outro tipo
de perda -- algo que feria seu corao da mesma maneira. Ele sabia que as crianas
estavam melhorando porque as lembranas que tinham da me estavam lentamente
desaparecendo. Eles eram muito novos quando a perderam -- tinham 4 e 3 anos,
respectivamente -- e significava que, algum dia, sua me se tornaria mais um conceito
do que uma pessoa para eles. Era inevitvel, claro, mas no parecia certo para Alex o
fato de que nunca se lembrariam do riso de Carly, ou do carinho com o qual ela os
segurava nos braos quando eram bebs, ou que nunca soubessem o quanto ela os
amara.

  Ele nunca foi muito adepto da fotografia. Era sempre Carly que pegava a cmera, e,
consequentemente, havia dzias de fotografias com Alex e as crianas. Apenas algumas
incluam Carly. Embora ele fizesse questo de folhear o lbum com Josh e Kristen
enquanto falava da me deles, Alex comeava a suspeitar de que as histrias estavam
se tornando exatamente isso: histrias. As emoes que acompanhavam aquelas
imagens eram como castelos de areia em meio  mar, lentamente se dissolvendo na
gua do mar. A mesma coisa estava acontecendo com o retrato de Carly que estava
pendurado em seu quarto. Em seu primeiro aniversrio de casamento, ele contratou um
profissional para fotograf-la, apesar dos protestos. Ele ficou feliz por ter feito aquilo.
Na foto, ela parecia linda e independente, a mulher forte que havia conquistado seu
corao.  noite, depois que seus filhos estavam na cama, ele ocasionalmente passava
longos momentos olhando para a imagem de sua esposa, com suas emoes em um
turbilho. Mas Josh e Kristen mal percebiam que aquele retrato existia.
  Ele pensava nela com frequncia e sentia saudade do companheirismo que tinham
entre si e da amizade que havia sido o alicerce sobre o qual o casamento fora
construdo. E quando se atrevia a ser honesto consigo mesmo, ele sabia que queria ter
aquilo tudo novamente. Alex se sentia muito sozinho, embora se incomodasse em ter
que admitir aquilo. Durante vrios meses depois de t-la perdido, simplesmente no
conseguia imaginar que viesse a se relacionar com outra pessoa, nem mesmo via a
possibilidade de voltar a amar algum. Mesmo depois de um ano, aquele era o tipo de
pensamento que ele se forava a afastar da mente. A dor ainda era muito recente, e as
lembranas dos dias vividos com Carly eram fortes demais. Passados alguns meses,
levou as crianas ao aqurio municipal e, quando estavam em frente ao tanque com os
tubares, ele comeou a conversar com uma mulher jovem e atraente que estava ao seu
lado. Como ele, a mulher tambm havia trazido seus filhos e, como ele, tambm no
usava aliana no dedo. Os filhos dela tinham a mesma idade de Josh e Kristen, e,
enquanto os quatro pequenos estavam distrados apontando para os peixes, ela riu de
alguma coisa que ele disse, o que fez Alex sentir uma fagulha de atrao -- algo que o
fez lembrar daquilo que um dia sentiu. Depois de algum tempo, a conversa chegou ao
fim e os dois se afastaram em direes opostas. Mesmo assim, quando estavam saindo
do aqurio, ele a viu mais uma vez. Ela acenou para ele e, durante um instante, ele
considerou correr at ela para pedir o nmero do seu telefone. Mas no chegou a fazer
isso e, um momento depois, ela entrou no carro e saiu do estacionamento. Alex nunca
mais voltou a v-la.

  Naquela noite ele esperou que uma onda de remorso e arrependimento viesse tomar
conta dos seus pensamentos, mas, estranhamente, isso no aconteceu. E o que fez no
aqurio tambm no lhe pareceu errado. Em vez disso, pareceu-lhe algo... normal. Uma
coisa que no era excitante, ou alarmante, mas normal e, de algum modo, ele percebeu
que estava comeando a superar o que havia acontecido.  claro, aquilo no
significava que ele estava pronto para mergulhar de cabea na vida de solteiro. Se
acontecesse, tudo bem. E se no acontecesse? Ele imaginava que s pensaria em
atravessar aquela ponte quando chegasse at ela. Estava disposto a esperar at
encontrar a pessoa certa, algum que no somente trouxesse a alegria de volta  sua
vida, mas que amasse seus filhos tanto quanto ele os amava. Entretanto, ele sabia que,
nesta cidade, as chances de encontrar uma pessoa assim eram nfimas. Southport era
pequena demais. Quase todas as pessoas que ele conhecia estavam casadas,
aposentadas ou frequentando alguma das escolas locais. No havia muitas mulheres
solteiras na cidade, especialmente mulheres que aceitassem os filhos que ele j tinha.
E, com certeza, esse era o detalhe que dificultava tudo. Ele poderia se sentir sozinho,
poderia estar carente e querendo companhia, mas no estava disposto a sacrificar o
bem-estar de seus filhos para conseguir isso. Eles j haviam passado por muitas
dificuldades e sempre seriam a prioridade na vida de Alex.

  Mesmo assim... havia uma possibilidade, ele imaginava. Outra mulher despertava
seu interesse, embora ele no soubesse quase nada a seu respeito, exceto que era
solteira. Ela vinha  sua loja uma ou duas vezes por semana, desde o comeo de
maro. Na primeira vez que a viu, ela estava muito magra e plida, quase raqutica e
digna de pena. Normalmente, ele no olharia duas vezes para ela. As pessoas que
passavam pela cidade frequentemente iam  loja para comprar refrigerantes, gasolina
ou salgadinhos; ele raramente voltava a ver aquelas pessoas. Mas aquela mulher no
queria nada disso. Em vez disso, ela mantinha a cabea baixa enquanto andava pelos
corredores de verduras e legumes, como se tentasse passar despercebida, como um
fantasma em forma humana. Infelizmente, para ela, aquilo no funcionava. Ela era
atraente demais para no ser notada. Ainda no devia ter feito 30 anos, ele imaginou, e
seu cabelo castanho tinha um corte irregular na altura dos ombros. Ela no usava
maquiagem, tinha as mas do rosto proeminentes e seus olhos grandes e arredondados
lhe davam uma aparncia elegante, embora um pouco frgil.

   Quando ela veio at a caixa registradora, ele percebeu que, de perto, ela era ainda
mais bonita do que ele havia notado enquanto andava entre os corredores. Tinha olhos
de um castanho-esverdeado salpicado com tons dourados, e seu sorriso breve e
distrado desapareceu to rapidamente quanto surgiu. Sobre o balco, ela no colocou
nada alm do estritamente necessrio: caf, arroz, aveia em flocos, macarro, pasta de
amendoim e alguns artigos de higiene pessoal. Ele pressentiu que, se iniciasse uma
conversa, iria deix-la desconfortvel, e preferiu somar o preo dos produtos em
silncio. Enquanto se ocupava com os preos, ele ouviu-a falar pela primeira vez.

  -- Voc tem feijes? Que no sejam daqueles enlatados?

  -- Lamento. No costumo ter esse tipo em estoque -- respondeu ele.

  Enquanto guardava as compras dela em uma sacola, percebeu que ela olhava pela
janela, distraidamente, mordendo seu lbio inferior. Por algum motivo, teve a estranha
impresso de que ela estava a ponto de chorar.

  Ele limpou a garganta. -- Se  algo que voc vai precisar regularmente, eu posso
falar com meus fornecedores e trazer alguns pacotes aqui para a loja. Preciso apenas
saber de que tipo voc gosta.

  -- No quero incomodar -- disse ela.

  Quando ela respondeu, sua voz no era mais alta do que um murmrio.

  Ela pagou a conta com notas de baixo valor e, depois de pegar a sacola plstica, saiu
da loja. Para sua surpresa, ela continuou andando depois de sair do estacionamento, e
foi naquele momento que ele percebeu que ela no havia chegado ali de carro. Aquilo
s fez aumentar sua curiosidade.

  Na semana seguinte havia feijes na loja. Alex havia encomendado trs tipos: feijo
carioca, feijo-cavalo e favas, embora apenas um pacote de cada. Quando ela voltou,
ele fez questo de mencionar que os feijes estavam na prateleira inferior no canto, ao
lado do arroz. Trazendo os trs pacotes at a caixa registradora, ela perguntou se ele
teria uma cebola. Alex apontou para um pequeno saco de cebolas que estava em uma
cesta ao lado da porta, mas ela balanou a cabea.

  -- S preciso de uma -- murmurou ela, quase como se pedisse desculpas, com um
sorriso hesitante. Suas mos tremiam enquanto ela contava as notas e, novamente, foi
embora a p.

  Desde ento, sempre havia feijes em estoque, sempre havia a possibilidade de
comprar uma cebola que no estivesse dentro de um pacote com outras e, nas semanas
que se seguiram quelas duas primeiras visitas, ela acabou se tornando uma cliente
regular. Embora ainda no falasse muito, ela parecia menos frgil e menos nervosa
conforme o tempo passava. As olheiras dela estavam gradualmente desaparecendo e
ela chegara a ganhar um pouco de cor durante os meses recentes, em que houve vrios
dias de tempo bom. At um pouco de peso ganhara -- no muito, mas o bastante para
suavizar suas feies delicadas. Sua voz tambm estava mais forte e, embora esse fato
no demonstrasse qualquer sinal de que estivesse interessada nele, aquela garota j
conseguia olh-lo nos olhos por mais alguns momentos antes de finalmente virar o
rosto. Eles no haviam avanado muito alm de frases como "Encontrou tudo o que
estava procurando?" e "Sim, obrigada", mas, em vez de fugir da loja como um cervo
perseguido por caadores, ela s vezes circulava mais tempo por entre os corredores e
havia at mesmo comeado a conversar com Kristen quando as duas estavam sozinhas.
Foi a primeira vez que ele a viu baixar a guarda. Sua atitude tranquila e expresso
aberta demonstravam que ela tinha afeto por crianas, o que o fez pensar que ele vira a
mulher que outrora ela fora e que poderia voltar a ser, dependendo das circunstncias.
Da mesma forma, Kristen parecia ter visto algo diferente naquela mulher. Depois que
ela saiu, sua filha disse que havia feito uma nova amiga e que ela se chamava senhorita
Katie.

  Mesmo assim, isso no significava que ela se sentia confortvel na presena de
Alex. Na semana passada, depois de ter conversado despreocupadamente com Kristen,
ele a vira lendo as contracapas dos livros em estoque na loja. Ela no comprou nenhum
e, quando lhe perguntou casualmente se estava procurando por algum autor em
particular, Alex notou um lampejo do velho nervosismo. Percebeu que no devia ter
mencionado que a observara.

  -- Deixe para l -- disse ele, acrescentando rapidamente: -- No  importante.

  Quando ela saiu pela porta, entretanto, parou por um momento, com a sacola de
compras junto ao corpo. Virou-se levemente na direo dele e murmurou: -- Eu gosto
de Dickens.

  Ao dizer aquilo, ela abriu a porta e se foi, caminhando pela rua.

   Ele vinha pensando nela cada vez mais frequentemente desde ento, mas eram
pensamentos vagos, cercados por mistrio e tingidos pelo desejo de conhec-la
melhor. No que ele soubesse como fazer aquilo. Alm do ano em que cortejou Carly,
ele nunca fora muito bom no jogo do romance. Durante a faculdade, entre o tempo que
dedicava  prtica da natao e as aulas, tinha poucas oportunidades para sair com
garotas. Enquanto esteve no exrcito, ele se dedicou totalmente  sua carreira,
trabalhando bastante e sendo transferido de uma base para outra com cada promoo
que recebia. Embora tivesse sado com algumas mulheres, em sua maioria eram
romances efmeros, que comeavam e terminavam no quarto. s vezes, fazendo um
retrospecto de sua vida, ele mal reconhecia o homem que costumava ser -- e ele sabia
que Carly fora a responsvel por aquelas mudanas. Sim, s vezes era difcil
reconhecer-se, e, sim, ele se sentia sozinho. Alex sentia saudades de sua esposa e,
embora nunca tivesse contado a ningum, ainda havia momentos em que podia jurar
que sentia a presena dela por perto, cuidando dele e fazendo de tudo para que ele
ficasse bem.


DEVIDO AO TEMPO EXCELENTE QUE FAZIA, a loja estava mais movimentada do que o
habitual naquele domingo. Quando Alex destrancou a porta, s 7 da manh, j havia
trs barcos amarrados no ancoradouro esperando para que a bomba de gasolina fosse
ligada. Como j era tpico, enquanto pagavam pela gasolina, os donos dos barcos
aproveitavam para comprar petiscos, bebidas e sacos de gelo para levar nos barcos.
Roger -- que estava trabalhando na churrasqueira, como sempre -- no teve um
minuto de folga desde que colocou seu avental, e as mesas estavam cheias de gente
comendo salsichas empanadas, cheesebrgueres e pedindo alguma dica sobre o
mercado de aes.

   Geralmente, Alex ficava no comando da caixa registradora at o meio-dia, quando
passaria as rdeas a Joyce. Assim como Roger, Joyce era uma funcionria que
facilitava muito o trabalho de cuidar da loja. Joyce, que havia trabalhado no tribunal
at o dia de sua aposentadoria, veio "de presente" com a loja, por assim dizer. O sogro
de Alex a contratara havia dez anos e agora, mesmo contando 70 anos de idade, ela no
dava qualquer sinal de que quisesse levar uma vida mais tranquila. Seu marido
morrera alguns anos antes, seus filhos haviam se mudado para outras cidades e ela
tratava os clientes como se fossem sua verdadeira famlia. Joyce era to caracterstica
da loja como os produtos nas prateleiras.

   Alm disso, ela entendia que Alex precisava passar o tempo com seus filhos, longe
da loja, e no se incomodava de ter que trabalhar aos domingos. Assim que chegava, ia
direto para trs do balco onde estava a caixa registradora e dizia a Alex que ele podia
ir para casa, parecia ser realmente a chefe do lugar em vez de uma das funcionrias.
Joyce tambm era a bab, a nica pessoa em quem ele confiava para ficar com as
crianas se ele tivesse que sair da cidade. Aquilo no era comum -- acontecera apenas
duas vezes nos ltimos dois ou trs anos, quando ele se encontrara com um velho
amigo dos tempos do exrcito em Raleigh -- mas Alex reconhecia que Joyce fora uma
das melhores coisas que j acontecera em sua vida. Quando ele precisava dela, Joyce
sempre estava pronta para ajudar.

  Enquanto esperava pela chegada de Joyce, Alex andou pela loja, verificando as
prateleiras. O sistema informatizado era timo para gerenciar o inventrio, mas ele
sabia que fileiras de nmeros nem sempre contavam toda a histria. s vezes, achava
que tinha uma noo melhor do que precisava ser reposto se realmente olhasse as
prateleiras para verificar o que havia sido vendido no dia anterior. O sucesso de uma
loja exigia que as mercadorias fossem repostas o mais rapidamente possvel, e aquilo
significava que, vez por outra, tinha que oferecer produtos que nenhuma outra loja
oferecia. Ele tinha compotas e geleias caseiras, temperos em p feitos com base em
"receitas secretas" e que davam mais sabor s carnes e aos cortes de porco e uma boa
variedade de frutas e vegetais enlatados produzidos nas redondezas. At mesmo
pessoas que faziam compras regularmente em supermercados como o Food Lion ou o
Piggly Wiggly vinham frequentemente dar uma olhada na loja de Alex para comprar os
produtos especiais que ele fazia questo de manter em estoque.

  Ainda mais importante do que o volume de vendas de um produto, ele gostava de
saber sobre quando certos produtos eram vendidos, algo que no aparecia
necessariamente nas suas planilhas. Alex havia percebido, por exemplo, que o po
para cachorro-quente vendia muito bem aos fins de semana, mas raramente saa das
prateleiras durante a semana; com pes tradicionais, era o oposto. Percebendo isso,
aproveitou para manter mais unidades de cada um deles em estoque quando a demanda
aumentava, e as vendas cresceram. No era muito, mas o dinheiro extra o ajudava a
manter sua pequena loja lucrando enquanto as grandes cadeias de lojas e
supermercados tiravam a maioria das pequenas empresas locais do mercado.

  Enquanto examinava as prateleiras, ele comeou a imaginar o que iria fazer com as
crianas naquela tarde, e decidiu lev-las para um passeio de bicicleta. Carly sempre
gostou de colocar as crianas em um carrinho de beb especialmente feito para ser
conectado  sua bicicleta e de pedalar em direo  cidade. Mas um passeio daqueles
no era o bastante para ocupar a tarde toda. Talvez eles pudessem ir de bicicleta at o
parque... talvez fosse algo que eles quisessem fazer. Com uma rpida olhada em
direo  porta da frente para ter certeza de que ningum estava prestes a entrar na
loja, ele correu at o cmodo que servia como depsito na parte de trs da loja e
colocou a cabea para fora de uma janela. Josh estava pescando no ancoradouro, a
coisa que ele mais gostava de fazer na vida. Alex no gostava de deix-lo sozinho ali
fora -- ele no tinha dvidas de que algumas pessoas o considerariam um pssimo pai
por permitir que aquilo acontecesse --, mas Josh sempre ficava no campo de viso das
cmeras de segurana e Alex podia v-lo no monitor que ficava ao lado da caixa
registradora. Era uma das regras da famlia e Josh sempre a respeitara. Kristen, como
de costume, estava sentada em sua mesinha atrs do balco da registradora. Ela havia
separado as roupinhas da boneca em diferentes pilhas e parecia alegre em trocar as
roupas da boneca de um modelo para o outro. A cada vez que finalizava, ela olhava
para Alex com uma expresso alegre e inocente, e perguntava ao papai se ele achava
que a boneca continuava bonita. Como se fosse possvel para Alex dizer que no
achava.

  Menininhas. Elas conseguiam amaciar os coraes mais embrutecidos.

  Alex estava organizando alguns dos frascos de condimentos quando ouviu soar a
campainha que tocava quando um cliente abria a porta da loja. Levantando a cabea
por cima da gndola, ele viu Katie entrar na loja.

  -- Oi, senhorita Katie -- disse Kristen, aparecendo por trs da caixa registradora.
-- Voc gosta das roupas que eu coloquei na minha boneca?

  Do lugar onde estava, ele mal conseguia ver a cabea de Kristen por cima do balco,
mas ela trazia nas mos... Vanessa? Rebeca? Qualquer que fosse o nome da boneca de
cabelos castanhos. E a segurava para o alto para que Katie pudesse v-la.

  -- Ela est linda, Kristen -- respondeu Katie. -- Esse vestido  novo?

  -- No, eu o ganhei faz algum tempo. Mas ela no o usou nos ltimos dias.

  -- Qual  o nome dela?

  -- Vanessa -- disse ela.

  "Vanessa", pensou Alex. Quando ele elogiasse Vanessa mais tarde, pareceria um pai
bem mais atencioso.
  -- Foi voc que deu esse nome a ela?

  -- No, ela j veio com esse nome. Pode me ajudar a calar as botas nela? Eu no
consigo pux-las at os joelhos.

  Alex observava quando Kristen entregou a boneca para Katie e quando a cliente
comeou a calar a boneca com as botas de plstico flexvel. Por experincia prpria,
Alex sabia que era mais difcil do que parecia. Uma garotinha no teria condies de
puxar as botas para que se encaixassem. Ele teve dificuldades para fazer aquilo, mas,
de algum modo, Katie fez com que tudo parecesse bem fcil. Ela devolveu a boneca e
perguntou: -- O que acha?

  -- Est linda. Voc acha que seria bom colocar um casaco nela?

  -- No est to frio l fora.

  -- Eu sei, mas Vanessa  meio friorenta s vezes. Eu acho que ela vai precisar de
um.

   A cabea de Kristen sumiu por trs do balco e logo voltou a aparecer. -- Qual
ficaria melhor nela? Um azul ou um roxo?

 Katie colocou um dedo na boca, analisando os casacos com uma expresso sria. --
Acho que o roxo vai ficar mais bonito.

  Kristen assentiu. --  o que eu estava pensando tambm. Obrigada.

  Katie sorriu antes de desviar o olhar, e Alex concentrou sua ateno nas mercadorias
antes que ela percebesse que ele a observava. Com o canto dos olhos, ele viu Katie
pegar uma pequena cesta de compras antes de ir para um outro corredor.

  Alex voltou para o balco da caixa registradora. Quando ela o viu, ele acenou
amigavelmente. -- Bom dia.

  -- Oi -- ela tentou colocar uma mecha de cabelo por trs da orelha, mas era curta
demais para ficar no lugar. -- S preciso pegar algumas coisas.

  -- Me avise se no conseguir encontrar algo de que precisa. s vezes os produtos
so remanejados.

  Ela fez que sim com a cabea antes de continuar a andar pelo corredor. Quando Alex
assumiu seu posto atrs da caixa registradora, ele deu uma rpida olhada na tela do
monitor. Josh estava pescando no mesmo lugar enquanto um barco se aproximava
lentamente do ancoradouro.

  -- O que voc acha, papai? -- perguntou Kristen enquanto puxava a barra das calas
dele com uma mo e segurava a boneca com a outra.

  -- Oh, ela est linda -- disse Alex, agachando-se ao lado dela. -- E gostei bastante
do casaco tambm. Vanessa  meio friorenta, no ?

  -- , sim. Mas ela me disse que quer brincar no balano, ento provavelmente vai
ter que se trocar.

  --  uma tima ideia. Talvez possamos ir ao parque depois do almoo. Se voc
quiser brincar no balano tambm -- props Alex.

  -- No quero brincar no balano.  a Vanessa que quer. E  s no faz de conta,
papai.

  -- Ah, tudo bem -- disse ele, levantando-se. "L se vai o passeio no parque",
pensou ele.

  Perdida em seu prprio mundo, Kristen comeou a despir a boneca novamente. Alex
deu uma olhada no monitor para ver onde Josh estava, bem no momento em que um
adolescente entrou na loja, trajando apenas uma bermuda. Ele lhe entregou um mao de
notas.

  -- Para a bomba de gasolina no ancoradouro -- disse ele, antes de correr para fora.
Alex registrou a compra da gasolina e acionou a bomba enquanto Katie vinha at a
caixa registradora. Quando ela olhou por cima do balco para ver onde Kristen estava,
Alex percebeu a mudana da cor dos olhos dela.

  -- Encontrou tudo o que precisava?
  -- Sim, obrigada.

  Ele comeou a guardar as compras que ela fez em uma sacola plstica. -- Meu livro
favorito de Dickens  Grandes esperanas -- disse ele, tentando parecer amistoso
enquanto colocava os produtos na sacola. -- Qual  o seu?

  Em vez de responder imediatamente, ela pareceu se assustar por ele ter lembrado
que ela havia dito que gostava de Dickens.

  -- Um conto de duas cidades -- respondeu ela, com a voz suave.

  -- Gostei desse tambm. Mas  uma histria triste.

  -- Sim.  por isso que eu gosto dela.

  Como ele sabia que ela voltaria para casa a p, ele colocou mais uma sacola ao
redor da primeira.

 -- Eu imagino que, como voc j conhece a minha filha,  hora de eu me apresentar.
Meu nome  Alex. Alex Wheatley.

  -- O nome dela  senhorita Katie -- disse Kristen por trs dele. -- Mas eu j lhe
falei isso, no lembra?

  Alex olhou para Kristen por cima do seu ombro. Quando se voltou para Katie, ela
estava sorrindo enquanto lhe entregava o dinheiro.

  -- Apenas Katie -- disse ela.

  -- Prazer em conhec-la, Katie.

  Ele tocou nas teclas e a gaveta da registradora se abriu com o som de uma sineta. --
Imagino que voc more aqui perto.

  Ela nunca conseguiu responder. Em vez disso, quando Alex olhou para cima,
percebeu que os olhos dela haviam se arregalado pelo medo. Virando-se para trs, ele
percebeu o que ela havia visto no monitor que estava atrs dele: Josh havia cado na
gua, ainda vestindo suas roupas, e se debatia, agitando os braos em pnico. Alex
sentiu sua garganta se fechando repentinamente e comeou a se mover por instinto. Ele
saiu correndo de trs do balco, passando em disparada pela loja e pelo depsito. Ao
abrir a porta, esbaforido, esbarrou em um caixote de toalhas de papel, derrubando-o no
cho, mas no diminuiu o passo.

  Alex abriu a porta dos fundos com toda a fora, sentindo a adrenalina lhe correr pelo
corpo enquanto saltava por sobre alguns arbustos, encurtando o caminho at o
ancoradouro. Chegou sobre a estrutura de madeira correndo a toda velocidade. Quando
tomou impulso e saltou, Alex conseguiu ver Josh na gua, agitando os braos.

  Com o corao batendo forte contra as costelas, Alex voou pelo ar e atingiu a gua
bem perto de onde Josh estava. A profundidade no era grande -- menos de dois
metros, ele imaginava -- e, ao sentir os ps encostarem no fundo lamacento, afundou
at os tornozelos. Ele lutou para voltar  superfcie e sentiu a presso nos seus braos
quando os estendeu para pegar Josh.

  -- Pronto, peguei voc! -- gritou ele. -- Peguei voc!

   Mas Josh estava se debatendo e tossindo, sem conseguir recobrar o flego. Alex teve
que se esforar para cont-lo enquanto o trazia de volta para a parte mais rasa da gua.
Depois, com um esforo imenso, levou Josh para a margem coberta pela grama, com as
alternativas lhe correndo pela mente: massagem cardaca, respirao boca a boca, ou
tentar forar Josh a expelir a gua que havia engolido. Alex tentou fazer com que o
filho deitasse de costas, mas o menino resistia. Ele se debatia e tossia, e embora ambos
ainda estivessem dominados pelo pnico, aquela reao significava que Josh ficaria
bem.

  Alex no sabia quanto tempo levara -- talvez apenas alguns segundos, mas parecia
ter demorado bem mais --, at que Josh finalmente, ao tossir, cuspisse um jato d'gua
e pela primeira vez conseguiu recobrar o flego. Ele respirou fundo e voltou a tossir;
inalou mais uma vez e tossiu novamente, embora, desta vez parecesse mais como se ele
estivesse limpando a garganta. Ele puxou o ar mais algumas vezes, ainda afetado pelo
pnico, e foi somente ento que o garoto pareceu perceber o que havia acontecido.

  Ele se aproximou de seu pai e Alex o abraou com fora. Josh comeou a chorar,
com os ombros tremendo. Alex sentiu seu estmago embrulhar ao pensar no que
poderia ter acontecido. E se ele no tivesse percebido que Katie estava olhando para o
monitor? E se mais um minuto tivesse se passado? As respostas para aquelas perguntas
faziam com que ele tremesse tanto quanto Josh.

  Depois de alguns minutos, o choro de Josh comeou a diminuir e ele disse suas
primeiras palavras desde que Alex o tirou da gua.

  -- Me desculpe, papai -- disse ele, entre soluos.

  -- Me desculpe tambm -- sussurrou Alex. Ele continuou abraando seu filho,
temendo que, se ele o soltasse, de algum modo o tempo comeasse a retroceder e que,
se aquilo acontecesse de novo, o resultado pudesse ser diferente.

  Quando finalmente conseguiu afrouxar os braos ao redor de Josh, Alex viu que
havia um grupo de pessoas olhando para eles atrs da loja. Roger estava l, assim
como os clientes que estavam comendo perto da churrasqueira. Outros dois clientes
esticavam os pescoos, provavelmente recm-chegados. E,  claro, Kristen estava l
tambm. Ele repentinamente voltou a se sentir um pai terrvel, porque ele viu que sua
garotinha estava chorando, com medo, e precisando dele, mesmo que estivesse
aninhada nos braos de Katie.


ALEX S CONSEGUIU ENTENDER o que havia acontecido depois que ele e Josh se trocaram
e vestiram roupas secas. Roger havia preparado hambrgueres e batatas fritas para as
crianas e todos estavam sentados em uma mesa na rea ao redor da churrasqueira,
embora nenhum deles estivesse com o menor apetite.

  -- A linha do meu anzol se enroscou no barco quando ele estava saindo do
ancoradouro e eu no queria perder minha varinha de pesca. Eu achei que a linha fosse
arrebentar, mas ela me puxou para o rio e eu engoli muita gua. No consegui respirar
e parecia que tinha alguma coisa me puxando para baixo -- disse Josh, hesitando por
um momento. -- Acho que deixei a vara cair no rio.

  Kristen estava sentada ao lado dele, com os olhos ainda vermelhos e inchados. Ela
havia pedido que Katie ficasse um pouco com ela, e Katie continuava ao seu lado,
ainda segurando sua mo.
  -- Est tudo bem. Eu vou at l daqui a pouco e, se no conseguir encontr-la,
pegamos outra para voc. Mas se isso acontecer de novo, deixe a vara ir embora,
certo?

  Josh respirou fundo e assentiu. -- Me desculpe.

  -- Foi um acidente -- disse Alex, para tranquiliz-lo.

  -- Mas voc no vai mais me deixar pescar.

  "E me arriscar novamente a perd-lo?", pensou Alex. "De jeito nenhum". Em vez
disso, ele preferiu dizer: -- Vamos conversar sobre isso mais tarde.

  -- E se eu prometer que vou soltar a vara da prxima vez?

  -- Como eu disse, vamos conversar sobre isso mais tarde. Agora, por que no come
alguma coisa?

  -- No estou com fome.

  -- Eu sei. Mas estamos na hora do almoo e voc precisa comer.

  Josh pegou uma das batatas fritas e mordeu um pequeno pedao, mastigando-a
mecanicamente. Kristen fez o mesmo. Na mesa, ela quase sempre imitava os
movimentos de Josh. Aquilo era o bastante para irritar Josh, mas ele no parecia ter
qualquer energia sobrando para protestar.

  Alex se virou para Katie. Ele engoliu em seco, sentindo-se repentinamente nervoso.
-- Posso conversar com voc por um minuto?

  Ela se levantou da mesa e ele a levou para longe das crianas. Quando estavam
longe o bastante para que os meninos no pudessem ouvi-lo, ele limpou a garganta. --
Quero agradec-la pelo que fez.

  -- Eu no fiz nada -- protestou ela.

  -- Fez, sim. Se voc no estivesse olhando para o monitor, eu nunca iria saber o que
estava acontecendo. Talvez eu no o tivesse alcanado a tempo -- disse Alex. Ele
parou por um momento. -- E obrigado por cuidar de Kristen. Ela  a coisa mais doce e
carinhosa no mundo, mas  bastante sensvel. Fico feliz por voc no ter deixado que
ela ficasse sozinha. Mesmo quando tivemos que subir e trocar de roupa.

  -- Eu fiz o que qualquer pessoa faria -- insistiu Katie. No silncio que se seguiu,
ela repentinamente percebeu o quanto estava prxima de Alex e deu um pequeno passo
para trs. -- Olhe, acho que  hora de eu ir.

  -- Espere -- disse Alex. Ele foi at os refrigeradores no fundo da loja. -- Voc
gosta de vinho?

  Ela balanou a cabea. -- s vezes, mas...

  Antes que ela pudesse concluir a frase, ele se virou e abriu a porta, retirando uma
garrafa de chardonnay.

  -- Por favor, eu gostaria que voc aceitasse. Este  um timo vinho. Eu sei que voc
no imaginaria encontrar uma boa garrafa de vinho aqui, mas, quando estava no
exrcito, eu fiz um amigo que me ensinou a apreciar. Apesar de ser amador, o
considero um especialista, e  ele quem escolhe os vinhos que eu vendo. Tenho certeza
de que voc vai gostar.

  -- Voc no precisa fazer isso.

  --  o mnimo que eu posso fazer -- disse ele, abrindo um sorriso. --  uma forma
de dizer obrigado.

  Pela primeira vez desde que se conheceram, ela olhou nos olhos dele e no desviou
o olhar. -- Tudo bem -- disse ela, finalmente.

  Depois de pegar suas compras, ela saiu da loja. Alex voltou para a mesa. Depois de
um pouco mais de persuaso, Josh e Kristen terminaram de almoar, enquanto Alex foi
at o ancoradouro para buscar a vara de pescar. Quando ele voltou, Joyce j estava
amarrando seu avental e Alex pde levar as crianas para um passeio de bicicleta.
Depois, todos entraram no carro e foram para Wilmington, onde viram um filme e
comeram pizza, as atividades antigas e infalveis quando  necessrio passar o tempo
com crianas. O Sol j havia se posto e eles estavam cansados quando voltaram para
casa. Assim, depois de um banho e de vestirem seus pijamas, Alex se deitou entre os
dois na cama durante uma hora, lendo-lhes histrias, at finalmente apagar as luzes.

   Na sala de estar, ele ligou a televiso e correu pelos canais por algum tempo, mas
no estava muito disposto a assistir o que quer que fosse. Em vez disso, voltou a
pensar em Josh. Embora soubesse que seu filho estava em segurana no quarto, ele
sentiu um arrepio, o mesmo medo que sentira antes. A mesma sensao de haver
fracassado. Ele estava fazendo o melhor que podia e ningum era capaz de amar seus
filhos mais do que ele. Mesmo assim, no conseguia evitar sentir que, de algum modo,
aquilo no era o bastante.

   Mais tarde, um bom tempo depois que Josh e Kristen estavam dormindo, Alex foi at
a cozinha e pegou uma cerveja na geladeira. Ele a bebeu lentamente no sof. As
lembranas do dia estavam vivas na sua mente, mas, desta vez, ele pensava em sua
filha e na maneira como ela se agarrava a Katie, seu pequeno rosto enterrado no
pescoo dela.

  A ltima vez que ele vira aquilo fora quando Carly ainda estava viva.
                                          4



ABRIL DEU ESPAO A MAIO e os dias continuaram a passar. O movimento no restaurante
cresceu de forma perceptvel e a reserva de dinheiro na lata de caf de Katie tambm
cresceu de forma proporcional e reconfortante. Katie no sentia mais os estertores do
pnico ao pensar na possibilidade de que no teria dinheiro caso precisasse sair da
casa.

  Mesmo depois de pagar o aluguel, as contas e as despesas com comida, percebeu
que, pela primeira vez em anos, tinha algum dinheiro sobrando. No muito, mas o
bastante para que conseguisse se sentir livre e leve. Na manh de sexta-feira, ela parou
em frente  loja Anne Jean's, um brech especializado em roupas de segunda mo.
Katie levou a manh inteira para examinar as roupas que estavam  venda e comprou
dois pares de sapatos, duas calas, um short, trs camisetas elegantes e algumas blusas,
a maioria das quais eram de grife e que pareciam ser quase novas. Katie ficava
surpresa ao pensar que algumas mulheres tinham tantas peas boas de roupas que
poderiam doar algumas que provavelmente custariam uma pequena fortuna em uma loja
de departamentos.

   Jo estava pendurando um mensageiro dos ventos em sua varanda quando Katie
chegou em casa. Desde aquele primeiro encontro, elas no haviam conversado muito.
O trabalho de Jo, qualquer que fosse, parecia mant-la ocupada, e Katie cumpria tantos
turnos quanto pudesse no restaurante.  noite, ela notava que as luzes da casa de Jo
ficavam acesas, mas j era tarde demais para que fosse at l. Por sua vez, Jo tambm
no havia passado o fim de semana anterior em casa.

  -- H quanto tempo no conversamos, hein? -- disse Jo, com um aceno. Ela deu um
toque no mensageiro dos ventos, fazendo-o tinir antes de atravessar o jardim.

  Katie chegou at sua varanda e colocou as sacolas no cho. -- Por onde esteve?
                         oc
  Jo deu de ombros. -- V sabe como so as coisas. Trabalhando at tarde da noite,
acordando cedo pela manh, indo aqui e ali. H momentos em que me sinto como se
estivesse sendo puxada em todas as direes -- disse ela, apontando para as cadeiras
de balano. -- V oc se importa? Eu preciso parar um pouco. Passei a manh inteira
limpando a casa e acabei de pendurar aquela coisa. Gosto do som que ele faz.

  -- Fique  vontade -- disse Katie.

   Jo se sentou e movimentou os ombros em crculos, tentando relaxar. -- Voc est
ficando bronzeada. Tem ido  praia?

  -- No. Fiz alguns turnos extras nas ltimas semanas e trabalhei na rea externa --
disse Katie, afastando uma das cadeiras e abrindo espao para que pudesse esticar as
pernas.

  -- Sol e gua... o que mais h ali? Trabalhar no Ivan's deve ser muito parecido com
uma temporada de frias.

  Katie riu. -- No  bem assim. E voc, o que tem feito?

  -- Nada de sol nem diverso para mim ultimamente -- disse Jo, olhando para as
sacolas de compras. -- Eu queria ter vindo mais cedo para tomar outra xcara de caf,
mas voc j havia sado.

  -- Fui fazer compras.

  -- Estou vendo. Achou algo interessante?

  -- Acho que sim -- confessou Katie.

  -- Bem, no fique sentada a. Mostre-me o que voc comprou.

  -- Tem certeza de que quer ver?

  Jo riu. -- Eu moro em uma cabana no fim de uma rua de cascalhos que fica no meio
do fim do mundo, passei a manh inteira lavando e enxugando meus armrios. Que
outras opes eu tenho para me divertir?
  Katie tirou uma cala jeans da sacola e a entregou a Jo, que a segurou em frente ao
rosto, observando os dois lados com cuidado. -- Uau! -- disse ela. -- V          oc
provavelmente encontrou esta cala na Anna Jean's. Eu adoro aquele lugar.

  -- Como voc sabe que eu a comprei na Anna Jean's?

  -- Porque nenhuma outra loja da cidade vende roupas to boas. Isto veio do armrio
de algum. Provavelmente de alguma mulher rica. Muitas das coisas naquela loja so
praticamente novas.

   Pousando o jeans sobre o colo, Jo deslizou os dedos sobre o bordado nos bolsos de
trs. -- Os detalhes so maravilhosos, gostei muito dos desenhos -- disse ela, olhando
em direo s sacolas. -- E o que mais voc comprou?

  Katie passou-lhe as peas uma por uma, divertindo-se com a empolgao de Jo com
cada uma. Quando a sacola estava vazia, Jo suspirou. -- Bem, agora estou oficialmente
morrendo de inveja. E deixe-me adivinhar: no sobrou nada parecido com isso na loja,
no ?

  Katie deu de ombros, sentindo-se repentinamente acanhada. -- Desculpe. Eu passei
um bom tempo l escolhendo.

  -- Bem, no tem problema. Voc fez excelentes escolhas. Estas roupas so
verdadeiros tesouros.

  Katie olhou para a casa de Jo. -- E como esto as coisas por l? J comeou a pintar
os cmodos?

  -- Ainda no.

  -- O trabalho est lhe tomando muito tempo?

  Jo fez uma careta. -- A verdade  que, depois de desencaixotar minhas coisas e
limpar a casa do cho at o telhado, eu acho que minha energia acabou. Mas eu fico
feliz por ser sua amiga, pois isso significa que eu ainda posso vir at sua casa, que 
alegre e colorida.
  -- Pode vir a qualquer hora.

   -- Obrigada, isso significa muito para mim. Mas o Sr. Benson, aquele homem
maldoso, vai me trazer algumas latas de tinta amanh. Acho que isso explica por que
estou aqui. Estou quase em pnico ao pensar que vou passar o final de semana com
tinta respingando na minha roupa.

  -- No  to ruim assim. O tempo at que passa rpido.

  -- Est vendo estas mos? -- perguntou Jo, exibindo as palmas. -- Elas foram feitas
para acariciar homens bonitos, para serem adornadas com unhas bonitas e anis de
diamante. No foram feitas para segurar rolos de pintura, ficarem manchadas com tinta
ou para fazer outros tipos de trabalho braal.

  Katie deu uma risadinha. -- Quer que eu te ajude?

  -- De jeito nenhum. Sou especialista em deixar as coisas para depois, mas a ltima
coisa que eu quero  que voc pense que eu sou incompetente. Porque sou muito boa no
que fao.

  Um bando de andorinhas saiu das rvores, movendo-se em um ritmo quase musical.
O balano das cadeiras fazia com que as tbuas da varanda rangessem levemente.

  -- O que exatamente voc faz?

  -- Trabalho com aconselhamento psicolgico, por assim dizer.

  -- Em uma escola?

  Jo balanou a cabea negativamente. -- No. Em situaes de luto e perda.

  Katie parou por um momento para pensar. -- Acho que no entendi direito.

  Jo deu de ombros. -- Eu vou at a casa das pessoas e tento ajud-las. Geralmente
isso acontece quando algum muito querido morre -- disse ela. Aps uma pausa, sua
voz ficou mais suave quando ela prosseguiu. -- As pessoas reagem de maneiras muito
diferentes, e meu trabalho  descobrir como ajud-las a aceitar o que aconteceu. Alis,
detesto essa palavra, pois nunca conheci ningum que realmente estivesse disposto a
aceitar os fatos. Mas, basicamente,  isso que eu fao. Afinal, independente do quo
seja difcil, a aceitao ajuda as pessoas a seguir em frente com suas vidas. Mas, s
vezes...

  Ela deixou a frase no ar. Em meio ao silncio, arrancou um pedao da pintura da
cadeira de balano que estava descascando. -- s vezes, quando estou cuidando de
algum, outros problemas acabam surgindo. E  com isso que venho trabalhando
ultimamente. Em geral, as pessoas precisam de outros tipos de ajuda tambm.

  -- Parece ser um belo trabalho.

  -- E . Mesmo que tenha suas dificuldades -- concluiu ela, virando-se para Katie.
-- E voc, o que me diz?

  -- Voc sabe que eu trabalho no Ivan's.

  -- Mas voc no me disse mais nada sobre voc.

  -- No h muito mais a dizer -- protestou Katie, desejando que a conversa no
enveredasse por aquele rumo.

  --  claro que h. Todos tm uma histria -- comentou Jo, antes de fazer uma
pequena pausa. -- Por exemplo, qual foi o verdadeiro motivo que a trouxe para
Southport?

  -- Eu j lhe disse. Queria um lugar onde pudesse recomear a vida -- insistiu Katie.

  Jo pareceu estar olhando atravs dela enquanto absorvia aquela resposta. -- Tudo
                                                           oc
bem -- disse ela aps algum tempo, sem rancor na voz. -- V tem razo. No  da
minha conta.

  -- No foi isso o que eu disse.

  -- Foi, sim. Voc disse de uma maneira gentil. E eu respeito sua resposta, porque
voc tem razo: realmente no  da minha conta. Mas, s para voc saber, quando voc
diz que quer recomear a vida, a conselheira que existe dentro de mim se pergunta por
que voc sente a necessidade de recomear. E, mais importante do que isso, o que foi
que voc deixou para trs.

  Katie sentiu seus ombros ficarem tensos. Percebendo o desconforto nela, Jo
prosseguiu.

  -- E se fizermos desta forma? -- perguntou ela, de maneira gentil. -- Esquea que
eu fiz essa pergunta. Mas saiba que, se algum dia voc quiser conversar a respeito,
estarei aqui para lhe ajudar. Sou uma boa ouvinte, especialmente quando meus amigos
precisam. E, acredite ou no, conversar, s vezes, ajuda bastante.

  -- E se eu simplesmente no puder conversar a respeito? -- disse Katie, em um
sussurro involuntrio.

  -- Que tal se voc ignorar o fato de eu trabalhar com aconselhamento de pessoas?
Somos apenas amigas, e amigas podem conversar sobre qualquer coisa. Como o lugar
onde voc nasceu, ou algo que lhe deixava feliz quando voc era criana.

  -- E que importncia isso tem?

  -- No  realmente algo importante. E  exatamente por isso que estou conversando
com voc. Voc no precisa dizer nada que no queira realmente dizer.

  Katie absorveu as palavras de Jo antes de olhar para ela com os olhos semicerrados.
-- Voc  muito boa no que faz, no ?

  -- Eu me esforo -- concordou Jo.

  Katie entrelaou os dedos sobre o colo. -- Tudo bem. Eu nasci em Altoona -- disse
ela.

  Jo se recostou na cadeira de balano. -- Nunca estive l.  um lugar bonito?

  --  uma daquelas velhas cidades construdas ao redor de uma estao de trem.
 oc
V j deve ter visto algum lugar assim. Uma cidade pequena, cheia de pessoas boas
e trabalhadoras que esto apenas tentando melhorar suas vidas. Era um lugar bonito,
especialmente durante o outono, quando as folhas comeavam a mudar de cor. Eu
pensava que nenhum lugar no mundo poderia ser mais bonito que aquele.
  Katie baixou os olhos, perdida em meio s lembranas. -- Eu tinha uma amiga
chamada Emily e ns costumvamos colocar moedas sobre os trilhos do trem. Depois
que o trem passava, ns andvamos em volta dos trilhos para tentar encontr-las e
sempre ficvamos abismadas quando vamos que o peso do trem havia apagado todas
as marcas de cunhagem das moedas. s vezes as moedas ainda estavam quentes ao
toque. Eu me lembro de quase ter queimado meus dedos certa vez. Quando penso na
minha infncia, quase sempre so lembranas de pequenos momentos agradveis como
esse.

  Ela deu de ombros, mas Jo continuou em silncio, deixando que Katie prosseguisse.

  -- De qualquer forma, foi l que estudei. Sempre na mesma escola. Foi ali que
terminei o ensino mdio, mas acho que, naquela poca... no sei... acho que estava farta
de tudo aquilo, sabe como ? A vida em uma cidade pequena, onde todos os fins de
semana eram iguais. As mesmas pessoas indo sempre s mesmas festas, os mesmos
rapazes bebendo cerveja na carroceria de suas caminhonetes. Eu queria mais, mas no
consegui ir para a faculdade. Para encurtar uma longa histria, acabei indo para
Atlantic City. Trabalhei l por algum tempo, me mudei algumas vezes e agora, alguns
anos depois, estou aqui.

  -- Em outra cidade pequena onde tudo  sempre igual.

  Katie balanou a cabea. -- Esta cidade  diferente. Ela faz com que eu me sinta...

  Quando Katie hesitou, Jo terminou a frase por ela.

  -- Segura?

  Quando os olhos assustados de Katie se encontraram com os dela, Jo parecia estar
estupefata. -- No  to difcil de entender. Como voc mesma disse, voc quer
recomear. E que lugar melhor para fazer isso do que este? Onde nada acontece? --
Ela parou por um momento. -- Bem, no  sempre assim. Eu ouvi que houve uma certa
comoo na semana passada. Quando voc foi at a loja de convenincia.

  -- Voc ficou sabendo?

  -- Vivemos em uma cidade pequena.  impossvel no ouvir os comentrios. O que
aconteceu por l?

  -- Foi assustador. Em um minuto eu estava conversando com Alex e, quando vi o
que estava acontecendo no monitor, acho que ele percebeu a expresso no meu rosto.
No instante seguinte ele saiu correndo. Ele passou por mim e correu pela loja como um
raio. Kristen olhou para o monitor e entrou em pnico. Eu a peguei nos braos e fui
atrs do pai dela. Quando cheguei aos fundos da loja, Alex j havia tirado Josh da
gua. Foi um alvio ver que ele estava bem.

  -- Tambm acho -- disse Jo, assentindo. -- O que voc acha de Kristen? Ela no 
a criana mais linda e doce do mundo?

  -- Ela me chama de senhorita Katie.

  -- Eu adoro aquela garotinha -- disse Jo, erguendo os joelhos e trazendo-os para
junto do peito. -- Mas no fico surpresa por vocs duas terem se dado bem. Ou pelo
fato de ela ter corrido para seus braos quando sentiu medo.

  -- Por que diz isso?

  -- Porque ela  uma criana muito sensvel e inteligente. Ela sabe que voc tem um
bom corao.

  Katie fez uma expresso ctica. -- Talvez ela estivesse com medo por causa do que
estava acontecendo com o irmo. Quando o pai dela saiu correndo, eu era a nica
pessoa que estava na loja.

  -- No se deprecie assim. Como eu disse, ela  sensvel e consegue perceber essas
coisas -- retrucou Jo. -- E o que houve com Alex? Depois do que aconteceu?

  -- Ele ainda estava um pouco abalado, mas, apesar do susto, parecia estar bem.

  -- Chegou a conversar com ele outras vezes desde ento?

  Katie deu de ombros mais uma vez, como se aquilo no fosse muito importante. --
No muito. Ele  sempre gentil quando vou at a loja e sempre tem os produtos que eu
preciso em estoque, mas nada alm disso.
  -- Ele  muito bom no que faz -- disse Jo, segura de si.

  -- Voc fala como se o conhecesse muito bem.

  Jo balanou-se em sua cadeira. -- Acho que eu o conheo bem, sim.

  Katie esperou que ela falasse mais, mas Jo permaneceu em silncio.

  -- Quer falar a respeito? -- perguntou Katie, inocentemente. -- Afinal de contas,
conversar pode ajudar bastante, s vezes. Especialmente se tiver uma amiga para lhe
ouvir.

  Os olhos de Jo brilharam. -- Sabe, eu sempre suspeitei que voc fosse muito mais
inteligente do que deixa transparecer. Est usando minhas prprias palavras para
conversar comigo. Voc devia ter vergonha de se esconder assim.

  Katie sorriu, mas no disse nada -- da mesma forma que Jo havia feito com ela. E,
de maneira surpreendente, aquela estratgia funcionou.

  -- No tenho certeza do quanto eu posso dizer -- acrescentou Jo. -- Mas posso lhe
dizer que ele  um bom homem.  o tipo de pessoa com quem voc pode contar para
fazer a coisa certa.  possvel enxergar isso no amor que ele tem por seus filhos.

  Katie juntou os lbios por um momento. -- Vocs dois j se encontraram alguma
vez?

  Jo pareceu escolher suas palavras com cuidado. -- Sim, mas talvez no da maneira
que voc esteja imaginando. E para que as coisas fiquem bem claras: aconteceu h um
bom tempo e todos prosseguiram com suas vidas.

 Katie no conseguiu entender a resposta dela, mas no quis insistir no assunto. --
Qual  a histria dele, ento? Imagino que ele seja divorciado.

  -- Seria melhor que voc perguntasse a ele.

  -- Eu? E por que iria querer perguntar isso a ele?

  -- Porque voc perguntou a mim -- disse Jo, erguendo uma sobrancelha. -- O que
significa claramente que voc est interessada nele.

  -- No estou interessada nele.

  -- Ento por que voc quer saber coisas a respeito dele?

  Katie fez uma careta. -- Para uma amiga, at que voc  bastante manipuladora.

 Jo deu de ombros. -- Eu simplesmente digo s pessoas aquilo que elas j sabem,
mas tm medo de admitir para si mesmas.

  Katie pensou naquilo. -- Para que as coisas fiquem bem claras, estou oficialmente
retirando minha oferta de ajud-la a pintar sua casa.

  -- Voc j disse que faria isso.

  -- Eu sei, mas quero retir-la assim mesmo.

  Jo soltou uma risada. -- Tudo bem, tudo bem. Ei, o que voc vai fazer esta noite?

 -- Preciso ir trabalhar daqui a pouco. Na verdade, acho que j  hora de comear a
me arrumar.

  -- E amanh  noite? Voc vai trabalhar tambm?

  -- No. Este final de semana estarei de folga.

  -- Ento o que acha de eu trazer uma garrafa de vinho? Estou precisando beber um
bom vinho e no quero ter que sentir o cheiro da tinta fresca por mais tempo do que o
necessrio. Podemos combinar?

  -- Parece que vai ser bem divertido.

  -- timo -- disse Jo, levantando-se da cadeira de balano. -- Estamos acertadas,
ento.
                                          5



A MANH DE SBADO chegou trazendo cu azul, mas logo as nuvens comearam a se
formar. Cinzentas e pesadas, elas se formavam e se agrupavam ao mesmo tempo que o
vento soprava cada vez mais forte. A temperatura comeou a cair e, quando Katie saiu
de casa, ela teve que vestir uma blusa de moletom. A loja ficava a cerca de trs
quilmetros de sua casa, um percurso de aproximadamente meia hora de caminhada
vigorosa, e ela sabia que teria que se apressar se no quisesse que a chuva a
apanhasse.

  Katie chegou  estrada principal assim que ouviu o ribombar dos troves. Ela
acelerou o passo, sentindo o ar ficar mais denso  sua volta. Um caminho passou
correndo no asfalto, deixando uma nuvem de poeira atrs de si, e Katie foi at o
canteiro central que dividia as duas pistas. O ar cheirava ao sal que vinha do oceano.
Acima dela, um gavio de cauda vermelha flutuava intermitente nas correntes de ar
ascendentes, testando a fora do vento.

  O ritmo constante dos seus passos distraiu sua mente, e ela se viu refletindo sobre a
conversa com Jo. No as histrias que ela havia contado, mas algumas das coisas que
Jo havia dito a respeito de Alex. Acabou por decidir que Jo no sabia do que estava
falando. Enquanto Katie estava simplesmente tentando conversar, Jo havia distorcido
suas palavras e transformado-as em algo que no era realmente verdadeiro. Alex
certamente parecia ser uma boa pessoa e, como Jo disse, Kristen era muito doce e
meiga, mas ela no estava interessada nele. Ela mal o conhecia. Desde que Josh havia
cado no rio, eles mal haviam trocado algumas palavras, e a ltima coisa que ela
queria era entrar em um relacionamento, qualquer que fosse.

   Assim, por que ela tinha a sensao de que Jo estava tentando fazer com que eles
ficassem juntos?
   Ela no sabia ao certo, mas, para ser honesta, aquilo no lhe importava. Estava feliz
pelo fato de que Jo viria at sua casa naquela noite. Duas amigas, compartilhando uma
garrafa de vinho... no era algo to especial assim, ela sabia. Outras pessoas, outras
mulheres, faziam aquele tipo de coisa o tempo todo. Katie franziu a testa. Tudo bem,
talvez no o tempo todo, mas a maioria delas provavelmente sabia que podia fazer
aquilo se quisessem, e ela supunha que aquela era diferena entre ela prpria e as
outras pessoas. Quanto tempo fazia desde que havia feito algo que parecesse normal?

   Desde sua infncia, admitiu Katie para si mesma. Desde aqueles dias em que ela
colocara moedas sobre os trilhos. Mas ela no havia contado toda a verdade a Jo. No
dissera a ela que ia at o lugar onde o trem passava para fugir do som das discusses
de seus pais, das vozes arrastadas que se insultavam mutuamente. No contou a Jo que
havia sido pega no fogo cruzado mais de uma vez e que, quando tinha 12 anos, fora
atingida por um enfeite de vidro que seu pai lanara contra sua me. O objeto lhe
causou um corte na cabea que sangrou por vrias horas, mas nem a me nem o pai
demonstraram qualquer interesse em lev-la para o hospital. No disse a Jo que seu
pai era cruel quando estava bbado, ou que ele nunca convidara qualquer pessoa, nem
mesmo Emily, para visitar sua casa. Ou que no conseguiu ir para a faculdade porque
seus pais achavam que era um desperdcio de tempo e dinheiro. Ou que eles a
expulsaram de casa no dia em que ela terminou o ensino mdio.

  Ela pensou que talvez pudesse contar aquilo a Jo. Ou talvez no contasse. No era
to importante. E da que ela no tivera a melhor das infncias? Sim, seus pais eram
alcolatras e frequentemente estavam desempregados, mas, ignorando o incidente com
o enfeite de vidro, eles nunca chegaram a machuc-la. No, ela nunca ganhou um carro
ou teve festas de aniversrio, mas nunca foi para a cama sem jantar. E, quando o
outono chegava, independente da situao financeira da famlia, ela sempre ganhava
roupas novas para ir  escola1. Talvez seu pai no fosse o melhor homem do mundo,
mas ele no vinha at seu quarto na calada da noite para fazer coisas horrveis com ela
-- coisas que ela sabia que haviam acontecido com algumas amigas. Aos 18 anos, ela
no se considerava uma pessoa traumatizada. Talvez um pouco decepcionada por no
ter cursado uma faculdade e nervosa por ter que encontrar seu caminho sozinha no
mundo, mas no traumatizada alm de qualquer possibilidade de recuperao. E ela
havia conseguido. As coisas no foram to ruins em Atlantic City. Ela conheceu alguns
bons rapazes e ainda se lembrava de mais de uma noite que passara rindo e
conversando com os amigos do trabalho at o dia amanhecer.

  No, insistiu ela consigo mesma. Sua infncia no havia definido sua vida, nem tinha
algo a ver com a razo pela qual ela se mudara para Southport e, embora Jo fosse a
coisa mais prxima de uma amiga que ela tinha na cidade, essa amiga no sabia
absolutamente nada sobre sua vida. Ningum sabia.


-- OI, SENHORITA KATIE -- disse Kristen, ainda sentada em sua mesinha de desenho.

   No havia nenhuma boneca aquele dia. Em vez disso, ela estava curvada sobre um
livro de colorir, com bastes de giz de cera nas mos, trabalhando em uma imagem de
unicrnios sob um arco-ris.

  -- Oi, Kristen. Como voc est?

  -- Estou bem.

  Kristen tirou os olhos do livro de colorir e olhou para Katie. -- Por que voc
sempre vem a p para c?

  Katie analisou a pergunta por um momento e depois deu a volta no balco,
agachando-se para ficar da mesma altura que Kristen. -- Porque no tenho um carro.

  -- Por que no?

  "Porque no tenho habilitao", pensou Katie. "E mesmo que eu tivesse, no tenho
dinheiro para comprar ou manter um carro". -- Bem, vou lhe dizer o que farei. V ou
pensar em comprar um, certo?

 -- Certo -- disse ela. E estendeu o livro de colorir para Katie. -- Voc gostou do
meu desenho?

  -- Est bonito. Voc est fazendo um timo trabalho.

  -- Obrigada. Vou lhe dar esta folha quando eu terminar.

  -- No precisa fazer isso.
  -- Eu sei -- disse ela, com uma autoconfiana encantadora. -- Mas eu quero que
voc fique com ela. Voc pode coloc-la na porta da sua geladeira.

  Katie sorriu e se levantou. -- Era exatamente nisso que eu estava pensando.

  -- Precisa de ajuda com as compras?

  -- Acho que consigo cuidar disso sozinha hoje. Assim voc pode terminar de
colorir.

  -- Tudo bem -- concordou Kristen.

  Ao pegar uma cesta de compras, Katie viu que Alex se aproximava. Ele acenou para
ela e, embora no fizesse sentido, ela teve a sensao de que aquela era a primeira vez
que realmente prestava ateno nele. Embora seu cabelo fosse grisalho, havia apenas
algumas poucas linhas de expresso ao redor dos olhos dele que, de algum modo,
realavam a aura de vitalidade que ele tinha ao seu redor. Os ombros dele eram mais
largos do que a cintura, e ela teve a impresso de que Alex era um homem que no
exagerava na comida nem na bebida.

  -- Oi, Katie. Como est?

  -- Estou bem. E voc?

  -- Tudo tranquilo -- disse ele, abrindo um sorriso. --  timo ver voc. Eu queria
lhe mostrar uma coisa.

  Alex apontou para o monitor e ela viu que Josh estava sentado no ancoradouro atrs
da loja, segurando sua vara de pescar.

  -- Voc deixou que ele voltasse a pescar? -- perguntou ela.

  -- Percebeu o colete que ele est usando?

  Ela se aproximou do monitor, apertando os olhos. -- Um colete salva-vidas?

  -- Eu demorei um pouco para achar um que no fosse desajeitado ou quente demais
                                                                              oc
para ele, mas esse  perfeito. E, para falar a verdade, eu no tive escolha. V no faz
ideia do quanto ele estava triste sem poder pescar. Nem tenho como enumerar quantas
vezes ele me implorou para que eu o deixasse voltar para a doca. No conseguia mais
suportar aquilo, ento pensei que esta seria uma boa soluo.

  -- Ele no se importa em usar o colete?

  -- Uma das novas regras da casa. Ou usa o colete ou fica sem pescar. Mas eu no
acho que ele se importe.

  -- E ele chega a pescar alguma coisa?

  -- No tanto quanto gostaria, mas, s vezes, ele pega alguns peixes, sim.

  -- E vocs os comem?

  -- s vezes. Mas Josh geralmente os joga de volta na gua. Ele no se importa de
pescar o mesmo peixe vrias vezes.

  -- Fico feliz por voc ter encontrado uma soluo.

  -- Um pai mais previdente teria pensado nisso antes que um acidente acontecesse.

  Pela primeira vez, ela olhou para ele. -- Tenho a impresso de que voc  um timo
pai.

  Seus olhos se encontraram e ambos se observaram por um momento, antes que ela se
forasse a desviar o rosto. Alex, sentindo o desconforto dela, comeou a mexer nas
coisas que estavam atrs do balco.

  -- Tenho uma coisa para voc -- disse ele, tirando uma sacola de trs da caixa
registradora e colocando-a sobre o balco. -- H uma pequena fazenda que me fornece
alguns produtos e eles tm uma estufa. Conseguem cultivar algumas coisas em pocas
que outras empresas no conseguem. Ontem eles trouxeram alguns legumes frescos.
Tomates, pepinos e alguns tipos diferentes de abobrinhas. Talvez voc queira
experiment-los. Minha esposa jurava que eram os melhores que ela j havia comido.

  -- Sua esposa?
  Ele balanou a cabea. -- Ah, me desculpe. Ainda fao isso s vezes. Estava me
referindo  minha esposa, j falecida. Ela morreu h alguns anos.

  -- Eu lamento -- murmurou ela, enquanto sua mente repassava a conversa que teve
com Jo.

  Qual  a histria dele?

  Seria melhor que voc perguntasse a ele. Aquela fora a resposta de Jo.

  Era bvio que Jo sabia que a esposa dele havia morrido, mas no dissera nada a
respeito. Estranho.

  Alex no percebeu que ela estava pensando na conversa que tivera no dia anterior.
-- Obrigado -- disse ele, com a voz um pouco estrangulada. -- Ela era uma tima
pessoa. Tenho certeza de que voc teria gostado dela -- completou Alex. Uma
expresso saudosa lhe cruzou o rosto.

  -- De qualquer forma, ela sempre elogiou aquele lugar. Eles trabalham com
alimentos orgnicos e a famlia ainda colhe os legumes manualmente. Em geral, os
produtos deles desaparecem logo depois que chegam, mas eu separei alguns para voc,
se quiser experiment-los -- comentou ele, sorrindo. -- Alm disso, voc 
vegetariana, no ? Os vegetarianos adoram estes legumes. Eu garanto.

  Katie olhou para ele, apertando os olhos. -- Por que voc acha que eu sou
vegetariana?

  -- No ?

  -- No.

  -- Acho que me enganei, ento -- disse ele, colocando as mos nos bolsos.

  -- Tudo bem. J me acusaram de fazer coisas piores.

  -- Duvido muito.

  "No duvide", pensou ela. -- Bem, acho que vou levar os legumes. Obrigada.
                                          6



ENQUANTO KATIE FAZIA COMPRAS, Alex tentava se ocupar, observando-a com o canto do
olho. Ele organizou os objetos que estavam sobre o balco, deu uma olhada no monitor
para ver como Josh estava, examinou o desenho de Kristen e voltou a organizar as
coisas que estavam sobre o balco, tentando fazer parecer que estava ocupado.

  Ela havia mudado nas ltimas semanas, com um leve bronzeado tpico do incio do
vero, e sua pele tinha um brilho rejuvenescido. Tambm parecia menos insegura
quando estava perto dele, e o que aconteceu hoje foi um dos melhores exemplos. No,
aquela conversa cintilante no havia despertado qualquer chama entre os dois, mas era
um comeo, no era?

  Mas o comeo do qu?

  Desde o incio, Alex sentira que Katie tinha problemas, e sua resposta instintiva fora
querer ajudar. E,  claro, ela era bonita, apesar do corte de cabelo que no combinava
com seu rosto e das roupas que no valorizavam seu corpo. Mas fora a maneira como
ela confortou Kristen no dia em que Josh caiu na gua que tocou verdadeiramente seu
corao. E mais do que isso, a reao de Kristen s atitudes de Katie. Ela buscou a
proteo de Katie como uma criana busca o colo da me.

  Aquilo fez com que sentisse um n na garganta, lembrando-o de que ele sentia falta
de ter uma esposa com a mesma intensidade que seus filhos sentiam falta de ter uma
me. Alex sabia que eles estavam sofrendo, e ele tentava compensar da melhor maneira
que podia. Mesmo assim, s percebeu que a tristeza era apenas uma parte daquilo que
eles sentiam quando viu Katie e Kristen juntas. A solido dos seus filhos era um
reflexo da sua.

  Ele ficou preocupado por no ter percebido aquilo antes.
  Katie ainda representava um certo mistrio para ele. Havia um elemento que faltava,
algo que vinha lhe incomodando. Ele a observava, perguntando-se quem ela realmente
era e o que a trouxera at Southport.

  Ela estava em frente a um dos refrigeradores, algo que nunca havia feito antes,
estudando os produtos que estavam atrs da porta de vidro. Katie tinha uma expresso
sria no rosto, como se estivesse debatendo o que comprar. Alex percebeu que os
dedos da mo direita dela estavam se movimentando ao redor do anular da mo
esquerda, dedilhando um anel que no estava ali. O gesto lhe trouxe algo familiar e que
havia sido esquecido h bastante tempo.

   Era um hbito, um tique que ele percebeu durante os anos em que passou trabalhando
no DIC e que s vezes observava em mulheres cujos rostos estavam desfigurados ou
tinham hematomas aparentes. Elas costumavam se sentar de frente para ele,
compulsivamente tocando sua aliana de casamento, como se fosse algemas que as
prendiam aos maridos. Geralmente, elas negavam que os maridos as haviam agredido
e, nas raras ocasies em que admitiam a verdade, insistiam tambm que no fora culpa
deles. Diziam que haviam provocado a raiva dos maridos. Diziam que haviam
queimado o jantar, que no haviam lavado as roupas ou que eles haviam bebido. E
sempre, sempre, as mesmas mulheres juravam que era a primeira vez que aquilo lhes
acontecia e que no queriam prestar queixa porque a carreira dos maridos seria
arruinada. Todos sabiam que o exrcito agia com rigor contra maridos agressivos.

  As coisas eram diferentes com algumas delas, pelo menos no comeo. Algumas
insistiam em prestar queixa. Ele comeava a montar seu relatrio e as ouvia
questionarem por que a burocracia e a papelada eram mais importantes do que prender
um homem que batia em sua esposa. Ou mais importante do que fazer cumprir a lei. Ele
redigia o relatrio assim mesmo e lia para elas suas prprias palavras antes de pedir
que assinassem o documento. s vezes, era naquele momento que elas perdiam a
coragem e ele notava a mulher aterrorizada que estava por baixo da superfcie
enraivecida. Muitas acabavam no assinando o relatrio, e mesmo aquelas que o
faziam mudavam de opinio rapidamente quando seus maridos eram intimados para
serem questionados. Aqueles casos seguiam adiante, independente do que a esposa
dissesse. E depois, quando elas no compareciam para testemunhar, poucas punies
eram efetivamente cumpridas. Alex acabou compreendendo que apenas aquelas que
insistiam em manter as queixas em carter oficial conseguiam realmente se livrar dos
abusos, porque a vida que elas levavam era como uma priso, mesmo que a maioria
daquelas mulheres no admitisse.

  Ainda assim, havia outra maneira de escapar do horror das suas vidas, embora,
durante toda a sua carreira, Alex s conhecesse um nico caso de uma mulher que
chegasse a fazer aquilo. Ele havia entrevistado a mulher uma vez e ela executou a
mesma rotina da maioria das outras, negando as agresses e culpando a si mesma pelo
que acontecera. Entretanto, cerca de dois meses depois, ele soube que ela havia fugido.
No havia voltado para sua famlia nem ido para a casa de algum amigo, mas se
escondera em alguma outra parte do mundo, um lugar onde nem mesmo seu marido
conseguiria encontr-la. O marido, perdido em meio  fria que o tinha dominado
depois da fuga da esposa, havia explodido aps uma noite de bebedeira e agredira um
dos guardas da base onde servia, deixando-o coberto de sangue. Ele foi enviado a
Leavenworth2, e Alex se lembrava de ter sorrido com satisfao quando ouviu o
desfecho do caso. E, quando se lembrou da esposa daquele homem, ele sorriu
novamente, pensando: "Bem feito".

  Agora, ao observar Katie dedilhando uma aliana que no estava mais em seu dedo,
ele sentiu que seus antigos instintos de investigao voltavam a funcionar. Houve um
marido, pensou ele; o marido dela era o elemento que faltava. Talvez ela ainda fosse
casada, ou talvez no fosse. Mesmo assim, Alex tinha um pressentimento inegvel de
que Katie ainda sentia medo dele.


O CU EXPLODIU ENQUANTO ela estava pegando um pacote de biscoitos. Relmpagos
cortaram o cu e alguns segundos depois um trovo ressoou pelos ares, antes de
finalmente se reduzir a um rudo baixo e constante. Josh veio correndo para dentro da
loja antes que a chuva comeasse a cair, trazendo sua caixa de iscas e anzis e a
varinha de pesca. Seu rosto estava vermelho e ele estava arfando como um corredor
que havia atravessado a linha de chegada.

  -- Oi, papai.

  Alex olhou para Josh. -- Conseguiu pescar alguma coisa?
  -- S aquele bagre. O mesmo que eu sempre pesco.

  -- V descansar. Daqui a pouco iremos almoar.

  Josh voltou para o depsito e Alex o ouviu subindo os degraus para a casa.

   Do lado de fora, a chuva comeou a cair com fora e as rajadas de vento faziam a
gua bater contra as janelas. Os galhos das rvores se dobravam por causa do vento,
curvando-se a uma fora superior. O cu escuro reluzia com os relmpagos e um
trovo rugiu no ar, forte o bastante para fazer as janelas tremerem. Do outro lado da
loja, Alex viu Katie gemer, com o rosto contorcido em uma expresso de surpresa e
terror. Ele imaginou se era daquele jeito que seu marido a via antigamente.

   A porta da loja se abriu e um homem entrou correndo, respingando gua nas tbuas
do piso. Ele agitou as mangas para se livrar da umidade e cumprimentou Alex antes de
ir em direo  rea da chapa e da churrasqueira.

  Katie se virou para a prateleira que tinha os biscoitos. Alex no tinha uma variedade
muito grande em estoque, apenas os pacotes tradicionais de Ritz e Saltines, os nicos
que os clientes compravam regularmente. Ela pegou um pacote de Ritz.

  Depois de pegar os produtos que geralmente costumava comprar, os levou  caixa
registradora. Quando Alex terminou de calcular o valor das compras e de coloc-las
nas sacolas plsticas, apontou para a sacola que havia colocado no balco quando
Katie havia chegado.

  -- No esquea seus legumes.

  Ela olhou para o total na caixa registradora. -- Tem certeza que est me cobrando o
preo certo?

  --  claro que tenho.

  -- O total no  maior do que o que costumo pagar pelas minhas compras.

  -- Dei um desconto de cortesia, pela apresentao do produto.

  Ela fez uma expresso sria, sem saber se acreditava no que ele dizia, at finalmente
colocar a mo dentro da sacola. Ela pegou um tomate e o trouxe at o nariz.

  -- O cheiro  timo.

  -- Eu comi alguns desses ontem  noite. So timos com uma pitada de sal e os
pepinos no precisam de nenhum condimento.

  Ela concordou com a cabea, mas seu olhar estava fixo na porta. O vento estava
jogando a gua da chuva contra ela em rajadas furiosas. A porta se abriu com um
rangido e a gua lutava para entrar na loja. O mundo alm do vidro no passava de um
borro.

  As pessoas estavam relaxando ao redor da churrasqueira. Alex podia ouvi-las
resmungando consigo mesmas, falando algo sobre esperar a tempestade passar.

  Katie tomou flego e pegou suas sacolas.

  -- Senhorita Katie! -- gritou Kristen, quase como se estivesse em pnico. Ela se
levantou, agitando a folha de papel que havia colorido, j destacada do livro. -- Voc
quase esqueceu seu desenho.

  Katie estendeu a mo para pegar o desenho, abrindo um sorriso enquanto estudava a
imagem. Alex sentiu-se como -- pelo menos por um instante -- se todo o resto do
mundo no tivesse mais qualquer importncia.

  -- Est lindo. Mal posso esperar para coloc-lo na porta da minha geladeira.

  -- Vou colorir outro para voc levar, da prxima vez que vier aqui.

  -- Eu adoraria -- disse Katie.

  Kristen sorriu antes de voltar a se sentar em sua mesa. Katie enrolou o desenho,
certificando-se de que no o amassaria, e o colocou cuidadosamente na sacola de
compras. Raios e troves voltaram a rugir, quase simultaneamente desta vez. A chuva
martelava o cho e o estacionamento parecia um mar de poas. O cu estava mais
escuro do que o cu da madrugada.

  -- Voc sabe o quanto essa tempestade vai durar? -- perguntou ela.
  -- Ouvi no noticirio que ela iria durar o dia todo -- respondeu Alex.

  Ela voltou a olhar pelo vidro da porta. Enquanto decidia o que fazer, dedilhou
novamente o anel que no estava mais em seu dedo. Em meio ao silncio, Kristen
puxou a camisa de seu pai.

       oc
  -- V podia levar a senhorita Kristen para casa -- disse ela. -- Ela no tem carro
e est chovendo muito.

  Alex olhou para Katie, sabendo que ela ouvira o que Kristen havia dito. -- Quer uma
carona at sua casa?

  Katie balanou a cabea. -- No precisa se incomodar, est tudo bem.

  -- Mas e o seu desenho? Ele vai ficar todo molhado -- disse Kristen.

  Quando Katie no respondeu ao argumento da menina, Alex saiu de trs da caixa
registradora. -- Vamos l -- disse ele, fazendo um movimento com a cabea em
direo  porta. -- No h motivos para ficar encharcada. Meu carro est nos fundos.

  -- No quero incomodar...

  -- No  incmodo algum -- disse Alex, apalpando o bolso para apanhar as chaves
do carro antes de pegar as sacolas de compras
de Katie.

  -- Deixe que eu as levo -- disse ele, levantando-as. -- Kristen, meu bem, pode
subir e dizer a Josh que estarei de volta em dez minutos?

  -- Claro, papai.

  -- Roger? D uma olhada nas crianas e na loja por um momento, por favor.

  -- Sem problemas -- disse ele, com um aceno.

  Alex apontou para os fundos da loja. -- Vamos?
ELES SARAM EM DISPARADA em direo ao jipe, empunhando guarda-chuvas que se
curvavam com a fora da ventania e do aguaceiro que teimava em cair. Os relmpagos
continuavam a riscar o cu, iluminando as nuvens. Quando se acomodaram nos
assentos, Katie passou a mo no vidro para desemba-lo.

  -- No achei que o tempo fosse ficar desse jeito quando sa de casa.

  -- Ningum imagina, at que a tempestade comea. Muitas vezes falam que "o cu
vai cair" na previso do tempo, mas quando uma chuva realmente forte cai, as pessoas
esto desprevenidas. Se no for to ruim quanto a televiso previu, ns reclamamos.
Se for pior do que espervamos, ns reclamamos. Se for to ruim quanto espervamos,
aproveitamos para reclamar, tambm, porque as previses geralmente so erradas e
no havia como saber que elas estariam certas desta vez.  apenas mais uma razo
para que as pessoas reclamem.

  -- Como aquelas pessoas na rea da churrasqueira?

   Ele assentiu, abrindo um sorriso. -- Mas elas so boas pessoas. Em sua maioria, so
trabalhadoras, honestas e gentis. Qualquer um dos que estavam ali poderia cuidar da
loja para mim se eu pedisse a eles e tenho certeza de que no faltaria nem um centavo
no fechamento do caixa.  assim que as coisas so nessa cidade. No fundo, as pessoas
sabem que, em uma cidade pequena como esta, todos precisamos uns dos outros. 
timo saber disso. E olhe que eu demorei um pouco para me acostumar com a ideia.

  -- Voc no  daqui?

  -- No. Minha esposa era. Eu nasci em Spokane. Quando me mudei para c, me
lembro de pensar que nunca conseguiria morar em um lugar como este. Afinal,  uma
cidade pequena no sul dos Estados Unidos, um lugar que no se importa com o que o
resto do mundo pensa. Demora um pouco para se acostumar. Mesmo assim, depois de
um tempo, voc comea a sentir um certo carinho pelo lugar. Esta cidade me ajuda a
manter minha ateno naquilo que  importante.

  Katie perguntou com uma voz suave: -- E o que  importante?

  Ele deu de ombros. -- Depende de cada um, no  mesmo? Mas, neste momento da
minha vida, o que importa so meus filhos. Esta cidade  o lar deles, e depois do que
eles passaram, eles precisam de estabilidade. Kristen precisa de um lugar para colorir
seus desenhos e vestir suas bonecas. Josh precisa de um lugar para pescar, e os dois
precisam saber que estou por perto sempre que for necessrio. Esta cidade e a loja
tornam tudo isso possvel. E, neste momento,  exatamente o que eu quero.  o que eu
preciso.

  Ele ficou em silncio, sentindo-se culpado por ter falado tanto. -- Ah, deixe-me
perguntar... Para onde exatamente devo ir?

  -- Continue indo reto e entre em uma estrada de cascalhos. Fica logo depois da
curva.

  -- A estrada de cascalhos que ladeia a fazenda?

  Katie fez que sim com a cabea. -- Essa mesma.

  -- Nem sabia que aquela estrada levava a algum lugar -- disse ele, franzindo a testa.
--  uma boa caminhada. Imagino que sejam quase trs quilmetros.

  -- No  to ruim assim -- retrucou ela.

  -- Talvez, quando o tempo est bom. Mas em um dia como hoje, voc teria que
voltar para casa nadando. No h a menor condio de caminhar nesta chuva. E o
desenho de Kristen ficaria arruinado.

  Ele notou um rpido sorriso quando mencionou o nome de Kristen, mas Katie no
disse nada.

  -- Algum comentou que voc trabalha no Ivan's -- disse Alex.

  Katie assentiu. -- Sim, desde maro.

  -- E o que est achando?

  -- No  ruim.  apenas um emprego, mas o dono do restaurante me trata bem.

  -- Ivan?
  -- Voc o conhece?

                              oc
  -- Todos conhecem Ivan. V sabia que todos os anos, quando chega o outono, ele
se veste como um general do exrcito confederado para celebrar a famosa Batalha de
Southport? Quando o general Sherman queimou a cidade?  timo ver a encenao
dele... Exceto pelo fato de que nunca houve uma Batalha de Southport durante a Guerra
Civil. Southport nem tinha esse nome naquela poca, o lugar era chamado de
Smithville. E Sherman nunca esteve a menos de 150 quilmetros daqui.

  --  mesmo? -- perguntou Katie.

  -- No me entenda mal. Eu gosto do Ivan, ele  uma tima pessoa, alm de o
restaurante ser um dos lugares mais tradicionais da cidade. Kristen e Josh adoram os
bolinhos de chuva com canela que eles servem e Ivan sempre nos recebe muito bem
quando vamos l. Mas j me apanhei imaginando qual  a motivao dele. Sua famlia
veio da Rssia, na dcada de 1950. Ele foi a primeira pessoa da famlia que nasceu em
solo americano. Provavelmente nenhum dos parentes dele chegou a ouvir falar da
Guerra Civil. Mas Ivan vai passar, como sempre faz, um final de semana inteiro
apontando sua espada e gritando ordens para os soldados, bem no meio da rua, em
frente ao tribunal.

  -- Por que nunca ouvi falar nisso?

  -- Porque no  algo sobre o qual as pessoas da cidade gostam de falar.  meio...
excntrico, sabe? At mesmo as pessoas daqui, aquelas que realmente gostam dele,
tentam ignor-lo. Eles vero que Ivan est brandindo sua espada no meio da cidade e
vo dar meia-volta, dizendo coisas como "Voc percebeu como os crisntemos ao lado
do tribunal esto bonitos?".

  Pela primeira vez desde que entrou no carro, Katie sorriu. -- No sei se acredito em
voc.

  -- No tem problema. Se voc estiver por aqui em outubro, vai ver com seus
prprios olhos. Mas eu insisto, no me entenda mal. Ele  um bom homem e o
restaurante  timo. Depois de passarmos o dia na praia, ns quase sempre vamos at
l para comer alguma coisa. Da prxima vez que estivermos l, vamos perguntar por
voc.

  Ela hesitou. -- Tudo bem.

  -- Ela gosta de voc -- disse Alex. -- Kristen.

  -- Eu tambm gosto dela. Ela  muito alegre e tem uma personalidade linda.

  -- Vou dizer isso a ela. Obrigado.

  -- Quantos anos ela tem?

  -- Cinco. Quando o outono chegar e ela comear a ir para a escola, eu no sei o que
vou fazer. A loja vai ficar muito silenciosa.

  -- Voc vai sentir falta dela -- observou Katie.

                       ou
  Alex assentiu. -- V sim, e muito. Eu sei que ela vai gostar de ir  escola, mas
gosto de t-la por perto.

   Enquanto ele falava, a chuva continuava a castigar as janelas do carro. O cu se
iluminava em meio aos relmpagos e clares, como se estivesse iluminado por vrias
lmpadas estroboscpicas, acompanhado por um ribombar constante.

  Katie olhou pela janela do lado do passageiro, perdida em seus pensamentos. Ele
esperou, sabendo que, de algum modo, ela quebraria o silncio.

  -- Por quanto tempo voc foi casado? -- perguntou ela, finalmente.

  -- Cinco anos. E namoramos um ano antes disso. Eu a conheci quando estava na
base de Fort Briggs.

  -- Voc serviu no exrcito?

  -- Sim, durante 10 anos. Foi uma boa experincia e no me arrependo de ter
servido. Ao mesmo tempo em que no me arrependo de ter me desligado das foras
armadas.
  Katie apontou para a beira da estrada. -- A entrada para minha rua fica logo adiante
-- disse ela.

  Alex entrou na ruela e diminuiu a velocidade. O leito de cascalhos da rua ficou
encharcado durante a tempestade e a gua respingava at a altura do para-brisa.
Enquanto ele se concentrava em guiar o carro em meio s imensas poas que haviam se
formado, Alex percebeu, repentinamente, que aquela era a primeira vez que ele estava
sozinho em um carro com uma mulher ao seu lado desde que sua esposa havia morrido.

  -- Em qual delas voc mora? -- perguntou ele, apertando os olhos para enxergar o
contorno das duas cabanas.

  -- A da direita -- disse ela.

  Ele estacionou o mais prximo da entrada da casa que conseguiu.

  -- Vou levar suas compras at a porta.

  -- Voc no precisa fazer isso.

  -- Ah, voc no sabe como meus pais me criaram -- disse ele, saindo do carro antes
que ela pudesse reclamar. Alex pegou as sacolas e correu para a varanda. Quando ele
as deixou no cho e comeou a agitar os braos para se secar, Katie estava correndo
em sua direo, segurando com firmeza o guarda-chuva que ele havia lhe emprestado.

  -- Obrigada -- disse ela em voz alta, tentando suplantar o barulho da tempestade.

  Quando ela lhe devolveu o guarda-chuva, ele balanou a cabea negativamente. --
                                                                     oc
Fique com ele por algum tempo. Ou para sempre. No tem importncia. V caminha
bastante, ento vai precisar dele.

  -- Eu posso pagar por ele... -- comeou ela.

  -- No se preocupe.

  -- Mas  um produto da loja.

  -- Como eu disse, no se preocupe com isso. Mas, se voc no acha correto, traga o
dinheiro da prxima vez que for  loja.

  -- Alex, eu estou falando srio e...

 Ele no a deixou terminar de falar. -- Voc  uma boa cliente e eu gosto de ajudar
meus clientes.

  Ela demorou um momento para responder. -- Obrigada -- disse ela finalmente. Seus
olhos, que agora haviam assumido um tom verde-escuro, estavam fixos nos dele. -- E
obrigada por me trazer at em casa tambm.

  Ele abriu um sorriso. -- Sempre que precisar.


O QUE FAZER COM AS CRIANAS. Aquela era a pergunta recorrente e impossvel de
responder, que ele precisava enfrentar a cada fim de semana; como de costume, no
tinha a menor ideia do que fazer com os filhos naquele fim de semana.

  Com a tempestade caindo furiosamente, sem qualquer sinal de que fosse perder a
fora, qualquer atividade ao ar livre estava fora de questo. Ele poderia lev-los ao
cinema, mas no havia nenhum filme em cartaz que pudesse interessar a ambos. Alex
poderia simplesmente deix-los se divertirem sozinhos por algum tempo. Sabia que
muitos pais faziam aquilo. No entanto, seus filhos ainda eram pequenos, jovens demais
para serem deixados totalmente sozinhos. Alm disso, eles j ficavam sozinhos por um
bom tempo, improvisando maneiras de se entreter, porque Alex precisava passar
vrias horas por dias cuidando da loja. Ele ponderava as opes que tinha enquanto
fazia sanduches de queijo quente, mas logo percebeu que sua mente insistia em pensar
em Katie. Embora ela estivesse obviamente se esforando para passar despercebida,
ele sabia que aquilo era algo quase impossvel em uma cidade como Southport. Ela era
bonita demais para se misturar com as pessoas dali, e quando as pessoas percebessem
que ela no tinha carro e que sempre ia a p para qualquer lugar que precisasse, seria
inevitvel que comeassem a falar sobre isso. E perguntas sobre seu passado no
tardariam a surgir.

  Ele no queria que isso acontecesse. No por razes egostas, mas porque ela tinha o
direito de levar a vida do jeito que quisesse, especialmente por ter sido esse o motivo
que a trouxera a Southport. Uma vida normal, de prazeres simples. O tipo de vida que a
maior parte das pessoas nem percebia que existia: poder ir a qualquer lugar que ela
quisesse, a qualquer hora e morar em uma casa onde ela se sentisse segura. Mas ela
tambm precisava de um meio de transporte.

  -- Ei, crianas -- disse ele, colocando os sanduches em dois pratos. -- Tive uma
ideia. Vamos fazer algo para a senhorita Katie.

  -- Vamos! -- concordou Kristen.

  Josh, sempre tranquilo, concordou com um movimento de cabea.
                                         7



O VENTO E A CHUVA RASGAVAM os cus escuros da Carolina do Norte, jogando
verdadeiros rios contra as janelas da cozinha. Um pouco mais cedo, durante a tarde,
enquanto Katie lavava suas roupas na pia e depois de ter prendido o desenho de
Kristen em sua geladeira com fita adesiva, uma goteira havia comeado a pingar do
teto de sua sala de estar. Ela havia colocado uma panela sob a goteira e j a havia
esvaziado duas vezes. Quando a manh chegasse, ela pensava em ligar para Benson,
mas duvidava que ele viria reparar o vazamento imediatamente, se  que ele algum dia
viria arrumar o problema, claro.

  Na cozinha, ela cortou um pedao de queijo cheddar em pequenos cubos,
mordiscando alguns deles enquanto trabalhava. Em um prato de plstico amarelo havia
alguns biscoitos e fatias de tomates e pepinos, embora ela no tivesse conseguido
arrum-los do jeito que havia imaginado. Nada que ela fizesse ficava do jeito que
imaginava. Na casa em que ela morava antes de vir a Southport, ela tinha uma bela
tbua de frios e uma faca de prata para queijos com um cardeal entalhado, alm de um
conjunto completo de taas de vinho. Tinha tambm uma mesa de jantar feita de
cerejeira e cortinas de renda nas janelas; porm, aqui, nesta casa, sua mesa era bamba
e as cadeiras eram diferentes umas das outras. Alm disso, ela e Jo teriam que beber o
vinho em xcaras de caf. Por mais horrvel que sua outra vida fosse, ela gostava de
organizar as peas que compunham seu lar. Entretanto, como tudo o que havia deixado
para trs, ela agora via aqueles objetos como um grupo de inimigos que haviam
passado para o lado dos seus antagonistas.

  Pela janela, viu uma das luzes da casa    de Jo se apagar. Katie foi at a porta da
frente. Ao abrir, ela observou Jo andando   por entre as poas a caminho da varanda,
com um guarda-chuva em uma mo e uma        garrafa de vinho na outra. Com mais duas
passadas, ela havia chegado ao alpendre     e sua capa de chuva amarela estava toda
encharcada.

  -- Acho que agora eu entendo como No se sentia. D para acreditar numa
tempestade assim? Minha cozinha est cheia de poas d'gua.

  Katie apontou para a casa, por cima do ombro. -- Minha goteira est na sala.

  -- Lar, doce lar, no  mesmo? Aqui est -- disse ela, entregando a garrafa de
vinho. -- Conforme o prometido. Pode acreditar em mim, estou precisando muito.

  -- Teve um dia difcil?

  -- Voc nem imagina o quanto.

  -- Entre.

  -- Deixe eu pendurar minha capa aqui fora, ou voc vai ter duas poas na sua sala
de estar -- disse ela, se desvencilhando do impermevel amarelo. -- Mesmo morando
na casa ao lado, fiquei toda ensopada.

  Jo largou a capa e o guarda-chuva sobre a cadeira de balano e entrou na casa logo
depois de Katie. As duas foram juntas at a cozinha.

  Katie deixou a garrafa de vinho sobre o balco. Enquanto Jo observava o que havia
na mesa, Katie abriu a gaveta ao lado da geladeira e tirou um canivete suo
enferrujado, levantando a lmina do saca-rolhas.

  -- Esse aperitivo parece estar delicioso. Estou faminta, no comi nada o dia inteiro.

  -- Sirva-se, fique  vontade. Conseguiu terminar a pintura?

  -- Bem, eu consegui terminar a sala. Mas no fiz muito mais do que isso e o dia no
foi dos melhores.

  -- O que houve?

  -- Eu te conto depois. Primeiro, preciso do vinho. E voc? O que fez de bom?
  -- Nada de mais. Fui at a loja de convenincia, limpei a casa, lavei roupa.

  Jo se acomodou  mesa e pegou um dos biscoitos. -- Em outras palavras, material
para o seu livro de memrias.

  Katie riu enquanto comeava a torcer o saca-rolhas. -- Ah,  claro. Experincias
incrveis.

  -- Quer ajuda com a rolha? -- perguntou Jo.

  -- Acho que consegui.

  -- timo -- disse Jo, com um sorriso torto. -- Porque eu sou a visita e espero ser
bem tratada.

  Katie encaixou a garrafa entre as pernas e a rolha saiu com um som agudo.

                                                                           oc
  -- Mas, falando srio agora, obrigada por me receber -- suspirou Jo. -- V no
faz ideia do quanto eu estava esperando por este momento.

  --  mesmo?

  -- No faa isso.

  -- No faa o qu? -- perguntou Katie.

  -- No finja que est surpresa por eu ter vindo at aqui. Ou por eu querer reforar
nossa amizade com uma garrafa de vinho. Amigos so para essas coisas -- disse ela,
levantando uma sobrancelha. -- Ah, e j que tocamos no assunto, antes que voc
comece a se perguntar se somos realmente amigas e o quanto realmente conhecemos
uma sobre a outra, confie em mim quando eu digo que considero voc uma amiga. De
maneira sincera e absoluta.

  Ela deixou que aquelas palavras causassem seu efeito antes de prosseguir. -- Bem,
que tal um pouco de vinho agora?


A TEMPESTADE FINALMENTE perdeu fora no comeo da noite, e Katie abriu a janela da
cozinha. A temperatura havia despencado e o ar estava frio e lmpido. Enquanto um
pouco de neblina estava se formando e cobrindo o cho, as nuvens carregadas
passavam em frente  lua, trazendo pores iguais de luz e sombra. As folhas assumiam
uma colorao prateada, depois negra e, por fim, prateada novamente ao reluzirem na
brisa noturna.

  Katie se distraiu e se deixou devanear em meio ao vinho,  brisa e ao riso fcil de
Jo. Ela percebeu que estava saboreando cada mordida que dava nos biscoitos
amanteigados e no queijo de gosto forte e pungente, lembrando-se de uma poca em
que havia passado fome. Houve um tempo em que ela fora magra como um ramo de
roseira.

   Suas lembranas estavam aflorando. Ela se lembrou de seus pais. No dos tempos
difceis, mas das pocas boas, quando sua me fazia ovos com bacon e o aroma
preenchia a casa, e ela via seu pai andar de mansinho pela cozinha e se aproximar da
esposa. Ele afastava os cabelos dela e lhe beijava o pescoo, fazendo com que ela
risse. Katie se lembrou que, certa vez, seu pai as levara a Gettysburg. Ele havia pegado
em sua mo enquanto eles caminhavam pelo lugar e ela ainda conseguia se lembrar da
rara sensao de fora e gentileza no toque dele. Seu pai era alto e tinha ombros
largos, com cabelos castanho-escuros. E tinha tambm uma tatuagem da marinha no
brao. Ele havia servido em um navio de guerra durante quatro anos, viajando para
lugares como o Japo, Coreia e Cingapura, embora no falasse muito sobre seu tempo
nas foras armadas.

  J sua me era pequena, loira e havia participado de um concurso de beleza certa
vez, terminando em terceiro lugar. Ela adorava flores e sempre plantava bulbos em
vasos de cermica que eram colocados na frente de casa durante a primavera. Tulipas,
narcisos, begnias e violetas, todas aquelas flores explodiam em cores to vivas que
quase faziam os olhos de Katie doer. Quando eles se mudavam, os vasos eram
colocados no banco de trs do carro e presos com os cintos de segurana.
Frequentemente, quando limpava a casa, sua me cantarolava consigo mesma, entoando
melodias de sua infncia. Algumas eram canes polonesas e Katie se escondia em
algum outro cmodo para escut-las, tentando entender as palavras.

  O vinho que Jo e Katie estavam bebendo tinha toques de carvalho e damasco e o
sabor era delicioso. Katie terminou de tomar seu copo e Jo lhe serviu outro. Quando
uma mariposa comeou a danar ao redor da lmpada, batendo as asas de maneira
vigorosa e confusa, as duas comearam a rir. Katie cortou mais cubos de queijo e
colocou mais biscoitos no prato. Elas conversaram sobre filmes e livros, e Jo soltou
um gritinho de prazer quando Katie disse que seu filme favorito era A felicidade no se
compra3, dizendo que aquele tambm era seu filme favorito. Quando era pequena,
Katie se lembrava de pedir  sua me para comprar uma sineta, de modo que pudesse
ajudar os anjos a conseguirem suas asas. Katie terminou de tomar seu segundo copo de
vinho, sentindo-se leve como uma pena em uma brisa de vero.

  Jo fez poucas perguntas. Em vez disso, as duas mantiveram a conversa em assuntos
superficiais, e Katie voltou a se sentir feliz com a companhia de Jo. Quando o luar
prateado iluminou o mundo para alm da janela, as duas foram at a varanda. Katie
percebeu que estava cambaleando levemente e se segurou no corrimo. Elas
degustavam o vinho enquanto as nuvens continuavam a se abrir e, de repente, o cu
estava pontilhado de estrelas. Katie apontou para a constelao da Ursa Maior e para a
estrela polar, as nicas cujo nome sabia, mas Jo comeou a identificar dezenas de
outras. Katie olhou fixamente para o cu, maravilhada, encantada com o conhecimento
que a amiga tinha sobre as constelaes, at que percebeu quais eram os nomes que Jo
estava recitando.

  -- Aquela ali  chamada de Hortelino e, do outro lado, logo acima daquele pinheiro,
d para ver a constelao do Patolino.

  Quando Katie finalmente se deu conta de que Jo conhecia tanto sobre constelaes
quanto ela mesma, Jo comeou a rir como uma criana travessa.

   De volta  cozinha, Katie se serviu do que restava do vinho e tomou um gole. O
lquido desceu quente pela garganta dela, o que a fez sentir-se um pouco zonza. A
mariposa continuava a voar ao redor da lmpada, embora, quando ela tentava focar o
olhar, parecesse haver duas delas ali. Katie se sentia feliz e segura e pensou novamente
no quanto aquela noite estava agradvel.

  Ela tinha uma amiga, uma amiga de verdade, algum que ria e fazia piadas com as
estrelas, e no tinha certeza se queria rir ou chorar por causa daquilo. Fazia muito
tempo que no vivia nada to tranquilo e natural.
  -- Voc est bem? -- perguntou Jo.

  -- Estou tima -- respondeu Katie. -- Estava s pensando... Fiquei muito feliz por
voc ter vindo.

  Jo a olhou com mais ateno. -- Acho que voc exagerou um pouco no vinho.

  -- E eu acho que voc tem razo -- concordou Katie.

  -- Ento est bem. O que voc quer fazer? J que obviamente est um pouco bbada
e pronta para se divertir.

  -- No sei do que voc est falando.

  -- Voc quer fazer algo especial? Ir at a cidade, encontrar algum lugar legal para se
divertir?

  Katie balanou a cabea. -- No.

  -- Voc no quer conhecer novas pessoas?

  -- Estou melhor sozinha.

  Jo deslizou a ponta do dedo pela borda do copo antes de dizer algo. -- Bem, pode
confiar no que eu digo: ningum realmente est melhor quando est sozinho.

  -- Eu estou.

  Jo pensou na resposta de Katie antes de se inclinar em direo a ela. -- Quer dizer
ento que, se presumirmos que voc tenha comida, uma casa, roupas e tudo o mais que
precisa para simplesmente sobreviver, voc preferiria ficar isolada em uma ilha
deserta no meio do nada, totalmente sozinha, para sempre, pelo resto da vida? Seja
honesta.

  Katie piscou, tentando focar os olhos em Jo. -- Por que voc acha que eu no
responderia honestamente?

  -- Porque todo mundo mente.  necessrio para viver em sociedade. No me
entenda mal, eu creio realmente que  necessrio. A ltima coisa que uma pessoa pode
querer  viver em uma sociedade onde a honestidade irrestrita seja a regra. Consegue
                                     oc
imaginar uma conversa desse tipo? "V  gorda e baixa", diria uma pessoa, e a outra
poderia responder: "Eu sei. E voc cheira mal". As coisas no iriam funcionar. As
pessoas mentem por omisso, e isso acontece o tempo todo. As pessoas sempre contam
a maior parte da histria... E eu aprendi que a parte que elas deixam de contar 
sempre a mais importante. As pessoas escondem a verdade porque tm medo.

 Com as palavras de Jo, Katie sentiu um dedo tocar seu corao. De repente, at
mesmo respirar ficou difcil.

  -- Est falando sobre mim? -- perguntou ela, com a voz estrangulada.

  -- No sei. Estou?

  Katie sentiu-se empalidecer, mas, antes que pudesse responder, Jo abriu um sorriso.

  -- Na verdade, estava falando sobre o dia que tive hoje. Eu disse que foi um dia
complicado, no foi? Bem, o que acabei de lhe dizer  parte do problema.  frustrante
quando as pessoas se recusam a contar a verdade. Afinal, como  que eu posso ajud-
las se elas insistem em esconder certas coisas? Se eu no consigo entender realmente o
que se passa?

  Katie sentiu algo se contorcendo e se estrangulando dentro do seu peito. -- Talvez
elas queiram falar a respeito, mas sabem que no h nada que voc possa fazer para
ajud-las -- sussurrou ela.

  -- Sempre h algo que eu possa fazer.

  Sob a luz do luar que entrava pela janela da cozinha, a pele de Jo pareceu reluzir
num tom branco, e Katie teve a sensao de que ela no era o tipo de pessoa que
costumava se expor ao sol. O vinho fazia a cozinha girar e as paredes se moviam.
Katie sentia as lgrimas comeando a se formar em seus olhos e tudo o que ela pde
fazer foi piscar para cont-las. Sua boca estava seca.

  -- Nem sempre -- sussurrou Katie. Ela virou o rosto em direo  janela. Do lado
de fora, a lua pairava por sobre as rvores. Katie engoliu em seco, sentindo-se como
se estivesse observando a si mesma, do outro lado da cozinha. Ela conseguia se ver
sentada  mesa com Jo, e, quando comeou a falar, a voz que ela ouviu no parecia
realmente ser a sua.

  -- Eu tinha uma amiga. O casamento dela era horrvel, e ela no conseguia falar com
ningum. Ele costumava bater nela, ela lhe disse que se aquilo voltasse a acontecer, ela
o deixaria. Ele jurou que nunca mais faria aquilo e ela acreditou nele. Mas as coisas
pioraram muito depois daquilo. Por exemplo, quando o jantar dele estava frio ou
quando ela dizia ter conversado com um dos vizinhos que estava passeando com seu
cachorro. Ela s tinha conversado com o rapaz, mas, naquela noite, seu marido a
empurrou em cima de um espelho.

  Katie olhou para o cho. O linleo estava se desprendendo do cho nos cantos da
cozinha, mas ela no sabia como consertar aquilo. Ela havia tentado col-lo, mas no
teve sucesso. Os cantos haviam voltado a se enrolar.

  -- Ele sempre se desculpava e s vezes chegava at mesmo a chorar por causa dos
hematomas que havia causado nos braos, nas pernas ou nas costas dela. Ele dizia que
odiava ter feito aquilo, mas, no momento seguinte, dizia-lhe que ela havia merecido
tudo o que acontecera. Que, se ela fosse mais cuidadosa, nada daquilo teria
acontecido. Que, se ela prestasse ateno no que fazia, ou se no fosse to imbecil, ele
no teria perdido a pacincia. Ela tentou mudar. Ela se esforou para tentar ser uma
esposa melhor e fazer as coisas do jeito que ele queria. Mas nada era o bastante,
nunca.

  Katie sentia a presso das lgrimas por trs dos olhos e, embora tentasse novamente
cont-las, ela as sentia rolando pela face. Jo estava imvel do outro lado da mesa,
observando-a.

  -- E como ela o amava! No comeo, ele era muito carinhoso com ela. Fazia com que
ela se sentisse segura. Na noite em que eles se conheceram ela estava trabalhando.
Quando terminou seu turno, dois homens a seguiram. Quando ela virou a esquina, um
deles a agarrou e lhe cobriu a boca com a mo. Por mais que ela tentasse se
desvencilhar, os homens eram muito mais fortes e ela no sabia o que iria lhe
acontecer, mas seu futuro marido estava vindo logo atrs e acertou um dos agressores
na nuca e ele caiu no cho. E depois ele agarrou o outro e o jogou contra a parede.
Tudo estava acabado. Ele a ajudou a se levantar e a levou para casa. No dia seguinte,
ele a levou para tomar caf. Ele era gentil e a tratava como uma princesa, at que
saram em lua de mel.

   Katie sabia que no deveria contar nada daquilo para Jo, mas no conseguia evitar.
-- Minha amiga tentou escapar duas vezes. Uma vez ela acabou voltando para casa,
porque no tinha nenhum outro lugar para onde pudesse ir. E na segunda vez que ela
fugiu, realmente pensou que estivesse livre. Mas seu marido a procurou por toda parte
e a arrastou de volta para casa. L, ele a espancou e encostou um revlver na cabea
dela, dizendo que, se ela fugisse mais uma vez, a mataria. Ele mataria qualquer homem
de que ela gostasse. E ela acreditou nele, porque, quela altura, j sabia que se tratava
de um louco. Mas ela estava presa. Ele nunca dava qualquer dinheiro a ela, nunca
permitia que sasse de casa. Ele passava de carro em frente  casa onde moravam
durante seu horrio de trabalho apenas para se certificar de que ela estava l. Ele
monitorava os registros das ligaes telefnicas e ligava para ela a todo momento. E
no permitia que tirasse uma carteira de motorista. Certa vez, quando acordou no meio
da noite, minha amiga percebeu que ele estava em p ao lado da cama, olhando
fixamente para ela. Ele estava bebendo e com o revlver na mo de novo. Ela estava
amedrontada demais para dizer qualquer coisa alm de lhe pedir que viesse para a
cama. Mas foi naquele momento que ela percebeu que, se ficasse ali, seu marido
certamente a mataria.

  Katie enxugou os olhos, seus dedos estavam midos com as lgrimas. Ela mal
conseguia respirar, mas as palavras continuavam a transbordar. -- Minha amiga
comeou a roubar dinheiro da carteira dele. Nunca mais do que um dlar ou dois,
porque, de outra forma, ele acabaria percebendo. Normalmente ele deixava sua
carteira em uma gaveta trancada  chave durante a noite, mas em algumas ocasies ele
se esquecia de fazer aquilo. Demorou muito para ela conseguir juntar todo o dinheiro
de que precisava para escapar. Porque era aquilo que precisava fazer. Fugir. Ela tinha
que ir para algum lugar onde ele nunca a encontrasse, porque sabia que seu marido
nunca desistiria de procurar por ela. E ela no podia contar nada a ningum, porque
no tinha mais famlia e a polcia no faria nada. Se ele suspeitasse de qualquer coisa,
certamente a mataria. Assim, ela roubou e guardou o pouco dinheiro que podia e
encontrou moedas entre as almofadas do sof e na mquina de lavar roupas. Ela
escondeu o dinheiro em um saco plstico que ficava embaixo de um vaso de flores,
mas sempre que ele saa de casa, a esposa tinha certeza de que ele acabaria
encontrando o dinheiro. Ela demorou muito tempo para juntar a quantia de que
precisava, porque queria ir para algum lugar bem distante, um lugar onde ele nunca
conseguiria encontr-la. Para que pudesse recomear sua vida.

  Katie no havia percebido o momento em que aquilo havia acontecido, mas Jo estava
segurando sua mo. E ela no tinha mais a sensao de se observar do outro lado da
cozinha. Ela sentia o sal das lgrimas em seus lbios e imaginava que sua alma estava
escorrendo para fora do corpo. Katie queria dormir, desesperadamente.

  No silncio, Jo continuou a olhar nos olhos dela. -- Sua amiga tem muita coragem --
disse ela, em voz baixa.

  -- No. Minha amiga passa o tempo todo com medo.

  -- Ter coragem  exatamente isso. Se no fosse assim, ela no precisaria de
coragem para suplantar o medo que sente. Eu admiro o que ela fez -- disse Jo, dando
um leve aperto em sua mo. -- E acho que eu iria gostar muito dessa sua amiga. Fico
feliz por voc ter me contado sobre ela.

  Katie desviou o olhar, sentindo-se completamente exausta e drenada. -- Acho que
no devia ter contado tudo isso.

  Jo deu de ombros. -- No me preocuparia tanto. Uma coisa que voc vai aprender a
meu respeito  que sou muito boa quando preciso guardar segredos. Especialmente
segredos de pessoas que no conheo, sabe?

  Katie fez que sim com a cabea. -- Sei.


JO FICOU COM KATIE por mais uma hora, mas guiou a conversa para tpicos menos
dolorosos. Katie falou sobre seu trabalho no Ivan's e sobre alguns clientes que ela
estava comeando a conhecer. Jo perguntou sobre a melhor maneira de tirar a camada
de tinta que ficava debaixo das unhas depois de pintar as paredes. Sem mais vinho para
beber, a tontura que Katie sentia comeou a desaparecer, deixando apenas o cansao.
Jo tambm comeou a bocejar e elas finalmente se levantaram da mesa. Jo ajudou
Katie a limpar e organizar a cozinha, embora no houvesse muito a fazer alm de lavar
dois pratos. Katie a acompanhou at a porta.

  Quando Jo saiu para a varanda, ela parou. -- Acho que tivemos visitas -- disse ela.

  -- Do que voc est falando?

  -- H uma bicicleta ao lado da sua rvore.

  Katie a seguiu para fora da casa. Apesar do brilho amarelado da luz da varanda, o
mundo estava escuro e os contornos dos pinheiros ao longe faziam com que Katie se
lembrasse da borda irregular de um buraco negro. Vaga-lumes imitavam as estrelas,
piscando e brilhando, e Katie apertou os olhos para enxergar, percebendo que Jo tinha
razo.

  -- De quem ser essa bicicleta? -- perguntou Katie.

  -- No sei.

  -- Voc ouviu algum chegando?

  -- No. Mas acho que algum a deixou para voc. Est vendo? Aquilo ao redor do
guido no  um lao de fita?

  Katie se inclinou para frente, percebendo o laarote. Uma bicicleta feminina. Tinha
uma cestinha de metal de cada lado da roda traseira e outra instalada em frente ao
guido. Havia tambm uma corrente enrolada ao redor do selim, com a chave no
cadeado.

  -- Quem me daria uma bicicleta?

  -- Por que voc fica me fazendo essas perguntas? No fao a menor ideia do que
est acontecendo.

   Katie e Jo desceram as escadas para a rua. Embora a maior parte das poas j
tivesse secado depois que o solo arenoso absorveu a gua, o gramado ainda estava
bem mido por causa da chuva, encharcando as pontas dos sapatos de Katie enquanto
ela atravessava o jardim. Ela tocou na bicicleta e depois no lao de fita, deslizando
seus dedos por ele como um vendedor de tapetes faria. Havia um carto sob o lao e
Katie o apanhou.

  -- Foi Alex -- disse ela, com espanto na voz.

  -- Alex da loja de convenincia? Ou outro Alex?

  -- O cara da loja.

  -- O que diz o carto?

  Katie balanou a cabea, tentando compreender as palavras antes de estend-lo para
que Jo o lesse. Imaginei que voc gostaria dela.

  Jo tocou o carto com os dedos. -- Acho que isso significa que ele est to
interessado em voc como voc est interessada nele.

  -- No estou interessada nele!

  --  claro que no -- disse Jo, piscando o olho. -- Por que estaria?
                                          8




ALEX ESTAVA VARRENDO O CHO perto dos refrigeradores quando Katie entrou na loja.
Ele imaginava que ela viria at ali para conversar com ele logo cedo. Depois de
apoiar o cabo da vassoura contra o vidro, ele colocou a camisa para dentro das calas
e passou a mo pelo cabelo. Kristen passou a manh inteira esperando pela chegada de
Katie e j havia se levantado de sua mesa antes que a porta se fechasse.

  -- Oi, senhorita Katie -- disse Kristen. -- Voc viu a bicicleta?

  -- Eu vi sim, obrigada.  por causa dela que estou aqui.

  -- Ns passamos um bom tempo trabalhando nela.

  -- Foi um timo trabalho. Seu pai est por aqui?

  -- Sim, est logo ali -- disse Kristen, apontando. -- Ele j est vindo.

  Alex manteve os olhos em Katie quando ela se virou.

  -- Oi, Katie -- disse ele.

  Quando se aproximou, ela cruzou os braos. -- Podemos conversar l fora por um
minuto?

  Ele ouviu a frieza na voz dela e sabia que ela estava se esforando muito para no
demonstrar sua raiva na frente de Kristen.

  --  claro -- disse ele, abrindo a porta. Ele a seguiu at o lado de fora e percebeu
que estava admirando a silhueta do seu corpo, enquanto Katie andava at o lugar onde
havia encostado a bicicleta.

  Parando ao lado da bicicleta, ela se virou para encar-lo. Na cesta da frente estava o
guarda-chuva que ela havia tomado emprestado no dia anterior. Ela tamborilou os
dedos no selim, com uma expresso sria no rosto. -- Posso perguntar o que significa
isso?

  -- Voc gostou dela?

  -- Por que voc comprou uma bicicleta para mim?

  -- Eu no a comprei para voc -- disse ele.

  Ela piscou os olhos, com uma expresso confusa. -- Mas seu bilhete...

  Ele deu de ombros. -- Ela esteve no depsito durante os ltimos dois anos, apenas
acumulando poeira. Acredite em mim. A ltima coisa que eu faria seria comprar uma
bicicleta para voc.

  Os olhos dela passaram a demonstrar sua indignao. -- No  disso que estou
           oc
falando! V vive me dando coisas e isso tem que parar. Eu no quero nada de voc.
No preciso de um guarda-chuva, nem de legumes, nem de vinho. E no preciso de uma
bicicleta.

  -- Ento d a bicicleta para algum -- disse ele, dando de ombros novamente. --
Porque eu tambm no a quero.

   Ela ficou em silncio e Alex observou quando a confuso cedeu lugar  frustrao e,
finalmente,  futilidade. No fim, ela balanou a cabea e se virou para ir embora. Antes
que ela pudesse dar um passo, ele limpou a garganta. -- Antes de ir embora, voc
poderia fazer a gentileza de ouvir o que tenho a dizer?

  Katie virou o pescoo e olhou para Alex por cima do ombro. -- No me importa.

  -- Talvez voc no se importe, mas  importante para mim.

  Ela manteve os olhos fixos nos dele, vacilando, at ceder. Quando ela suspirou, ele
apontou para um banco de madeira em frente  loja. Alex havia colocado o banco ali
em tom de brincadeira, enfiado entre a mquina de fazer gelo e alguns botijes de gs,
sabendo que ningum gostaria de sentar ali. Quem iria querer sentar de frente para o
estacionamento e a estrada que passava logo adiante? Mesmo assim, para sua surpresa,
vrias pessoas se sentavam naquele banco, quase todos os dias. A nica razo pela
qual o banco estava vazio agora era o fato de ainda estar muito cedo.

  Katie hesitou um pouco antes de se sentar e Alex entrelaou os dedos sobre o colo.

   -- No estava mentindo sobre o fato de que a bicicleta estava juntando poeira nos
ltimos dois anos. Ela pertencia  minha esposa -- disse Alex. -- Ela adorava essa
bicicleta e costumava us-la o tempo todo. Certa vez, chegou at mesmo a ir de
Southport a Wilmington, mas,  claro, quando chegou l, j estava exausta e eu tive que
ir busc-la de carro. E no havia ningum para cuidar da loja. Literalmente tive que
fechar as portas por duas horas.

   Ele fez uma pausa para tomar flego. -- Aquela foi a ltima vez que ela pedalou.
Naquela noite ela teve a primeira convulso e eu tive que correr para lev-la ao
hospital. Depois disso, ela ficou cada vez pior e nunca mais subiu na bicicleta. Deixei
a bicicleta na garagem, mas toda vez que a vejo, no consigo evitar de pensar naquela
noite horrvel -- disse ele, alisando as dobras da camisa. -- Eu sei que j devia ter me
livrado dela, mas no queria d-la a algum que iria us-la apenas uma ou duas vezes e
que depois a deixaria jogada em algum canto. Queria que ela ficasse com algum que
gostasse dela tanto quanto minha esposa gostava. Algum que realmente a usasse. 
isso que minha esposa iria querer que eu fizesse. Se voc a tivesse conhecido, voc
entenderia. Voc estaria me fazendo um enorme favor.

  Quando Katie falou, sua voz estava embargada. -- No posso ficar com a bicicleta
de sua esposa.

  -- Quer dizer que ainda pretende devolv-la?

  Quando ela fez que sim com a cabea, ele se inclinou para frente e apoiou os
cotovelos sobre os joelhos. -- V oc e eu somos muito mais parecidos do que voc
imagina. Se eu estivesse na sua situao, faria exatamente a mesma coisa. Voc no
quer sentir que deve algo a algum. V oc quer provar que pode cuidar de si mesma
sem depender de mais ningum, no ?
  Ela abriu a boca para responder, mas no disse nada. Em meio ao silncio, ele
continuou.

   -- Eu era exatamente assim quando minha esposa morreu. E fui assim durante muito
tempo. As pessoas vinham at a loja e muitas delas me diziam que eu poderia lhes
telefonar se precisasse de alguma coisa. A maioria delas sabia que no tenho famlia
por perto e todas elas tinham timas intenes, mas nunca telefonei para ningum.
Simplesmente porque aquilo no tinha nada a ver com minha maneira de viver. Mesmo
se quisesse alguma coisa, no saberia como pedir. E mesmo assim, na maior parte do
tempo, nem sabia exatamente o que eu queria. Tudo que sabia era que eu havia chegado
ao fim da minha corda e, para continuar com essa metfora, por muito tempo eu mal
conseguia me segurar nela. Veja minha situao. De uma vez s, eu tive que cuidar de
duas crianas pequenas e tambm da loja. Meus filhos eram bem mais novos e
precisavam de mais ateno naquela poca do que precisam agora. At que um dia,
Joyce apareceu -- concluiu ele, olhando para Katie. -- V   oc j a conheceu? Uma
senhora idosa que trabalha algumas tardes por semana, incluindo aos domingos, e que
conversa com todo mundo? Josh e Kristen a adoram.

  -- Acho que no.

  -- No tem importncia. Mesmo assim, ela apareceu uma tarde, por volta das 5
horas, e me disse que cuidaria das crianas, enquanto eu iria para a praia passar uma
semana. Ela j havia encontrado um lugar para eu me hospedar e disse que no
aceitaria um "no" como resposta porque, em sua opinio, eu estava inevitavelmente
fadado a ter um colapso nervoso.

  Ele colocou os dedos no local onde o nariz se juntava  testa, tentando suprimir as
lembranas daqueles dias. -- No incio, aquilo me irritou. Afinal, so meus filhos,
no? E que tipo de pai eu era para fazer as pessoas pensarem que eu no daria conta
das responsabilidades envolvidas em ser pai? Mas Joyce fez algo diferente. Ela no
me pediu para telefonar se precisasse de alguma coisa. Ela sabia o que eu estava
passando e fez o que pensava ser a coisa certa. No dia seguinte, eu estava a caminho da
praia. E Joyce estava certa. Nos primeiros dois dias, ainda estava em frangalhos. Mas,
no decorrer de mais alguns dias, sa para algumas longas caminhadas, li alguns livros,
dormi at tarde. E quando voltei, percebi que estava mais relaxado do que j estivera
h muito, muito tempo...
  Alex deixou as palavras no ar, sentindo o peso do julgamento de Katie sobre si.

  -- No sei por que voc est me contando isso.

  Ele se virou para ela. -- Ns dois sabemos que, se eu tivesse lhe oferecido a
bicicleta, voc teria dito "no". Assim, da mesma forma que Joyce fez comigo, fui em
frente e fiz o que fiz, porque era a coisa certa a fazer. Porque eu aprendi que no h
problema em aceitar um pouco de ajuda de vez em quando -- concluiu Alex, olhando
para a bicicleta. -- Fique com ela. No tenho outro uso para ela e voc tem que
admitir que a bicicleta facilitaria muito sua ida e volta do trabalho.

  Demorou alguns segundos antes que Alex percebesse que os ombros dela estavam
relaxados. Ela se virou para ele com um sorriso torto.

  -- Voc ensaiou esse discurso todo, no foi?

 --  claro que ensaiei -- disse ele, esforando-se para parecer envergonhado. --
Mas voc vai ficar com ela?

   Katie hesitou. -- Bem, acho que uma bicicleta vai me ajudar, sim -- admitiu ela,
finalmente. -- Obrigada.

  Durante um longo momento, nenhum dos dois disse coisa alguma. Enquanto lhe
observava o perfil, Alex percebeu mais uma vez o quanto ela era bonita, embora ele
percebesse que Katie provavelmente no achava que aquilo fosse verdade. E tudo isso
servia apenas para deix-la ainda mais atraente.

  -- Por nada -- disse ele.

  -- Mas chega de presentes, certo? Voc j fez mais do que o suficiente por mim.

  -- De acordo -- disse ele, voltando a olhar em direo  bicicleta. -- Ela est em
boas condies? Foi fcil andar nela? Pergunto isso por causa das cestinhas.

  -- No tive problemas. Por qu?

  -- Porque Kristen e Josh me ajudaram a instal-las ontem. Um daqueles projetos
timos para um dia chuvoso, sabe? Foi Kristen que as escolheu. Ah, e, para que voc
saiba, ela tambm achou que seria timo colocar luvas purpurinadas no guido, mas
disse a ela que isso j seria demais.

  -- No me importaria de ter manoplas purpurinadas.

  Alex riu. -- Vou dizer isso a Kristen.

   Katie hesitou. -- Voc est fazendo um timo trabalho, sabia? Em relao a seus
filhos.

  -- Obrigado.

  -- Estou sendo sincera. Sei que no est sendo fcil.

  --  assim que a vida funciona. Na maior parte do tempo nada  fcil. Temos
simplesmente que tentar fazer o melhor que pudermos. Entende o que quero dizer?

  -- Sim. Acho que entendo -- disse ela.

  A porta da loja se abriu e quando Alex se inclinou para frente, ele viu Josh
esquadrinhando o estacionamento e Kristen logo atrs dele. Com seus cabelos e olhos
castanhos, Josh era muito parecido com sua me. O garoto estava com os cabelos
desalinhados e Alex sabia que ele havia acabado de se levantar da cama.

  -- Estamos aqui, crianas.

  Josh coou a cabea enquanto andou at onde eles estavam. Kristen abriu um sorriso,
acenando para Katie.

  -- Papai? -- perguntou Josh.

  -- Sim, o que foi?

  -- Queramos perguntar se realmente vamos  praia hoje. Voc prometeu que nos
levaria.

  -- Bem, esse  o plano para hoje.
  -- Vamos levar a churrasqueira tambm?

  --  claro que vamos.

  -- Tudo bem, ento -- disse ele, esfregando o nariz. -- Oi, senhorita Katie.

  Katie acenou para Josh e Kristen.

  -- Voc gostou da bicicleta? -- perguntou Kristen.

  -- Gostei, sim. Obrigada.

  -- Eu tive que ajudar meu pai a consert-la -- informou Josh. -- Ele no  muito
bom com ferramentas.

  Katie olhou para Alex com um sorriso torto. -- Ele no me disse nada disso.

  -- No tem problema. Eu sabia o que tinha que fazer. Mas ele teve que me ajudar
com a nova cmara de ar.

  Kristen fixou os olhos em Katie. -- Voc vem para a praia com a gente?

  Katie se endireitou no banco de madeira. -- Acho que no.

  -- Por que no? -- perguntou Kristen.

  -- Provavelmente porque ela vai trabalhar -- disse Alex.

  -- Na verdade, no -- disse ela. -- Mas preciso fazer algumas coisas na minha
casa.

  -- Ento voc pode vir conosco -- pediu Kristen. -- Vai ser muito divertido!

  -- Este  um momento para voc e para sua famlia -- insistiu ela. -- No quero
atrapalhar.

  -- Mas voc no vai atrapalhar. E vai ser muito divertido. Voc pode me olhar
enquanto eu nado. Vamos, por favor! -- implorou Kristen.
  Alex ficou em silncio, no desejando acrescentar ainda mais presso sobre ela. Ele
presumiu que Katie diria no, mas, para sua surpresa, ela acabou assentindo com um
leve meneio de cabea. E respondeu com uma voz suave.

  -- Tudo bem -- disse ela, finalmente.
                                          9



DEPOIS DE VOLTAR DA LOJA, Katie estacionou a bicicleta nos fundos da casa e entrou
para trocar de roupa. Ela no tinha um traje de banho, mas no usaria um desses mesmo
que o tivesse. Por mais que fosse natural para uma moa caminhar em frente a
estranhos com peas equivalentes a uma calcinha e suti, no se sentiria confortvel
vestindo algo assim na frente de Alex em um passeio com seus filhos. Ou, francamente,
mesmo que as crianas no estivessem presente.

  Embora resistisse  ideia, Katie tinha que admitir que Alex a intrigava. No por
causa das coisas que havia feito por ela, por mais que aquilo fosse tocante. Tinha mais
a ver com a maneira triste com que s vezes ele sorria, a expresso em seu rosto
quando ele falava sobre sua falecida esposa, ou a maneira como ele tratava seus filhos.
Havia uma solido em Alex que ele no conseguia disfarar, e ela sabia que, de certa
forma, era muito parecida com a solido que ela tambm sentia.

  Ela sabia que Alex estava interessado nela. E Katie tinha bastante experincia para
reconhecer situaes em que os homens a achavam atraente; o balconista da mercearia
falando demais, um estranho que olhava em sua direo, ou um garom em um
restaurante que vinha mais vezes do que o necessrio at a mesa onde ela estivesse
sentada. Com o tempo, ela aprendeu a fingir que no percebia o interesse daqueles
homens; em outros momentos, ela mostrava um bvio desdm, porque sabia o que
aconteceria se no o fizesse. Quando chegassem em casa. Quando estivessem sozinhos.

  Mas aquela vida j no era mais sua, lembrou-se Katie. Abrindo as gavetas, ela tirou
um conjunto de short e sandlias que havia comprado na Anna Jean's. Na noite anterior
ela havia bebido vinho com uma amiga e agora iria  praia com Alex e sua famlia.
Eram coisas comuns de vida comum. O conceito lhe pareceu estranho, como se ela
estivesse aprendendo os hbitos e costumes de uma terra estrangeira, o que fazia com
que se sentisse estranhamente encantada e desconfiada ao mesmo tempo.
  Assim que terminou de se vestir, Katie viu o jipe de Alex vindo pela estrada de
cascalhos e respirou fundo enquanto ele estacionava em frente  sua casa. "Agora ou
nunca", pensou ela consigo mesma quando saiu para a varanda.

   --V oc precisa colocar o cinto de segurana, senhorita Katie -- disse Kristen por
trs dela. -- Meu pai no vai ligar o carro at que voc o prenda.

  Alex olhou para ela, como se quisesse dizer: "Est preparada?". Katie lhe ofereceu
seu melhor sorriso.

  -- Bem, vamos l.


EM MENOS DE UMA HORA eles chegaram  cidade litornea de Long Beach, com seus
sobrados de madeira e a maravilhosa vista para o mar. Alex encostou o carro em um
pequeno estacionamento perto das dunas; alguns tufos de grama alta se agitavam com a
brisa marinha constante. Katie desceu do carro e olhou para o oceano, respirando
fundo.

  As crianas desceram do carro e imediatamente foram em direo  trilha que
serpenteava entre as dunas.

  -- Eu vou l dar uma olhada na gua, papai! -- gritou Josh, com sua mscara e o
snorkel nas mos.

  -- Eu tambm! -- acrescentou Kristen, seguindo seu irmo.

  Alex estava ocupado, descarregando a traseira do jipe. -- Esperem a -- gritou ele.
-- Vamos com calma, hein?

  Josh suspirou e sua impacincia era aparente enquanto apoiava o peso do corpo, ora
num p, ora no outro. Alex comeou a retirar a caixa trmica de dentro do porta-malas.

  -- Voc precisa de ajuda? -- perguntou Katie.

  Alex balanou a cabea. -- Eu consigo me virar com essas coisas. Mesmo assim, se
voc puder passar o protetor solar nas crianas e ficar de olho nelas por alguns
minutos, vai ser de muita ajuda. Eu sei que este lugar os deixa animados demais para
ficarem quietos.

  Alex passou os minutos seguintes tirando as coisas do carro e armando uma pequena
tenda perto da mesa de piquenique mais prxima da duna, onde a mar alta no os
alcanaria. Embora houvesse algumas outras famlias, a praia estava praticamente
vazia e eles poderiam ficar tranquilos naquela parte da praia. Katie havia tirado as
sandlias e estava  beira da gua enquanto as crianas brincavam na parte mais rasa.
Seus braos estavam cruzados e, mesmo quela distncia, Alex percebeu uma rara
expresso de contentamento em seu rosto.

  Alex jogou duas toalhas sobre os ombros e foi em direo a Katie. --  difcil
acreditar que ainda ontem tivemos uma tempestade to forte.

  Ela se virou ao ouvir o som da voz dele. -- Eu havia me esquecido do quanto sentia
falta do oceano.

  -- Faz muito tempo que no vem  praia?

  -- Tempo demais -- disse ela, escutando o ritmo suave das ondas enquanto elas
gentilmente quebravam contra a praia.

  Josh corria em direo s ondas e depois voltava  praia, enquanto Kristen estava
agachada na areia, procurando por conchas.

  -- Imagino que s vezes deve ser bem difcil ter que cuidar e educar seus filhos
sozinho -- observou Katie.

  Alex hesitou, considerando a questo. Quando falou, sua voz tinha um tom gentil. --
Na maior parte do tempo no  to ruim. Nossas vidas dirias acabam entrando num
certo ritmo, entende?  quando fazemos coisas como estas, quando samos do ritmo
normal, que as coisas ficam um pouco frustrantes.

  Ele deu um leve chute na areia, enterrando seu p at a metade. -- Quando minha
esposa e eu falvamos sobre ter um terceiro filho, ela tentava me advertir de que essa
terceira criana faria nossa rotina mudar por completo. Num jogo de basquete seria
como passar de uma marcao homem a homem para uma marcao por zona. Ela
costumava dizer que no tinha certeza de que eu conseguiria aguentar a barra. Mesmo
assim, aqui estou eu, fazendo uma marcao por zona, todos os dias... -- ele deixou a
frase no ar, balanando a cabea. -- Me desculpe. No deveria ter dito isso.

  -- No deveria ter dito o qu?

  -- Parece que sempre que converso com voc acabo falando sobre minha esposa.

  Pela primeira vez, ela se virou para encar-lo. -- E por que voc no deveria falar
sobre sua esposa?

  Ele empurrou uma pilha de areia para frente e para trs com o p, alisando o buraco
que havia feito. -- Porque no quero que voc pense que no sei falar sobre outra
coisa. Ou que tudo que fao  viver no passado.

  -- Voc a amava muito, no ?

  -- Sim -- respondeu ele.

   -- E ela era uma parte muito importante da sua vida, alm de ser a me de seus dois
filhos, certo?

  -- Certo.

  -- Ento no h problemas em falar sobre ela -- disse Katie. -- Ela  parte da
pessoa que voc .

  Alex lhe deu um sorriso de gratido, mas no conseguiu pensar em mais nada para
dizer. Katie pareceu ler sua mente e perguntou num tom gentil: -- Quando vocs se
conheceram?

  -- Nos conhecemos em um bar, entre todos os lugares possveis. Ela havia sado
com algumas amigas para celebrar o aniversrio de algum. O lugar estava quente e
cheio de pessoas, havia poucas luzes, a msica estava alta e ela... Bem, ela
simplesmente se destacou do resto. Todas as amigas dela estavam um pouco fora do
controle e era bvio que todas estavam se divertindo bastante, mas ela parecia estar
bem tranquila.
  -- Aposto que ela era muito bonita tambm.

  -- Nem preciso mencionar o quanto -- disse ele. -- Assim, engolindo meu
nervosismo, fui at onde ela estava e comecei a usar todo o charme que eu tinha 
minha disposio.

  Quando terminou a frase, ele percebeu o sorriso que havia nos cantos dos lbios
dela.

  -- E ento? -- perguntou Katie.

 -- Mesmo assim, demorei trs horas para conseguir que ela me dissesse seu nome e
me desse seu nmero de telefone.

  Katie riu. -- Ah, deixe-me adivinhar. Voc ligou no dia seguinte, no ? E a
convidou para sair?

  -- Como voc sabe?

  -- Voc parece ser o tipo de homem que faria exatamente isso.

  -- Voc fala como se j tivesse recebido uma cantada dessas algumas vezes.

  Ela deu de ombros, deixando que seu gesto fosse interpretado da maneira que ele
quisesse. -- E o que aconteceu depois?

  -- Por que voc quer saber isso?

  -- No sei -- disse ela. -- Mas eu realmente quero.

  Ele a estudou por um momento. -- Tudo bem. Como voc j sabe, convidei-a para
almoar e ns passamos o resto da tarde conversando. No final de semana seguinte, eu
disse a ela que ns dois nos casaramos algum dia.

  -- Voc est brincando.

  -- Sei que parece loucura. Pode acreditar em mim, ela tambm achou que eu estava
louco. Mesmo assim... Eu simplesmente sabia que aquilo iria acontecer. Ela era
inteligente e gentil. Ns tnhamos muitas coisas em comum e queramos as mesmas
coisas da vida. Ela ria muito e me fazia rir tambm. Honestamente, entre mim e ela
acho que fui eu quem tirou a sorte grande.

  As ondas continuaram a quebrar na praia com a brisa do oceano, chegando a cobrir
os tornozelos de Alex e Katie. -- Provavelmente ela achava que tivera sorte tambm.

  -- Isso aconteceu porque consegui engan-la -- disse Alex, irnico.

  -- Duvido que foi assim.

  -- Isso  porque estou conseguindo enganar voc tambm.

  Katie riu. -- No acho que seja verdade.

  -- Voc est dizendo isso s porque somos amigos.

  -- Voc acha que somos amigos?

  -- Sim -- disse ele, com os olhos fixos nos dela. -- Voc no acha?

  Pela expresso em seu rosto, Alex percebeu que a ideia a pegara de surpresa. Mas,
antes que ela pudesse responder, Kristen veio correndo at onde eles estavam, fazendo
a gua respingar com seus passos e trazendo um punhado de conchas nas mos.

  -- Senhorita Katie! -- gritou ela. -- Achei umas conchinhas muito bonitas!

  Katie se curvou. -- Pode me mostrar?

  Kristen estendeu as mos, soltando as conchas na mo de Katie antes de se virar em
direo a Alex. -- Papai, podemos comear a fazer o churrasco? Estou morrendo de
fome!

  --  claro, querida -- disse ele, dando alguns passos em direo  praia,
observando enquanto seu filho mergulhava por entre as ondas. Quando Josh voltou para
a superfcie, Alex colocou as mos ao redor da boca.

                                  ou
  -- Ei, Josh? -- gritou ele. -- V acender a churrasqueira. Por que no vem at
aqui?

  -- Agora? -- gritou Josh em resposta.

  -- Apenas por alguns momentos.

  Mesmo quela distncia, ele viu que os ombros de Josh se contraram pelo
desnimo. Katie tambm deve ter percebido, pois se apressou logo em dizer.

  -- Eu posso ficar aqui se voc quiser -- disse ela.

  -- Tem certeza?

  -- Vou ficar aqui vendo as conchas que Kristen est me mostrando.

  Ele fez que sim com a cabea e voltou sua ateno para Josh. -- A senhorita Katie
vai ficar tomando conta de vocs. Por isso, no v muito fundo!

  -- No vou, no! -- disse ele, sorrindo.
                                        10



POUCO TEMPO DEPOIS, Katie trouxe uma Kristen que tremia de frio e um Josh bastante
animado de volta para a toalha que Alex havia estendido sobre a areia. A
churrasqueira j estava montada e os pedaos de carvo j estavam em brasa.

  Alex abriu a ltima das cadeiras de praia sobre a toalha e observou enquanto eles se
aproximavam. -- Como estava a gua, meninos?

  -- tima! -- respondeu Josh. Seu cabelo, parcialmente seco, estava espetado e
apontando em todas as direes. -- Quando o almoo vai estar pronto?

  Alex deu uma olhada nas brasas. -- Daqui a uns vinte minutos.

  -- Ser que eu e Kristen podemos voltar para a gua?

  -- Vocs acabaram de sair da gua. Por que no descansam por alguns minutos?

  -- No queremos nadar. Queremos fazer castelos de areia -- disse ele.

  Alex percebeu que Kristen estava batendo os dentes. -- Tem certeza de que querem
fazer isso? Vocs esto roxos de frio.

  Kristen fez que sim com a cabea, em longos movimentos. -- Estou bem -- disse
ela, ainda tremendo. -- E a praia foi feita para construirmos castelos nela.

  -- Tudo bem, tudo bem. Mas vistam suas camisetas, ento. E fiquem num lugar onde
eu possa v-los -- disse ele, apontando com o dedo.

  -- Eu sei, papai -- disse Josh, com um suspiro. -- No sou mais criana.

  Alex abriu uma sacola de viagem e ajudou Josh e Kristen a vestirem suas camisetas.
Quando terminou, Josh pegou outra bolsa cheia de brinquedos de plstico e saiu em
disparada, parando a poucos passos da gua. Kristen o seguiu.

  -- Quer que eu v at l para ficar com eles?

  Alex balanou a cabea. -- No, eles vo ficar bem. J esto acostumados com essa
parte, quando eu me ocupo com o almoo. Eles sabem que devem ficar longe da gua.

  Indo at a caixa trmica, ele se agachou e abriu a tampa. -- Est ficando com fome
tambm? -- perguntou ele.

  -- Um pouco -- disse Katie, antes de perceber que no havia comido nada desde o
queijo e o vinho divididos com Jo na noite anterior. Logo ela ouviu seu estmago
roncar e cruzou os braos em frente  barriga.

  -- timo, porque estou faminto.

  Enquanto Alex procurava por bebidas na caixa trmica, Katie percebeu os msculos
definidos em seus antebraos. -- Estava pensando em assar salsichas para Josh, um
cheeseburguer para Kristen e fils para voc e para mim.

  Alex retirou as carnes do meio do gelo e depois se inclinou por cima da
churrasqueira, soprando as brasas.

  -- Posso ajudar com alguma coisa?

  -- Voc se importa de colocar a toalha sobre a mesa? Est dentro da caixa.

  --  claro -- disse Katie. Ela tirou uma das bolsas de gelo da caixa trmica e ficou
olhando, embasbacada. -- V  oc trouxe comida suficiente para meia dzia de famlias
-- disse ela.

  -- Pois . Com as crianas, sempre penso que o melhor  trazer coisas demais em
vez de deixar que algo falte, pois nunca sei exatamente o que eles vo querer comer.
Voc no imagina quantas vezes ns viemos at aqui e percebi que havia esquecido
alguma coisa. E quando isso acontecia, tinha que colocar as crianas de volta no carro
e correr para a loja. Ento quis evitar que isso acontecesse hoje.
  Katie abriu a toalha plstica e, seguindo as instrues de Alex, firmou os cantos da
toalha com os pesos de papel que ele se lembrou de trazer.

  -- Pronto. E agora? Quer que eu coloque os pratos e talheres
na mesa?

  -- Ainda temos alguns minutos. No sei voc, mas estou pronto para uma cerveja --
disse ele. Enfiando a mo na caixa trmica, tirou uma garrafa.

  -- Acho que vou preferir um refrigerante.

  -- Uma diet? -- perguntou ele, com a mo novamente na caixa.

  -- timo.

   Quando Alex entregou a lata  Katie, sua mo roou de leve na dela, embora ela no
tivesse certeza de que ele havia percebido.

  Alex apontou para as cadeiras. -- Quer sentar?

  Ela hesitou um pouco antes de se sentar ao lado dele. Quando Alex abriu as cadeiras
sobre a areia, ele deixou uma boa distncia entre elas, de modo que eles no viessem a
se tocar acidentalmente. Alex girou a tampa de sua cerveja e tomou um gole. -- No h
nada melhor do que uma cerveja gelada em um dia quente na praia.

                                                                    ou
  Ela sorriu, um pouco desconcertada por estar sozinha com ele. -- V acreditar na
sua palavra.

  -- Voc no gosta de cerveja?

  A mente de Katie viajou no tempo, lembrando-se de seu pai e das latas vazias de
Pabst Blue Ribbon que geralmente entulhavam o cho, empilhadas descuidadamente ao
lado da poltrona onde ele costumava se sentar. -- No muito -- admitiu ela.

  -- Somente vinho, ento?

  Ela demorou um momento para se lembrar que Alex havia lhe dado uma garrafa. --
Para falar a verdade, tomei um pouco de vinho ontem  noite. Com minha vizinha.
  --  mesmo? Que bom.

  Ela tentou encontrar um assunto mais seguro. -- Voc disse que nasceu em Spokane?

  Ele esticou as pernas, relaxando e colocou um tornozelo sobre o outro. -- Nasci e
fui criado l. Morei sempre na mesma casa, at o dia em que fui para a faculdade --
disse ele, olhando-a de lado. -- Frequentei a Universidade de Washington. O lar dos
Huskies.

  Ela sorriu. -- Seus pais ainda moram l?

  -- Sim.

  -- Ento deve ser difcil para eles virem visitar os netos.

  -- Imagino que sim.

  Algo no tom de voz dele chamou a ateno de Katie. -- Voc imagina?

  -- Eles no so o tipo de avs que viriam visitar, mesmo que morassem mais perto.
Eles viram as crianas apenas uma ou duas vezes. A primeira foi quando Kristen
nasceu e a segunda foi no funeral -- disse ele, balanando a cabea.

  -- No me pea para explicar -- prosseguiu Alex. -- Meus pais no tm qualquer
interesse pelas crianas e o mximo que fazem  mandar cartes quando eles fazem
aniversrio ou presentes no Natal. Eles preferem viajar ou fazer qualquer outra coisa.

  -- Como ?

  -- O que eu posso fazer? Alm disso, no posso dizer que eles eram to diferentes
comigo, mesmo eu sendo o nico filho deles. A primeira vez que meus pais vieram me
visitar quando eu estava na faculdade foi no dia da formatura. Embora eu nadasse bem
o bastante para conseguir uma bolsa de estudos integral, eles me viram competir
apenas duas vezes. Mesmo que eu fosse vizinho deles, duvido que eles iriam querer
ver as crianas. Essa  uma das razes pelas quais me estabeleci aqui. Afinal, no faria
diferena estar perto ou longe deles, no ?

  -- E os outros avs?
  Alex arranhou o rtulo de sua garrafa de cerveja. -- A situao  um pouco mais
complicada com eles. Eles tm duas outras filhas que se mudaram para a Flrida e,
depois que me venderam a loja, tambm se mudaram para l. Eles vm nos visitar por
alguns dias, geralmente uma ou duas vezes por ano, mas mesmo assim  difcil demais
para eles. Alm do mais, se recusam a ficar na casa, porque acho que o lugar faz com
que se lembrem de Carly. Provavelmente  uma dose muito grande de lembranas, eu
acho.

  -- Em outras palavras, voc acabou ficando sozinho.

  -- Pelo contrrio -- disse ele, olhando para as crianas. -- Eu tenho a eles,
lembra-se?

  -- Mesmo assim, deve ser difcil. Administrar a loja, criar e cuidar de seus filhos.

  -- No  to ruim. Desde que eu me levante s 6 da manh e no me deite para
dormir antes da meia-noite,  fcil dar conta de tudo.

  Ela riu, descontrada. -- Voc acha que o braseiro j est no ponto?

  -- Deixe-me dar uma olhada -- disse ele. Depois de colocar a garrafa na areia, ele
se levantou da cadeira e foi at a churrasqueira. Os pedaos de carvo estavam
                                                              oc
brancos e o calor se erguia em ondas tremeluzentes. -- V tem um timing impecvel
-- disse ele. Alex colocou os fils e os hambrgueres na grelha enquanto Katie foi at
o lugar onde a caixa trmica estava e comeou a trazer uma quantidade infindvel de
objetos para a mesa: potes de plstico com salada de batata e repolho, picles, vagens,
frutas fatiadas, dois sacos de batatas fritas, fatias de queijo, alm de molhos e temperos
diversos.

  Ela balanou a cabea  medida que organizava tudo, pensando que Alex havia se
esquecido de que seus filhos ainda eram pequenos. Havia mais comida aqui do que no
armrio da cabana onde ela morava, em Southport.

  Alex cuidava dos fils e do bife de hambrguer na grelha, acrescentando por fim as
salsichas de cachorro quente. Enquanto cozinhava, ele percebeu que seu olhar se
desviava para as pernas de Katie quando ela se movia ao redor da mesa, mais uma vez
percebendo o quanto ela era atraente.

  Ela pareceu perceber que ele a olhava. -- O que foi?

  -- Nada -- disse ele.

  -- Voc estava pensando em alguma coisa.

   Ele suspirou. -- Estou feliz por voc ter vindo conosco hoje -- disse ele,
finalmente. -- Porque estou me divertindo muito.


ENQUANTO ALEX CUIDAVA da churrasqueira, os dois mantiveram uma conversa tranquila
e descontrada. Alex explicou a Katie os pormenores envolvidos na administrao de
uma loja de convenincia. Contou tambm como seus sogros haviam iniciado o negcio
e descreveu alguns dos clientes habituais com afeio, outros que podiam ser definidos
como excntricos e Katie silenciosamente imaginou se ela teria sido includa naquela
descrio caso Alex tivesse trazido outra pessoa  praia.

  No que aquilo tivesse qualquer importncia. Quanto mais ele falava, mais ela
percebia que ele era o tipo de homem que tentava encontrar o que cada pessoa tinha de
melhor -- o tipo de homem que no gostava de reclamar da vida. Ela tentou imaginar
como ele seria quando era mais jovem, e gradualmente fez com que a conversa
enveredasse por aquela direo. Alex falou sobre sua infncia e adolescncia em
Spokane, sobre os fins de semana preguiosos em que ele costumava andar de bicicleta
pela Centennial Trail com seus amigos. Ele contou que, quando descobriu a natao, o
esporte rapidamente se tornou uma obsesso. Alex nadava quatro ou cinco horas por
dia e tinha o desejo de disputar uma olimpada. Entretanto, o rompimento de um
msculo do ombro durante seu segundo ano da faculdade acabou com seu sonho. Falou
tambm sobre as festas que frequentou durante a faculdade e dos amigos que fez,
admitindo que quase todas aquelas amizades foram se distanciando lentamente, at que
o contato com seus colegas fosse totalmente perdido. Enquanto falava, Katie percebeu
que ele no parecia aumentar ou diminuir os fatos sobre seu passado, alm de no
parecer estar preocupado com o que os outros pensavam dele.

  Ela podia ver os resqucios do atleta de elite que Alex havia sido, percebendo seus
movimentos fluidos e graciosos e a maneira tranquila com que ele sorria, como se
estivesse bem acostumado com vitrias e derrotas. Quando terminou de falar, ela
sentiu receio de que ele fosse lhe perguntar sobre seu passado, mas ele pareceu
pressentir que aquilo a deixaria desconfortvel. Em vez disso, preferiu comear a
contar uma outra histria.

  Quando a comida ficou pronta, ele chamou as crianas e elas vieram correndo. Os
dois estavam cobertos de areia e Alex fez com que eles ficassem ao lado do carro
enquanto ele os esfregava. Conforme o observava, Katie via que Alex era um pai muito
melhor do que ele mesmo imaginava. timo de todas as maneiras que eram
importantes.

  Quando as crianas chegaram  mesa, a conversa mudou de rumo. Katie ouviu
enquanto eles conversavam sobre o castelo de areia que haviam construdo e um dos
programas no Disney Channel que os dois gostavam de assistir. Quando mencionaram
em voz alta sobre as guloseimas que comeriam mais tarde -- marshmallows, barras de
chocolate e biscoitos doces, aquecidos at que estivessem quase derretidos --, ficou
claro que Alex havia criado tradies especiais e divertidas para aquelas crianas. Ele
era diferente dos homens que ela havia conhecido no passado, diferente de qualquer
pessoa que ela conhecera em toda a sua vida. Conforme a conversa prosseguiu,
quaisquer vestgios do nervosismo que sentia comearam a desaparecer.

   A comida estava deliciosa, uma mudana muito bem-vinda em relao  sua dieta
austera recente. O cu continuou limpo, a imensido azul quebrada apenas quando
alguma ave marinha ocasionalmente passava voando por perto. A brisa soprava
tranquila, suave o bastante para mant-los refrescados, e o ritmo constante das ondas
ajudava a manter a sensao de calma e tranquilidade.

  Quando terminaram de comer, Josh e Kristen ajudaram a limpar a mesa e a guardar
as pores que no haviam sido comidas. Alguns itens que no se estragariam -- o
pote de picles e as batatas fritas -- foram deixados sobre a mesa. As crianas queriam
brincar com suas pranchas de body-boarding e, depois que Alex voltou a aplicar o
protetor solar neles, tambm tirou sua camisa e os seguiu at as ondas.

  Katie levou sua cadeira at a borda da gua e passou a hora seguinte observando
Alex ajudando seus filhos a deslizarem pela arrebentao, posicionando um e depois o
outro para que pudessem aproveitar as ondas que chegavam. Ela ficou maravilhada
com o jeito que ele tinha de fazer com que cada um dos filhos se sentisse o centro das
atenes. Havia um carinho no modo como ele os tratava, uma dose de pacincia que
ela no esperava realmente que fosse possvel em um pai. Conforme a tarde chegou e
as nuvens comearam a se formar, Katie percebeu que estava sorrindo, pensando que,
pela primeira vez em muitos anos, sentia-se totalmente relaxada. E aquilo no era tudo.
Ela sabia que estava se divertindo tanto quanto as crianas.
                                         11



DEPOIS DE SAREM DA GUA, Kristen declarou que estava sentindo frio e Alex a levou ao
banheiro para vestir roupas secas. Katie ficou com Josh sobre a canga, admirando o
brilho do sol nas ondas enquanto ele fazia pequenas pilhas de areia.

  -- Ei, quer me ajudar a soltar pipa? -- perguntou Josh, repentinamente.

  -- Acho que eu no saberia fazer isso. Nunca soltei pipa antes.

   --  fcil -- insistiu ele, procurando entre a pilha de brinquedos que Alex havia
trazido, at que retirou uma pequena pipa de l. -- Posso lhe mostrar. Vamos.

  Josh saiu correndo em direo  praia e Katie correu alguns passos antes de voltar a
caminhar, a passos ligeiros. Quando chegou at onde Josh estava, ele j tinha
comeado a desenrolar o carretel de linha e deu a pipa para que ela a segurasse.

  -- Segure ela bem alto, em cima da cabea.

  Ela fez como ele lhe instruiu,  medida que Josh comeava a se afastar lentamente,
desenrolando a linha com bastante desenvoltura.

  -- Est pronta? -- gritou ele, quando finalmente parou de se afastar. -- Quando eu
sair correndo e gritar, voc solta a pipa!

  -- Estou pronta! -- gritou ela em resposta.

  Josh comeou a correr e, quando Katie sentiu a linha tensionar, o ouviu gritar e
largou a pipa imediatamente. Ela no sabia se a brisa estava forte o suficiente, mas a
pipa disparou em direo ao cu em questo de segundos. Josh parou de correr e se
virou. Enquanto ela caminhava em sua direo, ele deixou a linha correr ainda mais.
  Chegando at onde o garoto estava, ela protegeu seus olhos do sol enquanto
observava a pipa subir cada vez mais. Em preto e amarelo, o distintivo do Batman era
visvel, mesmo quela distncia.

  -- Eu sei soltar pipa muito bem -- disse ele, olhando para o cu. -- Por que voc
nunca soltou uma?

  -- No sei. Mas no era uma coisa que eu fazia quando era criana.

  -- Voc devia experimentar.  divertido.

  Josh continuou a olhar para cima, seu rosto demonstrando toda a sua concentrao.
Pela primeira vez, Katie percebeu o quanto Josh e Kristen eram parecidos.

  -- Voc gosta de ir  escola? Voc est no jardim de infncia, no ?

  -- Ah, a escola  legal. Gosto mais da hora do recreio. Meus amigos e eu apostamos
corrida e fazemos outras coisas.

  " claro", pensou ela. Desde que eles chegaram  praia ele no parou de se mexer
nem por um minuto. -- E voc gosta da sua professora?

  -- Ela  muito legal e se parece com meu pai. Ela no grita com os alunos.

  -- Seu pai no grita?

  -- No -- disse ele, cheio de convico.

  -- E o que ele faz quando fica bravo?

  -- Meu pai no fica bravo.

  Katie estudou Josh, perguntando-se se ele estava sendo sincero, antes de perceber
que o garoto era incapaz de mentir.

  -- Voc tem muitos amigos? -- perguntou ele.

  -- No muitos, por qu?
  -- Meu pai diz que voc  amiga dele. Foi por isso que ele a trouxe  praia.

  -- Quando ele lhe disse isso?

  -- Quando estvamos no meio das ondas.

  -- E o que mais ele disse?

  -- Ele perguntou se ns no havamos ficado incomodados por voc ter vindo.

  -- E vocs ficaram?

  -- Claro que no -- disse ele, dando de ombros. -- Todo mundo precisa de amigos,
e a praia  um lugar muito divertido.

  No havia como contestar aquilo. -- Voc est certo -- disse ela.

  -- Minha me costumava vir aqui conosco, sabe?

  --  mesmo?

  -- Sim, mas ela morreu.

 -- Eu sei. E lamento muito por isso. Deve ser muito difcil. Imagino que voc sinta
muita saudade dela.

  Ele assentiu. Por um instante, Josh pareceu ao mesmo tempo mais velho e mais novo
do que realmente era. -- Meu pai fica triste s vezes. Ele acha que eu no percebo,
mas d para perceber.

  -- Acho que eu tambm ficaria triste -- disse Katie.

  Josh ficou em silncio enquanto pensava na resposta dela. -- Obrigado por me
ajudar com a pipa -- disse ele.


-- PARECE QUE VOCS dois esto se divertindo bastante -- observou Alex.

  Depois que Kristen trocou de roupa, Alex a ajudou a colocar a pipa no ar e foi at
onde Katie estava sentada, na areia compactada perto da borda da gua. Katie podia
sentir seu cabelo se movendo lentamente com a brisa.

  -- Ele  um doce. E mais comunicativo do que eu achava que seria.

  Enquanto Alex observava os filhos empinando suas pipas, Katie teve a sensao de
que os olhos dele no perdiam nenhum detalhe.

  -- Ento  isso que voc faz nos fins de semana, depois de sair da loja. Voc sai
para se divertir com seus filhos.

  -- Sempre. Eu acho isso muito importante.

  -- Mesmo que seus pais no tenham a mesma opinio?

  Ele hesitou. -- Essa seria uma resposta fcil, no ? Admitir que me senti
prejudicado e jurei a mim mesmo que seria diferente? Parece uma boa ideia, mas no
sei se as coisas funcionam exatamente assim. A verdade  que passo meu tempo com
eles porque gosto de fazer isso. Eu gosto deles. E gosto de observ-los enquanto
crescem, e quero ser parte desse processo.

  Conforme Alex respondia, Katie percebeu que estava rememorando sua prpria
infncia, tentando imaginar se sua me ou seu pai teriam os mesmos sentimentos de
Alex, sem conseguir.

  -- Por que voc entrou para o exrcito logo depois de se formar?

  -- Naquela poca, achava que era a coisa certa a fazer. Eu queria um desafio novo,
queria experimentar algo diferente e o alistamento era uma boa desculpa para que eu
sasse de Washington. Com exceo de uma meia dzia de competies de natao,
nunca sa realmente do estado onde nasci.

  -- Voc chegou a...?

  Quando ela deixou a frase no ar, ele terminou a sentena para ela. -- Combater?
No, eu no era esse tipo de soldado. Eu me formei em direito criminal na faculdade e
fui designado para o DIC.
  -- O que  isso?

  Quando Alex explicou o significado da sigla, ela se virou em direo a ele. -- 
como a polcia?

  Ele assentiu. -- Eu era um investigador -- disse ele.

  Katie no disse nada. Em vez disso, ela virou o rosto abruptamente, e sua expresso
foi se fechando como um porto de ao.

  -- Eu disse alguma coisa errada? -- perguntou ele.

  Ela balanou a cabea sem responder. Alex olhou fixamente para ela, imaginando o
que poderia estar errado. Suas suspeitas a respeito do passado dela apareceram quase
imediatamente.

  -- O que est havendo, Katie?

  -- Nada -- insistiu ela. No entanto, assim que aquelas palavras surgiram, Alex
soube que ela no estava dizendo a verdade. Em outro lugar e em outro tempo, ele
provavelmente teria aproveitado para fazer mais perguntas. Mas, em vez disso, deixou
o assunto morrer ali.

  -- No precisamos falar sobre isso -- disse ele, com um tom tranquilo. -- E, alm
disso, no tenho mais nada a ver com o exrcito e com o DIC. Acredite em mim quando
digo que me sinto muito mais feliz cuidando de uma loja de convenincia.

  Ela fez que sim com a cabea, mas Alex sentiu vestgios de ansiedade nela. Sabia
que Katie precisava de espao, mesmo que no tivesse certeza do motivo. Ele apontou
por cima do ombro com seu polegar. -- Olhe, preciso colocar mais carvo na
churrasqueira. Se as crianas no ganharem suas guloseimas, vou passar o ms inteiro
ouvindo reclamaes. No demoro.

  -- Claro -- disse ela, fingindo estar despreocupada. Quando ele se afastou, Katie
respirou aliviada, sentindo que havia conseguido escapar. "Ele trabalhava como
investigador policial", pensou ela consigo mesma, enquanto tentava dizer a si mesma
que aquilo no importava. Mesmo assim, demorou quase um minuto inteiro tentando
controlar sua respirao at que voltasse a se sentir no controle da situao novamente.
Kristen e Josh estavam nos mesmos lugares, embora Kristen tivesse se abaixado para
examinar outra concha, ignorando sua pipa, que voava para longe.

  Ela ouviu Alex se aproximando.

  -- Eu disse que no demoraria. Depois das guloseimas de sobremesa, estava
pensando em juntar as coisas e ir para casa. Gostaria de ficar at o pr do sol, mas
Josh tem que ir para a escola cedo amanh.

  -- A qualquer hora que voc queira ir embora para mim est bem -- disse ela,
cruzando os braos.

  Percebendo os ombros rgidos e a tenso na voz de Katie, Alex franziu as
sobrancelhas. -- No sei o que foi que eu disse que lhe incomodou tanto, mas peo
desculpas -- disse ele, aps alguns momentos. -- Apenas saiba que estou aqui se voc
quiser conversar a respeito.

  Ela assentiu sem responder e, embora Alex estivesse esperando que ela dissesse
algo, nada sobreveio. --  assim que as coisas vo ser entre ns? -- perguntou ele.

  -- O que voc quer dizer?

  -- Parece que, de repente, estou pisando em ovos enquanto conversamos, mas no
sei realmente o motivo.

  -- Eu contaria a voc, mas no posso -- disse Katie. Ela falava num tom to baixo
que era quase encoberto pelo som das ondas.

  -- Pode pelo menos me informar o que foi que eu disse? Ou o que foi que eu fiz?

                                    oc
 Ela se virou em direo a ele. -- V no disse nem fez nada de errado. Mas, neste
momento, no posso dizer nada alm disso, est bem?

  Ele a observou demoradamente. -- Tudo bem, ento. Desde que voc ainda esteja se
divertindo.

  Ela precisou se esforar um pouco, mas finalmente conseguiu abrir um sorriso. --
Este foi o melhor dia que j tive em muito, muito tempo. Na verdade, o melhor fim de
semana.

  --V  oc ainda est brava por causa da bicicleta, no ? -- disse ele, apertando os
olhos e fingindo estar desconfiado. Apesar da tenso que sentia, Katie riu.

                          ou
  --  claro que estou. V levar um bom tempo para me recuperar daquilo -- disse
ela, fingindo estar magoada.

  Olhando em direo ao horizonte, ela pareceu estar aliviada.

  -- Posso lhe perguntar uma coisa? -- disse Katie, mais uma vez assumindo uma
postura sria. -- Voc no precisa responder, se no quiser.

  -- Pode perguntar o que quiser -- disse ele.

  -- O que aconteceu com sua esposa? Voc disse que ela teve uma convulso, mas
no me disse o que a deixou doente.

  Ele suspirou, como se soubesse o tempo todo que ela faria aquela pergunta. Ainda
assim, ele teve que se empedernir para responder. Ele comeou a falar lentamente.

   -- Ela teve um tumor no crebro. Ou, para ser mais exato, teve trs tipos diferentes
de tumores no crebro. Eu no sabia na poca, mas os mdicos dizem que no  to
incomum de acontecer. Havia um que estava crescendo lentamente, que  o tipo de
tumor que todos conhecem; era do tamanho de um ovo e os cirurgies conseguiram
remov-lo quase completamente. Mas os outros no eram to simples. Eram tumores
que crescem e se espalham como se fossem patas de aranha e no havia como extirp-
los sem remover parte do crebro dela. Eles eram agressivos tambm. Os mdicos
fizeram o melhor que podiam, mas quando saram da sala de cirurgia dizendo que o
procedimento havia sido realizado de acordo com o que era possvel, eu soube
exatamente o que eles queriam dizer.

  -- Eu no consigo imaginar como seria ouvir esse tipo de notcia -- disse Katie,
olhando para a areia.

  -- Eu admito que foi difcil conseguir acreditar naquilo. Foi muito... inesperado.
Afinal, na semana anterior, ns ramos uma famlia normal e, na seguinte, ela estava
morrendo e no havia nada que eu pudesse fazer para impedir que isso acontecesse.

  A alguns metros, Kristen e Josh ainda estavam ocupados com suas pipas, mas Katie
sabia que Alex mal podia v-los.

  -- Depois da cirurgia, ela levou algumas semanas para voltar a caminhar e agir
normalmente, e eu queria acreditar que tudo estava bem. Entretanto, semana aps
semana, comecei a perceber as mudanas, por menores que fossem. O lado esquerdo
do corpo dela comeou a enfraquecer e ela estava dormindo por perodos cada vez
mais longos. Foi difcil, mas a pior parte para mim foi perceber que ela comeou a se
afastar das crianas. Como se no quisesse que eles se lembrassem dela nos dias em
que estava doente; ela queria que eles se lembrassem dela do jeito que costumava ser e
agir.

  Alex parou e tomou flego, finalmente balanando a cabea. -- Desculpe. Eu no
devia ter lhe contado isso. Ela era uma tima me. Afinal, veja como os meninos so
timos filhos.

  -- Acho que o pai delas tem algo a ver com isso tambm.

  -- Eu me esforo. Mas, em boa parte do tempo, me sinto como se no soubesse
direito o que estou fazendo.  como se eu estivesse fingindo, ou fazendo tudo sem
qualquer critrio.

  -- Acho que todos os pais se sentem assim.

  Alex se virou para encar-la. -- Os seus tambm se sentiam?

 Ela hesitou. -- Acho que meus pais fizeram o melhor que podiam -- respondeu
Katie. No era realmente um elogio, mas era a verdade.

  -- Voc ainda tem contato com eles?

  -- Eles morreram em um acidente de carro quando eu tinha dezenove anos.

  Ele olhou para ela com ateno. -- Eu lamento por isso.
  -- Foi difcil -- disse Katie.

  -- Voc tem irmos ou irms?

  -- No -- disse ela, virando-se para a gua do mar. -- Sou sozinha.


ALGUNS MINUTOS DEPOIS, Alex ajudou as crianas a recolherem as pipas e voltaram para
a rea de piquenique. As brasas ainda no estavam no ponto e Alex aproveitou o tempo
para esfregar a areia das pranchas e bater as toalhas antes de pegar o que precisava
para assar as guloseimas e os doces na churrasqueira.

  Kristen e Josh guardaram a maior parte das suas coisas e Katie colocou o restante da
comida de volta na caixa trmica enquanto Alex comeou a levar as coisas de volta
para o jipe. Quando terminou, havia restado apenas uma toalha e quatro cadeiras. As
crianas as haviam colocado em um crculo conforme Alex distribua espetos longos e
o saco de marshmallows. Em meio  animao que sentia, Josh rasgou o plstico,
despejando uma pequena pilha sobre a toalha que estava na areia.

   Seguindo o exemplo das crianas, Katie enfiou trs marshmallows em seu espeto e,
junto com Alex, Josh e Kristen, ficou em p ao lado da churrasqueira, girando o espeto
entre os dedos  medida que a camada exterior dos doces se derretia e mudava de cor
para um marrom caramelado. Katie deixou os seus perto demais das brasas e dois de
s e us marshmallows pegaram fogo, os quais Alex imediatamente soprou at se
apagarem.

  Quandos os marshmallows estavam prontos, Alex ajudou seus filhos a terminar a
preparao do doce: calda de chocolate por cima do biscoito doce, seguido pelos
marshmallows e coberto por outro biscoito. Era uma sobremesa doce e pegajosa, e era
a melhor coisa que Katie j havia comido em toda a sua vida.

  Sentada entre as crianas, ela percebeu que Alex estava se esforando para no
deixar que seus biscoitos se esfarelassem, e acabou por se lambuzar inteiro. Quando
usou seus dedos para limpar a boca, s piorou a situao. As crianas acharam aquilo
hilrio e Katie no conseguiu evitar uma risadinha tambm. Ao mesmo tempo, ela
sentiu uma onda inesperada e repentina de esperana. Apesar da tragdia que eles
haviam atravessado, aquela famlia parecia ser feliz. Era isso que uma famlia que se
ama fazia quando estavam juntos. Para eles, no era nada alm de um dia comum no
final de semana, mas, para Katie, havia algo parecido com uma revelao: perceber
que, aps tantos anos, momentos felizes como aqueles podiam existir. E que talvez,
algum dia, ela teria a possibilidade de viver dias parecidos como aqueles no futuro.
                                         12


-- E DEPOIS, o que aconteceu?

  Jo estava sentada em frente  Katie, do outro lado da mesa. A cozinha havia
assumido uma tonalidade amarela, iluminada apenas pela lmpada que ficava sobre o
fogo. Quando Katie retornou, Jo veio bater em sua porta, com respingos de tinta no
cabelo. Katie comeou a preparar um bule de caf e havia duas xcaras sobre a mesa.

  -- Nada de mais. Depois que terminamos de comer os doces, demos uma ltima
volta na praia, entramos no carro e voltamos para casa.

  -- Ele acompanhou voc at a porta de casa?

  -- Sim.

  -- Voc o convidou para entrar?

  -- Ele tinha que levar as crianas de volta.

  -- Voc lhe deu um beijo de boa-noite?

  --  claro que no.

  -- Por que no?

  --V  oc no ouviu o que eu disse? Ele levou os filhos para a praia e me convidou
para ir junto. No foi um encontro romntico.

  Jo levantou sua xcara de caf. -- Para mim, pareceu um encontro romntico.

  -- Foi um dia em famlia.
  Jo considerou aquilo. -- Parece tambm que vocs passaram um bom tempo
conversando.

  Katie se recostou em sua cadeira. -- Acho que voc queria que fosse um encontro.

  -- E por que eu iria querer isso?

  -- No sei. Mas desde que nos conhecemos, a cada vez que conversamos, voc faz
questo de mencion-lo.  como se voc estivesse tentando... no sei. Como se
estivesse tentando fazer com que eu o notasse.

  Jo agitou o contedo de sua xcara antes de coloc-la de volta na mesa. -- E voc o
notou?

  Katie jogou as mos para cima. -- Est vendo o que eu quero dizer?

  Jo riu antes de balanar a cabea. -- Tudo bem. Que tal pensar deste modo? -- Ela
hesitou antes de prosseguir. -- J conheci vrias pessoas e, com o passar do tempo,
desenvolvi instintos nos quais aprendi a confiar. Como ns duas sabemos, Alex  uma
tima pessoa. E quando conheci voc, Katie, tive a mesma opinio. E no fiz nada
alm de provocar voc em relao a ele. No arrastei voc at a loja e os forcei a se
apresentarem. Tambm no estava por perto quando ele a convidou para ir  praia, um
convite que voc estava mais do que disposta a aceitar.

  -- Kristen me pediu para ir...

  -- Eu sei. Voc me contou -- disse Jo, levantando uma sobrancelha. -- E eu tenho
certeza de que esse foi o nico argumento que a convenceu a aceitar o convite.

  Katie fez uma careta. -- Voc tem essa mania de distorcer as coisas.

  Jo riu novamente. -- J lhe passou pela cabea que estou fazendo isso porque senti
inveja de voc? Oh, no por voc ter sado com Alex, mas por voc ter ido  praia em
um dia perfeito como hoje, enquanto eu estava enfurnada em casa pintando minhas
paredes pelo segundo dia consecutivo. Nunca mais quero encostar um dedo em um rolo
de pintura pelo resto da minha vida. Meus braos e ombros esto bastante doloridos.
  Katie se levantou e foi at o balco. Ela se serviou de mais uma xcara de caf e
levantou o bule, oferecendo-o a Jo. -- Quer mais?

  -- No, obrigada. Preciso dormir esta noite e cafena demais pode atrapalhar. Acho
que vou ligar para o restaurante de comida chinesa e pedir que me tragam algo para
jantar. Voc quer um pouco?

  -- No estou com fome -- disse Katie. -- Comi demais hoje.

   -- No acho que isso seja possvel, embora voc tenha tomado bastante sol. A cor
fica tima em voc, mesmo que daqui a alguns anos isso lhe traga algumas rugas.

  Katie fez outra careta. -- Obrigada por me lembrar.

  -- Amigos so para essas coisas -- disse Jo, levantando-se e espreguiando-se. --
A noite passada foi tima, ainda que eu tenha que admitir que paguei o preo por ela na
manh de hoje.

  -- Foi divertido -- concordou Katie.

   Jo deu alguns passos antes de se virar. -- Ah, me esqueci de perguntar. Voc vai
ficar com a bicicleta?

  -- Sim -- respondeu ela.

  Jo pensou no caso. --  uma boa ideia.

  -- O que voc quer dizer com isso?

  -- Simplesmente acho que voc no precisa devolv-la. Voc obviamente precisa de
um meio de transporte e ele queria que voc ficasse com ela. Por que voc iria querer
devolv-la? -- Jo deu de ombros. -- Seu problema  que voc fica procurando demais
por significados ou segundas intenes nas aes e nas palavras dos outros.

  -- Assim como fao com minha amiga manipuladora?

  -- Voc realmente acha que sou manipuladora?
 Katie pensou por um momento. -- Talvez seja um pouco, sim.

  Jo sorriu. -- E como est sua agenda de trabalho esta semana? Vai trabalhar
bastante?

 Katie fez que sim com a cabea. -- Seis noites e trs dias.

 Jo fez uma careta. -- Eca.

 -- No tem problema. Preciso do dinheiro e j estou acostumada.

 -- E,  claro, voc teve um timo fim de semana.

 Katie considerou aquelas palavras. -- ... tive, sim.
                                        13



OS DIAS SEGUINTES se passaram sem muitas novidades, o que apenas fez com que
parecessem mais longos do que o habitual para Alex. Ele no conversava com Katie
desde que a havia deixado em casa na noite de domingo. No era algo completamente
inesperado, pois ele sabia que ela iria trabalhar bastante naquela semana; entretanto,
mais de uma vez ele se apanhou saindo da loja e olhando pela estrada na direo da
casa dela, sentindo-se vagamente decepcionado quando no a via.

  Foi o bastante para esmagar a iluso de que ele a havia encantado de tal maneira que
ela no conseguiria resistir  tentao de vir  loja para v-lo. Mesmo assim, ficou
surpreso pelo entusiasmo quase adolescente que sentia ao pensar em rev-la, mesmo
que Katie no tivesse o mesmo sentimento. Ele a imaginava na praia, com seu cabelo
castanho balanando com a brisa, as feies delicadas do seu rosto e olhos que
pareciam mudar de cor toda vez que a via. Pouco a pouco, ela conseguiu relaxar
conforme o dia avanou e Alex teve a sensao de que o passeio na praia havia, de
algum modo, suavizado a resistncia que ela tinha.

  No era apenas o passado de Katie que o intrigava, mas tambm todas as outras
coisas que ele no sabia a seu respeito. Tentou imaginar, por exemplo, que tipo de
msica ela gostava ou qual a primeira coisa que pensava quando acordava pela manh,
ou se ela j havia ido at um estdio de beisebol para assistir a uma partida. Ele se
perguntava se ela dormia de costas ou de lado e, se tivesse a oportunidade de escolher,
se preferiria tomar banho em um chuveiro ou em uma banheira. Quanto mais pensava
nela, mais curioso ficava.

  Na quinta-feira, Alex estava decidindo se deveria ir at a casa de Katie ou no. Ele
queria fazer isso e j havia at pegado as chaves do carro, mas acabou desistindo da
ideia porque no sabia o que diria quando chegasse l. Tambm no sabia qual seria a
reao de Katie. Ser que iria sorrir? Ou seria tomada pelo nervosismo? Ela o
convidaria para entrar ou o mandaria embora? Por mais que ele tentasse imaginar o
que aconteceria, no conseguiu, ento acabou deixando as chaves do carro de lado.

 Era complicado. Mas acabou se lembrando, mais uma vez, de que ela era uma
mulher misteriosa.


NO DEMOROU MUITO para que Katie admitisse que a bicicleta fora um presente que caiu
dos cus. Alm de poder voltar para casa nos dias em que trabalhava por dois
perodos no restaurante, ela sentiu que, pela primeira vez, poderia realmente comear a
explorar a cidade. E foi exatamente o que fez. Na tera-feira, visitou duas lojas de
antiguidades, apreciou as paisagens martimas pintadas em aquarela que estavam
expostas em uma galeria de artes e pedalou por entre alguns dos bairros de Southport,
admirando as amplas varandas e os prticos que adornavam as casas perto da orla
marinha. Na quarta, foi at a biblioteca e passou algumas horas examinando as
prateleiras, lendo as orelhas dos livros do acervo e enchendo a cestinha da bicicleta
com os romances que despertaram seu interesse.

   Durante a noite, entretanto, enquanto lia os livros que havia tomado emprestado
deitada em sua cama, ela s vezes percebia que perdia a concentrao e deixava a
imagem de Alex povoar seus pensamentos. Com as memrias da poca em que vivia
em Altoona, ela percebeu que Alex fazia com que se lembrasse do pai de sua amiga
Callie. Durante o segundo ano do ensino mdio, Callie morava na mesma rua que ela e,
embora no se conhecessem to bem -- Callie era dois anos mais nova -- Katie se
lembrava de sentar nos degraus da sua varanda nas manhs de sbado. Como um
relgio, o pai de Callie abria a porta da garagem, assobiando uma msica enquanto
tirava o cortador de grama e o posicionava em um dos cantos do jardim. Ele tinha
orgulho do seu jardim -- era provavelmente o mais bem cuidado de todo o bairro -- e
ela o observava enquanto ele passava o aparelho sobre o gramado com uma preciso
militar. De vez em quando, ele parava para tirar um galho cado no caminho do
cortador e, naqueles momentos, esfregava o rosto com um leno que deixava guardado
no bolso de trs do seu short. Quando terminava, apoiava-se no cap do carro que
deixava estacionado em frente  sua garagem, degustando um copo de limonada que sua
esposa sempre vinha lhe trazer. s vezes, ela se recostava no carro ao lado do marido,
e Katie sorria enquanto o observava tocar o quadril da esposa quando queria que ela
lhe desse ateno.

  Havia um qu de satisfao na maneira como ele bebia a limonada e tocava a esposa
que fazia Katie pensar. Aquele homem estava satisfeito com a vida que tinha e todos os
seus sonhos, de alguma forma, haviam se realizado. Frequentemente, enquanto Katie o
observava, ela se perguntava como seria sua vida se ela tivesse nascido naquela
famlia.

  Alex tinha aquele mesmo ar de satisfao quando seus filhos estavam por perto. De
certa maneira, ele no somente havia conseguido superar a tragdia de perder a esposa,
mas havia conseguido faz-lo com fora suficiente para ajudar seus filhos a superarem
aquela perda tambm. Quando ele falava sobre a esposa falecida, Katie havia tentado
perceber se havia tristeza ou autopiedade em sua voz, mas no detectou nenhum desses
sentimentos.  claro que havia ressentimento e um toque de solido. Entretanto, mesmo
quando Alex falava sobre sua esposa, ele no fazia comparaes entre ela e Katie. Ele
parecia aceit-la e, mesmo que ela no soubesse exatamente quando aquilo havia
acontecido, percebeu que estava se sentindo atrada.

   Mesmo assim, seus sentimentos eram bastante complicados. Katie no baixava a
guarda para deixar algum se aproximar desde o tempo em que tinha morado em
Atlantic City, e a experincia acabara sendo um pesadelo. Entretanto, por mais que ela
tentasse permanecer distante, parecia que toda vez que ela via Alex algo acontecia
para fazer com que os dois se aproximassem. s vezes por acidente, como o dia em
que Josh caiu no rio e ela ficou com Kristen. Outras vezes, parecia at mesmo que era
obra do destino. Como no dia em que a tempestade caiu. Ou quando Kristen saiu da
loja e implorou a ela para que fosse  praia com a famlia. Quanto mais tempo ela
passava ao lado de Alex, mais sentia que ele sabia muito mais do que deixava
transparecer e aquilo a assustava. Fazia com que se sentisse nua e vulnervel e aquele
era um dos motivos pelo qual ela evitara ir at a loja dele durante a semana inteira. Ela
precisava de tempo para pensar, tempo para decidir o que faria a respeito daquela
situao, se  que faria alguma coisa.

   Infelizmente, ela havia passado tempo demais se lembrando da maneira como as
linhas de expresso ao lado dos olhos de Alex se juntavam quando ele sorria, ou dos
movimentos graciosos que ele fizera ao sair do mar. Pensou em Kristen buscando a
mo do pai e a total confiana que Katie via naquele simples gesto. No incio, Jo havia
dito algo sobre Alex ser um bom homem, o tipo de homem que faz a coisa certa e,
embora Katie no pudesse dizer que o conhecesse bem, seus instintos lhe diziam que
ele era um homem em quem ela podia confiar. Que, no importava o que lhe dissesse,
ele a apoiaria, guardaria seus segredos e nunca usaria o que sabia para mago-la.

  Eram ideias irracionais e ilgicas, que iam contra tudo o que ela tinha prometido a si
mesma quando se mudou para Southport. Mas Katie percebeu que queria que ele a
conhecesse melhor. Ela queria que ele a entendesse, porque tinha a estranha sensao
de que ele era o tipo de homem pelo qual ela poderia se apaixonar, mesmo que no
quisesse.
                                        14



CAAR BORBOLETAS.

  A ideia havia surgido em sua mente logo depois de acordar na manh de sbado, at
mesmo antes de descer at a loja para abrir as portas para o pblico. Estranhamente,
enquanto ele imaginava as possibilidades que teria para entreter seus filhos naquele
dia, se lembrou de um projeto que havia feito quando estava na 6 srie. A professora
havia pedido aos alunos que fizessem uma coleo de insetos. Sua memria voltou at
uma tarde em que ele estava correndo por um gramado durante o recreio da escola,
buscando qualquer inseto no qual conseguisse pr as mos, de abelhas a gafanhotos.
Tinha certeza de que Josh e Kristen gostariam de fazer aquilo e, sentindo orgulho de si
mesmo por ter pensado em algo interessante e original para ocupar uma tarde do fim de
semana, remexeu nas redes de pesca que tinha na loja, escolhendo trs que tinham o
tamanho apropriado.

 Quando comentou sobre a ideia com as crianas na hora do almoo, elas no ficaram
muito entusiasmadas.

  -- No quero machucar nenhuma borboleta. Eu gosto delas -- protestou Kristen.

  -- Ns no vamos machuc-las. Podemos solt-las depois.

  -- Ento por que precisamos ca-las?

  -- Porque  divertido.

  -- No acho que seja divertido. Para mim, parece uma malvadeza.

  Alex abriu a boca para responder, mas no soube exatamente o que dizer. Josh deu
outra mordida no seu sanduche de queijo grelhado.
  -- O dia est muito quente, papai -- declarou Josh, falando enquanto mastigava.

  -- Tudo bem. Podemos ir nadar no riacho depois de caar as borboletas. E mastigue
com a boca fechada.

  Josh engoliu. -- Por que no vamos nadar no riacho agora?

  -- Porque vamos sair para caar borboletas.

  -- No podemos ir ao cinema em vez de fazer isso?

  -- Isso! Vamos ao cinema!

  s vezes, Alex achava que ser pai era uma experincia exasperante.

  -- O dia est lindo e no vamos pass-lo enfurnados em um cinema. Ns vamos sair
para caar borboletas. E isso no  tudo: vocs dois vo gostar do passeio,
entenderam?

  Aps o almoo, Alex os levou para um campo nos arredores da cidade que estava
repleto de flores do campo. Ele lhes entregou as redes que usariam para caar as
borboletas e mandou que entrassem em ao, observando enquanto Josh arrastava sua
rede atrs de si e Kristen segurava a sua contra o corpo, de maneira parecida com o
que fazia com suas bonecas.

  Alex resolveu colocar as mos  obra e correu na frente deles, com sua rede
preparada. Logo adiante, esvoaando entre as flores, ele viu dzias de borboletas.
Quando chegou perto, balanou sua rede em um arco, capturando uma. Agachando-se,
comeou a manipular a rede cuidadosamente, permitindo que o laranja e o marrom das
asas da borboleta ficassem  mostra.

  -- Uau! -- disse ele, tentando demonstrar o mximo de entusiasmo que conseguiu.
-- Peguei uma!

  Em questo de segundos, Josh e Kristen vieram correndo e olharam por cima do seu
ombro.

  -- Cuidado com ela, papai -- avisou Kristen.
  -- Pode deixar, querida. Olhe como as cores so bonitas.

  Os dois se aproximaram ainda mais.

  -- Que legal! -- gritou Josh para, no momento seguinte, correr por entre as flores e
balanar sua rede vigorosamente.

  Kristen continuou a estudar a borboleta.

  -- Acho que ela est assustada.

  -- Tenho certeza de que ela est bem. Mas vou solt-la.

   Ela assentiu enquanto Alex cuidadosamente virava a rede do avesso. De volta ao ar
livre, a borboleta se prendeu  rede antes de sair voando novamente. Os olhos de
Kristen se arregalaram com a surpresa.

  -- Pode me ajudar a pegar uma?

  -- Eu adoraria fazer isso.

  Eles passaram pouco mais de uma hora correndo por entre as flores e capturaram
oito tipos diferentes de borboletas, incluindo uma junnia, embora a maioria fosse de
hesprias. Quando terminaram, os rostos das crianas estavam vermelhos e molhados
de suor, e Alex os levou para tomar um sorvete antes de irem para o riacho que
passava atrs da casa. Os trs foram at o atracadouro e pularam juntos na gua --
Josh e Kristen usando coletes salva-vidas -- flutuando com a correnteza tranquila. Era
um dia como vrios que Alex havia passado em sua infncia. Quando eles saram da
gua, ele ficou satisfeito ao perceber que, com exceo do passeio at a praia, aquele
fora o melhor fim de semana que eles tiveram em um bom tempo.

  Mas foi cansativo tambm. Depois, quando as crianas j haviam tomado banho, elas
quiseram assistir a um filme. Alex colocou o DVD A incrvel jornada, um filme que
eles j haviam assistido dezenas de vezes, mas que sempre estavam dispostos a ver
novamente. Enquanto estava na cozinha, ele podia v-los no sof, nenhum deles
movendo um msculo, olhando para a televiso daquela maneira mesmerizada que 
tpica de crianas exaustas.

  Alex limpou o balco da cozinha e colocou os pratos sujos na lava-louas. Depois,
colocou um fardo de roupas sujas na mquina de lavar, arrumou a sala de estar e
limpou o banheiro das crianas antes de finalmente se sentar ao lado deles no sof por
alguns momentos. Josh estava enrodilhado em um dos lados do sof e Kristen no outro.
Quando o filme terminou, Alex sentiu suas prprias plpebras comeando
a pesar. Depois de trabalhar na loja, brincar com seus filhos e limpar a casa, era bom
poder simplesmente relaxar por alguns momentos.

  O som da voz de Josh o fez despertar abruptamente.

  -- Ei, papai?

  -- Sim?

  -- O que temos para o jantar? Estou morrendo de fome.


NA COPA DO RESTAURANTE, Katie olhou para o deck e depois se voltou, observando
enquanto Alex e as crianas acompanhavam a recepcionista at uma mesa aberta que
ficava perto da cerca que delimitava a varanda. Kristen sorriu e acenou assim que viu
Katie, hesitando apenas por um segundo antes de correr por entre as mesas at
alcan-la. Katie se curvou quando a garotinha colocou seus braos ao redor do seu
pescoo.

  -- Ns quisemos fazer uma surpresa! -- disse Kristen.

  -- Bem, vocs conseguiram. O que vieram fazer aqui?

  -- Meu pai no quis cozinhar para a gente hoje.

  -- No quis?

  -- Ele disse que estava cansado demais.

  -- , mas a histria no acaba a -- anunciou Alex. -- Pode acreditar.
  Katie no conseguiu perceber quando ele se aproximava e ficou em p.

  -- Ah, oi -- disse ela, sentindo o rosto corar contra sua vontade.

  -- Como esto as coisas? -- perguntou Alex.

  -- Bem -- disse ela, sentindo-se um pouco agitada. -- Ocupada, como voc pode
ver.

  -- Parece estar bem ocupada mesmo. Tivemos que esperar antes que eles
conseguissem nos arranjar uma mesa na rea onde voc atende.

  -- Esteve assim o dia todo.

  -- Bem, no vamos mais atrapalh-la. Venha, Kristen. Vamos para a mesa. A gente
se fala em alguns minutos, ou quando voc vier anotar nossos pedidos.

  -- Tchau, senhorita Katie -- disse Kristen, acenando outra vez.

  Katie os observou enquanto eles andavam at a mesa, sentindo-se estranhamente feliz
com aquela visita. Ela viu Alex abrir o cardpio e se inclinar para a frente para ajudar
Kristen a segurar o cardpio que ela tinha nas mos e, por um instante, desejou estar
sentada  mesa com eles.

  Ela arrumou seu uniforme e olhou para seu reflexo no ao inox da cafeteira. No
conseguiu ver muito, apenas uma imagem borrada. Mas foi o bastante para fazer com
que ela passasse a mo pelos cabelos. Depois de verificar rapidamente se sua camisa
no estava manchada -- no haveria nada que pudesse fazer a respeito daquilo, mas
Katie queria se certificar assim mesmo -- foi at a mesa em que Alex e as crianas
estavam sentados.

  -- Oi, gente -- disse ela, dirigindo-se a Josh e Kristen. -- Ouvi dizer que o pai de
vocs no quis fazer o jantar hoje.

  Kristen deu uma risadinha, mas Josh apenas fez que sim com a cabea. -- Ele disse
que estava cansado.

  -- Foi o que me disseram -- respondeu Katie.
  Alex revirou os olhos. -- Meus prprios filhos me jogaram debaixo de um nibus.

  -- Eu no jogaria voc debaixo de um nibus, papai -- disse Kristen, bem sria.

  -- Obrigado, querida.

  Eles pediram xcaras de ch e uma cesta de bolinhos de chuva. Katie trouxe as
bebidas para a mesa e,  medida que se afastava, sentiu que os olhos de Alex a
acompanhavam. Ela lutou contra o impulso de olhar para ele por cima do ombro,
embora quisesse desesperadamente faz-lo.

   Durante os minutos seguintes, Katie anotou pedidos e recolheu pratos das outras
mesas. Ela trouxe duas bandejas com refeies at uma outra mesa e, finalmente, veio
trazer a cesta de bolinhos de chuva.

  -- Tenham cuidado. Ainda esto bem quentes.

  --  melhor com-los enquanto esto quentes ainda -- disse Josh, colocando a mo
dentro da cesta. Kristen pegou um bolinho tambm.

  -- Ns fomos caar borboletas hoje -- disse ela.

  --  mesmo?

  -- Sim. Mas no as machucamos. Ns as soltamos depois de peg-las.

  -- Parece ter sido bem divertido. Vocs gostaram do passeio?

  -- Foi timo! Eu peguei umas 100 borboletas, eu acho. E depois fomos nadar --
disse Josh.

  -- Deve ter sido muito bom mesmo. No me admira que seu pai esteja cansado.

  -- Eu no estou cansado -- disse Josh.

  -- Eu tambm no -- disse Kristen, logo em seguida.

  -- Talvez no, mas, mesmo assim, os dois vo para a cama cedo hoje. O seu pobre e
velho pai precisa dormir -- disse Alex.

  Katie balanou a cabea. -- No seja to duro consigo mesmo -- disse ela. -- Voc
no  pobre.

  Ele levou um momento at perceber que ela estava brincando e riu. Foi alto o
bastante para que as pessoas da mesa ao lado percebessem, mas Alex no pareceu se
importar.

  -- Eu venho at aqui para relaxar e desfrutar do meu jantar e a garonete vem tirar
um sarro da minha cara.

  -- A vida  assim mesmo.

  -- Isso  o que voc diz. Da prxima vez que eu vier aqui, voc vai me mandar
escolher algo do cardpio para as crianas e ainda dizer que estou ganhando peso.

  -- Bem, eu no ia dizer nada -- comentou Katie enquanto olhava para a barriga de
Alex. Ele riu novamente e quando voltou a olh-la nos olhos ela percebeu um brilho
diferente em seu olhar, fazendo com que Katie se lembrasse de que Alex a achava
atraente.

  -- Acho que j decidimos o que vamos pedir -- disse ele.

  -- O que posso trazer para vocs?

  Alex ditou os pedidos e Katie os anotou. Ela manteve o contato visual antes de
deixar a mesa e levar o pedido para a cozinha. Enquanto continuava a trabalhar nas
mesas de sua seo -- assim que as pessoas saam, outras entravam no restaurante para
ocupar as mesas -- a garonete descobria motivos para ir at a mesa de Alex. V oltava
para encher os copos de gua e as xcaras de ch, recolheu a cesta quando os bolinhos
de chuva terminaram e trouxe outro garfo para Josh quando ele deixou o seu cair no
cho. Ela conversava tranquilamente com Alex e as crianas, aproveitando cada
momento at que lhes trouxesse o jantar.

  Mais tarde, depois que haviam terminado, Katie recolheu os pratos e lhes trouxe a
conta. Naquele momento, o sol j estava se pondo e Kristen comeou a bocejar. De
qualquer forma, o movimento no restaurante parecia estar aumentando ainda mais. Ela
teve tempo apenas para um rpido adeus enquanto as crianas desciam as escadas,
mas, quando Alex hesitou, Katie teve a impresso de que ele iria convid-la para sair.
Ela no sabia como lidaria com aquela situao, porm, antes que ele conseguisse
dizer qualquer coisa, um dos clientes de Katie derrubou uma cerveja. Ele se levantou
de sua cadeira rpido demais, esbarrando nela, e outros dois copos acabaram
tombando. Alex deu um passo atrs, sentindo que o momento no era apropriado, e
sabia que ela teria que voltar ao trabalho.

  -- At mais -- disse ele, acenando  medida que saa atrs das crianas.


NO DIA SEGUINTE, Katie abriu a porta da loja cerca de meia hora aps Alex abrir as
portas para o pblico.

  -- Voc chegou cedo -- disse Alex, surpreso.

  -- Eu levantei cedo e pensei que aproveitaria para fazer minhas compras antes das
outras coisas que preciso fazer hoje.

  -- O movimento no restaurante diminuiu ontem  noite?

  -- Depois de um bom tempo, sim. Mas estamos com menos gente na equipe esta
semana. Uma delas viajou para assistir ao casamento da sua irm e outra ligou dizendo
que estava doente. O lugar est uma loucura.

  -- Eu percebi. Mas a comida estava tima, apesar de o servio ter demorado um
pouco.

  Quando ela o olhou com uma expresso irada, ele riu. -- Isso  por ter zombado de
mim na noite passada -- disse Alex, balanando a cabea. -- V    oc me chamou de
        ou
velho. V lhe contar a verdade, meu cabelo ficou grisalho antes que eu completasse
30 anos.

      oc
  -- V se preocupa demais com isso -- disse ela, tentando devolver a provocao.
-- Mas pode acreditar em mim. Fica bem em voc. D um certo ar de respeitabilidade.
  -- E isso  bom ou ruim?

  Ela sorriu sem responder e logo depois pegou uma cesta de compras. Enquanto a
retirava da pilha, ela o ouviu limpar a garganta. -- Voc vai trabalhar tanto nesta
semana como trabalhou na semana passada?

  -- No, nem tanto.

  -- E no prximo fim de semana?

  Ela pensou por um momento. -- Estou de folga no sbado. Por qu?

  Ele apoiou as mos no balco antes de olh-la nos olhos. -- Porque eu estava
imaginando se voc gostaria que eu a levasse para jantar. S ns dois dessa vez. Sem
as crianas.

  Katie sabia que ela e Alex haviam chegado a uma encruzilhada, uma que mudaria as
coisas entre eles. Ao mesmo tempo, foi por aquela razo que ela tinha ido at a loja to
cedo. Queria descobrir se estava enganada em relao  expresso que vira nos olhos
dele na noite anterior, porque foi a primeira vez que soubera, com certeza, que queria
que ele a convidasse.

  Em meio ao silncio, entretanto, Alex pareceu no compreender o que ela estava
pensando. -- Deixe para l. No  assim to importante.

  Katie continuou olhando nos olhos dele. -- Sim, eu adoraria jantar com voc. Mas
com uma condio.

  -- E qual seria a condio?

  --V  oc j fez tantas coisas por mim que eu gostaria de poder fazer algo por voc
desta vez. Que tal se eu preparasse o jantar? Na minha casa.

  Ele sorriu, aliviado. -- Vai ser perfeito.
                                        15



NO SBADO, Katie acordou mais tarde do que o habitual. Ela havia passado os ltimos
dias indo de loja em loja, freneticamente, fazendo compras e decorando sua casa. Uma
nova cortina de seda para a janela da sala de estar, alguns quadros e psteres no
muito caros para as paredes, alguns pequenos tapetes para os cmodos e uma toalha e
copos de verdade para o jantar que iria preparar. Na noite de sexta-feira ela havia
trabalhado at de madrugada, colocando enchimento nas capas de almofada que havia
comprado e fazendo uma ltima faxina na casa. Apesar de o sol brilhar por entre as
frestas de sua janela, iluminando sua cama com listras de luz, Katie s acordou quando
ouviu o barulho de algum martelando. Com uma olhada no relgio, ela percebeu que
j passava das 9 horas.

  Arrastando-se para fora da cama, Katie bocejou e depois foi at a cozinha para
preparar um bule de caf antes de sair para a varanda, apertando os olhos devido ao
brilho do sol. Ela olhou para a casa de Jo e viu que sua amiga estava no alpendre, com
o martelo em punho, pronta para dar mais uma martelada, quando viu que Katie havia
sado de casa.

  Jo soltou o martelo. -- Espero no t-la acordado.

  -- Acordou, sim, mas est tudo bem. J passou da hora de eu estar de p. O que voc
est fazendo?

  -- Estou tentando evitar que essa veneziana se solte da parede. Quando eu cheguei
em casa ontem  noite, ela estava comeando a se desprender e eu tinha certeza de que
cairia no meio da noite. E,  claro, pensar que essa veneziana podia me acordar a
qualquer minuto se casse no cho fez com que eu demorasse um bom tempo para
conseguir dormir.
  -- Voc precisa de ajuda?

  -- No, j estou quase terminando.

  -- Aceita um caf, ento?

  -- Um caf me parece timo. Estarei a em alguns minutos.

  Katie voltou para seu quarto e trocou seu pijama por um short e uma camiseta. Ela
escovou os dentes e os cabelos, o suficiente para desembara-los. Por entre as frestas
da janela viu que Jo estava vindo em direo  sua casa e foi at a porta da frente para
abri-la.

  -- Sua casa est ficando muito bonita! Eu adorei os tapetes e os quadros que voc
escolheu.

  Katie deu de ombros, com um sorriso. -- Bem, estou comeando a me acostumar a
chamar Southport de lar, eu acho. Imaginei que era hora de comear a transformar esta
casa em um lugar mais permanente.

  -- Est realmente tima. Parece que voc est finalmente comeando a criar razes.

  -- E sua casa? Como est indo?

  -- Est ficando melhor. Vou convid-la para dar uma olhada quando estiver pronta.

  -- Por onde voc esteve? Faz algum tempo que no a vejo.

  Jo fez um gesto indicando que aquilo no era to incomum. -- Estive fora da cidade
por alguns dias, a trabalho, e depois fui visitar uma pessoa no fim de semana passado.
Desde ento, estive trabalhando. Voc sabe como .

  -- Tambm estive trabalhando bastante. Tive que cumprir vrios turnos no
restaurante nos ltimos dias.

  -- E vai trabalhar hoje  noite?

  Katie tomou um gole do seu caf. -- No. Convidei uma pessoa para vir jantar aqui.
  Os olhos de Jo se iluminaram. -- Posso adivinhar quem  essa pessoa?

  -- Voc j sabe quem  -- disse Katie, tentando evitar ficar com o rosto corado.

  -- Ah, eu sabia! -- disse Jo. -- Que timo. Fico muito feliz por voc. J escolheu o
que vai vestir?

  -- Ainda no.

                                                                              oc
  -- Bem, independente do que escolha, tenho certeza de que vai ficar linda. V vai
cozinhar?

  -- Voc pode no acreditar, mas at que eu sou uma boa cozinheira.

  -- E o que voc vai preparar?

  Quando Katie lhe contou, Jo levantou uma sobrancelha.

  -- Parece uma delcia -- disse ela. -- Vai ser muito bom, estou feliz por voc. Por
vocs dois, na verdade. Est animada?

  --  apenas um jantar.

  -- O que significa que voc no vai ter problemas em me contar tudo o que
aconteceu depois, no ?

  -- Acho que voc precisa encontrar algum outro passatempo.

  -- Provavelmente. Mas, neste momento, estou me divertindo bastante com sua vida,
j que minha prpria vida amorosa quase no existe nesta fase da minha vida. Uma
garota precisa sonhar, voc no acha?


A PRIMEIRA PARADA de Katie foi no salo de cabeleireiros. L, uma mulher jovem
chamada Brittany cortou seu cabelo e lhe fez um belo penteado, passando o tempo
inteiro conversando. Do outro lado da rua ficava a nica butique para mulheres de
Southport e Katie foi at ali em seguida. Embora houvesse passado em frente  loja
algumas vezes, enquanto pedalava pela cidade, ela nunca tinha entrado no
estabelecimento. Era uma das lojas em que nunca tinha imaginado que iria querer ou
precisar entrar, mas, quando comeou a olhar os produtos, at que teve surpresas
agradveis. No apenas as mercadorias eram interessantes, mas tambm os preos. As
que estavam em promoo, pelo menos. Foi nelas que Katie concentrou sua ateno.

  Estar sozinha em uma loja de roupas como aquela para fazer compras foi uma
experincia intrigante. H muito tempo no fazia algo assim e, enquanto experimentava
peas de roupa diferentes no vestirio, se sentiu muito mais livre do que nos ltimos
anos.

   Ela comprou duas peas que estavam em promoo, incluindo uma blusa bege que
ficava justa ao corpo, com apliques de contas e bordados que valorizavam seu busto e
o colo, mas sem exagero. Tambm encontrou uma bela saia estampada de vero que
combinava perfeitamente com a blusa. A saia era um pouco mais longa do que ela
queria, mas Katie sabia que podia dar um jeito naquilo. Depois de pagar pelas
compras, ela andou mais alguns passos e entrou naquela que sabia ser a nica loja de
sapatos na cidade, onde escolheu um par de sandlias. Novamente, Katie aproveitou
que as sandlias estavam em promoo e decidiu esbanjar um pouco. Sem gastar
demais,  claro. Embora fazer compras a deixasse ansiosa, lembrou-se das gorjetas
dos ltimos dias que haviam sido generosas.

  De l, ela foi at a farmcia para comprar algumas outras coisas e finalmente montou
na bicicleta para atravessar a cidade e ir at o supermercado. Ela no se apressou e
aproveitou para andar tranquilamente entre os corredores, sentindo suas velhas e
doloridas memrias tentando voltar para assombr-la -- e, desta vez, sem sucesso.

   Quando terminou, ela pedalou de volta para casa e comeou os preparativos para o
jantar. Katie iria fazer camares recheados com carne de caranguejo, salteados na
manteiga e no alho. Ela teve que puxar pela memria para se lembrar da receita, mas
como j a havia preparado vrias vezes no decorrer dos anos, estava confiante de que
no havia se esquecido de nada. Como guarnies, decidiu que iria preparar pimentes
recheados e po de milho. Para os aperitivos, pedaos de queijo brie enrolados com
tiras de bacon, cobertos com uma calda de framboesas.

  Fazia um bom tempo que no preparava uma refeio to elaborada, mas Katie
sempre gostou de recortar receitas que encontrava em revistas, desde que era mais
nova. O gosto pela culinria era a nica coisa que ela tinha em comum com sua me,
com quem compartilhou daquele interesse algumas vezes.

  Katie passou o resto da tarde ocupada com a cozinha. Misturou os ingredientes para
o po de milho e o colocou no forno, depois preparou os demais ingredientes para
rechear os pimentes e colocou-os na geladeira com os pedaos de queijo brie
enrolados com bacon. Quando o po de milho estava pronto, ela o deixou no balco
para esfriar, enquanto comeava a preparar a calda de framboesas. No era nada muito
difcil -- acar, framboesas e gua -- mas, quando terminou, a cozinha estava com
um cheiro maravilhoso. O molho tambm foi para o refrigerador. O resto poderia
esperar at um pouco mais tarde.

  No quarto, ela encurtou a saia que havia comprado at um dedo acima dos joelhos e
depois conferiu a casa pela ltima vez para ter certeza de que tudo estava em seu
devido lugar. Finalmente, ela comeou a se despir.

  Quando entrou no chuveiro, Katie pensou em Alex. Visualizou seu sorriso tranquilo e
sua maneira gentil e graciosa de se mover, e a memria lhe acendeu uma leve chama na
barriga. Embora no quisesse fazer aquilo, imaginou se ele estaria tomando seu banho
no mesmo momento em que ela. Havia algo de ertico naquele pensamento, a promessa
de algo novo e estimulante. Era apenas um jantar, ela fez questo de lembrar a si
mesma; mesmo assim, sabia que no estava sendo completamente honesta.

  Havia outra fora em ao, algo cuja existncia ela vinha tentando negar. Sentia-se
atrada por ele, mais do que gostaria de admitir. E quando saiu do chuveiro, j sabia
que teria que tomar cuidado. Alex era o tipo de homem pelo qual ela poderia se
apaixonar e aquela ideia a assustava. Ela no estava pronta para algo assim. Pelo
menos, no neste momento.

  E, logo depois de pensar naquilo, ouviu outro sussurro no fundo de sua cabea,
dizendo "sim". Talvez estivesse pronta.

  Depois de se enxugar, ela hidratou a pele com uma loo corporal de cheiro
adocicado, vestiu suas novas roupas e calou as sandlias antes de aplicar a
maquiagem que havia comprado na farmcia. No precisou de muito, apenas um toque
de batom nos lbios, um delineador e um pouco de sombra para os olhos. Escovou o
cabelo e finalizou com um par de brincos longos que havia comprado num momento de
impulso. Ao terminar, se afastou do espelho.

  "Estou pronta", pensou consigo mesma. " tudo que eu tenho". Ela se virou para um
lado e depois para o outro, ajustando a blusa at finalmente abrir um sorriso. Havia um
bom tempo que no se achava to bonita.

  Embora o sol finalmente tivesse cruzado o cu e brilhasse na direo do poente, a
casa ainda estava quente e Katie abriu as janelas da cozinha. A brisa leve bastou para
refresc-la enquanto preparava a mesa. No comeo da semana, quando estava saindo
da loja, Alex perguntou se poderia levar uma garrafa de vinho. Assim, Katie colocou
duas taas na mesa. No centro, ela colocou uma vela e, quando deu um passo para trs
para admirar a mesa que havia posto, ouviu o som de um motor que se aproximava. Ela
percebeu pelo relgio que Alex chegara bem no horrio.

  Katie respirou fundo, tentando acalmar seus nervos. Assim, depois de atravessar a
sala e abrir a porta, saiu para a varanda. Vestido com uma cala jeans e uma camisa
azul com as mangas dobradas at os cotovelos, Alex estava em p ao lado da porta do
seu carro, inclinado para dentro do veculo, tentando alcanar alguma coisa ali dentro.
Seu cabelo ainda estava um pouco molhado perto do pescoo.

  Alex tirou duas garrafas de vinho e se virou. Quando a viu, ele sentiu-se como se
estivesse paralisado, com uma expresso de pura descrena no rosto. Em p, ela estava
cercada pelos ltimos raios do pr do sol, perfeitamente radiante. E, por um momento,
tudo o que ele fez foi olhar fixamente para ela.

  O assombro de Alex era bvio e Katie deixou que aquilo tomasse conta de si,
sabendo que ela queria que aquela sensao durasse para sempre.

  -- Voc veio -- disse ela.

  O som da voz de Katie foi o suficiente para quebrar o transe, mas Alex continuou a
olhar para ela. Ele sabia que deveria dizer algo inteligente ou bem-humorado para
quebrar a tenso. Entretanto, ele se apanhou pensando: "Estou encrencado. Muito
encrencado".

  Ele no sabia exatamente o momento em que aquilo havia acontecido. Ou mesmo
quando havia comeado. Talvez fosse na manh em que ele vira Kristen nos braos de
Katie depois que Josh havia cado no rio, ou na tarde chuvosa em que ele a havia
trazido para casa, ou at mesmo durante o domingo que passaram na praia. Tudo o que
Alex sabia com certeza era que, aqui e agora, ele estava se apaixonando perdidamente
por aquela mulher e que esperava que ela sentisse o mesmo em relao a ele.

  Aps alguns momentos, ele finalmente conseguiu limpar sua garganta. -- ... Acho
que sim.
                                         16


O CU DO INCIO DA NOITE era um prisma de cores enquanto Katie conduzia Alex pela
modesta sala de estar em direo  cozinha.

  -- No sei o que voc acha, mas eu gostaria muito de abrir o vinho agora -- disse
ela.

  --  uma boa ideia. Eu no sabia o que voc iria preparar, ento trouxe uma garrafa
de sauvignon blanc e tambm um zinfandel4. Voc tem preferncia por algum deles?

  -- Vou deixar que voc escolha -- disse ela.

  Na cozinha, ela se apoiou contra o balco, deixando uma perna por cima da outra,
enquanto Alex preparava o saca-rolhas para abrir a garrafa. Pela primeira vez, ele
parecia estar mais nervoso do que ela. Com uma srie de movimentos rpidos, ele
abriu a garrafa de sauvignon blanc. Katie colocou as taas no balco ao lado dele,
percebendo o quo prximos eles estavam.

  -- Eu devia ter dito isso assim que cheguei aqui. Voc est linda.

  -- Obrigada -- respondeu ela.

  Ele serviu um pouco do vinho, colocou a garrafa sobre o balco e entregou o copo a
Katie. Quando ela o pegou, Alex sentiu o cheiro do creme para o corpo com aroma de
coco que ela havia usado.

  -- Acho que voc vai gostar do vinho. Pelo menos,  o que eu espero.

  -- Tenho certeza de que vou adorar -- disse ela, levantando o copo. -- Vamos
brindar -- props Katie, tocando a taa de Alex com a sua.
  Ela tomou um gole, sentindo-se extraordinariamente feliz com tudo: com sua prpria
aparncia, o sabor do vinho, o aroma suave do molho de framboesas que ainda
perfumava o ar, a maneira como Alex olhava para ela, esforando-se para no parecer
indiscreto.

  -- Gostaria de se sentar na varanda? -- sugeriu ela.

  Ele assentiu. Ao sarem pela porta, cada um se sentou em uma das cadeiras de
balano. No ar que esfriava lentamente, os grilos comearam a cantar, dando as boas-
vindas para a noite que chegava.

   Katie saboreou o vinho, apreciando o toque frutado que a bebida deixava em sua
lngua. -- E como esto Kristen e Josh?

  -- Eles esto bem. Eu os levei para assistir a um filme.

  -- Mas o dia estava to bonito hoje, perfeito para alguma atividade ao ar livre.

  -- Eu sei. Mas com o feriado do Dia do Soldado5 na segunda-feira, acho que ainda
poderemos fazer alguma coisa ao ar livre nos prximos dias.

  -- A loja vai abrir no Dia do Soldado?

  -- Claro que sim.  um dos dias mais movimentados do ano, pois todo mundo
pretende passar o feriado na praia. Provavelmente vou trabalhar at a 1 hora da tarde.

  --  uma pena. Mas tambm vou ter que trabalhar no feriado.

  -- Talvez eu e as crianas possamos aparecer no restaurante para te incomodar.

  --V ocs no me incomodaram nem um pouco quando estiveram l -- disse Katie,
olhando para Alex por cima de sua taa de vinho. -- Bem, as crianas no me
incomodaram, na verdade. Mas eu me lembro de voc ter reclamado da qualidade do
servio.

  -- Gente velha s sabe reclamar mesmo -- retrucou ele.

  Ela riu antes de se balanar em sua cadeira. -- Quando no estou trabalhando, gosto
de me sentar aqui e ler. O lugar  muito tranquilo, sabia? s vezes parece que sou a
nica pessoa num raio de alguns quilmetros.

                                          oc
  -- Mas voc  a nica pessoa por aqui. V vive praticamente no meio do mato --
ironizou Alex.

  Katie lhe deu um tapa amistoso no ombro. -- Veja l como fala. Gosto bastante da
minha casinha.

  -- E tem razo. Ela est melhor do que imaginei que estaria.  bem aconchegante.

  -- Ainda no est como eu quero, mas estou chegando l.  um trabalho em
progresso. E o melhor de tudo  que ela  minha e ningum ir tir-la de mim.

  Foi a vez de Alex olhar para ela. Katie estava com o olhar perdido, olhando para
alm da via de cascalhos, em direo ao campo gramado que havia adiante.

  -- Est tudo bem? -- perguntou ele.

  Ela levou algum tempo para responder. -- Estava apenas pensando que estou muito
feliz por voc estar aqui. Voc nem me conhece...

  -- Acho que a conheo bem o bastante.

  Katie no disse nada. Alex observou-a quando ela baixou os olhos.

  --V oc acha que me conhece -- disse ela, num sussurro. -- Mas, na verdade, no
conhece.

  Alex sentiu que Katie estava com medo de dizer mais. Em meio ao silncio, ele
ouviu as tbuas do piso da varanda rangendo enquanto ele se movimentava para frente
e para trs na cadeira de balano.

  -- Que tal se eu lhe disser o que acho que sei a seu respeito e voc me diz se estou
certo ou errado? Podemos fazer assim?

  Ela acenou positivamente com a cabea, apertando os lbios. Quando Alex
prosseguiu, sua voz era suave.
  -- Eu acho que voc  inteligente e charmosa, e que voc  uma pessoa de bom
corao. Eu sei que, quando quer, voc sabe se preparar para ficar ainda mais linda do
que qualquer pessoa que eu j tenha conhecido. V   oc  independente, tem um bom
                                                                              oc
senso de humor e demonstra uma pacincia incrvel para lidar com crianas. V tem
razo quando diz que no conheo detalhes especficos sobre seu passado, mas no
imagino que eles sejam importantes, a menos que voc queira me contar a respeito
deles. Todo mundo tem um passado, mas ele se limita a ser apenas o passado. V     oc
pode aprender com ele, mas no pode mud-lo. A pessoa que eu conheo  aquela que
eu quero conhecer ainda melhor.

                                                         oc
 Enquanto ele falava, Katie abriu um sorriso frgil. -- V fala como se tudo fosse
muito simples.

  -- Pode ser to simples quanto voc quiser que seja.

  Ela girou a taa entre os dedos, segurando-a pela haste, enquanto considerava
aquelas palavras. -- E se o passado no for realmente passado? E se ainda estiver
acontecendo?

  Alex continuou a encar-la. -- Voc tem medo de que ele a encontre.

  Katie titubeou. -- O que voc disse?

   -- V oc ouviu o que eu disse -- continuou Alex. Ele manteve a voz firme e
tranquila, em um tom quase conversacional, algo que havia aprendido enquanto
trabalhava no DIC. -- Eu imagino que voc j foi casada. E que talvez seu ex-marido
esteja tentando descobrir onde voc est.

  Katie se sentiu paralisar e seus olhos se arregalaram. Repentinamente, sentiu
dificuldade para respirar e se levantou da cadeira em um salto, derramando o que
restava do seu vinho. Ela recuou um passo, afastando-se dele, olhando-o fixamente e
sentindo seu rosto empalidecer.

  -- Como voc sabe tudo isso sobre mim? Quem lhe contou? -- perguntou ela, com a
mente trabalhando em alta velocidade, tentando descobrir o que havia acontecido. Alex
no poderia saber de tudo aquilo. No era possvel. Ela no havia contado a ningum.
  Com exceo de Jo.

   Perceber aquilo foi o bastante para lhe tirar o flego e ela olhou para a casa que
ficava ao lado da sua. Sua vizinha havia lhe trado a confiana, pensou ela. Sua amiga
havia lhe trado.

  To rapidamente quanto os pensamentos que corriam pela mente de Katie, a mente de
Alex tambm estava trabalhando freneticamente. Ele percebeu o medo na expresso
dela, mas ele j havia visto aquilo antes. Inmeras vezes. E ele sabia que era hora de
parar com os jogos e as dissimulaes se quisessem que a situao deles avanasse.

  -- Ningum me contou nada -- garantiu Alex. -- Mas sua reao mostra que estou
certo. De qualquer forma, isso no tem importncia. No conheo essa pessoa, Katie.
Se voc quiser me contar sobre seu passado, estou disposto a escut-la e ajudar de
qualquer maneira que esteja ao meu alcance, mas no vou lhe perguntar nada a
respeito. E, se voc no quiser me contar, tambm no h problema algum. Como lhe
disse, no conheo essa pessoa. V   oc deve ter bons motivos para querer guardar
segredo, o que significa que eu tambm no vou contar nada a ningum. No importa o
que acontea entre ns. Se voc quiser inventar um novo passado para voc, v em
frente. Darei meu respaldo total e confirmarei cada palavra que voc disser. Pode
confiar em mim.

  Katie olhou para Alex enquanto ele falava, sentindo-se confusa, amedrontada e
enraivecida, mas ouvindo atentamente cada palavra.

  -- Mas... como?

   -- Aprendi a perceber coisas que outras pessoas deixam passar. Houve uma poca
na minha vida em que isso era tudo que eu fazia. E voc no  a primeira mulher nessa
situao que conheci.

  Katie continuou olhando para ele, ainda imersa em pensamentos. -- Quando voc
estava no exrcito -- concluiu ela.

  Ele assentiu, sem desviar o olhar. Finalmente, ele se levantou da cadeira e deu um
passo cauteloso em direo a ela. -- Posso lhe servir mais um copo de vinho?
  Ainda envolvida em um turbilho de emoes, ela no conseguiu responder, mas
quando Alex estendeu a mo para pegar seu copo, deixou que ele o tomasse. A porta da
varanda se abriu com um rangido e se fechou por trs dele, deixando-a sozinha.

  Katie andou at o parapeito, lutando contra o caos que dominava seus pensamentos.
Ela resistiu ao instinto de fazer as malas, pegar a lata de caf cheia de dinheiro e sair
da cidade assim que pudesse.

  Mas o que faria? Se Alex conseguira descobrir a verdade simplesmente observando,
ento seria possvel que outra pessoa conseguisse fazer o mesmo. E, por uma obra
qualquer do destino, talvez essa outra pessoa no fosse gentil como Alex.

  Por trs dela, Katie ouviu a porta se abrir de novo. Alex saiu para a varanda e foi at
o parapeito, colocando a taa em sua frente.

  -- J terminou de pensar?

  -- No qu?

  -- Se voc vai fugir para algum lugar desconhecido assim que puder?

  Katie se virou para ele, com uma expresso chocada no rosto.

  Alex levantou as mos, mostrando-lhe as palmas. -- No que mais voc estaria
pensando? Mas, apenas para que voc saiba, estou curioso apenas porque estou
comeando a sentir fome. Seria horrvel se voc sasse correndo antes do nosso jantar.

  Ela demorou alguns segundos para perceber que ele estava brincando. Embora no
acreditasse que fosse possvel, considerando os ltimos minutos de sua conversa com
Alex, Katie percebeu que estava sorrindo aliviada.

  -- Ainda vamos jantar, no se preocupe -- disse ela.

  -- E amanh?

  Em vez de responder, ela pegou a taa de vinho. -- Quero que voc me conte como
descobriu isso.
  -- No foi apenas uma coisa -- disse Alex, mencionando em seguida algumas das
coisas que havia percebido no decorrer dos dias. -- A maioria das pessoas no
conseguiria juntar as peas.

  Katie olhava para o fundo do seu copo. -- Mas voc conseguiu.

  -- No tive como evitar.  automtico para mim.

  Ela pensou naquela resposta. -- Isso significa que voc j sabia disso h algum
tempo. Ou que, pelo menos, desconfiava.

  -- Sim -- admitiu ele.

  -- E foi por isso que voc nunca perguntou sobre meu passado.

  -- Isso mesmo -- completou ele.

  -- E mesmo assim voc queria sair comigo.

  A expresso no rosto de Alex era sria. -- Eu quero sair com voc desde o dia em
que a vi pela primeira vez. Simplesmente tive que esperar at que voc estivesse
pronta.

  Com os ltimos raios do sol desaparecendo no horizonte e o crepsculo se
aproximando, o cu azul e sem nuvens ganhava tons de um violeta plido. Eles estavam
em frente ao parapeito da varanda e Alex observou a brisa gentil que vinha do sul
agitar alguns fios do cabelo de Katie. A pele dela ganhou tons de dourado e laranja,
como um pssego; ele viu o levantar e o abaixar suave do seu peito enquanto ela
respirava. O olhar dela estava perdido na distncia, sua expresso ilegvel; Alex sentiu
sua garganta se apertar ao imaginar no que ela estaria pensando.

   -- Voc no respondeu  minha pergunta -- disse ele, finalmente quebrando o
silncio.

  Ela permaneceu quieta por alguns momentos, antes de deixar um sorriso tmido se
formar em seu rosto.

  -- Acho que vou continuar em Southport por mais algum tempo, se  isso que voc
quer saber -- respondeu ela.

  Alex inspirou o perfume que emanava dela. -- Voc sabe que pode confiar em mim.

  Katie se inclinou e apoiou a cabea no peito de Alex, sentindo a fora daquele
homem enquanto ele colocava seu brao ao redor do corpo dela. -- Acho que no
tenho escolha, no ?


ELES VOLTARAM PARA A COZINHA alguns minutos depois. Katie deixou sua taa de vinho
sobre o balco e se ocupou com os afazeres do jantar, colocando os aperitivos e os
pimentes recheados no forno. Ainda se recuperando do choque que sentira quando
Alex revelou detalhes to exatos sobre seu passado, ela ficou feliz por ter algo com
que se ocupar. Era difcil aceitar que ele ainda quisesse desfrutar de sua companhia
naquela noite. E, mais importante, que ela quisesse passar a noite com ele. No fundo do
seu corao, no tinha certeza de que merecia ser feliz e tambm no acreditava que
fosse digna de ter algum que parecia to... normal.

  Aquele era o segredo sujo associado ao seu passado. No o fato de ter sofrido com a
violncia -- de alguma forma, ela achava que merecia o que lhe acontecera,
simplesmente por ter deixado que tudo aquilo acontecesse. Mesmo agora, ela ainda se
envergonhava. Havia momentos em que se sentia incrivelmente feia, como se as
cicatrizes do passado ficassem visveis para todos.

  Mas, nesse momento e nesse lugar, seu passado importava menos do que
antigamente, porque, de algum modo, Katie suspeitava que Alex entendia a vergonha
que ela sentia. E aceitava aquele sentimento tambm.

  Ela tirou da geladeira a calda de framboesas que havia feito durante a tarde e
comeou a despej-la com uma colher em uma pequena frigideira que j estava quente
no fogo. No demorou muito e, depois de deix-la de lado, tirou os pedaos de queijo
brie enrolados com bacon do forno, cobriu-os com a calda e trouxe-os para a mesa.
Lembrando-se do vinho que ainda estava sobre o balco, ela pegou a garrafa e veio se
sentar  mesa com Alex.

  -- Isso  s para comear. Os pimentes ainda vo demorar um pouco.
  Ele se inclinou em direo  bandeja. -- O cheiro  maravilhoso.

  Alex se serviu de um dos pedaos de queijo e o levou  boca. -- Que delcia --
disse ele.

  --  bom, no ? -- disse Katie, sorrindo.

  -- Maravilhoso. Onde voc aprendeu a cozinhar assim?

  -- Eu tinha um amigo que era cozinheiro. Ele me disse que esse aperitivo consegue
encantar qualquer pessoa.

  Alex cortou outro pedao com seu garfo. -- Fico feliz por voc ter decidido ficar em
Southport. Acho que consigo me imaginar comendo este queijo com calda de
framboesas regularmente, mesmo que tenha que trocar as mercadorias da minha loja
por um prato como este.

  -- A receita no  complicada.

  --V oc nunca me viu cozinhar. Sou muito bom para fazer pratos que as crianas
gostam, mas, se for necessrio preparar algo mais elaborado, simplesmente no
consigo.

  Alex pegou seu copo de vinho e tomou mais um gole. -- Acho que o queijo vai
combinar mais com o vinho tinto. Voc se importa se eu abrir a outra garrafa?

  -- De modo algum.

  Ele se levantou e foi at o balco da cozinha. Alex abriu o zinfandel enquanto Katie
foi at o armrio e tirou mais duas taas. Alex encheu as duas e entregou uma delas a
Katie. Os dois estavam perto o bastante para que seus corpos quase se tocassem, e
Alex teve que lutar contra o desejo de pux-la para si e abra-la. Em vez disso, ele
limpou a garganta.

  -- Eu queria lhe dizer uma coisa, mas no quero que voc me entenda mal.

  Ela hesitou. -- Por que  que tenho a impresso de que no vou gostar do que voc
vai dizer?
  -- Eu s queria lhe dizer o quanto estava ansioso para que esta noite chegasse. Sabe,
passei a semana inteira pensando nisso.

  -- Por que voc achou que eu entenderia mal?

  -- No sei. Talvez por voc ser mulher? Porque isso faz com que eu parea estar
desesperado, e porque nenhuma mulher gosta de homens desesperados?

   Pela primeira vez naquela noite, ela riu de forma tranquila, sem nervosismo. -- Eu
no acho que voc seja um desesperado. Tenho a impresso de que, s vezes, voc fica
sobrecarregado por conta das crianas e da loja. Mas voc no  do tipo que fica me
ligando todos os dias.

  -- Eu s no fao isso porque voc no tem telefone. Mas, mesmo assim, eu queria
que voc soubesse que tudo isso significa muito para mim. No tenho muita
experincia com esse tipo de coisa.

  -- Jantares?

  -- No. Encontros romnticos. J faz um bom tempo.

  "Bem-vindo ao clube", pensou ela consigo mesma. Mas aquilo fez com que ela se
sentisse bem, de qualquer maneira. -- Vamos comer -- disse ela, convidando-o a
voltar  mesa. --  melhor com-los enquanto ainda esto quentes.

   Quando o aperitivo estava terminado, Katie se levantou da mesa e foi at o forno,
dando uma rpida olhada nos pimentes antes de lavar a frigideira que havia usado
antes. Ela juntou os ingredientes para o molho do prato principal e comeou a
prepar-lo, enquanto salteava os camares em outra panela. Quando os camares
ficaram prontos, o molho tambm j estava finalizado. Katie colocou um pimento em
cada prato e acrescentou os camares. Depois de deixar a cozinha  meia-luz, ela
acendeu a vela que havia deixado no centro da mesa. O aroma de manteiga e alho e a
luz que tremeluzia contra a parede fizeram com que a cozinha parecesse quase nova e
com que o ar se enchesse de expectativas.

  Alex e Katie jantaram e conversaram. Do lado de fora da casa, as estrelas saam de
seus esconderijos. Alex elogiou a refeio mais de uma vez, dizendo que nunca havia
provado nada melhor. Conforme a vela queimava e a garrafa de vinho se esvaziava,
Katie revelou alguns fragmentos e detalhes de seu passado, como a vida que teve em
Altoona enquanto crescia. Embora no tivesse revelado todos os detalhes sobre seus
pais a Jo, ela contou tudo a Alex, sem quaisquer reservas: as constantes mudanas, o
alcoolismo de seus pais e o fato de que teve que sobreviver sozinha desde os 18 anos.
Alex ficou em silncio durante todo o relato, escutando sem julg-la. Mesmo assim, ela
no tinha certeza sobre o que ele achava de seu passado. Quando ela finalmente parou
de falar, comeou a imaginar se no teria dito coisas demais sobre si mesma. Mas foi
nesse momento que ele colocou sua mo sobre a dela. Embora no conseguisse olhar
nos olhos de Alex, os dois se deram as mos sobre a mesa. Nenhum dos dois se sentia
disposto a quebrar a magia daquele toque, como se fossem as duas nicas pessoas que
restavam no mundo.

  -- Acho que  melhor eu comear a limpar a cozinha -- disse Katie, aps algum
tempo, finalmente quebrando o encanto. Ela se afastou da mesa. Alex ouviu os ps da
cadeira de Katie se arrastando no cho e percebeu que aquele momento havia chegado
ao fim. Tudo o que ele queria era poder senti-lo novamente.

  -- Eu quero que voc saiba que esta noite foi maravilhosa para mim -- comeou ele.

  -- Alex... eu...

  Ele balanou a cabea. -- Voc no precisa dizer nada que...

  Katie no o deixou concluir a frase. -- Mas eu quero dizer algo, est bem?

  Ela estava ao lado da mesa, com os olhos brilhando por conta de uma emoo
desconhecida. -- Eu tambm tive uma noite maravilhosa. E sei para onde isso vai nos
levar e no quero que voc fique magoado -- disse ela, exalando o ar e se preparando
para as palavras que teria que dizer a seguir. -- No posso fazer promessas. No
posso lhe dizer onde estarei amanh, ou mesmo daqui a um ano. Quando fugi pela
primeira vez, pensei que conseguiria deixar tudo para trs e comear minha vida do
zero, entende? Eu viveria minha vida e simplesmente fingiria que nada havia me
acontecido. Mas como posso fazer isso? V  oc acha que me conhece, mas no tenho
certeza nem mesmo se eu me conheo. E por mais que voc saiba algumas coisas sobre
mim, h muitas outras que voc no sabe.

  Alex sentiu algo desmoronar dentro de si. -- Quer dizer que voc no quer mais me
ver?

  -- No -- disse ela, balanando a cabea com firmeza. -- Estou dizendo tudo isso
porque eu quero v-lo outras vezes, sim. E isso me assusta, porque, no fundo do meu
corao, sei que voc merece algum melhor. V   oc merece algum em quem possa
confiar. Algum com quem seus filhos possam contar. Como eu disse, h certas coisas
sobre mim que voc no sabe.

  -- Essas coisas no me interessam -- insistiu Alex.

  -- Como voc pode dizer uma coisa dessas?

  No silncio que se seguiu quela pergunta, Alex ouviu o rudo baixo do motor da
geladeira. Pela janela, a lua havia aparecido no cu e agora iluminava o alto das copas
das rvores.

   -- Porque eu conheo a mim mesmo -- disse ele, finalmente percebendo que estava
apaixonado por ela. Amava a Katie que conhecia e tambm amava a Katie que ele no
tivera a oportunidade de conhecer. Ele levantou da cadeira e se aproximou dela.

  -- Alex... isso no pode...

   -- Katie -- sussurrou ele e, por um momento, nenhum dos dois se moveu. Alex
finalmente pousou sua mo no quadril de Katie e a trouxe para perto de si. Katie soltou
o ar, como se estivesse se livrando de um fardo que trazia h muito tempo sobre os
ombros. E, quando ela conseguiu olhar nos olhos dele, foi como se repentinamente se
tornasse fcil para Katie imaginar que seus medos fossem insignificantes. Que Alex a
amaria independentemente do que ela dissesse. Que ele era o tipo de homem que j a
amava e que a amaria para sempre.

  E foi naquele momento que ela percebeu que tambm o amava.

  Assim, Katie se permitiu toc-lo e apoiar seu rosto no peito dele. Ela sentiu os dois
corpos se tocarem e sentiu quando Alex acariciou seu cabelo com uma das mos. O
toque era suave e gentil, diferente de tudo o que ela havia sentido anteriormente, e ela
observou, encantada, enquanto ele fechava os olhos. Alex inclinou a cabea e seus
rostos se aproximaram.

  Quando seus lbios finalmente se encontraram, ela sentiu o gosto do vinho na lngua
dele. Katie se entregou a Alex, permitindo que ele beijasse sua face e seu pescoo,
arqueando as costas para trs e deliciando-se com a sensao. Ela sentia a umidade
dos lbios dele conforme eles lhe tocavam a pele, e colocou os braos ao redor do
pescoo dele.

  "Essa era a verdadeira sensao de amar algum", pensou ela, e de ter esse mesmo
amor retribudo. Katie comeou a sentir as lgrimas se formando em seus olhos. Ela
piscou, tentando no derram-las, mas era impossvel fazer aquilo. Katie o amava e o
queria. Mais do que isso, queria que Alex amasse a verdadeira Katie, com todos os
seus defeitos e segredos. Ela queria que ele soubesse toda a verdade.

  Eles se beijaram por muito tempo na cozinha, envolvidos em abraos apertados. As
mos de Alex deslizavam pelas costas e os cabelos de Katie. Ela se arrepiou ao sentir
a barba por fazer no rosto de Alex. Quando ele deslizou seus dedos pela pele do brao
de Katie, ela sentiu uma torrente de calor lquido queimar seu corpo por dentro.

  -- Eu quero muito estar com voc, mas no posso -- sussurrou ela, finalmente,
esperando que aquilo no o enervasse.

 -- Est tudo bem -- sussurrou ele. -- Eu duvido que esta noite possa ficar mais
maravilhosa do que foi at aqui.

  -- Mas voc est decepcionado.

  Alex afastou uma mecha do cabelo que caa sobre o rosto de Katie. -- No acho que
seja possvel voc me causar qualquer tipo de decepo.

  Ela engoliu em seco, tentando afastar seus temores.

  -- Tem algo que voc precisa saber sobre mim -- sussurrou ela.

  -- Seja l o que for, tenho certeza de que posso entender.
  Ela voltou a se apoiar nele.

  -- No posso passar a noite com voc.  o mesmo motivo pelo qual nunca
poderemos nos casar -- disse ela, em voz baixa. -- J sou casada.

  -- Eu sei -- sussurrou ele.

  -- E voc no se importa?

  -- No  uma situao perfeita. Mas confie em mim, tambm no sou uma pessoa
perfeita. Assim, talvez seja melhor deixarmos as coisas acontecerem, um dia aps o
outro. E quando voc estiver pronta, quando realmente se sentir  vontade, estarei
esperando.

  Alex tocou o rosto de Katie com um dedo. -- Eu amo voc, Katie. Talvez voc no
esteja preparada para dizer essas palavras agora. Talvez nunca esteja. Mas isso no
muda o que sinto por voc.

  -- Alex...

  -- Voc no precisa dizer nada, Katie.

  -- Posso explicar? -- perguntou ela, finalmente se afastando.

  Ele no fez questo de esconder sua curiosidade.

  -- Eu quero lhe contar algo. Quero lhe contar minha histria.
                                        17



TRS DIAS ANTES QUE KATIE sasse da regio da Nova Inglaterra, uma brisa gelada,
tpica do incio de janeiro, fez com que os flocos de neve congelassem, e ela teve que
baixar a cabea enquanto caminhava em direo ao salo de cabeleireiros. Seus longos
cabelos loiros esvoaavam com o vento, fazendo com que sentisse as agulhadas do
gelo conforme os flocos se chocavam contra seu rosto. Ela estava usando sapatos de
salto alto, no botas, e seus ps j estavam congelando. Atrs dela, Kevin estava no
carro, sentado ao volante, observando-a. Embora ela no tivesse se virado para olh-
lo, ela ouvia o barulho do motor e sabia que os lbios dele formavam uma fina linha
horizontal, com os msculos tensionados.

  A multido que enchia aquela regio da cidade durante o Natal j no ocupava mais
as ruas. De um dos lados do salo havia a loja Radio Shack, especializada em
produtos eletrnicos, e do outro, um pet shop. As duas lojas estavam vazias. Quando
Katie ia entrar no salo, o vento fez com que a porta se abrisse violentamente, e ela
teve que se esforar para fech-la. O ar gelado a seguiu para dentro do recinto e os
ombros de sua jaqueta estavam cobertos por uma fina camada de neve. Tirou suas
luvas e a jaqueta, virando-se ao fazer aquilo. Ela acenou para Kevin em despedida e
sorriu. Ele gostava quando ela lhe lanava um sorriso.

  Ela tinha um horrio marcado para as 2 horas com uma mulher chamada Rachel. A
maioria das cadeiras j estava ocupada e Katie no sabia para onde devia ir. Era a
primeira vez que ela vinha at este salo e sentia um certo desconforto com aquilo.
Nenhuma das cabeleireiras parecia ter mais de 30 anos e a maioria delas tinha
penteados arrojados, com mechas ou tinturas azuis e vermelhas. Logo depois, ela foi
abordada por uma garota com cerca de 25 anos, bronzeada e com alguns piercings,
alm de uma tatuagem no pescoo.

  -- Voc est agendada para as 2 horas? Corte e tintura?
  Katie fez que sim com a cabea.

  -- Meu nome  Rachel. Venha comigo.

  Rachel deu uma olhada por cima do ombro. -- Est bem frio l fora, no ? Eu quase
morri no caminho entre meu carro e a entrada do salo. Eles nos obrigam a deixar o
carro na parte mais distante do estacionamento. Detesto isso, mas no h nada que eu
possa fazer.

  -- Est bem frio -- concordou Katie.

  Rachel a levou para uma cadeira perto do canto do salo. Era uma cadeira forrada
com vinil roxo e o piso do salo era de azulejos pretos. "Um lugar para pessoas mais
jovens", pensou Katie. Mulheres solteiras que queriam se destacar. No para mulheres
casadas com cabelos loiros. Katie estava inquieta, sentindo-se agitada  medida que
Rachel cobria suas roupas com uma bata. Ela agitava os dedos dos ps, tentando
aquec-los.

  -- Voc  nova na cidade? -- perguntou Rachel.

  -- Eu moro em Dorchester -- respondeu ela.

  -- Fica um pouco longe. Algum lhe indicou o salo?

  Katie havia passado em frente ao salo h duas semanas, quando Kevin a levara s
compras, mas no chegou a dizer aquilo. Em vez disso, ela simplesmente negou com
um aceno de cabea.

  -- Bem, acho que foi sorte eu ter atendido ao telefone, ento -- disse Rachel, com
um sorriso. -- Que tipo de tintura voc quer?

  Katie detestava olhar para si mesma no espelho, mas no tinha escolha. Ela tinha que
conseguir fazer aquilo e da maneira certa. Era sua nica chance. Havia uma fotografia
colada no espelho  sua frente, mostrando Rachel e um rapaz que Katie presumiu ser o
namorado dela. Ele tinha mais piercings do que ela e tambm tinha o cabelo cortado
em estilo moicano. Por baixo da bata, Katie apertou as mos.
  -- Eu quero algo que parea natural, como umas luzes escuras, que combinem com o
inverno. E cuide das razes tambm, para que no fiquem muito destoantes.

  Rachel assentiu, olhando para o reflexo de Katie no espelho. -- Quer que o tom
geral fique da mesma cor? Mais claro ou mais escuro? O cabelo, no as luzes.

  -- Mais ou menos a mesma cor.

  -- Podemos usar a touca metlica?

  -- Sim -- respondeu Katie.

  -- Vai ser moleza, ento -- disse Rachel. -- Me d alguns minutos para preparar
minhas coisas. Eu volto j.

  Katie assentiu. Ao seu lado, ela viu uma mulher recostada em um lavatrio e outra
cabeleireira ao seu lado. Ela ouviu a gua correr e o murmrio geral das conversas que
vinha das outras cadeiras do salo. Uma msica suave vinha pelos alto-falantes.

  Rachel voltou com a touca metlica e a tintura. Perto da cadeira ela misturou os
produtos, certificando-se de que a consistncia estava correta.

  -- H quanto tempo voc mora em Dorchester?

  -- Quatro anos.

  -- E onde voc morava antes?

 -- Na Pensilvnia -- respondeu Katie. -- Eu morava em Atlantic City antes de me
mudar para c.

  -- Aquele homem que te trouxe at aqui  seu marido?

  -- Sim.

 -- Ele tem um belo carro. Vi quando voc acenou para ele. Qual  o modelo? Um
Mustang?
  Katie assentiu mais uma vez, mas no respondeu. Rachel trabalhou por algum tempo
em silncio, aplicando a tintura e ajustando a touca.

   -- H quanto tempo vocs so casados? -- perguntou Rachel, conforme aplicava a
tintura e envolvia com a touca uma mecha mais rebelde do cabelo de Katie.

  -- Quatro anos.

  -- Foi por isso que voc se mudou para Dorchester, no ?

  -- Sim.

  Rachel continuou com sua conversa. -- E o que voc faz? Com o que trabalha?

  Katie olhou para frente, tentando no enxergar a si mesma no espelho. Desejando ser
outra pessoa. Ela poderia ficar ali por uma hora e meia antes que Kevin voltasse para
busc-la e rezava para que ele no chegasse mais cedo.

  -- Eu no trabalho -- respondeu Katie.

  -- Acho que ficaria louca se no tivesse um emprego. No que seja fcil manter um,
 claro. E o que voc fazia antes de se casar?

  -- Eu era garonete e trabalhava servindo coquetis.

  -- Em um dos cassinos?

  Katie fez que sim com a cabea.

  -- Foi l que voc conheceu seu marido?

  -- Sim -- respondeu Katie.

  -- E o que ele est fazendo agora? Enquanto voc est aqui embelezando o cabelo?

  "Provavelmente est em algum bar", pensou Katie. -- No sei.

  -- E por que voc no veio at aqui dirigindo? Como eu disse, Dorchester fica um
pouco longe daqui.
  -- Eu no tenho habilitao. Meu marido me leva sempre que eu preciso ir a algum
lugar.

  -- Eu no sei o que faria sem meu carro. No  nada de especial, mas vou aonde
preciso com ele. Detestaria ter que depender de outra pessoa para ir de um lugar a
outro.

  Katie podia sentir o perfume no ar. O radiador sob o balco comeou a fazer
barulho. -- Nunca aprendi a dirigir.

  Rachel deu de ombros enquanto ajustava outro pedao da touca metlica no cabelo
de Katie. -- No  difcil. Treine um pouco, faa o teste e voc logo estar guiando
pelas ruas.

  Katie olhou para Rachel no espelho. Rachel parecia saber o que estava fazendo, mas
ela ainda era jovem e estava comeando sua vida, e enquanto a olhava, Katie desejava
que ela fosse mais velha e mais experiente. E aquilo lhe pareceu estranho, porque ela
provavelmente era somente alguns anos mais velha do que Rachel. Mas Katie sentia-se
velha.

  -- Voc tem filhos?

  -- No.

   Talvez a garota tivesse percebido que dissera algo errado, pois trabalhou em
silncio durante os minutos seguintes. Os pedaos da touca metlica faziam Katie
parecer como se tivesse antenas na cabea, como um aliengena, at que Rachel
finalmente a conduziu para outra cadeira. Ela ligou uma das lmpadas de calor.

  -- J volto para ver como voc est em alguns minutos, certo?

  Rachel se afastou, indo em direo a outra cabeleireira. Elas comearam a
conversar, mas o murmrio generalizado no salo fazia com que fosse impossvel
compreender o que elas estavam dizendo. Katie olhou para o relgio na parede. Kevin
voltaria em menos de uma hora. O tempo estava passando rpido. Rpido demais.

  Ao voltar, Rachel verificou seu cabelo. -- Mais um pouco -- comentou ela e voltou
a conversar com sua colega, gesticulando com as mos. Animada. Jovem e
despreocupada. Feliz.

  Mais alguns minutos se passaram. Uma dzia deles. Katie tentou no olhar fixamente
para o relgio. Finalmente, a hora chegou e Rachel removeu a touca metlica antes de
levar Katie at o lavatrio. Katie se sentou e se recostou contra a pia, sentindo a toalha
ao redor da pele do pescoo. Rachel ligou a torneira e Katie sentiu um jato de gua fria
bater em seu rosto. A jovem cabeleireira massageou seu cabelo com o xampu e o
enxaguou; posteriormente, aplicou o condicionador e voltou a enxaguar.

  -- Vamos dar um belo corte agora.

  Voltando para a cadeira, Katie pensou que seu cabelo estava bom, mas era difcil
saber com certeza porque estava molhado. Tinha que estar exatamente como ela queria,
ou Kevin perceberia. Rachel penteou o cabelo de Katie, desembaraando os fios.
Ainda faltavam quarenta minutos.

  -- Quanto voc quer que eu corte?

  -- Cuidado para no cortar demais -- disse Katie. -- S tire as pontas. Meu marido
gosta dele longo.

  --V oc vai querer algum penteado diferente? Tenho uma revista de penteados se
voc quiser tentar algo novo.

  -- Eu gostaria do mesmo penteado que eu estava usando quando cheguei.

  -- Sem problemas.

  Katie observou enquanto Rachel lhe penteava o cabelo, fazendo suas mechas lhe
correrem por entre os dedos para depois os cortar com a tesoura. Primeiro atrs,
depois nas laterais. E, finalmente, na parte de cima da cabea. Rachel pegou um
chiclete em algum lugar e comeou a masc-lo, com seu queixo se movendo para cima
e para baixo enquanto trabalhava.

  -- Est bom assim?
  -- Sim, acho que j  o bastante.

  Rachel pegou o secador de cabelos e uma escova cilndrica. Ela deslizou a escova
pelos cabelos de Katie, que ouvia o rudo do secador alto em seus ouvidos.

  -- De quanto em quanto tempo voc trata o cabelo? -- perguntou Rachel, tentando
puxar assunto.

  -- Uma vez por ms -- respondeu Katie. -- Mas s vezes eu s peo um corte.

  -- Seu cabelo  muito bonito.

  -- Obrigada -- disse Katie.

  Rachel continuou a trabalhar. Katie pediu que ela lhe fizesse alguns cachos e Rachel
pegou a escova modeladora. Levou alguns minutos at que o aparelho esquentasse.
Ainda havia cerca de vinte minutos.

  Rachel cacheou e escovou os cabelos de Katie at que estivesse satisfeita e estudou
sua cliente no espelho.

  -- Est bom assim?

  Katie examinou a cor e o penteado. -- Est perfeito.

  -- D uma olhada na parte de trs -- disse Rachel. Ela girou a cadeira de Katie e
lhe entregou um espelho. Katie olhou para o reflexo duplo e acenou afirmativamente
com a cabea.

  -- Acho que est feito, ento -- disse Rachel.

  -- Quanto lhe devo?

  Rachel lhe disse o valor e Katie tirou o dinheiro de sua bolsa, incluindo a gorjeta. --
Pode me dar um recibo?

  --  claro. Venha comigo at o caixa.
   A garota preparou o recibo e o entregou a Katie. Kevin iria verific-lo e pediria o
troco quando ela voltasse para o carro, e Katie pediu a Rachel que inclusse a gorjeta
no recibo. Ela olhou para o relgio. Doze minutos.

  Kevin ainda no havia retornado e o corao de Katie estava batendo rapidamente
enquanto vestia sua jaqueta e calava as luvas. Ela saiu do salo enquanto Rachel
ainda conversava com ela. Na loja ao lado, a Radio Shack, ela pediu que o balconista
lhe mostrasse um telefone celular descartvel e um carto que lhe desse vinte horas de
servio. Ela sentiu uma forte vertigem ao dizer aquelas palavras, sabendo que, depois
daquilo, no seria possvel voltar atrs.

  O balconista lhe mostrou um que estava debaixo do balco e comeou a lhe dar os
detalhes do aparelho  medida que explicava seu funcionamento. Ela tinha mais
dinheiro em sua bolsa, escondido em um pacote de absorventes, pois sabia que Kevin
nunca iria procurar nada ali. Katie pegou o dinheiro e colocou as notas amarrotadas
sobre o balco. O relgio continuava a contar os segundos e novamente ela olhou para
o estacionamento. Ela estava comeando a sentir um pouco de tontura e sua boca
estava seca.

  O rapaz da loja demorou uma eternidade para conseguir ligar para o celular novo de
Katie. Embora fosse pagar o aparelho em dinheiro vivo, o balconista pediu que ela lhe
desse seu nome, endereo e cdigo postal. No havia qualquer motivo para aquilo. Era
ridculo. Ela queria pagar e sair logo dali. Contou at dez e o rapaz ainda estava
digitando seus dados. Na rua, o semforo acendeu a luz vermelha. Havia carros
esperando. Imaginou que Kevin poderia estar ali, pronto para passar em frente  loja.
Ela no sabia se ele conseguiria v-la saindo da loja de produtos eletrnicos. Sentia
dificuldade at para respirar.

  Ela tentou abrir a embalagem plstica, mas foi impossvel. Grande demais para
caber na bolsa que trazia, grande demais para caber no bolso de sua jaqueta. Pediu ao
balconista que lhe emprestasse uma tesoura e ele gastou um minuto precioso
procurando por uma. Ela queria gritar, mandar que ele se apressasse, porque Kevin
chegaria a qualquer momento. Em vez disso, ela se virou para olhar pela janela.

  Quando conseguiu tirar o celular da embalagem, o enfiou no bolso da jaqueta, com o
carto pr-pago. O rapaz perguntou se ela queria uma sacola, mas Katie j havia sado
pela porta sem responder. O telefone parecia pesar como um bloco de chumbo dentro
do bolso de sua jaqueta, e a neve e o gelo na calada faziam com que fosse difcil
manter o equilbrio.

  Katie abriu a porta do salo de beleza e entrou. Ela tirou a jaqueta e as luvas e
esperou ao lado do caixa. Trinta segundos depois, viu o carro de Kevin se aproximar
pela rua, at chegar perto do salo.

  Removeu rapidamente a neve que havia se acumulado em sua jaqueta, enquanto
Rachel vinha em sua direo. Ela sentiu uma onda de pnico ao imaginar que Kevin
poderia ter percebido. Concentrou-se, tentando manter o controle, agir naturalmente.

  -- Voc esqueceu alguma coisa? -- perguntou Rachel.

  Katie soltou a respirao. -- Eu ia esperar do lado de fora, mas est muito frio. E
percebi tambm que no peguei seu carto.

  O rosto de Rachel pareceu se iluminar. -- Oh,  claro. Espere um pouco -- disse
ela, indo at sua cadeira e tirando um carto de uma das gavetas do balco. Katie sabia
que Kevin a observava do carro, mas fingiu no not-lo.

  Rachel voltou e entregou seu carto para Katie. -- Geralmente no trabalho aos
domingos e s segundas-feiras -- disse ela.

  Katie assentiu. -- Ligo quando precisar dos seus servios.

   Por trs dela, ouviu a porta do salo se abrir e Kevin estava esperando por ela sob o
batente. Ele geralmente no entrava nestes lugares e ela sentiu seu corao acelerar.
Ela voltou a vestir a jaqueta, tentando controlar o tremor nas mos. At que,
finalmente, se virou e sorriu.
                                        18



A NEVE CAA MAIS FORTE quando Kevin Tierney estacionou o carro em frente  sua casa.
Havia sacolas de compras no banco de trs e Kevin pegou trs delas antes de caminhar
at a porta. Ele no havia dito nada no percurso do salo at o supermercado e falou
pouco com Katie durante as compras. Em vez disso, ele andou ao lado dela conforme a
esposa examinava as prateleiras em busca de promoes e tentava esquecer o telefone
que trazia no bolso. Eles no tinham muito dinheiro e Kevin ficaria irritado se ela
gastasse demais. As prestaes da hipoteca da casa custavam quase metade do seu
salrio e as despesas do carto de crdito lhe tiravam mais uma boa poro. Na
maioria das vezes eles precisavam comer em casa, mas Kevin gostava de refeies
como as que eram servidas em restaurantes, com um prato principal e duas guarnies,
ocasionalmente acompanhados por uma salada. Ele se recusava a comer sobras de
refeies anteriores e era difcil adequar a renda s suas exigncias. Ela tinha que
planejar os cardpios dirios com cuidado, alm de recortar cupons promocionais que
apareciam no jornal. Quando Kevin pagou pelas compras, ela lhe entregou o troco do
salo de cabeleireiros e tambm o recibo. Ele contou o dinheiro para se certificar de
que tudo estava em ordem.

   Em casa, ela esfregou os braos para se manter aquecida. A casa era velha e o ar
frio entrava pelas frestas das janelas e pelo vo embaixo da porta da frente. O piso do
banheiro era to frio que fazia seus ps doerem, mas Kevin reclamava do custo do leo
usado para aquecer a casa e nunca deixava que Katie ajustasse o termostato para uma
temperatura mais agradvel. Quando ele estava trabalhando, ela usava uma blusa de
moletom e chinelos; entretanto, quando Kevin estava em casa, ele queria que ela se
vestisse de forma sensual.

  Kevin deixou as sacolas de compras sobre a mesa da cozinha. Katie deixou suas
sacolas ao lado das que ele havia colocado ali e Kevin foi at a geladeira. Abrindo o
congelador, ele tirou uma garrafa de vodca e alguns cubos de gelo. Colocou o gelo em
um copo e despejou a vodca. Ele s parou de derramar a bebida quando seu copo
estava quase cheio. Deixando-a sozinha, ele foi at a sala de estar e Katie ouviu os
sons da televiso, ligada no canal ESPN6. O comentarista esportivo estava falando
sobre o time dos Patriots7 e as finais do campeonato de futebol americano e as chances
que a equipe tinha de conquistar mais um ttulo do Super Bowl8. No ano passado,
Kevin fora at o estdio assistir a um jogo dos Patriots. Ele era f do time desde
criana.

  Katie tirou sua jaqueta e enfiou a mo no bolso. Ela imaginava que teria alguns
minutos e esperava que fossem suficientes. Depois de espiar a sala para ver o que
Kevin estava fazendo, ela se apressou a voltar para a cozinha. No armrio debaixo da
pia havia uma caixa de esponjas para lavar loua. Ela escondeu o telefone no fundo da
caixa e o cobriu com as esponjas. Katie fechou cuidadosamente a porta do armrio
antes de pegar sua jaqueta, esperando que seu rosto no estivesse plido, rezando para
que ele no a tivesse visto. Respirando fundo para se fortalecer, colocou o casaco
sobre o brao e atravessou a sala de estar para coloc-lo no armrio que havia ali. A
sala pareceu se esticar conforme ela andava, como um quarto visto pelos reflexos de
uma casa de espelhos em um parque de diverses, mas ela tentou ignorar aquela
sensao. Katie sabia que Kevin era capaz de olhar atravs dela, de ler sua mente e
perceber o que ela havia feito, mas ele no desviou sua ateno da televiso. Ela s
sentiu a respirao voltar ao normal quando retornou  cozinha.

  Ela comeou a guardar as compras, ainda sentindo-se um pouco zonza, mas sabendo
que tinha que agir normalmente. Kevin gostava que sua casa estivesse limpa e
arrumada, especialmente a cozinha e os banheiros. Katie guardou o queijo e os ovos
em seus respectivos compartimentos na geladeira. Tirou os legumes velhos da gaveta e
a limpou com um pano antes de colocar os novos. Depois, pegou algumas vagens e uma
dzia de batatas de casca vermelha de uma cesta no cho da despensa. Deixou um
pepino no balco, com um p de alface americana e um tomate para fazer uma salada.
Para o prato principal do jantar daquela noite, prepararia fils marinados.

  Katie havia deixado os fils marinando no molho no dia anterior: vinho tinto, suco de
laranja, suco de grapefruit, sal e pimenta. A acidez dos sucos servia para amaciar a
carne e lhe dava mais sabor. Estava em uma caarola na parte de baixo da geladeira.
  Ela guardou o restante das compras, trazendo os produtos mais antigos para a frente
e dobrou as sacolas plsticas, colocando-as sob a pia. Retirou uma faca de uma gaveta.
A tbua de cortar carnes estava debaixo da torradeira e Katie a colocou ao lado do
fogo. Cortou as batatas ao meio, apenas o bastante para o jantar dos dois. A seguir,
untou uma assadeira com leo, ligou o forno e temperou as batatas com salsa, sal,
pimenta e alho. Aqueles ingredientes iriam ao forno antes dos fils e Katie teria que
requent-los mais tarde. A carne tinha que ser grelhada.

  Kevin gostava que os ingredientes da sua salada fossem cortados em pedaos bem
pequenos, com pedaos de queijo gorgonzola, croutons e molho italiano. Ela cortou o
tomate ao meio e um quarto do pepino antes de envolver o resto em filme plstico e
guard-los novamente na geladeira. Ao abrir a porta, ela percebeu que Kevin estava na
cozinha por trs dela, apoiado contra o batente da porta que levava  sala de jantar.
Ele tomou um longo gole, terminando sua vodca e continuando a observ-la, quase
onipresente.

  Ele no sabia que ela havia sado do salo, Katie fez questo de se lembrar. No
sabia que ela havia comprado um telefone celular. Ele teria dito alguma coisa. Teria
feito alguma coisa.

  -- Vamos ter fil para o jantar?

  Katie fechou a porta da geladeira e continuou a se mover pela cozinha, tentando
parecer ocupada e tentando ficar  frente de seus medos.

  -- Sim. Acabei de ligar o forno, ento ainda vai demorar alguns minutos. Preciso
colocar as batatas para assar antes.

  Kevin a olhava fixamente. -- Seu cabelo est bonito.

  -- Obrigada. A cabeleireira trabalhou bem.

  Katie voltou para a tbua de corte. Comeou a cortar o tomate, tirando uma longa
fatia.

  -- Nada de pedaos grandes -- disse ele, meneando a cabea na direo dela.
 -- Eu sei -- respondeu Katie. Ela sorriu quando ele foi at o congelador novamente.
Katie ouviu o tinir dos cubos de gelo em seu copo.

  -- Sobre o que voc conversou enquanto estava no salo de beleza?

  -- Nada de mais. As coisas de sempre. Voc sabe como as cabeleireiras so. Elas
sempre tentam puxar assunto.

 Ele balanou o copo. Ela podia ouvir os cubos de gelo batendo contra o vidro. --
Voc falou a meu respeito?

  -- No -- disse ela.

  Ela sabia que Kevin no gostaria daquilo e ele fez que sim com a cabea. Ele tirou a
garrafa de vodca do congelador outra vez e a deixou ao lado do seu copo, sobre a mesa
antes de ir atrs dela. Em p, ele observou por cima do ombro de Katie enquanto ela
picava os tomates. Pedaos pequenos, nada que fosse maior do que uma ervilha. Ela
sentia a respirao de Kevin em sua nuca e tentou no gemer quando ele colocou as
mos nos seus quadris. Sabendo o que deveria fazer, ela pousou a faca sobre o balco
e se virou na direo dele, colocando seus braos ao redor do pescoo do marido. Ela
o beijou, colocando sua lngua na boca dele, sabendo que era isso o que ele queria, e
no percebeu o tapa at que sentiu o ardor no seu rosto. Queimava. Quente e vermelho.
Estalado. Como ferroadas de abelha.

   --V oc me fez desperdiar a tarde inteira! -- gritou ele, agarrando-lhe os braos
com fora, apertando-os. Sua boca estava contorcida e os olhos estavam vermelhos,
injetados. Ela sentia o cheiro da bebida em seu hlito e algumas gotas de saliva lhe
atingiram o rosto. -- Era meu nico dia de folga e voc escolheu logo hoje para ir
cortar o cabelo bem no meio da cidade! E depois quis ir ao supermercado!

  Ela tentou se desvencilhar, tentou se afastar dele, at que Kevin finalmente a largou.
Ele balanou a cabea. O msculo do seu queixo pulsava. -- V     oc, por acaso, chegou
a pensar que a nica coisa que eu queria fazer hoje seria relaxar um pouco? Aproveitar
para descansar no meu nico dia de folga?

  -- Me desculpe -- disse ela, com a mo no rosto. Ela no disse que havia lhe
perguntado duas vezes antes, naquela mesma semana, se haveria algum problema com
aqueles planos. Ou que fora Kevin que a obrigara a ir para outro salo de beleza
porque no queria que ela fizesse amizade com algum. No queria que ningum
soubesse da vida que eles tinham.

  -- Me desculpe -- disse ele, no mesmo tom de voz de Katie. Ele olhou para ela
antes de balanar a cabea novamente. -- Por Deus, Todo-Poderoso. Ser que  to
difcil pensar em alguma outra pessoa que no seja em voc mesma?

  Kevin estendeu o brao, tentando agarr-la, e ela se virou, tentando correr. Ele
estava preparado para aquela reao e no havia para onde ir. O golpe foi rpido e
com fora, o punho se movendo como um pisto, atacando a regio lombar das costas
de Katie. Ela arfou, sentindo sua viso escurecer, sentindo-se como se tivesse sido
esfaqueada. Desabando no cho, sentiu seus rins arderem, a dor se irradiando pelas
pernas e pela coluna. O mundo estava girando e quando ela tentou se levantar, seu
movimento piorou a sensao.

  -- Voc  egosta demais, o tempo todo! -- disse ele, curvando-se por cima dela.

  Ela no disse nada. No conseguia dizer nada. No conseguia nem respirar. Ela
mordeu seu lbio para no gritar e imaginou se iria urinar sangue no dia seguinte. A
dor era como uma lmina, dilacerando seus nervos, mas ela no iria chorar. Aquilo s
serviria para deixar Kevin ainda mais furioso.

  Ele continuou em p ao lado dela e depois suspirou, com uma expresso de puro
desprezo. Foi at a mesa, pegou seu copo vazio e a garrafa de vodca antes de sair da
cozinha.

   Katie levou quase um minuto para reunir a fora necessria para se levantar. Quando
comeou a cortar os legumes novamente, suas mos estavam tremendo. A cozinha
estava gelada e a dor em suas costas era muito intensa, latejando com cada batida do
seu corao. Na semana anterior, ele a havia golpeado com tanta fora no estmago
que ela tinha passado o resto da noite vomitando. Katie caiu no cho e Kevin a agarrou
pelo pulso para fazer com que se levantasse novamente. Os hematomas em seu pulso
tinham o formato dos dedos dele. Vestgios do inferno.

  Lgrimas lhe escorriam pelo rosto e ela tinha dificuldade para se manter em p,
apoiando seu peso ora em uma perna, ora em outra, para tentar afastar a dor enquanto
terminava de picar o tomate. Ela fez o mesmo com o pepino. Pedaos pequenos. O
alface, tambm, cortado e picado. Do jeito que ele queria. Katie enxugou as lgrimas
com as costas da mo e foi lentamente at a geladeira. De l, tirou uma embalagem de
queijo gorgonzola e depois pegou os croutons em outro armrio.

  Na sala de estar, ele havia aumentado o volume da televiso outra vez.

  O forno estava na temperatura certa. Katie colocou a assadeira dentro do forno e
ajustou o cronmetro. Quando o calor lhe atingiu o rosto, ela percebeu que sua pele
ainda ardia, mas duvidava que o tapa houvesse deixado qualquer marca. Ele sabia
exatamente a fora que precisava usar. Ela se perguntava onde ele havia aprendido
aquilo, se era algo que todos os homens sabiam, ou mesmo se havia aulas secretas,
com instrutores especializados em ensinar essas coisas. Ou, ainda, se aquilo era
apenas uma caracterstica de Kevin.

   A dor em suas costas havia finalmente comeado a diminuir de intensidade. Ela j
conseguia respirar normalmente. O vento soprava pelas frestas da janela e o cu havia
assumido uma cor cinzenta e escura. A neve batia suavemente no vidro. Katie olhou
discretamente em direo  sala, viu Kevin sentado no sof e se apoiou no balco.
Tirou um dos sapatos de salto e esfregou os dedos dos ps, tentando fazer o sangue
fluir, tentando aquec-los. Fez o mesmo com o outro p antes de voltar a calar os
sapatos.

  Ela lavou e cortou as vagens e colocou um pouco de azeite de oliva na frigideira.
Comearia a refogar as vagens quando os fils estivessem na grelha. E tentou no
pensar no telefone que estava sob a pia.

  Estava tirando a assadeira do forno quando Kevin voltou para a cozinha. Ele estava
com o copo na mo e j havia bebido metade do contedo. Seus olhos estavam
desfocados. Havia bebido quatro ou cinco doses. Ela no sabia ao certo. Katie colocou
a assadeira sobre o fogo.

  -- S mais um pouco -- disse ela, falando num tom neutro, fingindo que nada havia
acontecido. Ela havia aprendido que, se demonstrasse irritao ou mgoa, aquilo
serviria apenas para enfurec-lo. -- Tenho que terminar de preparar os fils e o jantar
logo vai ficar pronto.

  -- Olhe, me desculpe -- disse ele. Ele cambaleava um pouco.

   Ela sorriu. -- Est tudo bem. Sei que as ltimas semanas foram difceis. Voc tem
trabalhado demais.

  -- Seu jeans  novo? -- as palavras saram arrastadas pela boca dele.

  -- No. Faz algum tempo que no uso esta cala.

  --  bonita.

  -- Obrigada -- respondeu ela.

                                           oc        oc
  Kevin deu um passo em direo a ela. -- V  linda. V sabe que eu a amo, no
sabe?

  -- Sei, sim.

  -- Eu no gosto de bater em voc. Mas, s vezes, voc no pensa nas coisas que faz.

  Ela assentiu, desviando o olhar, tentando pensar em algo para fazer, precisando se
ocupar com algo, at se lembrar que precisava colocar os pratos e os talheres na mesa.
Aproveitou e foi at o armrio que ficava ao lado da pia.

  Kevin se aproximou por trs dela enquanto Katie buscava os pratos e fez com que
ela se virasse em sua direo, puxando-a para perto de si. Ela inalou antes de dar um
suspiro de felicidade, porque sabia que Kevin queria que ela respondesse aos seus
carinhos com aqueles sons.

  -- V oc tem que dizer que me ama tambm -- sussurrou ele. Kevin beijou-lhe o
rosto e ela colocou seus braos ao redor dele. Katie sentia-o pressionar contra seu
corpo, sabia o que ele queria.

  -- Eu amo voc -- disse ela.

  A mo de Kevin deslizou-se at o seio. Ela esperou que ele o apertasse, mas aquilo
no aconteceu. Em vez disso, ele a acariciou suavemente. Apesar de tudo o que havia
acontecido, seu mamilo comeou a ficar intumescido e ela detestava quando aquilo
acontecia. Mas no conseguia evitar. O hlito de Kevin estava quente. E com cheiro de
bebida.

                               oc
  -- Meu Deus, voc  linda. V sempre foi linda, desde a primeira vez que eu a vi
-- disse ele, pressionando seu corpo contra o dela, e ela conseguia sentir sua
excitao. -- Vamos deixar os fils para depois. O jantar pode esperar um pouco.

  -- Achei que voc estivesse com fome -- disse Katie, tentando fazer com que aquilo
parecesse uma leve provocao.

  -- Estou com fome de outra coisa agora -- sussurrou Kevin. Ele desabotoou a blusa
que ela usava e a abriu, antes de levar as mos para o boto do jeans.

  -- Aqui no -- disse ela, afastando o rosto do dele, mas deixando que ele
continuasse a beij-la. -- Vamos para o quarto.

  -- Que tal fazermos na mesa? Ou no balco?

  -- Por favor, meu bem -- murmurou ela, com a cabea arqueada para trs enquanto
ele a beijava no pescoo. -- No  nada romntico.

  -- Mas  gostoso -- disse ele.

  -- E se algum nos vir pela janela?

  -- Voc no sabe se divertir -- disse ele.

  -- Por favor, vamos -- disse ela, novamente. -- No quer fazer isso por mim? Voc
sabe que me excita muito mais fazer na cama.

   Ele a beijou mais uma vez, com as mos indo at seu suti. Ele abriu o boto que
prendia a pea na parte da frente. Kevin no gostava de sutis com o fecho na parte de
trs. Ela sentiu o ar frio da cozinha em seus seios; viu o desejo no rosto de Kevin
enquanto ele os olhava. Ele lambeu os lbios antes de lev-la at o quarto.

  Ele foi tomado por uma energia animalesca logo que chegaram l, puxando o jeans
de Katie at os seus quadris e depois at os tornozelos. Ele lhe apertou os seios com
fora e ela mordeu o lbio para no gritar antes que eles estivessem na cama. Ela
gemeu e arfou, gritando o nome de Kevin, sabendo que era isso o que ele queria,
porque no queria que ele ficasse irritado, no queria ser estapeada, socada ou
chutada, porque no queria que Kevin descobrisse o telefone celular. Katie ainda
sentia a dor lancinante em seus rins e transformou seus gritos em gemidos, dizendo as
coisas que ele queria que ela dissesse, excitando-o at que seu corpo comeasse a se
mover em espasmos. Quando tudo terminou, ela se levantou da cama, vestiu-se e o
beijou antes de voltar  cozinha para terminar de preparar o jantar.

  Kevin voltou para a sala de estar e bebeu mais vodca antes de vir at a mesa. Ele lhe
falou sobre seu trabalho e depois foi at a sala para ver um pouco mais de televiso
enquanto ela limpava a cozinha. Depois, ele quis que ela se sentasse ao seu lado para
assistir  televiso, at que finalmente chegou a hora de ir dormir.

  No quarto, depois de poucos minutos, ele j estava roncando, sem perceber as
lgrimas silenciosas de Katie, sem perceber o dio que ela sentia por ele, ou o dio
que sentia de si mesma. Sem saber sobre o dinheiro que ela vinha guardando h quase
um ano, ou sobre a tintura de cabelo que ela havia colocado discretamente no carrinho
de supermercado h um ms e que havia escondido atrs do armrio, sem fazer a menor
ideia sobre o telefone celular escondido no armrio sob a pia da cozinha. Sem
imaginar que, dentro de alguns dias, se tudo acontecesse como ela esperava, ele nunca
mais voltaria a v-la ou agredi-la.
                                        19



KATIE ESTAVA SENTADA AO LADO de Alex na varanda e o cu acima dos dois era uma
imensido negra cravejada de pontos brilhantes. Durante meses ela vinha tentando
bloquear as memrias mais especficas, tentando se concentrar apenas no medo que
havia deixado para trs. No queria se lembrar de Kevin, no queria pensar nele.
Queria apag-lo totalmente de sua vida, fingir que ele nunca existira. Mas ele sempre
estaria l.

  Alex ficou em silncio durante todo o relato, com sua cadeira formando um ngulo
com a de Katie. Ela contou a histria em meio s lgrimas, embora ele duvidasse que
ela soubesse que estava chorando. Katie lhe contou tudo sem qualquer emoo, quase
em um estado de transe, como se os eventos tivessem acontecido com outra pessoa. Ele
sentiu seu estmago se revirar quando Katie parou de falar.

   medida que falava, no conseguia olhar nos olhos de Alex. Ele havia ouvido
verses da mesma histria antes, mas desta vez era diferente. Katie no era
simplesmente uma vtima, era sua amiga, a mulher por quem ele havia se apaixonado.
Alex afastou uma mecha do cabelo que caa por cima do rosto dela.

  Quando a tocou, ela se moveu em um reflexo involuntrio antes de relaxar. Ele a
ouviu suspirar, cansada. Cansada de falar. Cansada do passado.

      oc
  -- V fez a coisa certa ao sair de onde estava -- disse ele. O tom de sua voz era
suave e compreensivo.

  Ela demorou um momento para responder. -- Eu sei -- disse ela.

  -- Voc no tem culpa de nada.

  Katie olhou em direo  escurido. -- Tenho, sim. Eu o escolhi, lembra-se? Eu me
casei com ele. Deixei isso acontecer uma vez e outra vez depois disso. Ainda
cozinhava para ele e limpava a casa. Dormia com ele sempre que ele queria e fazia
tudo o que ele queria. Fiz com que ele pensasse que eu adorava aquela vida.

  -- Voc fez o que tinha que fazer para sobreviver -- disse ele, com a voz firme.

  Ela voltou a ficar em silncio. Os grilos estavam cantando e os gafanhotos zuniam
entre as rvores. -- Nunca pensei que uma coisa dessas pudesse acontecer. Meu pai
era um alcolatra, mas no era violento. Eu era to... fraca. No sei por que deixei isso
acontecer.

  Alex falou com voz suave. -- Porque houve um tempo em que voc o amava. Porque
voc acreditou no seu marido quando ele prometeu que aquilo no voltaria a acontecer.
Porque ele ficou cada vez mais violento e controlador, de uma maneira muito lenta,
fazendo-a pensar que mudaria, at que voc finalmente percebeu que isso nunca
aconteceria.

  Com aquelas palavras, ela respirou fundo e baixou a cabea, com os ombros se
movendo para cima e para baixo. O som daquela angstia fazia a garganta de Alex se
apertar pela raiva em relao  vida que ela havia vivido e pela tristeza ao saber que
ela ainda vivia com aquilo dentro de si. Ele sentiu vontade de abra-la, mas sabia
que, neste momento, estava fazendo tudo o que ela queria. Ela estava frgil e
vulnervel. Havia chegado ao seu limite.

  Demorou alguns minutos at que Katie finalmente conseguisse parar de chorar. Seus
olhos estavam vermelhos e inchados. -- Desculpe-me por ter lhe contado tudo isso. Eu
no deveria -- disse, com a voz ainda embargada.

  -- Fico feliz por ter contado.

  -- A nica razo para eu ter feito isso  porque voc j sabia.

  -- Eu entendo.

  -- Mas voc no precisava saber dos detalhes sobre as coisas que tive que fazer.

  -- No se preocupe com isso.
  -- Eu o odeio -- disse ela. -- Mas eu odeio a mim mesma tambm. Tentei lhe dizer
que  melhor eu ficar sozinha. No sou a pessoa que voc pensa que sou. No sou a
mulher que voc acha que conhece.

  Ela estava a ponto de comear a chorar de novo, at que ele finalmente se levantou.
Puxando-lhe a mo, ele indicou que queria que ela se levantasse. Katie o fez, mas no
conseguia olh-lo no rosto. Alex se esforou para suprimir a raiva que sentia do
marido dela e manteve a voz num tom suave.

  -- Oua o que tenho a dizer -- sussurrou Alex. Ele colocou um dedo sob o queixo
de Katie para levant-lo. Ela resistiu, a princpio, at que finalmente cedeu e o olhou
nos olhos. Ele prosseguiu. -- No h nada que voc possa me dizer que v mudar o
que sinto por voc. Nada. Porque voc no  assim. V     oc nunca foi assim. Voc  a
mulher que eu conheo.  a mulher que eu amo.

  Katie o estudou, querendo acreditar nele, sabendo que, de algum modo, ele estava
dizendo a verdade. E sentiu algo ceder dentro de si. Mesmo assim...

  -- Mas...

  -- Nada de "mas", porque nada disso  importante. V   oc se enxerga como algum
que no conseguiu fugir do que o destino lhe reservou. Eu vejo uma mulher corajosa
que escapou. V  oc se enxerga como algum que deveria se sentir envergonhada ou
culpada por ter permitido que aquilo lhe acontecesse. Eu vejo uma mulher bonita e
gentil, que deveria sentir orgulho por ter impedido que aquilo voltasse a acontecer.
Nem todas as mulheres tm a fora para fazer o que voc fez.  isso o que eu vejo
agora e  isso que eu sempre vi quando olhava para voc.

  Ela sorriu. -- Acho que voc precisa usar culos.

  -- No deixe que os cabelos grisalhos a enganem. Meus olhos ainda esto perfeitos.

  Ele se inclinou em direo a ela, cautelosamente, certificando-se de que tudo estava
bem antes de beij-la. Foi um beijo curto e suave. Carinhoso. -- Apenas me sinto triste
por voc ter enfrentado tudo isso.

  -- Eu ainda estou enfrentando.
  -- Voc acha que ele est procurando por voc?

  -- Eu sei que ele est procurando por mim. E ele nunca vai parar -- disse ela, antes
de fazer uma pausa. -- Tem algo errado com ele. Ele ... insano.

  Alex pensou naquele comentrio. -- Eu sei que no deveria fazer essa pergunta, mas
voc j pensou em avisar a polcia?

  Ela baixou os ombros. -- Sim. Eu liguei uma vez.

  -- E eles no fizeram nada a respeito?

  -- Eles vieram at minha casa e conversaram comigo. E me convenceram de que
seria melhor no prestar queixa.

  Alex considerou aquilo. -- Isso no faz sentido.

  -- Fazia bastante sentido para mim -- disse ela, dando de ombros. -- Kevin me
avisou que no seria bom chamar a polcia.

  -- Como ele sabia?

  Ela suspirou, pensando que era melhor contar tudo de uma vez. -- Porque ele  a
polcia -- disse ela, finalmente. Ela o olhou nos olhos. -- Ele  um investigador no
departamento de polcia de Boston. E ele no me chamava de Katie.

  Seus olhos demonstravam seu desespero. -- Ele me chamava de Erin.
                                        20




NO FERIADO DO DIA DO SOLDADO, a centenas de quilmetros ao norte, Kevin Tierney
estava no quintal de uma casa em Dorchester, vestindo bermudas e uma camisa em
estilo havaiano que havia comprado quando ele e Erin foram visitar Oahu9 durante a
lua de mel.

  -- Erin viajou para Manchester -- disse ele.

  Bill Robinson, seu capito na diviso de investigao da polcia, estava cuidando
dos hambrgueres que assavam na churrasqueira. -- De novo?

  -- Eu lhe disse que uma amiga dela est com cncer, no se lembra? Ela acha que
precisa estar l para cuidar dessa amiga.

  -- Esse cncer  uma doena horrvel -- disse Bill. -- E como Erin est encarando
a situao?

  -- Est tudo bem. Mas eu percebo que ela est cansada.  difcil se acostumar com
essa rotina de viagens.

  -- Eu imagino que seja assim mesmo. Emily teve que fazer algo parecido quando sua
irm contraiu lpus. Passou dois meses em Burlington, no meio do inverno, enfurnada
em um apartamento pequeno. As duas ficaram loucas. No final, a irm fez as malas de
Emily e as colocou em frente  porta do apartamento, dizendo que ficaria melhor
sozinha. No que eu a culpe por isso,  claro.

   Kevin tomou um gole de sua cerveja e, como era aquilo que se esperava que ele
fizesse, sorriu. Emily era a esposa de Bill e eles eram casados h quase trinta anos.
Bill gostava de dizer s pessoas que j tivera o tempo mais feliz de sua vida. Todos os
policiais e funcionrios da delegacia haviam ouvido aquela piada cerca de cinquenta
vezes nos ltimos oito anos e a maior parte daquelas pessoas estava l no momento.
Bill oferecia um churrasco todos os anos no Dia do Soldado, no apenas por
considerar aquilo uma obrigao, mas tambm porque seu irmo trabalhava em uma
distribuidora de cerveja e uma grande parte do estoque era consumida nestas ocasies.
Maridos, esposas, namorados, namoradas e crianas estavam reunidos em grupos.
Alguns na cozinha, outros no terrao. Quatro investigadores estavam tentando acertar
ferraduras em um pino de metal fincado no cho e a areia estava voando ao redor do
alvo.

  -- Da prxima vez que ela voltar  cidade, por que no a traz at aqui para jantar?
Emily perguntou sobre ela. A menos,  claro, que vocs queiram recuperar o tempo
perdido -- acrescentou Bill, piscando o olho.

  Kevin comeou a se perguntar se aquela oferta seria genuna. Em dias como aquele,
Bill gostava de fingir que ele era apenas um cara comum, em vez do capito. Mas ele
era afiado como uma navalha. Inteligente. Mais poltico do que policial.

  -- Vou conversar com ela a respeito.

  -- Quando ela viajou?

  -- Hoje pela manh. J deve ter chegado l.

  Bill pressionou um dos hambrgueres com a esptula, fazendo com que o suco da
carne escorresse. "Ele no sabe nada sobre fazer churrasco", pensou Kevin. Sem o
suco, o hambrguer teria o mesmo sabor de uma pedra -- seco, inspido e duro.
Impossvel de comer.

  -- Eu estava pensando no caso de Ashley Henderson -- disse Bill, mudando de
                                                                    oc
assunto. -- Acho que finalmente conseguiremos uma acusao formal. V trabalhou
bem.

  -- J estava na hora. Achei que eles j estavam fartos daquela situao h algum
tempo -- disse Kevin.
  -- Eu tambm. Mas no fao parte da promotoria -- disse Bill, pressionando outro
hambrguer, arruinando-o. -- Tambm quero falar com voc a respeito de Terry.

  Terry Canton fora o parceiro de Kevin durante os ltimos trs anos, mas ele havia
sofrido um ataque cardaco em dezembro e estava afastado do trabalho desde ento.
Kevin vinha trabalhando sozinho naquele perodo.

  -- O que aconteceu?

  -- Ele no vai voltar. Fiquei sabendo hoje pela manh. Os mdicos que o tratam
recomendaram que ele se aposentasse e ele decidiu seguir o conselho. Decidiu que
vinte anos j foram o bastante, e a penso do seguro social est esperando por ele.

  -- E o que isso significa para mim?

  Bill deu de ombros. -- Vamos lhe arranjar um novo parceiro, mas no podemos
fazer isso imediatamente j que a cidade est com as verbas congeladas. Talvez
quando o novo oramento municipal for aprovado.

  -- "Talvez" ou "provavelmente"?

  -- V oc vai ganhar um novo parceiro. Mas provavelmente no antes de julho.
Lamento por isso. Sei que isso significa que voc vai ter que trabalhar mais, mas no
                                ou
h nada que eu possa fazer. V tentar manter sua carga de trabalho num nvel
suportvel.

  -- Obrigado.

  Um grupo de crianas corria pelo terrao, com seus rostos sujos. Duas mulheres
saram da casa trazendo tigelas de salgadinhos, provavelmente fofocando. Kevin
detestava fofocas. Bill apontou com sua esptula para uma mesa sobre o deck. --
Traga aquela bandeja, por favor. Acho que estes j esto quase prontos.

  Kevin pegou a bandeja. Era a mesma que havia sido usada para trazer os
hambrgueres crus para a grelha e ele percebeu as manchas de gordura e os pedaos de
carne crua. Era nojento. Erin teria trazido uma bandeja limpa, uma que no tivesse
restos de carne crua ou gordura. Kevin colocou a bandeja ao lado da grelha.
  -- Preciso de outra cerveja -- disse Kevin, levantando sua garrafa. -- Voc vai
querer uma tambm?

  Bill balanou a cabea negativamente e estragou mais um hambrguer. -- Ainda no
acabei de tomar a minha. Mesmo assim, obrigado.

  Kevin foi em direo  casa, sentindo a gordura da bandeja em seus dedos.
Entranhando-se neles.

  -- Ei -- gritou Bill, por trs dele. Kevin se virou.

  -- A caixa trmica com as cervejas est do outro lado, esqueceu? -- disse Bill,
apontando para um dos cantos do deck.

  -- Eu sei. Mas quero lavar as mos antes do jantar.

  -- Ande logo. Quando eu colocar a bandeja na mesa, vai ser cada um por si.

  Kevin parou antes de chegar  porta dos fundos para limpar os ps no capacho. Na
cozinha, deu a volta ao redor de um grupo de esposas que conversavam animadamente
at chegar  pia. Ele lavou suas mos duas vezes, usando bastante sabo. Pela janela,
viu quando Bill colocou a bandeja de salsichas e hambrgueres na mesa de piquenique,
ao lado dos pes, condimentos e tigelas de salgadinhos. No demorou muito para que
as moscas sentissem o cheiro e se amontoassem por cima da bandeja, zumbindo sobre
a comida e pousando nos hambrgueres. As pessoas pareciam no se importar, pois
formaram uma fila ensandecida. Elas simplesmente espantavam as moscas e colocavam
os hambrgueres em seus pratos, fingindo que as moscas no estavam se acumulando
ali.

  Hambrgueres malfeitos e um enxame de moscas.

  Ele e Erin fariam tudo de um jeito diferente. Ele no pressionaria os hambrgueres
com a esptula e Erin teria deixado os condimentos, salgadinhos e picles na cozinha
para que as pessoas pudessem se servir ali, onde era limpo. Moscas eram animais
asquerosos, os hambrgueres estavam duros como pedras e ele no iria com-los.
Pensar naquilo lhe dava nuseas.
  Ele esperou at que a bandeja estivesse vazia para voltar para a churrasqueira e foi
at a mesa, fingindo estar decepcionado.

  -- Eu avisei que eles sumiriam bem rpido -- disse Bill. -- Mas Emily deixou outra
bandeja na geladeira, ento no vai demorar muito para a segunda rodada. Por que no
me traz uma cerveja enquanto eu vou at l buscar os hambrgueres?

  --  claro -- disse Kevin.

  Quando o prximo lote de hambrgueres estava pronto, Kevin colocou comida em
um prato e elogiou Bill, dizendo-lhe que pareciam estar fantsticos. Havia um enxame
de moscas  sua volta, os hambrgueres estavam novamente ressecados e, quando Bill
se virou, Kevin jogou a comida na lata de lixo que ficava ao lado da casa. Ele disse a
Bill que os hambrgueres estavam deliciosos.

  Ele ficou ali por mais algumas horas. Aproveitou para conversar com Coffey e
Ramirez. Eles eram investigadores como ele, exceto pelo fato de que comiam os
hambrgueres sem se importar com as moscas que se amontoavam. Kevin no queria
ser o primeiro a ir embora, nem mesmo o segundo. O capito queria fingir que era um
dos rapazes e ele no queria ofender seu capito. Ele no gostava de Coffey nem de
Ramirez. s vezes, quando Kevin estava por perto, Coffey e Ramirez paravam de
conversar. Kevin sabia que era o assunto da conversa deles, que eles falavam a seu
respeito s escondidas. Fofoqueiros.

  Mas Kevin era um bom investigador e sabia disso. Bill tambm sabia, assim como
Coffey e Ramirez. Ele trabalhava na diviso de homicdios e sabia como conversar
com testemunhas e suspeitos. Sabia o momento de fazer perguntas e o momento de
escutar; sabia quando as pessoas mentiam e ele colocava assassinos atrs das grades
simplesmente porque a Bblia dizia: No matars. Kevin acreditava em Deus e estava
fazendo o trabalho do Senhor ao colocar os culpados na cadeia.

  Ao voltar para casa, Kevin caminhou pela sala de estar. Ele resistiu ao desejo de
chamar pelo nome de Erin. Se Erin estivesse ali, ela j teria tirado o p da mesa de
centro, organizado as revistas na mesinha ao lado do sof e tirado a garrafa vazia de
vodca do sof. Se Erin estivesse ali, as cortinas estariam abertas, os pratos estariam
lavados e guardados e o jantar estaria esperando por ele na mesa. E ela teria sorrido
para ele e perguntado como fora seu dia. Depois eles fariam amor, porque ele a amava
e ela o amava tambm.

   No andar de cima, em seu quarto, ele abriu a porta do armrio. Ainda conseguia
sentir um resqucio do perfume que ela usava, o mesmo que ele havia dado de presente
no Natal. Ele a vira levantar uma aba de papel com uma amostra do perfume que viera
em uma de suas revistas e viu quando ela sorriu ao cheirar o perfume. Quando Erin foi
para a cama, Kevin rasgou a pgina da revista e guardou-a em sua carteira, para que
soubesse exatamente qual perfume deveria comprar. Ele se lembrava da maneira
carinhosa como ela tinha aplicado um pouco atrs de cada orelha e nos pulsos quando
ele a levara para jantar na noite do rveillon e o quanto ela estava bonita com o
vestido de coquetel que usava. No restaurante, Kevin havia percebido que outros
homens, mesmo os que estavam acompanhados, haviam olhado para ela enquanto ele e
Erin andavam pelo salo at chegarem  sua mesa. Depois, voltaram para casa e
fizeram amor enquanto o ano-novo chegava.

  O vestido ainda estava l, pendurado no mesmo lugar, trazendo de volta aquelas
memrias. H uma semana ele havia tirado o vestido do cabide e chorado enquanto o
segurava, sentado na beirada da cama.

   Do lado de fora da casa, o som constante dos grilos no o acalmava. Embora o
feriado fosse um dia em que ele poderia relaxar, estava cansado. No tinha vontade de
ir ao churrasco, no queria responder s perguntas sobre Erin, no queria ter mentido.
No porque as mentiras o incomodassem, mas porque era difcil manter a iluso de que
Erin no o havia abandonado. Ele havia inventado uma histria e a repetia h meses:
que Erin lhe telefonava todas as noites; que ela havia voltado para casa por alguns
dias, mas que logo retornara a New Hampshire; que a amiga estava passando por uma
quimioterapia e precisava da ajuda dela. Ele sabia que no conseguiria manter aquela
histria para sempre e que no tardaria para que a desculpa de ajudar uma amiga
comeasse a ficar repetitiva e as pessoas comeassem a se perguntar por que nunca
viam Erin na igreja, no supermercado ou mesmo no bairro em que morava. Iriam
perguntar tambm por quanto tempo mais ela iria ficar ao lado da amiga. As pessoas
comeariam a falar s escondidas e a dizer coisas como: "Erin deve ter abandonado
Kevin", ou "acho que o casamento deles no era to perfeito como parecia". Pensar
naquilo fez seu estmago se apertar, lembrando-o que ele no havia comido.
  No havia muita coisa na geladeira. Erin sempre deixava a geladeira estocada com
peru, presunto, mostarda Dijon e po de centeio fresco, mas sua nica escolha agora
era requentar o fil  moda mongol que comprara no restaurante chins h alguns dias.
Na prateleira inferior, viu manchas de comida e sentiu vontade de chorar outra vez,
porque aquilo fez com que pensasse nos gritos de Erin e no barulho que a cabea dela
havia feito ao bater na quina da mesa quando ele a empurrara pela cozinha. Ele a havia
estapeado e chutado porque encontrara manchas de comida na geladeira e se
perguntava agora por que uma coisa to pequena como aquela o deixara to furioso.

  Kevin foi para a cama e se deitou. Quando percebeu, j era meia-noite e o bairro que
via pela janela do quarto estava tranquilo. Do outro lado da rua, viu uma luz acesa na
casa dos Feldman. Ele no gostava dos Feldman. Diferente dos outros vizinhos, Larry
Feldman nunca lhe cumprimentava se os dois estivessem em seus jardins. Se Gladys, a
esposa dele, o visse na rua, ela se virava e voltava a entrar na casa. Eles j tinham
mais de 60 anos e eram o tipo de pessoa que corria para fora para esbravejar com
alguma criana que pisasse em seu gramado para recuperar um frisbee que tivesse
cado ali. E, embora fossem judeus, eles decoravam sua casa com luzes de natal, e
colocavam o menor10 na janela, durante o perodo de festas. As atitudes deles o
deixavam desconcertado e Kevin no os considerava bons vizinhos.

  Kevin voltou para a cama, mas no conseguiu dormir. Quando a manh chegou, com
a luz do sol entrando pela janela, sabia que nada havia mudado na vida de ningum.
Apenas sua vida estava diferente. Seu irmo, Michael, e sua esposa, Nadine, estariam
preparando seus filhos para irem  escola, antes de sarem para seus prprios
empregos no Boston College. Seu pai e sua me provavelmente estariam lendo a
edio do Boston Globe enquanto tomavam o caf da manh. Crimes haviam sido
cometidos e as testemunhas estariam na delegacia. Coffey e Ramirez estariam fazendo
fofoca sobre ele.

  Ele tomou um banho e, para o caf da manh, comeu uma torrada acompanhada por
um copo de vodca. Na delegacia, foi chamado para investigar um assassinato. O corpo
de uma mulher de 20 e poucos anos, provavelmente uma prostituta, havia sido
encontrado em uma lixeira. Ela havia sido esfaqueada at morrer. Kevin passara a
manh conversando com pessoas que estavam por perto, quando o corpo foi
encontrado, enquanto as evidncias eram coletadas. Quando terminou as entrevistas,
ele voltou  delegacia para elaborar seu relatrio conforme as informaes ainda
estavam claras em sua mente. Ele era um bom investigador.

  A delegacia estava bem movimentada, era o primeiro dia da semana aps um feriado
prolongado. O mundo havia enlouquecido. Os investigadores conversavam ao telefone,
redigindo relatrios em suas mesas, conversando com testemunhas e escutando as
vtimas falando sobre sua condio. Barulho. Atividade. Pessoas indo e vindo.
Telefones tocando. Kevin foi at sua escrivaninha, uma das quatro que ficavam no
meio da sala. Pela porta aberta, Bill acenou, mas no saiu do seu escritrio. Ramirez e
Coffey estavam em suas mesas, sentados de frente para ele.

  -- Est tudo bem com voc? -- perguntou Coffey. Coffey j passava dos 40 anos,
estava com excesso de peso e era calvo. -- Voc est com uma aparncia horrvel.

  -- No dormi muito bem -- disse Kevin.

  -- Eu tambm no durmo bem sem Janet. Quando Erin vai voltar?

  Kevin manteve sua expresso neutra.

  -- No prximo fim de semana. Tenho alguns dias de folga para tirar e decidimos ir
para Cape Cod. Faz alguns anos que no vamos para l.

  --  mesmo? Minha me mora l. E para que lugar de Cape Cod vocs iro?

  -- Provincetown.

  --  onde ela mora. Vocs vo adorar o lugar. Sempre vou para l. E onde vocs
vo ficar?

  Kevin estranhou o fato de Coffey fazer tantas perguntas. -- No sei ainda --
respondeu ele, finalmente. -- Erin est cuidando dos preparativos e das reservas.

  Kevin foi at a cafeteira e se serviu de uma xcara, embora no quisesse realmente
beber caf. Teria que descobrir o nome de um hotel e de alguns restaurantes. Se Coffey
perguntasse a respeito, ele saberia o que dizer.

  Seus dias seguiam a mesma rotina. Ele trabalhava, conversava com as testemunhas e
finalmente voltava para casa. Seu trabalho era estressante e ele queria descansar
depois do expediente, mas tudo estava diferente em sua casa, e o trabalho continuava
em sua rotina extenuante. Certa vez, chegou at mesmo a acreditar que se acostumaria a
ver vtimas de assassinato, mas seus rostos lvidos e sem vida ficavam gravados em
sua memria. E, s vezes, as vtimas o visitavam durante o sono.

  Kevin no gostava de voltar para casa. Quando terminava o expediente, no havia
mais uma bela esposa para receb-lo na porta. Erin havia sado de casa em janeiro.
Agora, sua casa estava suja e desorganizada e ele tinha que lavar as prprias roupas.
Entre outras coisas, no sabia como usar a mquina de lavar e, na primeira vez que
tentou faz-lo, colocou sabo em p em excesso e as roupas ficaram manchadas e
endurecidas. No havia mais jantares feitos em casa ou velas sobre a mesa. Em vez
disso, ele comprava comida em algum restaurante antes de voltar para casa e comia no
sof. s vezes, ligava a televiso. Erin gostava de assistir ao HGTV o canal,
especializado em programas com dicas para a casa e jardim da TV a cabo. Assim,
Kevin frequentemente assistia quele canal, e quando o fazia, o vazio que sentia dentro
de si era quase insuportvel.

   Depois de voltar do trabalho, no se importava mais em guardar sua arma no estojo
que tinha no guarda-roupa. Dentro do estojo ele tinha uma outra Glock para seu uso
pessoal. Erin tinha medo de armas, mesmo antes do dia em que ele lhe encostara a
Glock na cabea dela e ameaara mat-la se voltasse a fugir. Ela gritou e chorou
enquanto ele jurou que mataria qualquer homem com quem ela dormisse, qualquer
homem com quem ela se importasse. Havia sido muito estpida ao fazer aquilo e Kevin
ficou to furioso por ela ter fugido de casa que exigiu saber o nome do homem que a
havia ajudado, para que pudesse mat-lo. Mas Erin gritou, chorou e implorou por sua
vida, jurando que no havia nenhum homem envolvido. Kevin acreditou nela, pois Erin
era sua esposa. Eles fizeram seus votos diante de Deus e da famlia, e a Bblia diz:
No cometers adultrio. Mesmo naquela poca, ele no havia acreditado que Erin
fora infiel. Nunca acreditou que outro homem estivesse envolvido. Quando estavam
casados, fazia questo de se certificar daquilo. Ligava para casa algumas vezes durante
o dia, sempre em horrios diferentes e nunca a deixava ir ao supermercado, ao salo
de beleza ou  biblioteca sozinha. Ela no tinha um carro, nem mesmo uma carteira de
habilitao e Kevin passava em frente  sua casa sempre que estivesse por perto,
apenas para ter certeza de que ela estava em casa. Erin no o havia abandonado porque
queria cometer adultrio. Ela saiu de casa porque estava cansada de ser chutada,
socada e empurrada pela escada que levava ao poro. Kevin sabia que no deveria ter
feito aquelas coisas. Sempre se sentira culpado por aquilo e sempre se desculpara.
Mesmo assim, ela no dera importncia.

  No era motivo para Erin ter fugido de casa. Tudo aquilo deixava seu corao em
pedaos, porque ele a amava mais do que tudo no mundo e sempre havia cuidado bem
dela. Comprou-lhe uma casa, uma geladeira, uma lava-louas, uma secadora de roupas
e mveis novos. A casa costumava estar sempre limpa, mas agora a pia estava cheia de
pratos sujos e o cesto de roupas estava transbordando.

  Ele sabia que devia limpar a casa, mas no conseguia reunir a energia necessria
para fazer aquilo. Em vez disso, foi at a cozinha e tirou uma garrafa de vodca do
congelador. Ainda havia quatro garrafas; h uma semana, havia doze. Sabia que estava
bebendo demais. Sabia que deveria se alimentar melhor e parar de beber, mas tudo o
que ele queria fazer era abrir a garrafa, sentar-se no sof e beber. Kevin gostava de
vodca porque ela no o deixava com mau hlito pela manh e ningum saberia que ele
estava de ressaca no dia seguinte.

  Kevin encheu um copo de vodca, bebeu-o e depois se serviu novamente antes de
caminhar pela casa vazia. Seu corao doa porque Erin no estava ali e, se de repente
ela aparecesse na porta da casa, ele sabia que iria pedir desculpas por ter batido nela.
Eles resolveriam seus problemas e depois fariam amor no quarto. Ele queria abra-la
e sussurrar o quanto a adorava, mas sabia que ela no ia voltar. Mesmo que a amasse
tanto assim, s vezes Erin o deixava muito irritado. No era certo uma esposa
simplesmente abandonar a casa onde morava. Uma esposa no deixava seu casamento
para trs. Ele queria espanc-la, chutar, estapear e puxar-lhe os cabelos por fazer algo
to cruel. Por ser to egosta. Queria mostrar a ela que era intil tentar fugir.

  Ele bebeu o terceiro e o quarto copos de vodca. A casa estava uma baguna. Havia
uma caixa de pizza vazia no cho da sala e o batente da porta do banheiro estava
rachado, com farpas de madeira  mostra. A porta no fechava mais direito. Ele chutou
a porta depois que ela se trancou no banheiro, tentando fugir dele. Ele a segurava pelos
cabelos enquanto lhe socava na cozinha. Ela correu para o banheiro. Ele a perseguiu
pela casa e meteu o p na porta. Mas, agora, mal conseguia se lembrar do motivo pelo
qual eles tinham brigado.
  Kevin no conseguia se lembrar muito bem do que tinha acontecido naquela noite.
Ele no se lembrava de ter quebrado dois dedos da mo dela, embora fosse bvio que
aquilo havia sido obra sua. Mas no a deixou ir para o hospital por uma semana
inteira, no at que os hematomas no rosto dela pudessem ser disfarados pela
maquiagem. Erin passou a semana tendo que cozinhar e limpar a casa usando apenas
uma das mos. Ele lhe trouxe flores, desculpou-se e prometeu a ela que nada daquilo
voltaria a acontecer. Quando a tala de gesso foi retirada, Kevin a levou a Boston para
jantar no restaurante Petroni's. Custou caro e ele sorriu para ela quando estavam
sentados  mesa. Depois do jantar, eles foram ao cinema e, no caminho para casa,
pensou no quanto a amava e no quanto era feliz por ter uma pessoa como Erin por sua
esposa.
                                        21



ALEX FICOU COM KATIE at depois da meia-noite, escutando-a enquanto ela contava a
histria de sua vida. Quando ela estava cansada demais para continuar a falar, ele
colocou seus braos ao redor dela e se despediu com um beijo de boa-noite. No
caminho de volta para casa, ele pensou consigo mesmo que nunca havia conhecido
ningum que fosse to corajosa, to forte e to engenhosa.

  Os dois passaram uma boa parte das duas semanas seguintes juntos tanto tempo
quanto podiam. Considerando as horas de trabalho de Alex na loja e os turnos de Katie
no Ivan's, aquilo se resumia a algumas poucas horas por dia, mas ele ansiava pelas
visitas que fazia  casa dela com uma expectativa que no sentia h anos. s vezes,
Kristen e Josh o acompanhavam at a casa de Katie. Outras vezes, Joyce o arrastava
pela porta da loja afora com uma piscadela, pedindo-lhe que se divertisse antes que
Alex se pusesse a caminho.

  Katie raramente ia  casa de Alex e, quando o fazia, era apenas para visitas curtas.
Em sua mente, ele queria acreditar que aquilo acontecia por causa das crianas, ou
porque ela no queria apressar as coisas. Entretanto, uma parte dele percebeu que
aquilo acontecia por causa de Carly. Embora ele soubesse que amava Katie -- e a
cada dia que passava estava mais seguro sobre aquilo -- no tinha certeza de que
realmente estivesse preparado. Katie parecia entender sua relutncia e parecia no se
importar. At mesmo porque era mais confortvel para os dois ficarem a ss na casa
dela.

  Mesmo assim, eles ainda no haviam feito amor. Embora ele sempre se apanhasse
imaginando o quanto aquilo seria maravilhoso, especialmente nos momentos que
antecediam o sono, ele sabia que Katie no estava preparada para isso. Os dois
pareciam perceber que aquilo significaria uma mudana no relacionamento, um tipo de
esperana perene. Por enquanto, era o bastante poder beij-la, poder sentir os braos
dela ao seu redor. Ele adorava o aroma do xampu de jasmim nos cabelos dela e o jeito
que suas mos se encaixavam perfeitamente; a maneira pela qual cada toque era
carregado de uma expectativa deliciosa, como se um estivesse se guardando para o
outro. Alex no havia dormido com ningum desde que sua esposa morrera. Mesmo
assim, se sentia como se, de algum modo, estivesse esperando por Katie durante todo
esse tempo, mesmo sem saber.

  Ele sentia prazer em mostrar as redondezas a ela. Eles caminhavam pela orla da
praia, em frente s casas histricas, examinando a arquitetura. Durante um fim de
semana, ele a levou para o Orton Plantation Gardens, onde andaram em meio a
milhares de roseiras em flor. Depois, foram almoar em um pequeno bistr com vista
para o mar em Caswell Beach, onde ficaram de mos dadas sobre a mesa, como dois
adolescentes.

  Desde a noite em que jantaram na casa de Katie pela primeira vez, ela no havia
mais falado sobre seu passado e Alex tambm no tocara no assunto. Ele sabia que ela
ainda estava se esforando para assimilar tudo aquilo em sua mente: o quanto ela j lhe
contara e o quanto ainda havia por contar; saber se podia confiar nele ou no; no
conhecer a real importncia sobre ela ainda ser casada; e, acima de tudo, o que
aconteceria se Kevin a descobrisse aqui. Quando Alex percebia que ela estava triste
por pensar naquelas questes, ele a lembrava, gentilmente, de que, independentemente
do que acontecesse, seu segredo estaria seguro com ele. Nunca contaria nada a
ningum.

  Observando-a, Alex s vezes se sentia tomado por uma raiva quase incontrolvel em
relao a Kevin Tierney. Aqueles instintos masculinos de agredir e torturar uma mulher
eram to estranhos para ele quanto a capacidade de respirar debaixo d'gua ou voar.
Mais do que qualquer coisa, ele queria vingana. Queria justia. Queria que Kevin
passasse pela mesma angstia e pelo mesmo terror que tinha provocado em Katie, as
infindveis sesses de castigos fsicos cruis. Durante o tempo que passou no exrcito,
ele havia matado um homem, um soldado que tomara uma dose excessiva de
metanfetaminas e que estava com uma arma nas mos, ameaando um refm. O homem
era perigoso e estava fora de controle. Quando a oportunidade surgiu, Alex puxou o
gatilho sem hesitar. A morte dera um significado novo ao seu trabalho, e, em seu
corao, ele entendera que havia momentos em que a violncia era necessria para
salvar vidas. Se Kevin algum dia aparecesse, Alex sabia que protegeria Katie a
qualquer custo. No exrcito, ele percebera que havia pessoas que traziam o bem para o
mundo e pessoas que viviam para destru-lo. Em sua mente, a deciso de proteger uma
mulher inocente como Katie de um psicopata como Kevin era to clara como a
diferena entre o preto e o branco -- uma escolha simples.

  Na maioria dos dias, o espectro da vida anterior de Katie no vinha assombr-la e
eles passavam os dias juntos, em uma intimidade descontrada e que crescia cada vez
mais. Katie tinha um talento natural para lidar com crianas -- fosse ajudando Kristen
a alimentar os patos de uma lagoa prxima ou brincando de pega-pega com Josh, ela
sempre parecia conseguir se entrosar com eles sem qualquer esforo, agindo de acordo
com cada situao: brincando, confortando, fazendo barulho ou em silncio. Agindo
daquele jeito, se parecia muito com Carly e Alex imaginava que, de algum modo, Katie
era o tipo de mulher que Carly mencionara certa vez.

  Nas ltimas semanas de vida de Carly, Alex se manteve em viglia ao lado da cama
onde ela estava. Embora ela passasse a maior parte do tempo dormindo, ele tinha medo
de perder os momentos em que ela estava consciente, mesmo que fossem apenas curtos
espaos de tempo. Naquela poca, o lado esquerdo do corpo de Carly estava quase
totalmente paralisado, e ela tinha dificuldades para falar. Mas, certa vez, durante um
breve perodo de lucidez logo antes do amanhecer, ela estendeu sua mo para toc-lo.

  -- Quero que voc faa uma coisa por mim -- disse com um certo esforo,
umedecendo seus lbios ressecados com a lngua. Sua voz estava rouca pela falta de
uso.

  -- Tudo o que voc quiser.

  -- Eu quero... que voc seja feliz.

  Naquele momento, ele viu o fantasma do seu antigo sorriso. O sorriso confiante e
cheio de vida que o havia cativado quando conversaram pela primeira vez.

  -- Eu sou feliz.

  Ela balanou a cabea levemente. -- Estou falando sobre o futuro -- disse Carly.
Seus olhos brilhavam com a intensidade de carves em brasa em meio ao rosto
marcado pela luta contra a doena. -- Ns dois sabemos do que estou falando.

  -- No estou entendendo.

  Ela ignorou aquela resposta. -- Me casar com voc... estar com voc e ter filhos
                                                     oc
com voc... foram as melhores coisas que eu j fiz. V  o melhor homem que eu j
conheci.

  Ele sentiu sua garganta apertar. -- Tambm me sinto assim em relao a voc.

  -- Eu sei -- respondeu ela. -- E  por isso que  to difcil para mim. Porque sei
que falhei com voc.

  -- Voc no falhou -- disse ele, interrompendo-a.

  Carly tinha uma expresso triste no rosto. -- Eu amo voc, Alex, e amo nossos filhos
-- disse ela, sussurrando. -- E eu ficaria muito triste se voc nunca mais conseguisse
ser feliz novamente.

  -- Carly, eu...

  -- Quero que voc conhea outra mulher -- disse ela, esforando-se para tomar
flego. Seu peito arfava com o esforo. -- Quero que ela seja inteligente e gentil... E
quero que voc se apaixone por ela, porque voc no merece passar o resto de sua
vida sozinho.

  Alex no conseguiu falar e mal conseguia enxerg-la em meio s lgrimas.

  -- As crianas vo precisar de uma me.

   Aos ouvidos dele, parecia que Carly estava implorando. -- Algum que ame nossos
filhos tanto quanto eu os amo, algum que pense neles como se fossem seus.

  -- Por que voc est falando essas coisas?

  -- Porque tenho que acreditar que  possvel -- disse ela, seus dedos magros
agarrando-se ao brao de Alex com uma intensidade que beirava o desespero. --  a
nica coisa que me resta.
  Agora, ao ver Katie correndo atrs de Josh e Kristen no gramado  margem da lagoa,
ele sentia uma pontada que era ao mesmo tempo agradvel e amarga, pensando que o
ltimo desejo de Carly poderia finalmente ser realizado.


KATIE GOSTAVA DEMAIS de Alex. Mais do que poderia ser seguro. Ela sabia que estava
trilhando um caminho perigoso. Contar a ele sobre seu passado pareceu-lhe a coisa
certa a fazer e abrir seus segredos para ele, de alguma forma, a libertara daquele fardo
esmagador. Mas, na manh seguinte quele primeiro jantar, ficou paralisada pela
ansiedade em relao ao que tinha feito. Alex havia sido um investigador, afinal de
contas; aquilo provavelmente significava que ele poderia dar um ou dois telefonemas,
independente do que lhe dissesse. Ele conversaria com algum, e essa pessoa
conversaria com outra, at que, aps algum tempo, Kevin ficaria sabendo de tudo. Ela
no lhe dissera que Kevin tinha uma capacidade quase sobrenatural de ligar
informaes aparentemente desconexas; ela no havia mencionado que, quando um
suspeito se tornava um fugitivo, Kevin quase sempre sabia onde encontr-lo. O simples
fato de pensar no que havia feito lhe embrulhava o estmago.

   Entretanto, gradualmente, durante as duas semanas seguintes, ela sentiu seus medos
desaparecerem. Em vez de fazer mais perguntas quando estavam sozinhos, Alex agia
como se as revelaes de Katie no estivessem diretamente ligadas s suas vidas em
Southport. Os dias se passavam com uma espontaneidade tranquila, sem o incmodo
causado pelas sombras de sua vida anterior. Katie no conseguia evitar aquele
sentimento -- ela confiava em Alex. Quando eles se beijavam, o que acontecia com
uma frequncia surpreendente, havia momentos em que ela sentia seus joelhos
tremerem, e estava ficando cada vez mais difcil impedir o desejo de segurar na mo
dele e arrast-lo para o quarto.

  No sbado, duas semanas depois do primeiro beijo, eles estavam na varanda da casa
dela. Alex estava com os braos ao redor do corpo de Katie e seus lbios
pressionados contra os dela. As crianas estavam participando de uma festa ao redor
da piscina da casa de um dos colegas de classe de Josh. Mais tarde, Alex e Katie
levariam os dois para um passeio e um churrasco na praia, mas, durante as prximas
horas, eles estariam a ss.

  Quando finalmente conseguiram se afastar, Katie suspirou. -- Voc realmente
precisa parar de fazer isso.

  -- Parar de fazer o qu?

  -- Voc sabe exatamente o que est fazendo.

  -- No consigo evitar.

  "Sei como  essa a sensao", pensou Katie. -- Voc sabe do que eu gosto em voc?

  -- Do meu corpo?

  -- Sim. Gosto disso tambm -- disse ela, rindo. -- Mas h outra coisa. Voc faz
com que eu me sinta especial.

  -- Voc  especial -- disse ele.

  -- Estou falando srio -- disse ela. -- Mas isso me faz pensar por que voc nunca
encontrou outra pessoa depois que sua esposa faleceu.

  -- Eu no estava  procura. Mas, mesmo que houvesse outra pessoa, eu a teria
dispensado para poder ficar com voc.

  -- Isso  muito indelicado -- disse ela, espetando-lhe as costelas com o dedo.

  -- Mas  verdade. Acredite ou no eu sou seletivo.

  -- Sim, eu imagino. Voc s sai com mulheres que tenham traumas emocionais.

  -- V oc no  do tipo traumatizada. Voc  uma mulher corajosa.  uma
sobrevivente.  algo bem sensual.

  -- Acho que voc est tentando me elogiar, esperando que eu rasgue suas roupas
aqui mesmo.

  -- Est funcionando?

  -- Est chegando perto -- admitiu ela, e o som do riso de Alex a lembrou novamente
do quanto ele a amava.
  -- Estou feliz por voc ter vindo morar em Southport.

  -- Ah, sim...

  Por um instante, ela pareceu desaparecer dentro de si mesma.

  -- O que foi? -- perguntou Alex, estudando-lhe o rosto, repentinamente em estado
de alerta.

  Ela balanou a cabea. -- Foi por pouco... -- suspirou Katie, colocando os braos
ao redor do corpo ao se lembrar da ocasio. -- Eu quase no consegui chegar at aqui.
                                        22



A NEVE COBRIA OS JARDINS de Dorchester, formando uma camada cintilante sobre o
mundo do lado de fora da janela da casa onde ela morava. O cu de janeiro, cinza no
dia anterior, havia se transformado em um azul gelado e a temperatura estava abaixo de
zero.

  Era a manh de um domingo, o dia seguinte  sua ida ao salo de beleza. Ela olhou
no vaso sanitrio para ver se havia algum sinal de sangue, certa de que havia visto
alguma coisa depois de urinar. Seu rim ainda latejava e a dor se irradiava dos ombros
at as canelas. A dor a manteve acordada por vrias horas enquanto Kevin roncava ao
seu lado, mas, felizmente, no era to srio quanto podia ter sido. Depois de fechar a
porta do quarto por trs de si, Erin mancou at a cozinha, lembrando a si mesma de
que, dentro de um ou dois dias, tudo aquilo estaria terminado. Mas ela precisava ter
cuidado para no levantar as suspeitas de Kevin, tinha que fazer as coisas exatamente
da maneira certa. Se ignorasse a surra que levara na noite anterior, ele ficaria
desconfiado. Se ela se afastasse demais, ele tambm ficaria desconfiado. Depois de
quatro anos naquele inferno, Erin havia aprendido as regras do jogo.

  Kevin teria que ir para o trabalho ao meio-dia, independentemente de ser domingo, e
ela sabia que ele no tardaria a acordar. A casa estava fria e ela vestiu uma blusa
grossa de l sobre seu pijama. Pela manh, Kevin geralmente no se importava com
aquilo, porque a ressaca o deixava letrgico demais para tomar qualquer atitude. Ela
comeou a fazer o caf da manh e colocou o leite e o acar na mesa, com a manteiga
e a geleia. Colocou os talheres para ele na mesa e deixou um copo de gua gelada ao
lado do garfo. Depois, colocou duas fatias de po de forma na torradeira, embora
ainda no tivesse ligado o aparelho. Deixou trs ovos sobre o balco, onde poderia
alcan-los rapidamente. Em seguida, colocou seis fatias de bacon na frigideira. Elas
j estavam crepitando e chiando em meio  fritura quando Kevin chegou  cozinha. Ele
se sentou  mesa e bebeu gua enquanto ela lhe trazia sua xcara de caf.

  -- Eu dormi feito uma pedra na noite passada. A que horas fomos para a cama?

  -- Por volta das 10, eu acho -- respondeu ela. Erin colocou o caf ao lado do seu
copo vazio. -- No estava tarde. V   oc tem trabalhado demais e eu sei que est
cansado.

  Os olhos de Kevin estavam vermelhos. -- Desculpe pelo que fiz ontem  noite. No
queria ter feito aquilo. Estou trabalhando sob uma presso muito forte ultimamente.
Desde que Terry sofreu o ataque cardaco estou tendo trabalhos em dobro, e o caso
Preston comea esta semana.

  -- Est tudo bem -- disse ela, ainda sentindo o cheiro do lcool no hlito de Kevin.
-- Seu caf da manh vai ficar pronto logo.

  No fogo, ela virou as fatias de bacon com um garfo e a gordura quente respingou no
seu brao, fazendo com que ela esquecesse temporariamente da dor que sentia nas
costas.

   Quando o bacon estava crocante, ela colocou quatro fatias no prato de Kevin e duas
no seu prprio. Ela escorreu a gordura e a guardou em uma lata de sopa, enxugou a
frigideira com uma toalha de papel e voltou a unt-la com leo. Tinha que trabalhar
rpido para que o bacon no esfriasse. Ligou a torradeira e quebrou os ovos. Kevin
gostava que seus ovos estivessem fritos no ponto mdio, com a gema intacta, e Erin
havia aprendido a fazer aquilo com perfeio. A frigideira ainda estava quente e os
ovos no demoraram a estar prontos. Ela os virou na frigideira uma vez antes de
colocar dois no prato dele e um no prato onde iria comer.

  Erin se sentou  frente de Kevin, pois ele gostava de tomar o caf da manh
acompanhado. Ele passou manteiga em sua torrada e acrescentou a geleia de uva antes
de usar seu garfo para partir os ovos. A gema escorreu pelo prato como sangue
amarelado e ele esfregou a torrada nos ovos antes de com-los.

 -- O que voc vai fazer hoje? -- perguntou ele. Kevin usou seu garfo para cortar
mais um pedao do ovo. Mastigando.
  -- Estava pensando em lavar as janelas e colocar as roupas na mquina de lavar --
disse ela.

  -- Acho que os lenis tambm precisam de uma boa lavagem, no ? Depois de
termos nos divertido neles a noite passada -- disse ele, agitando as sobrancelhas. Seu
cabelo estava desalinhado, com fios apontando para todas as direes, e ele tinha um
pedao de ovo grudado no canto da boca.

  Ela tentou no demonstrar o asco que sentia. Em vez disso, ela mudou o rumo da
conversa.

  -- Voc acha que vai conseguir prender os culpados no caso Preston?

  Ele se inclinou para trs e agitou os ombros em um movimento circular antes de
voltar a se curvar sobre seu prato.

  -- Vai depender da promotoria. Higgins  bom nisso, mas nunca se sabe. Preston tem
um advogado malandro e ele vai tentar distorcer todos os fatos a seu favor.

  -- Tenho certeza de que tudo vai dar certo. Voc  mais inteligente do que ele.

   -- Veremos. Eu detesto o fato de que o julgamento vai acontecer em Marlborough.
Higgins quer me preparar para o testemunho na noite de tera-feira, depois que o
tribunal encerrar as atividades do dia.

  Erin j sabia de tudo aquilo e acenou afirmativamente com a cabea. O caso Preston
teve uma ampla repercusso na mdia e o julgamento comearia na segunda-feira, em
Marlborough, no em Boston. Lorraine Preston havia supostamente contratado um
homem para matar seu marido. Alm de Douglas Preston ser um bilionrio que
gerenciava fundos de investimentos, sua esposa tambm era uma celebridade social,
envolvida no apoio a instituies filantrpicas que iam desde museus de arte at a
organizao de orquestras sinfnicas em escolas de bairros carentes. A exposio do
caso antes do julgamento havia sido impressionante. Todos os dias, sem exceo, um
ou dois artigos eram publicados na primeira pgina dos jornais e longas reportagens
                                       .
eram exibidas nos noticirios da TV Quantias imensas de dinheiro, prticas sexuais
estranhas, drogas, traio, infidelidade, assassinatos e um filho ilegtimo. Por causa de
toda a comoo ao redor do caso, o julgamento havia sido transferido para
Marlborough. Kevin foi um dentre vrios policiais destacados para a investigao e
todos deveriam dar seu testemunho na quarta-feira. Como todas as pessoas, Erin estava
acompanhando as notcias, mas, ocasionalmente, ela perguntava alguns detalhes a
Kevin sobre o desenrolar do caso.

  -- Sabe do que voc vai precisar quando sair do tribunal? -- perguntou ela. -- De
                                                                   oc
um passeio  noite para relaxar. Ns poderamos sair para jantar. V estar de folga
na sexta-feira, no ?

  -- Ns fizemos isso no ano-novo -- resmungou Kevin, esfregando novamente uma
fatia de torrada na gema que estava espalhada em seu prato. Havia restos de geleia em
seus dedos.

  -- Se voc no quiser sair, eu posso preparar algo especial aqui em casa mesmo.
Qualquer coisa que voc queira. Podemos tomar um vinho e talvez acender a lareira, e
eu posso vestir algo bem sensual para voc. Podemos fazer algo bem romntico.

  Ele levantou os olhos do seu prato enquanto ela falava. -- A questo  a seguinte:
                                                                          oc
estou aberta a tudo o que voc quiser -- disse ela, com uma voz doce. -- V precisa
de uma folga. No gosto quando voc trabalha tanto assim.  como se eles esperassem
que voc solucionasse todos os casos que existem na cidade.

  Ele tamborilou com seu garfo no prato, estudando-a. -- Por que voc est agindo
assim, toda meiga e carinhosa? O que est acontecendo?

  Dizendo a si mesma para continuar com a encenao, ela se levantou da mesa.

  -- Ah, quer saber? Esquea.

  Ela pegou seu prato e o garfo bateu contra ele, caindo sobre a mesa e depois no
cho. -- Estava tentando demonstrar meu apoio porque voc vai ter que sair da cidade,
mas, se voc no gostou das minhas ideias, est tudo bem. Decida o que voc quer
fazer e depois me fale quando tiver tempo.

  Erin andou rapidamente at a pia, pisando no cho com fora, e abriu a torneira com
fora. Ela sabia que o havia surpreendido e podia senti-lo vacilando entre a raiva e a
confuso. Esfregou as mos sob o jato d'gua e depois as levou ao rosto. Em seguida,
inspirou o ar em golfadas rpidas, escondendo seu rosto e fazendo um som
estrangulado. E levantou seus ombros com um pouco de esforo.

  --V  oc est chorando? -- perguntou ele. Ela o ouviu arrastar a cadeira para trs
para se levantar. -- Por que diabos voc est chorando?

  Ela falou com a voz propositalmente embargada, esforando-se ao mximo para
fazer pronunci-las entre seus soluos.

  -- Eu no sei mais o que fazer. No sei o que voc quer. Eu sei o quanto este caso 
grande e importante e toda a presso que voc est sentindo...

  Erin estrangulou as ltimas palavras, sentindo que ele se aproximava. Quando sentiu
que ele a tocava, ela tremeu.

  -- Ei, est tudo bem -- disse ele, a contragosto. -- No precisa chorar.

  Ela se virou em direo a ele com os olhos fechados, encostando o rosto contra o
peito de Kevin. -- Eu s quero fazer voc feliz -- disse ela com a voz trmula, antes
de enxugar o rosto mido na camisa dele.

  -- Vamos pensar em alguma coisa, certo? Teremos um timo fim de semana, eu lhe
prometo. Para apagar o que aconteceu ontem  noite.

  Erin colocou seus braos ao redor dele, abraando-o e soluando. Ela tomou flego
mais uma vez, inalando profundamente. -- Lamento muito por tudo isso. Sei que voc
no precisava ouvir isso logo hoje. Esse ataque de nervos que eu tive por causa de
algo que no tem a menor importncia. Voc j tem muito com o que se preocupar.

       ou
  -- V conseguir dar conta de tudo -- disse ele. Kevin inclinou a cabea e Erin se
ergueu para beij-lo, ainda com os olhos fechados. Quando se afastou, ela enxugou o
rosto com os dedos e o abraou novamente. Quando ele a puxou para si, Erin sentiu
que Kevin estava ficando excitado. Ela sabia que sua vulnerabilidade o excitava.

  -- Ainda temos algum tempo antes que eu tenha que sair para o trabalho -- disse ele.

  -- Preciso limpar a cozinha antes.
  -- Voc pode fazer isso depois -- disse ele.


ALGUNS MINUTOS DEPOIS, com Kevin se movimentando em cima dela, Erin fez os sons
que ele queria enquanto olhava pela janela do quarto e pensava em outras coisas.

   Ela havia aprendido a odiar o inverno, com aquele frio insuportvel e um jardim que
ficava coberto por uma grossa camada de neve, porque no podia sair de casa. Kevin
no gostava de deix-la andar pelo bairro, mas deixava que ela cuidasse de seus
canteiros de flores no quintal, pois havia uma cerca ao redor do terreno que lhe dava
privacidade. Na primavera, Erin sempre plantava flores em vasos e legumes em um
pequeno canteiro ao lado da garagem, onde o sol brilhava com fora, longe da sombra
das rvores. No outono, vestia um suter e lia livros que pegava emprestado na
biblioteca enquanto as folhas secas e quebradias cobriam o quintal.

  Entretanto, o inverno fazia com que sua vida se transformasse em uma priso -- fria,
cinzenta e triste. Um tormento. Ela passava vrios dias sem colocar os ps para fora de
casa, porque nunca sabia quando Kevin apareceria de surpresa. Erin sabia o
sobrenome de um nico casal de vizinhos, os Feldmans, que viviam do outro lado da
rua. Em seu primeiro ano de casamento, Kevin raramente a agredira e, algumas vezes,
ela sara para fazer caminhadas sem que ele a acompanhasse. Os Feldmans, um casal
mais velho, gostavam de cuidar do jardim e, no primeiro ano em que ela morara ali,
ela frequentemente parava para conversar com eles. Kevin tentou gradualmente acabar
com aquelas visitas amigveis. Agora, s visitava os Feldmans quando sabia que
Kevin estava ocupado com o trabalho e quando sabia que no poderia lhe telefonar.
Ela se certificava de que nenhum outro vizinho a estava observando antes de atravessar
a rua correndo para bater na porta deles. Sentia-se como uma espi quando os visitava.
Eles lhe mostravam vrias fotos de suas filhas, tiradas em diferentes pocas da vida.
Uma havia morrido e a outra havia se mudado para longe, e Erin achava que eles eram
to solitrios quanto ela. No vero, ela preparava tortas de mirtilos para os Feldmans e
depois passava o resto da tarde limpando a farinha espalhada pela cozinha para que
Kevin no desconfiasse.

   Depois que Kevin saiu para o trabalho, ela limpou as janelas e colocou lenis
limpos na cama. Ela passou o aspirador de p e limpou a cozinha. Enquanto
trabalhava, aproveitou para experimentar disfarar a voz, praticando para falar com um
tom mais grave, de modo que pudesse soar como se fosse a voz de um homem. Tentou
no pensar no telefone celular que havia deixado para carregar durante a noite e
escondido debaixo da pia. Mesmo sabendo que poderia nunca mais ter uma chance to
boa, ainda estava aterrorizada, pois havia muitas coisas que podiam dar errado.

   Ela preparou o caf da manh de Kevin na manh de segunda-feira como sempre
fizera. Quatro fatias de bacon, ovos fritos no ponto mdio e duas fatias de torrada. Ele
estava mal-humorado e distrado e leu o jornal sem conversar muito. Antes de sair de
casa, vestiu um sobretudo por cima do palet e ela lhe disse que tomaria um banho.

  -- Deve ser timo acordar todos os dias sabendo que voc pode fazer tudo o que
quiser, na hora que quiser.

  -- O que vai querer para o jantar? -- perguntou ela, fingindo no ter ouvido o que
ele disse.

  Ele pensou na pergunta. -- Lasanha e po de alho. E uma salada para acompanhar --
disse ele.

  Quando Kevin saiu, ela ficou em frente  janela, observando o carro dele se afastar
at chegar  esquina. Assim que ele virou, ela foi at o telefone, sentindo-se at mesmo
um pouco tonta ao pensar no que iria acontecer a seguir.

  Quando ligou para a companhia telefnica, ela foi transferida para o departamento de
atendimento ao cliente. Cinco, seis minutos se passaram. Kevin demoraria vinte
minutos para chegar ao trabalho e, sem dvida, ligaria para casa assim que chegasse.
Ela ainda tinha tempo. Finalmente, um atendente comeou a falar com ela e lhe
perguntou seus dados. Nome, endereo e o nome de solteira da me de Kevin. A conta
do telefone estava em nome de Kevin e ela recitou as informaes na voz grave que
havia praticado anteriormente. Aquela voz no era parecida com a de Kevin, talvez
nem mesmo soasse masculina, mas o atendente estava com pressa e no percebeu.

   -- Eu gostaria de contratar um servio de transferncia de chamadas nesta linha
telefnica. Seria possvel? -- perguntou ela.

  -- Existe uma taxa extra para a contratao do servio, mas o servio inclui
chamadas em espera e correio de voz. Custa apenas...
  -- Est timo -- disse ela, interrompendo o atendente. Mas seria possvel ativar o
servio hoje?

  -- Sim -- disse o homem. Ela o ouviu digitar algo no computador. Demorou um bom
tempo at que ele voltasse a falar. Ele lhe disse que a taxa extra apareceria na prxima
fatura, que seria enviada na semana seguinte, mas que o valor mensal total seria
cobrado, embora ela estivesse contratando o servio hoje. Erin lhe disse que no
haveria problemas. Ele pediu mais algumas informaes e disse que ela poderia
comear a usar o servio imediatamente. Toda a transao havia levado dezoito
minutos para ser concluda.

  Kevin lhe telefonou da delegacia trs minutos depois.




LOGO DEPOIS DO TELEFONEMA de Kevin, ela ligou para o Super Shuttle, um servio de
vans especializado em levar pessoas para o aeroporto e para a rodoviria. Fez uma
reserva para o dia seguinte. Depois, com o telefone celular nas mos, finalmente o
ativou. Ela ligou para um cinema da cidade que repetia uma mensagem gravada com a
programao dos filmes, para ter certeza de que o aparelho estava funcionando. A
seguir, ativou o servio de transferncia de chamadas no telefone fixo, programando-o
para que quaisquer chamadas fossem transferidas para o nmero do cinema. Para testar
o esquema, usou o celular para ligar para o telefone fixo. Seu corao estava aos pulos
quando o aparelho tocou. No segundo toque, a chamada foi transferida e ela ouviu a
gravao com a programao do cinema. Ela sentiu algo se libertar dentro do peito e
suas mos estavam tremendo enquanto desligava o aparelho celular e o recolocava na
caixa de esponjas para a pia. Ela desprogramou o servio de transferncia de
chamadas e o telefone fixo voltou a funcionar como antes.

  Quarenta minutos depois, Kevin voltou a ligar.

  Erin passou o restante da tarde em um estado de torpor, trabalhando sem parar para
que sua cabea no tivesse tempo de se preocupar. Ela passou duas das camisas de
Kevin e trouxe a bolsa para proteger o palet e a mala que estavam guardados na
garagem. A seguir, escolheu um par de meias limpas e engraxou um par de sapatos
pretos dele. Passou a escova para tirar fiapos de seu palet e das calas pretas, o terno
que sempre usava quando tinha que comparecer ao tribunal, e pegou trs gravatas para
que ele escolhesse qual iria querer usar. Ela esfregou o cho do banheiro e os rodaps
com vinagre at que eles estivessem brilhando. Depois, tirou com cuidado a poeira de
cada pea de loua no armrio onde guardava suas porcelanas e comeou a preparar a
lasanha. Ferveu a massa e fez um molho  bolonhesa, alternando as camadas com fatias
de queijo. Pincelou quatro fatias de po italiano com manteiga, alho e organo e picou
todos os ingredientes de que precisava para a salada. Por fim, ela tomou um banho e se
vestiu de maneira sensual. s 5 horas, Erin colocou a lasanha no forno.

  Quando Kevin chegou em casa, o jantar estava pronto. Ele comeu a lasanha e falou
sobre como tinha sido seu dia. Quando ele pediu para repetir o prato, ela se levantou
da mesa e lhe trouxe uma segunda poro. Depois do jantar, ele bebeu vodca enquanto
assistia a reprises de Seinfeld e O rei do bairro . Depois, assistiu ao jogo de basquete
entre o Boston Celtics e o Minesotta Timberwolves e ela se sentou ao seu lado. Ele
adormeceu em frente  televiso e ela caminhou at o quarto. Erin se deitou na cama,
olhando para o teto, at que Kevin acordou e veio cambaleando para o quarto,
desabando sobre o colcho. Ele adormeceu imediatamente, com um brao por cima
dela, e o barulho dos seus roncos soava como um aviso.

  Como de costume, Erin preparou o caf da manh de Kevin na manh de tera-feira.
Ele guardou suas roupas e artigos de higiene pessoal na mala e estava pronto para ir
para Marlborough. Depois, levou suas coisas para o carro e voltou para a porta da
frente, onde ela estava. E a beijou.

  -- Estarei de volta amanh  noite -- disse ele.

      ou
  -- V sentir saudades -- disse ela, encostando a cabea em seu ombro e colocando
os braos ao redor do pescoo dele.

  -- Acho que devo chegar por volta das 8.

       ou
  -- V fazer algo que eu possa requentar quando voc chegar em casa. Que tal um
chili11?
  -- Acho que vou comer antes de voltar para casa.

 -- Tem certeza? Voc vai mesmo querer comer em alguma lanchonete? Faz muito
mal para voc.

  -- Veremos -- disse ele.

  -- Eu vou preparar o chili mesmo assim. Caso voc mude de ideia.

  Kevin a beijou enquanto ela o abraava. -- Eu lhe telefono mais tarde -- disse ele,
deslizando as mos pelas costas dela. Acariciando-a.

  -- Eu sei -- respondeu Erin.


NO BANHEIRO, Erin se despiu e colocou suas roupas sobre o vaso sanitrio e depois
enrolou o tapete. Ela havia forrado a pia com um saco de lixo e, nua, se olhou no
espelho. Deslizou os dedos pelos hematomas que tinha nas costelas e no pulso. Suas
costelas estavam marcadas contra a pele e as olheiras davam ao seu rosto uma
compleio quase cadavrica. Foi tomada por uma onda de fria misturada com
tristeza,  medida que imaginava como Kevin chamaria seu nome quando entrasse pela
porta da frente, ao voltar da viagem. Ele a chamaria pelo nome e iria at a cozinha. Ele
procuraria por ela no quarto. Verificaria tambm a garagem, a varanda dos fundos e o
poro. "Onde voc est?", perguntaria ele. "O que temos para o jantar?"

  Com a tesoura, ela comeou a cortar seu prprio cabelo com selvageria. Dez
centmetros de cabelo loiro caram no saco de lixo. Ela pegou outra mecha, usando os
dedos para puxar os fios, dizendo a si mesma para medir o comprimento, e cortou
novamente. Sentiu um forte aperto no peito.

  -- Eu odeio voc! -- sibilou ela, com a voz trmula. -- O tempo todo me agredindo
e humilhando!

 Cortou mais mechas do cabelo, seus olhos se enchendo com as lgrimas da fria. --
Me bateu porque eu tive que fazer compras!

  Mais cabelos caram na pia. Tentou se conter para igualar as pontas. -- Fez com que
eu roubasse dinheiro de sua carteira e me chutou porque estava bbado!

  Estava tremendo agora. Suas mos no conseguiam se firmar no trabalho. Mechas de
tamanhos diferentes se acumulavam a seus ps. -- Fez com que eu tivesse que me
esconder! Bateu em mim com tanta fora que eu vomitei!

  Cortou novamente com a tesoura. -- Eu amava voc! -- disse ela, entre soluos. --
 oc
V prometeu que nunca mais me bateria e eu acreditei em voc! Eu quis acreditar em
voc!

  Erin cortava os cabelos e chorava. Quando seu cabelo j estava com um
comprimento uniforme, ela tirou a tintura que havia escondido atrs da pia. Castanho-
escuro. Em seguida, entrou no box e molhou os cabelos. Virou o frasco e comeou a
aplicar a tintura no couro cabeludo. Ficou em p em frente ao espelho e chorou
incontrolavelmente enquanto a nova cor se fixava nos cabelos. Ao final do processo,
entrou novamente no box e enxaguou os cabelos. Ela os lavou com xampu e
condicionador, e postou-se novamente em frente ao espelho. Cuidadosamente, aplicou
o delineador nas sobrancelhas, escurecendo-as. Aplicou tambm creme bronzeador em
sua pele, escurecendo-a. Vestiu-se com uma cala jeans e um suter e olhou para si
mesma no espelho.

  Uma mulher estranha, morena e de cabelos curtos olhou de volta para Erin.

  Ela limpou o banheiro com bastante cuidado, certificando-se de que nenhum fio de
cabelo ficasse no piso do box ou no cho do banheiro. Outras mechas foram parar no
saco de lixo, com a embalagem da tintura para cabelos. Esfregou a pia e o balco do
banheiro e amarrou a boca do saco de lixo. Finalmente, pingou colrio nos olhos,
tentando apagar a evidncia de suas lgrimas.

   Erin tinha que correr agora. Guardou suas coisas em uma bolsa de viagem. Trs
calas jeans, dois suteres, camisas. Calcinhas e sutis. Meias. Escova e pasta de
dentes. Uma escova para o cabelo. Delineador para suas sobrancelhas. As poucas joias
que possua. Queijo, biscoitos, nozes e uvas-passas. Um garfo e uma faca. Ela foi para
a varanda dos fundos e pegou o dinheiro que deixara escondido debaixo do vaso de
flores. Pegou tambm o telefone celular que estava na cozinha. E, finalmente, a
identificao que precisava para comear uma nova vida -- documentos que havia
roubado de pessoas que confiavam nela. Sentiu dio de si mesma por haver roubado e
sabia que aquilo era errado, mas no teve outra escolha. Rezou e pediu a Deus que a
perdoasse, pois j era tarde demais para voltar atrs.

  Ela havia ensaiado a situao em sua cabea milhares de vezes e andou rapidamente.
A maioria dos vizinhos j havia sado para o trabalho. No queria que ningum a visse
saindo de casa, no queria que ningum a reconhecesse.

  Erin colocou um chapu e vestiu sua jaqueta, com um cachecol e luvas. Depois,
enfiou sua bolsa de viagem embaixo da blusa que vestia, apertando-a e enrolando-a at
que assumisse um formato arredondado. At que ela parecesse estar grvida. Vestiu
tambm seu sobretudo por cima das roupas. A pea era grande o bastante para cobrir a
barriga falsa.

   Olhou-se mais uma vez no espelho. Cabelo curto e escuro. Pele cor de cobre.
Grvida. Ela colocou um par de culos escuros e, ao sair pela porta, ligou seu telefone
celular e programou o telefone fixo da casa para transferir as chamadas. Erin saiu de
casa pelo porto lateral, andando por entre sua casa e a do vizinho, seguindo a cerca, e
colocou o saco de lixo na lixeira da casa ao lado. Sabia que o casal que morava ali
havia sado para trabalhar e que no havia ningum em casa. Com os vizinhos de trs a
rotina era a mesma. Ento atravessou o quintal de seus vizinhos e saiu pela lateral,
finalmente chegando  calada da rua, que estava coberta por uma fina camada de gelo.

  A neve havia voltado a cair. Sabia que, no dia seguinte suas pegadas j teriam
desaparecido.

  Precisaria caminhar por seis quarteires, mas sabia que conseguiria faz-lo.
Manteve a cabea baixa enquanto andava, tentando ignorar o vento cortante, sentindo-
se estonteada, livre e aterrorizada, tudo ao mesmo tempo. Sabia que, amanh  noite,
Kevin andaria pela casa, chamando seu nome, e no a encontraria porque ela no
estaria mais l. E, amanh  noite mesmo, ele j comearia sua caada.


FLOCOS DE NEVE riscavam o ar enquanto Katie esperava no cruzamento, em frente 
porta de um restaurante. Ao longe, ela viu a van azul do Super Shuttle dobrar a esquina
e seu corao bateu mais forte no peito. Bem naquele momento, ela ouviu o telefone
celular tocar.

  Erin empalideceu. Os carros passavam em alta velocidade  sua frente, com os pneus
fazendo barulho enquanto esmagavam a neve acumulada na rua. Ao longe, a van mudou
de faixa, se aproximando do lado da rua onde ela estava. Ela tinha que atender; no
havia outra escolha alm de atender o telefone. Mas a van estava se aproximando e
havia muito rudo na rua. Se atendesse agora, Kevin saberia que ela estava fora de
casa. Ele perceberia que ela o havia abandonado.

  O telefone tocou pela terceira vez. A van azul parou em um sinal vermelho. A um
quarteiro de distncia.

   Ela se virou, entrando no restaurante. Os sons estavam abafados, mas ainda eram
perceptveis -- uma sinfonia de pratos batendo uns contra os outros e pessoas
conversando. Logo  frente estava o plpito da recepcionista, onde um homem pedia
que ela o levasse a uma mesa. Erin sentiu seu estmago embrulhar. Ela cobriu o bocal
do telefone com uma das mos e olhou pela janela, rezando silenciosamente para que
ele no conseguisse ouvir a comoo que havia  sua volta. Sentiu suas pernas
tremerem enquanto pressionava o boto e atendia  ligao.

  -- Por que demorou tanto para responder? -- perguntou Kevin.

  -- Eu estava no chuveiro. O que houve?

  -- Ainda faltam dez minutos para me chamarem no tribunal. E voc, como est?

  -- Estou bem -- respondeu ela.

  Ele hesitou. -- Sua voz est estranha. Tem alguma coisa errada com o telefone?

   A um quarteiro de distncia, o semforo acendeu a luz verde. A van do Super
Shuttle se aproximou da calada, com a luz da seta acesa, indicando que iria
estacionar. Atrs dela, as pessoas do restaurante haviam ficado surpreendentemente
silenciosas.

  -- No sei. Mas estou ouvindo voc muito bem -- disse ela. -- Provavelmente o
sinal de celular  ruim no lugar onde voc est. Como foi a viagem?
  -- No foi ruim depois que sa da cidade. Mas ainda h gelo cobrindo a pista em
alguns lugares.

  -- Isso no parece ser muito bom. Tenha cuidado.

  -- Estou bem -- disse ele.

  -- Eu sei -- disse ela. A van estava estacionando ao lado da calada e o motorista
estava esticando o pescoo, procurando por ela. -- Detesto ter que fazer isso, mas
voc no quer me ligar daqui a alguns minutos? Ainda estou com o cabelo cheio de
condicionador e preciso enxagu-lo.

  -- Tudo bem. Ligo de volta em alguns minutos -- resmungou ele.

  -- Amo voc.

  -- Eu tambm amo voc.

  Ela deixou que ele desligasse antes de pressionar o boto para encerrar a ligao no
celular. Em seguida, ela saiu do restaurante e correu para a van.

   Ao chegar  rodoviria, comprou uma passagem para a Filadlfia, detestando a
atitude do homem que lhe vendeu a passagem que insistia em puxar assunto para
conversar.

  Em vez de esperar no terminal, ela atravessou a rua para tomar caf da manh. O
dinheiro para a van e para a passagem de nibus haviam levado mais da metade do que
ela guardara durante o ano, mas ela sentia fome. Pediu panquecas, salsicha e leite.
Algum havia esquecido um jornal sobre a mesa e ela se forou a l-lo. Kevin ligou
para Erin enquanto ela comia. Quando ele mencionou outra vez que a voz dela estava
estranha, ela disse que poderia ser por causa da nevasca.

  Vinte minutos depois, ela embarcou no nibus. Uma senhora idosa apontou para a
barriga falsa enquanto ela passava pelo corredor.

  -- Quanto tempo at o parto?

  -- Mais um ms.
  --  o primeiro?

  -- Sim -- respondeu ela, mas sua boca estava to seca que era difcil manter a
conversa. Ela continuou andando pelo corredor do nibus e sentou-se em uma das
ltimas poltronas. Havia pessoas sentadas  sua frente e tambm atrs. Do outro lado
havia um jovem casal. Adolescentes, um deitado por cima do outro, escutando msica.
Suas cabeas balanavam para cima e para baixo.

  Erin olhou pela janela enquanto o nibus saa da rodoviria, sentindo-se como se
estivesse sonhando. Na autoestrada, Boston comeou a ficar cada vez menor na
distncia, cinzenta e fria. Suas costas doam conforme o nibus avanava, correndo por
quilmetros e quilmetros. A neve continuou a cair e os pneus dos carros continuavam
espalhando a neve suja conforme passavam pelo nibus.

  Ela desejou poder conversar com algum. Queria contar a algum que estava fugindo
porque seu marido lhe batia e que no podia chamar a polcia porque seu marido era a
polcia. Queria contar a algum que no tinha muito dinheiro e que nunca mais poderia
usar seu prprio nome. Se fizesse aquilo, ele a encontraria e a arrastaria de volta para
casa. E voltaria a bater nela, mas desta vez ele provavelmente no pararia. Queria
contar a algum que estava aterrorizada porque no sabia onde dormir naquela noite ou
o que faria para conseguir comer quando seu dinheiro acabasse.

   Erin sentiu o ar frio contra a janela conforme o nibus passava por outras cidades. O
trnsito na estrada diminuiu, mas pouco tempo depois a estrada voltou a ficar cheia.
Ela no sabia o que fazer. Seus planos terminavam no nibus e no havia ningum a
quem ela pudesse ligar para pedir ajuda. Estava sozinha e no tinha nada alm das
coisas que trazia consigo.

   Uma hora antes de chegar  Filadlfia12, o telefone celular tocou novamente. Ela
cobriu o bocal com a mo e conversou com Kevin. Antes de desligar, ele prometeu
ligar novamente antes de ir para a cama.


ERIN CHEGOU  FILADLFIA no final da tarde. Fazia frio, mas no estava nevando. Os
passageiros desembarcaram do nibus e ela se deixou ficar para trs, esperando que
todos sassem. No banheiro, tirou a bolsa de debaixo das roupas, foi para a sala de
espera e sentou-se em um dos bancos. Seu estmago estava roncando. Pegou um
pedao do queijo e o comeu com alguns biscoitos. Sabia que teria que fazer aquela
comida durar e guardou o restante de volta na mala, mesmo que ainda estivesse com
fome. Finalmente, depois de comprar um mapa da cidade, saiu da rodoviria.

  O terminal rodovirio no ficava em uma parte ruim da Filadlfia. Ela avistou o
centro de convenes e o Trocadero Theater13. Aquilo a fez se sentir segura, mas
tambm significava que nunca teria condies de pagar por um quarto de hotel naquela
regio. O mapa indicava que estava prxima do bairro de Chinatown e, sem um plano
melhor, caminhou naquela direo.

  Trs horas mais tarde, finalmente encontrou um lugar para dormir. O lugar era sujo e
cheirava a fumaa de cigarro, e seu quarto mal tinha espao para a pequena cama que
haviam enfiado ali dentro. Em vez de uma luminria havia apenas uma lmpada
incandescente pendurada no teto e todos os quartos compartilhavam o mesmo banheiro,
no final do corredor. As paredes eram cinzentas e estavam manchadas pela umidade.
Nos quartos vizinhos, dava para ouvir as pessoas conversando em um idioma que ela
no conseguia entender. Mesmo assim, o dinheiro que ela tinha no lhe permitia ir para
outro lugar. A quantia era suficiente para passar trs noites ali, ou quatro, se ela
conseguisse sobreviver com a pouca comida que havia trazido de casa.

  Ela se sentou na beirada da cama, tremendo, com medo do lugar, com medo do futuro
e com sua mente em um turbilho. Tinha que ir ao banheiro, mas no queria sair do
quarto. Tentou dizer a si mesma que seria uma aventura e que tudo ficaria bem. Por
mais estranho que parecesse, Erin comeou a se perguntar se sair de casa teria sido um
erro. Tentou no pensar na sua cozinha, no seu quarto e em todas as coisas que havia
deixado para trs. Sabia que podia comprar uma passagem de volta para Boston e
chegar em casa antes que Kevin percebesse que fugira. Mas seu cabelo agora estava
curto e castanho e isso ela no teria como explicar.

  Do lado de fora, o sol j havia desaparecido, mas as luzes da rua iluminavam o
quarto atravs da janela suja. Ela ouviu o som de buzinas e olhou para a rua. Na rua,
todas as fachadas tinham nomes escritos com caracteres chineses e algumas das lojas
ainda estavam abertas. Dava para ouvir algumas das conversas que vinham dos cantos
mais escuros e havia sacos plsticos cheios de lixo empilhados nas caladas. Estava
em uma cidade que no conhecia, cercada por estranhos. Pensou que talvez no
conseguisse se libertar, afinal. Que no era forte o bastante. Em trs dias, ela no teria
um lugar para dormir a menos que conseguisse encontrar um emprego. Se vendesse
suas joias talvez pudesse pagar por mais uma noite no hotel, mas e depois? O que
faria?

  Ela se sentia muito cansada e suas costas ainda latejavam. Deitou-se e o sono veio
quase imediatamente. Kevin telefonou mais tarde e o toque do telefone a despertou.
Precisou de toda sua energia e concentrao para falar com a voz firme, para evitar
que ele descobrisse sua fuga. Mesmo assim, fez parecer como se estivesse to cansada
quanto realmente estava, fazendo com que Kevin acreditasse que ela estava na cama do
casal. Depois que ele desligou, adormeceu em poucos minutos.

  Pela manh, ouviu pessoas andando pelo corredor, indo em direo ao banheiro.
Duas mulheres chinesas estavam em frente s pias. O revestimento da parede estava
coberto por um bolor verde e havia papel higinico molhado no cho. A porta da
cabine no tinha uma tranca e ela teve que segur-la com a mo.

  De volta ao quarto, Erin tomou um caf da manh composto por queijo e biscoitos.
Ela pensou em tomar um banho, mas percebeu que havia se esquecido de trazer xampu
e sabonete, ento no haveria como fazer aquilo. Trocou de roupa e escovou seus
dentes e cabelo. Em seguida, guardou suas roupas novamente na bolsa de viagem, pois
no queria deix-la no quarto, e passou a ala por sobre o ombro. Desceu pelas
escadas e viu que o mesmo funcionrio que havia lhe entregado a chave do quarto
continuava atrs do balco da recepo. Imaginou que ele nunca saa de trs do balco.
Pagou por mais uma noite e pediu-lhe que deixasse o quarto reservado.

   Do lado de fora, o cu estava azul e as ruas, secas. Ela percebeu que a dor em suas
costas havia quase desaparecido. Fazia frio, mas no tanto frio como em Boston e,
apesar de seus medos, ela percebeu que estava sorrindo. Fez questo de lembrar a si
mesma que havia conseguido. Kevin estava a centenas de quilmetros de distncia e
no sabia onde ela estava. Ele ligaria mais uma ou duas vezes. Depois, jogaria o
telefone fora e nunca mais teria que voltar a conversar com ele.

  Erin levantou a cabea e respirou o ar gelado. Sentia que o dia era revigorante, cheio
de possibilidades. Hoje, iria encontrar um emprego. Hoje, decidiu Erin, ela comearia
a viver o resto de sua vida.


ELA HAVIA FUGIDO duas vezes antes e gostaria de ter aprendido com seus erros. A
primeira vez aconteceu pouco antes de completar um ano de casamento, depois que
Kevin lhe bateu enquanto ela se agachava em um canto do quarto. As contas da casa
haviam chegado e Kevin ficou irritado porque ela ajustara o termostato para deixar a
casa mais quente. Quando finalmente parou de agredi-la, ele pegou as chaves do carro
e saiu de casa para comprar mais bebida. Sem pensar no que estava fazendo, ela pegou
sua jaqueta e saiu de casa, mancando pelas ruas. Horas depois, com o granizo caindo e
sem qualquer lugar para ir, ela lhe telefonou e ele foi busc-la.

  Na ocasio seguinte, Erin chegou a ir at Atlantic City antes que ele a encontrasse.
Ela havia tirado dinheiro da carteira de Kevin e comprado uma passagem de nibus,
mas ele a encontrou menos de uma hora depois de Erin chegar ao seu destino. Kevin
dirigiu em alta velocidade pela estrada, sabendo que ela correria para o nico lugar
onde ainda tinha amigos. Ele a algemou no banco de trs do carro antes de voltar para
casa. No caminho, ele parou o carro ao lado de um prdio de escritrios abandonado e
bateu nela novamente. Mais tarde, naquela noite, a arma surgiu.

  Depois daquele episdio, ele criou mais obstculos para ela. Deixava seu dinheiro
guardado em uma caixa com um cadeado e comeou a rastrear seu paradeiro de forma
obsessiva. Ela sabia que ele tomaria atitudes extremas para encontr-la. Por mais que
fosse louco, Kevin era persistente e metdico e seus instintos raramente falhavam. Ele
descobriria que ela estava na Filadlfia e iria encontr-la. Erin estava em vantagem
por enquanto, mas, sem dinheiro para recomear a vida em algum outro lugar, tudo o
que podia fazer era olhar por cima dos ombros, mas apenas por um breve perodo. O
tempo que passaria na Filadlfia seria curto.

   Erin encontrou um emprego como garonete para servir coquetis no seu terceiro
dia. Inventou um nome e um nmero de seguro social. Os dados seriam verificados
depois de algum tempo, mas ela j teria ido embora quando aquilo acontecesse. Ela
encontrou outro quarto para alugar na parte mais distante de Chinatown. Assim,
trabalhou durante duas semanas, acumulando o dinheiro das gorjetas enquanto
procurava por outro emprego. Quando encontrou, deixou o emprego de garonete sem
nem se incomodar em pegar seu salrio. No havia razo para aquilo. Sem uma
identidade vlida, no conseguiria descontar o cheque. Trabalhou por mais trs
semanas em um pequeno restaurante e se mudou para um outro hotel, que ela alugava
por semana. Embora estivesse em uma parte mais perigosa da cidade, o quarto era
mais caro, mas tinha um banheiro privativo com chuveiro quente. Valia a pena, mesmo
que fosse apenas para ter um pouco de privacidade e um lugar onde pudesse deixar
suas coisas. Erin havia juntado algumas centenas de dlares em gorjetas, mais do que
tinha quando saiu de Dorchester, mas ainda no era o bastante para recomear sua
vida. Novamente, ela saiu do emprego sem pegar seu salrio, sem nem mesmo se
incomodar em pedir demisso. Encontrou outro emprego alguns dias depois,
novamente trabalhando em um restaurante. No novo emprego, disse ao gerente que seu
nome era rica.

  As constantes mudanas de emprego e de hotel fizeram com que ela continuasse
vigilante e foi l, apenas quatro dias depois de comear, que ela virou uma esquina a
caminho do trabalho e viu um carro que, de algum modo, lhe pareceu estranho. Ela
parou.

  Mesmo depois de muito tempo, ainda no sabia como pde perceber alguma coisa s
porque o carro estava limpo o bastante para refletir os raios do sol da manh. Enquanto
olhava para o carro, ela viu que havia movimento no banco do motorista. O motor no
estava ligado e lhe pareceu estranho perceber que havia algum dentro de um veculo
sem o dispositivo de aquecimento em uma manh fria. Ela sabia que as nicas pessoas
que faziam aquilo eram aquelas que estavam esperando por algum.

  Ou que estavam  procura de algum.

  Kevin.

  Erin sabia que era ele. Sabia com uma certeza que a surpreendia. Deu meia-volta e
virou a esquina de novo, voltando pelo mesmo caminho por onde viera, rezando para
que ele no a tivesse visto pelo espelho retrovisor. Assim que o carro estava fora do
seu campo de viso, ela comeou a correr de volta para o hotel, com o corao aos
pulos. No corria to rpido assim h anos, mas todas as caminhadas que vinha
fazendo nas ltimas semanas haviam fortalecido suas pernas e ela andou rapidamente.
Um quarteiro. Dois. Trs. Olhava constantemente por cima do ombro, mas Kevin no
a seguia.
  Aquilo no importava. Ele sabia que ela estava ali. Ele sabia onde ela trabalhava.
Ele saberia de tudo se ela no aparecesse para trabalhar. Dentro de poucas horas, ele
descobriria o lugar onde ela estava morando.

  De volta ao quarto, jogou suas coisas na bolsa de viagem e saiu pela porta em
poucos minutos. Comeou a andar rumo  rodoviria. Mesmo assim, levaria um tempo
enorme para chegar at l. Uma hora de caminhada, talvez mais. E ela no tinha tempo.
Aquele seria o primeiro lugar onde ele iria quando percebesse que ela no estava no
restaurante. Dando meia-volta, voltou para o hotel e pediu ao recepcionista para lhe
chamar um txi. O veculo chegou dez minutos depois. Os dez minutos mais longos de
sua vida.

   Na rodoviria, examinou freneticamente os horrios dos nibus e escolheu um que
iria para Nova York e que sairia dali a meia hora. Ela se escondeu no banheiro
feminino at a hora de embarcar. Quando subiu no nibus, se deixou afundar em sua
poltrona. O nibus no demorou a chegar em Nova York. Novamente, examinou os
horrios e comprou uma passagem que a levaria at Omaha14.

  No incio da noite, ela desembarcou do nibus em algum lugar do estado de Ohio.
Ela dormiu na rodoviria e na manh seguinte caminhou at um posto de gasolina 
beira da estrada onde conheceu um homem que faria uma entrega em Wilmington, na
Carolina do Norte.

  Alguns dias mais tarde, depois de vender suas joias, ela chegou at Southport e
encontrou a cabana. Depois de pagar o primeiro ms de aluguel, no tinha mais
dinheiro para comprar comida.
                                        23



EM MEADOS DE JUNHO, Katie estava saindo do Ivan's aps uma noite movimentada
quando percebeu uma figura familiar perto da porta.

  -- Ol -- disse Jo, acenando. Ela estava embaixo do poste onde Katie havia
prendido sua bicicleta.

  -- Oi! O que veio fazer aqui? -- perguntou Katie, inclinando-se para abraar a
amiga. Ela nunca havia encontrado Jo na regio central da cidade antes e v-la longe
de casa, por algum motivo, lhe pareceu um pouco estranho.

  -- Vim procurar por voc. Voc sumiu.

  -- Eu poderia dizer o mesmo a seu respeito.

  -- Eu estive perto o bastante para saber que voc e Alex esto saindo juntos h
algumas semanas -- disse ela, piscando. -- Mas, como amiga, nunca achei que seria
correto me intrometer na sua vida. Imaginei que vocs dois precisariam de algum
tempo a ss.

  Katie sentiu seu rosto corar. -- E como voc sabia que eu estava aqui?

  -- Eu no sabia. Mas as luzes da sua casa esto apagadas e eu resolvi arriscar --
disse Jo, dando de ombros. Ela apontou por cima dos ombros. -- V       oc vai fazer
alguma coisa agora? Gostaria de tomar alguma coisa antes de voltar para casa?

  Quando percebeu a hesitao de Katie, ela prosseguiu. -- Sei que est tarde. S um
drinque, eu prometo. Depois a deixarei dormir em paz.

  -- Um drinque, ento -- concordou Katie.
  Alguns minutos depois, elas entraram em um pub, um dos lugares favoritos das
pessoas que moravam em Southport. As paredes eram revestidas com madeira escura,
marcada pelas dcadas de uso, com um longo espelho atrs do balco do bar. O lugar
estava tranquilo naquela noite. Apenas algumas mesas estavam ocupadas e as duas
mulheres se sentaram em uma mesa no fundo do salo. Como aparentemente no havia
garons, Katie pediu dois copos de vinho no balco e os trouxe para a mesa.

  -- Obrigada -- disse Jo, pegando o copo. -- Da prxima vez, eu pago a conta --
disse ela, recostando-se no assento. -- Quer dizer que voc e Alex esto juntos, ento?

  -- Voc realmente quer que eu fale sobre isso? -- perguntou Katie.

  -- Bem, como minha vida amorosa est em farrapos, tenho que me contentar em
perceber que voc est feliz com a sua. Parece mesmo que as coisas esto indo bem
para voc. Ele esteve na sua casa... quantas vezes? Duas ou trs vezes na semana
passada? E a mesma quantidade de vezes na semana anterior?

  "Na verdade, foram mais vezes", pensou Katie. -- Algo assim.

  Jo segurou sua taa pela haste e a fez girar entre os dedos. -- Entendo.

  -- Entende o qu?

  -- Se eu no a conhecesse, pensaria que seu relacionamento est ficando srio --
disse ela, levantando uma sobrancelha.

  -- Ns ainda estamos nos conhecendo -- arriscou Katie, sem saber onde Jo queria
chegar com aquelas perguntas.

  --  assim que todos os relacionamentos comeam. Ele gosta de voc, voc gosta
dele. E, a partir da, as coisas evoluem naturalmente.

  -- Foi por isso que voc veio me esperar na porta do trabalho? Para saber de todos
os detalhes? -- Katie tentou no parecer desesperada.

  -- No todos os detalhes. Apenas os mais importantes.

  Katie revirou os olhos. -- Em vez disso, que tal falarmos sobre sua vida amorosa?
  -- Por qu? Voc est querendo ficar deprimida?

  -- Quando foi a ltima vez que voc saiu com algum?

  -- Um encontro dos bons? Ou um encontro sem nada de mais?

  -- Um dos bons.

  Jo hesitou. -- Eu diria que faz pelo menos uns dois anos.

  -- E o que aconteceu?

  Jo molhou a ponta do dedo no vinho e depois deslizou-a pela borda da taa,
fazendo-a emitir um som suave. Finalmente, levantou os olhos. --  difcil encontrar
um homem bom e gentil -- disse ela, suspirando. -- Nem todo mundo tem a sorte que
voc teve.

  Katie no soube como responder quela frase. Assim, ela simplesmente tocou a mo
de Jo com a sua. -- O que est acontecendo realmente? -- perguntou ela, gentilmente.
-- Por que voc quis vir at aqui para conversar comigo?

  Jo olhou ao redor do bar, que estava praticamente vazio, como se estivesse tentando
encontrar inspirao no ambiente ao redor. -- V  oc j teve a sensao de se sentar e
comear a imaginar qual o sentido que existe em tudo isso? Se a vida  sempre assim,
ou se h algo maior l fora? Ou se voc estava destinado a ter algo melhor?

  -- Eu acho que todo mundo j teve essa sensao -- respondeu Katie, com a
curiosidade aumentando.

  -- Quando eu era criana, costumava fazer de conta que era uma princesa. Uma
princesa boa, que sempre faz a coisa certa e que tem o poder de melhorar a vida das
pessoas para que, no fim, elas vivam felizes para sempre.

  Katie movimentou a cabea levemente. Ela se lembrava de imaginar a mesma coisa
quando era criana, mas ainda no sabia aonde Jo chegaria com aquela conversa.
Assim, permaneceu em silncio.
  -- Acho que  por isso que tenho meu emprego atual. Quando comecei queria apenas
poder ajudar. Eu via as pessoas que estavam lutando contra a perda de algum que
amavam -- um pai, um filho, um amigo -- e meu corao transbordava com a
compaixo. Tentei fazer tudo o que estava ao meu alcance para melhorar a situao
daquelas pessoas. Mas, conforme o tempo passou, comecei a perceber que s
conseguiria ajudar at um certo ponto. E tambm que, a partir desse ponto, as pessoas
que estavam sofrendo precisariam querer dar um passo adiante. O primeiro passo,
aquela fagulha motivadora, tem que vir de dentro delas. E, quando isso acontece, 
como se uma porta para o inesperado se abrisse.

  Katie respirou fundo, tentando entender o sentido das palavras de Jo. -- No estou
entendendo o que voc quer me dizer.

  Jo girou o copo, estudando o pequeno redemoinho que se formara no vinho.

  Pela primeira vez, ela assumiu um tom muito srio. -- Estou falando sobre voc e
Alex.

  Katie no conseguiu esconder sua surpresa. -- Eu e Alex?

  -- Sim -- disse ela, assentindo. -- Ele lhe falou sobre a perda da esposa, no ?
Sobre o quanto foi difcil para que ele e para as crianas superarem aquela perda?

  Katie olhou fixamente para Jo, repentinamente se sentindo desconfortvel. -- Sim...
-- comeou ela.

 -- Ento tenha cuidado com eles. -- disse Jo, com a voz sria. -- Com todos eles.
Cuidado para no mago-los.

  No silncio desconfortvel que seguiu aquelas palavras, Katie se lembrou da
primeira conversa que as duas tiveram a respeito de Alex.

  "Vocs dois j se encontraram alguma vez?", ela se lembrava de ter perguntado a Jo.

  "Sim, mas talvez no da maneira que voc esteja imaginando", respondeu ela. "E
para que as coisas fiquem bem claras: aconteceu h um bom tempo e todos
prosseguiram com suas vidas".
  Quando tiveram aquela conversa, ela presumiu que aquilo significava que ela e Alex
haviam se envolvido no passado. Mas agora...

 Ela estava chocada pela obviedade da concluso. A psicloga que Alex havia
mencionado, a pessoa que ajudou as crianas e que o aconselhou depois da morte de
Carly fora Jo. Katie endireitou-se em seu assento.

  -- Voc trabalhou com Alex e as crianas, no foi? Depois que Carly morreu?

  -- Eu prefiro no falar sobre isso -- respondeu Jo. Seu tom de voz era calmo e
calculado. Exatamente como o de uma psicloga. -- O que eu posso lhe dizer  que...
todos eles so muito importantes para mim. E, se voc no estiver pensando seriamente
em compartilhar seu futuro com eles, acho que seria melhor terminar com tudo agora.
Antes que seja tarde demais.

  Katie sentiu seu rosto empalidecer. Parecia inapropriado -- talvez at mesmo
presunoso -- que Jo tocasse naquele assunto. -- No acho que isso seja realmente um
assunto que lhe diga respeito -- disse ela, com a voz estrangulada.

  Jo reconheceu que Katie tinha razo com um leve meneio de cabea. -- V       oc est
certa. Isso no me diz respeito e eu estou passando de certos limites com essa
conversa. Mas realmente acho que eles passaram por um perodo muito difcil e que
sofreram demais. E a ltima coisa que eu quero para eles  que se apeguem a algum
que no tenha a inteno de continuar a morar em Southport. Talvez eu esteja me
preocupando com a possibilidade de que o passado nem sempre seja o passado e que
voc possa decidir partir, independentemente de quanta tristeza deixe para trs.

  Katie estava sem palavras. Aquela conversa era totalmente inesperada, totalmente
desconfortvel. E as palavras de Jo haviam jogado suas emoes em um turbilho.

  Mesmo ao perceber o desconforto de Katie, Jo prosseguiu.

  -- O amor no significa nada se voc no estiver disposta a assumir um
compromisso e voc no pode pensar apenas no que quer. V      oc tem que pensar
tambm no que ele quer. No apenas agora, mas tambm no futuro.

  Ela continuou a olhar fixamente para Katie,  sua frente. -- Voc est preparada para
ser uma esposa para Alex e uma me para os filhos dele? Porque  isso que Alex quer.
Talvez no agora, mas ele ir querer isso no futuro. E se voc no estiver disposta a se
comprometer, se voc pretende apenas brincar com os sentimentos dele e os das
crianas, ento voc no  a pessoa que ele precisa ter ao seu lado.

  Antes que Katie pudesse dizer qualquer coisa, Jo se levantou da mesa enquanto
continuava a falar. -- Pode ter sido errado da minha parte dizer tudo isso e talvez ns
no possamos mais ser amigas. Mas no me sentiria bem comigo mesma se no
dissesse tudo isso abertamente. Como disse desde o comeo, ele  um bom homem. Um
homem raro. Ele ama profundamente e nunca deixa de amar.

  Ela deixou que Katie absorvesse aquelas palavras antes que sua expresso
repentinamente se suavizasse. -- Acho que voc  igual a ele. Mesmo assim, queria
lembr-la de que, se voc se importa com ele, voc tem que estar disposta a se
comprometer. Independente do que possa acontecer no futuro. Independente de
qualquer medo que voc tenha.

   Em seguida, ela se virou e saiu do bar, deixando Katie sentada  mesa, em um
silncio estupefato. Foi somente quando se levantou para sair que ela percebeu que Jo
no havia tomado um nico gole do seu vinho.
                                         24



KEVIN TIERNEY NO FOI at Provincetown naquele final de semana como havia dito a
Coffey e Ramirez. Em vez disso, ele ficou em casa com as cortinas fechadas, pensando
no quanto esteve perto de encontr-la na Filadlfia.

  Ele no teria conseguido rastre-la at to longe se no fosse por um erro que
cometera durante a fuga, ao ir at a rodoviria. Ele sabia que aquele era o nico meio
de transporte que ela poderia usar. As passagens eram baratas e no era necessrio se
identificar e, embora no tivesse certeza de quanto dinheiro ela havia lhe roubado, ele
sabia que a quantidade no poderia ter sido to grande. Desde o dia em que se
casaram, ele controlava o dinheiro. Ele sempre a obrigava a guardar todos os recibos e
lhe devolver o troco de qualquer coisa que comprasse. Entretanto, depois que ela fugiu
pela segunda vez, ele tambm comeou a trancar sua carteira no estojo onde guardava
suas armas antes de dormir. Mesmo assim, s vezes ele dormia no sof e imaginou que,
nessas ocasies, ela tirasse a carteira do seu bolso e lhe roubasse o dinheiro. Ele a
imaginou rindo em silncio quando fazia aquilo e como, pela manh, lhe preparava o
caf e fingia que no ter feito nada de errado. Ela sorria e o beijava, mas, por dentro,
estava rindo. Rindo dele. Ela havia lhe roubado e ele sabia que aquilo era errado, pois
a Bblia diz: No roubars.

   No escuro, ele mordia os lbios, lembrando-se da esperana que tivera nos
primeiros dias, imaginando que ela fosse voltar. Estava nevando e ela no poderia ter
ido para longe. Na primeira vez que Erin fugira a noite tambm estava impiedosamente
fria e ela lhe telefonara depois de algumas horas, pedindo-lhe que fosse busc-la, pois
no tinha nenhum lugar para onde pudesse ir. Quando chegou em casa, ela se desculpou
pelo que havia feito e Kevin lhe preparou uma xcara de chocolate quente enquanto ela
estava sentada no sof, tremendo de frio. Trouxe-lhe um cobertor e a observou
enquanto ela se cobria, tentando se aquecer. Ela sorriu para ele e ele retribuiu o
sorriso. Quando ela parou de tremer, ele atravessou a sala e lhe estapeou at ouvi-la
chorar. Ao acordar para trabalhar de manh, Erin j havia limpado o chocolate quente
que havia derramado no piso, embora ainda houvesse uma mancha no carpete, que ela
nunca conseguiu remover completamente. E, vez por outra, enxergar aquela mancha o
irritava.

  Na noite em que ele percebera que ela havia desaparecido, em janeiro passado,
Kevin bebera dois copos de vodca enquanto esperava que ela voltasse, mas o telefone
no tocou e a porta da frente continuou fechada. Ele sabia que ela no havia
desaparecido h muito tempo. Eles haviam conversado h menos de uma hora e ela lhe
disse que estava preparando o jantar. Mas no havia nenhum jantar no fogo. Nenhum
sinal dela na casa, no poro ou na garagem. Ele foi at a varanda e procurou por
pegadas na neve, mas era bvio que Erin no havia sado pela porta da frente. A neve
no quintal tambm no tinha qualquer pegada ou sinal suspeito, ento ela no havia
sado por aquela porta tambm. Era como se ela tivesse simplesmente flutuado para
longe, ou desaparecido no ar. E aquilo significava que ela devia estar em casa... exceto
pelo fato de que no estava.

   Dois copos de vodca e meia hora depois Kevin j estava tomado pela fria. Foi
quando abriu um buraco na porta do quarto com um soco. Saiu da casa e bateu com
fora na porta dos vizinhos, perguntando se eles tinham percebido quando ela sara,
mas nenhum deles tinha a resposta. Ele entrou no carro e dirigiu freneticamente pelas
ruas do bairro, buscando por rastros que ela pudesse ter deixado, tentando entender
como ela havia conseguido sair da casa sem deixar qualquer pista. Imaginou que ela
talvez tivesse duas horas de vantagem, mas, como estaria a p, e com a neve caindo,
no poderia ter ido to longe. A menos que algum tivesse vindo busc-la. Algum
com quem ela se importasse. Um homem.

  Ele socou o volante, seu rosto contorcido pela fria. O distrito comercial ficava a
seis quarteires de distncia. Ele foi at as lojas, mostrando uma foto de Erin que tinha
na carteira e perguntando s pessoas se a haviam visto. Ningum respondeu
afirmativamente. Ele disse que ela poderia estar acompanhada por um homem, mas,
mesmo assim, as respostas negativas continuaram. Os homens que ele abordou foram
incisivos. "Uma loira bonita desse jeito? Eu a teria percebido. Especialmente em uma
noite como esta", diziam.
  Kevin voltou para o carro e andou por cada uma das ruas e estradas num raio de oito
quilmetros de sua casa, duas ou trs vezes, antes de finalmente desistir. Eram 3 horas
da manh e a casa estava vazia. Depois de mais uma vodca, ele comeou a chorar e
no parou at adormecer.

   Pela manh, quando acordou, ele teve um novo acesso de fria. Com um martelo
destruiu os vasos de flores que Erin tinha no quintal. Bufando, ligou para a delegacia e
disse que no poderia ir trabalhar, pois estava doente. Depois, sentou-se no sof e
tentou desvendar de que maneira ela havia fugido. Era certo que ela tivera ajuda.
Algum devia t-la levado para algum lugar. Algum que ela conhecia. Algum amigo
de Atlantic City? Altoona? Era possvel, sups ele, embora verificasse
cuidadosamente as contas de telefone todos os meses. Ela nunca fizera nenhuma
ligao interurbana. Algum que morava em Dorchester, ento. Mas quem? Ela nunca
ia a lugar nenhum e nunca conversava com ningum. Ele nunca permitiu.

  Ele foi para a cozinha e estava se servindo de mais um copo de vodca quando ouviu
o telefone tocar. Saiu em disparada para atend-lo, esperando que fosse Erin.
Entretanto, estranhamente, o telefone tocou somente uma vez e, quando ele pegou o
fone, ouviu um tom de discagem. Ele olhou para o aparelho, tentando entender o que
estava acontecendo antes de desligar.

  Como ela conseguira escapar? Havia alguma coisa que ele no tinha percebido.
Mesmo se algum que morasse na cidade a tivesse ajudado, como ela teria chegado at
a estrada sem deixar pegadas na neve? Ele olhou pela janela, tentando reconstruir a
sequncia de eventos. Havia algo que no se encaixava ali, embora no conseguisse
identificar o que era. Deu as costas para a janela e percebeu que estava se
concentrando no telefone. Foi ento que as peas finalmente se encaixaram e ele pegou
seu celular. Ligou para o telefone fixo e o ouviu tocar uma vez. O telefone celular
continuou chamando. Quando pegou o fone do aparelho fixo, ouviu um tom de discagem
e percebeu que ela havia transferido as chamadas para outro aparelho celular. E aquilo
significava que ela no estava em casa quando ele lhe telefonara na noite anterior, alm
de explicar por que a ligao estava ruim nos dois dias anteriores. E,  claro, a falta de
pegadas na neve. Kevin agora sabia que ela no estava em casa desde a manh de
tera-feira.
NA RODOVIRIA, ela cometeu um erro, mesmo que no tivesse como evitar. Ela devia
ter comprado sua passagem com uma balconista do sexo feminino, em vez de t-lo feito
com um homem. Erin era bonita e homens sempre se lembram de mulheres bonitas. No
importava se tinham o cabelo longo e loiro ou curto e castanho. Tambm no importava
se ela fingisse estar grvida ou no.

  Ele foi at a rodoviria. Mostrou seu distintivo e uma foto maior da esposa. Nas
primeiras duas vezes em que ele estivera l, nenhum dos vendedores de passagens a
reconhecera. Na terceira vez, entretanto, um deles hesitou e disse que poderia ter sido
ela, exceto pelo fato de que seu cabelo estava curto e castanho e tambm por estar
grvida. Voltando para casa, Kevin encontrou uma fotografia de Erin no computador e
usou o Photoshop para alterar a cor do seu cabelo, de loiro para castanho. Depois, ele
o encurtou. Ele telefonou novamente para a delegacia na sexta e disse que estava
doente.

  " ela", confirmou o vendedor de passagens, e Kevin sentiu uma onda de energia
tomar conta de si. Erin pensou que era mais esperta que ele, mas, na verdade, era
imbecil e descuidada, e havia cometido um erro. Ele tirou alguns dias de folga na
semana seguinte e continuou a rondar a rodoviria, mostrando a nova fotografia para os
motoristas de nibus. Ele chegava pela manh e saa bem tarde, pois os motoristas
chegavam e saam a toda hora. Havia duas garrafas de vodca no carro. Ele se servia
em um copo de isopor e bebia com um canudinho.

  No sbado, onze dias depois de Erin sair de casa, ele encontrou o motorista. Ele a
levara at a Filadlfia e disse que se lembrava dela porque a mulher era bonita e
estava grvida e tambm porque no levava nenhuma bagagem.


FILADLFIA. Ela j podia ter sado de l e ido para outro lugar, mas era a nica pista
que Kevin tinha. Alm disso, ele sabia que ela no tinha muito dinheiro.

  Ele colocou algumas roupas em uma mala e viajou de carro at a Filadlfia.
Estacionou na rodoviria e tentou pensar como Erin. Ele era um bom investigador e
sabia que, se conseguisse pensar como ela, conseguiria encontr-la. Kevin havia
aprendido que as pessoas so previsveis.
   O nibus havia chegado alguns minutos antes das quatro da tarde e ele estava na
rodoviria, olhando de um lado para o outro. Ela havia estado naquele mesmo lugar h
alguns dias, pensou ele, e imaginou o que ela faria em uma cidade estranha, sem
qualquer dinheiro, sem amigos e sem ter para onde ir. Moedas e notas de um dlar no
a levariam longe, especialmente depois de comprar uma passagem de nibus.

  Ele se lembrou de que o tempo estava frio e que logo escureceria. Ela no ia querer
andar at muito longe e precisaria de um lugar para ficar. Um lugar que aceitasse
pagamento em dinheiro. Mas onde? No aqui, neste bairro. Era caro demais. Para onde
ela iria? Ela no se arriscaria se perder ou andar na direo errada. Aquilo significava
que ela provavelmente teria consultado uma lista telefnica. Ele voltou para o terminal
e pesquisou os hotis que apareciam na lista telefnica. Pginas e mais pginas, ele
percebeu. Ela devia ter escolhido um, mas e depois? Teria que andar at l. E, para
fazer aquilo, precisaria de um mapa.

  Ele foi at a loja de convenincia da rodoviria e comprou um mapa tambm. Ele
mostrou a fotografia para o balconista, mas ele acenou negativamente com a cabea.
Disse que no estava trabalhando naquela tera. Mas Kevin sentia que estava na pista
certa. Ele sabia que Erin havia feito o mesmo. Desdobrou o mapa e localizou a
rodoviria. Ficava bem prximo a Chinatown e ele imaginou que ela teria andado
naquela direo.

  Kevin voltou para o carro e dirigiu pelas ruas de Chinatown e, novamente, seus
instintos lhe disseram que ele estava certo. Bebeu sua vodca e caminhou pelas ruas,
comeando pelas lojas mais prximas da rodoviria, e mostrou a foto dela para vrias
pessoas. Ningum sabia de nada, mas ele percebia que algumas delas estavam
mentindo. Ele encontrou quartos baratos, lugares onde ele nunca a levaria, lugares
sujos com lenis sujos, gerenciados por homens que no falavam ingls muito bem e
que aceitavam apenas dinheiro como meio de pagamento. Kevin deixava implcito que
Erin correria perigo caso ele no conseguisse encontr-la. Ele achou o primeiro lugar
em que ela se hospedou, mas o proprietrio no sabia para onde ela havia ido depois.
Kevin encostou o cano de sua arma na cabea do proprietrio, mas, mesmo chorando, o
homem no conseguiu lhe dar nenhuma outra informao.

  Tendo que voltar ao trabalho na segunda-feira seguinte, ficou furioso por Erin haver
conseguido ludibri-lo. Mas, no outro fim de semana, ele estava de volta na Filadlfia.
E no prximo. Ele expandiu sua busca, mas esbarrava no problema de que havia muitos
lugares onde procurar e ele era apenas uma pessoa. Nem todo mundo confiava em um
policial de fora da cidade.

   Mas ele era paciente e metdico e continuou fazendo as viagens at a Filadlfia e
tirando dias de folga. Outro fim de semana passou. Ele ampliou sua busca, sabendo que
ela precisaria de dinheiro vivo. Procurou em bares, restaurantes e lanchonetes.
Investigaria cada um daqueles estabelecimentos, na cidade inteira, se fosse preciso.
Finalmente, uma semana depois do dia dos namorados, conversou com uma garonete
chamada Tracy, que lhe disse que Erin estava trabalhando naquele restaurante, mas que
disse se chamar rica. O nome dela constava na escala do dia seguinte. A garonete
confiou nele porque Kevin era um investigador e chegou at mesmo a flertar um pouco,
dando-lhe seu nmero de telefone antes que ele sasse.

  Kevin alugou um carro e esperou a um quarteiro do restaurante na manh seguinte,
antes do nascer do sol. Os funcionrios entravam no restaurante por uma porta lateral,
que dava para um beco. Ele bebeu a vodca que estava no seu copo de isopor e ficou
sentado no carro, vigiando a rua enquanto esperava por ela. Aps algum tempo, ele viu
o dono do restaurante, Tracy e outra mulher entrarem no beco. Entretanto, Erin no
apareceu naquele dia e tambm no foi trabalhar no dia seguinte. Ningum sabia onde
ela morava. Ela no chegou nem mesmo a voltar para pegar seu salrio.

  Ele descobriu onde ela estava morando algumas horas depois. Ficava perto do
restaurante, um hotel vagabundo. O proprietrio, que s aceitava pagamento em
dinheiro, no sabia de nada, exceto que Erin havia sado no dia anterior e que depois
havia voltado e sado mais uma vez, apressadamente. Kevin revistou o quarto dela,
mas no encontrou nada e, quando finalmente correu para a rodoviria, havia apenas
mulheres trabalhando nos balces de venda de passagem. Nenhuma delas se lembrava
de Erin. Os nibus que partiram nas duas ltimas horas saram em direo ao norte,
sul, leste e oeste, indo para todos os cantos do pas.

  Ela havia desaparecido de novo. Dentro do carro, Kevin gritou e bateu os punhos
contra o volante at que eles estivessem inchados e roxos com hematomas.


NOS   MESES SEGUINTES   ao desaparecimento de Erin, a dor que ele sentia cresceu e ficou
mais insidiosa e devastadora, espalhando-se como um cncer a cada dia. Ele havia
voltado  Filadlfia e interrogado os motoristas de nibus no decorrer das semanas
seguintes, mas no conseguira muito mais informaes. Chegou a descobrir que ela
havia partido para Nova York, mas, depois daquilo, o rastro dela desaparecera.
Muitos nibus, muitos motoristas, muitos passageiros; muitos dias j haviam passado.
Muitas opes. Erin poderia estar em qualquer lugar e a ideia de que ela poderia ter
desaparecido o atormentava. Ele tinha acessos de fria e quebrava coisas. Chorava
antes de dormir. Estava tomado pelo desespero e s vezes achava que estava
enlouquecendo.

  No era justo. Ele a amara desde quando conversaram pela primeira vez em Atlantic
City. E eles eram felizes, no  mesmo? Logo depois de se casarem, ela cantarolava
sozinha enquanto aplicava sua maquiagem. Ele costumava lev-la at a biblioteca e ela
saa de l com oito ou dez livros. s vezes, Erin lia alguns trechos em voz alta para
ele, e ele ouvia aquela voz e observava a maneira como ela se apoiava no balco e
pensava consigo mesmo que era a mulher mais bonita do mundo.

  Ele era um bom marido. Comprara a casa que ela escolhera, as cortinas e a moblia
que ela quisera, mesmo que mal tivesse condies de pagar por tudo aquilo. Depois
que se casaram, ele frequentemente comprava flores na rua quando voltava para casa e
Erin as colocava em um vaso sobre a mesa com algumas velas e eles jantavam em
clima de romance. s vezes, eles chegavam at mesmo a fazer amor na cozinha, com as
costas dela pressionadas contra o balco.

  Ele nunca a obrigou a trabalhar e ela nunca percebeu a vida confortvel que tinha.
Ela no entendia os sacrifcios que ele fazia pelo casal. Erin era uma mulher mimada e
egosta e aquilo o deixava muito irritado, pois ela no compreendia o quanto sua vida
era fcil. Apenas limpar a casa e preparar uma refeio e depois ela podia passar o
resto do dia lendo os livros idiotas que pegava na biblioteca, assistindo  televiso ou
dormindo, sem nunca ter que se preocupar com uma conta, com as prestaes da
hipoteca ou com pessoas que falavam mal pelas costas. Nunca teve sequer que ver os
rostos de pessoas que foram assassinadas. Ele no lhe falava nada daquilo porque a
amava, mas nada daquilo fez a menor diferena. Nunca lhe falou sobre as crianas que
eram queimadas com ferros de passar roupa ou jogadas de algum telhado; nunca falou
sobre as mulheres esfaqueadas em becos e jogadas em alguma caamba de lixo. Nunca
disse a ela sobre as ocasies em que teve que raspar o sangue dos sapatos antes de
entrar no carro e que, quando olhava nos olhos dos assassinos, ele sabia que estava
frente a frente com o mal, porque a Bblia diz que Matar uma pessoa  matar um ser
vivo feito  imagem e semelhana de Deus.

  Ele a amava e ela o amava. Ela tinha que voltar para casa, porque ele no conseguia
encontr-la. Ela poderia viver sua vida feliz e despreocupada novamente e ele no iria
lhe bater, socar, estapear ou chutar se ela entrasse pela porta da frente, porque sempre
fora um bom marido. Ele a amava e ela o amava. Ele se lembrava de que, no dia em
que a pedira em casamento, ela se lembrara da noite em que se encontraram do lado de
fora do cassino, quando os homens a seguiram. Homens perigosos. Ele impediu que
eles a machucassem naquela noite, e na manh seguinte eles caminharam pela orla da
praia. Ele a levou para uma cafeteria. Erin aceitou o pedido de casamento. Ela o
amava, foi o que disse. Ele fazia com que ela se sentisse segura.

  Segura. Aquela foi a palavra que ela usou. Segura.
                                        25



A TERCEIRA SEMANA DE JUNHO foi composta por uma srie de dias gloriosos, tpicos do
vero. A temperatura subia durante a tarde, trazendo consigo uma umidade densa o
bastante para deixar o ar mais carregado e embaar os contornos do horizonte. Logo
depois, vrias nuvens escuras se formavam, como num passe de mgica, e tempestades
violentas traziam chuvas torrenciais. Mesmo assim, estas nunca demoravam muito,
deixando para trs apenas folhas encharcadas nas rvores e uma camada de nvoa
perto do cho.

  Katie continuava com suas longas jornadas de trabalho no restaurante. Sentia-se
cansada ao pedalar de volta para casa e, pela manh, frequentemente sentia que suas
pernas e ps estavam doloridos. Guardava metade do dinheiro que recebia com as
gorjetas na lata de caf, notando que ela estava quase cheia, perto de transbordar.
Tinha mais dinheiro do que imaginara ser capaz de guardar, mais do que o bastante
para fugir se precisasse. Pela primeira vez, perguntou a si mesma se teria necessidade
de guardar mais.

   Ao comer lentamente as ltimas pores do seu caf da manh, olhou para a casa de
Jo atravs da janela da cozinha. No conversava com Jo desde que ela a encontrara na
sada do restaurante e, ontem  noite, quando voltara para casa, Katie vira as luzes da
sala e da cozinha de Jo acesas. No comeo da manh, ouviu o barulho do motor do
carro dela e ouviu o veculo passando por cima da terra e dos cascalhos da viela
quando saiu de casa. No sabia o que dizer  amiga, ou mesmo se queria dizer algo a
ela. No conseguia decidir nem mesmo se estava brava ou irritada com o que ela
fizera. Jo se importava com Alex e as crianas; preocupava-se com eles e havia
expressado suas preocupaes  Katie. Era difcil encontrar qualquer malcia nas
coisas que ela havia feito.

  Katie sabia, tambm, que Alex viria at sua casa mais tarde. Suas visitas haviam se
transformado em um tipo de rotina e, quando estavam juntos, ela se lembrava
constantemente de todas as razes pelas quais havia se apaixonado por ele. Alex
aceitava seus silncios ocasionais e variaes de humor e a tratava com uma gentileza
que a surpreendia e emocionava. Entretanto, desde a noite em que conversara com Jo,
imaginava, constantemente, que poderia estar sendo injusta com ele. O que aconteceria,
por exemplo, se Kevin aparecesse? Como Alex e as crianas reagiriam se ela
desaparecesse para nunca mais retornar? Estaria disposta a deixar todos para trs e
nunca mais voltar a conversar com eles?

  Katie detestava as questes que Jo havia levantado porque no se sentia pronta para
                oc
enfrent-las. "V no faz ideia das coisas pelas quais passei", foi o que teve vontade
de dizer quando teve tempo para pensar a respeito. "V oc no faz ideia de quem meu
marido realmente ". Mesmo assim, sabia que nenhum daqueles argumentos resolveria
o problema.

  Deixando a loua do seu caf da manh na pia, andou pela casa, pensando no quanto
as coisas haviam mudado durante os ltimos meses. No possua quase nada, mas
sentia como se tivesse mais do que nunca tivera. Sentiu-se amada pela primeira vez em
anos. Nunca teve filhos, mas se apanhava pensando e se preocupando com Kristen e
Josh em momentos inesperados. Sabia que no poderia prever o futuro, mas, mesmo
assim, se deu conta de forma repentina e incontestvel que deixar essa nova existncia
para trs era algo inconcebvel.

  O que foi que Jo havia lhe dito certa vez? "Eu simplesmente digo s pessoas aquilo
que elas j sabem, mas tm medo de admitir para si mesmas".

  Refletindo sobre aquelas palavras, Katie soube exatamente o que tinha que fazer.


--  CLARO -- disse Alex  Katie, depois que ela fez seu pedido. Ela percebeu que ele
ficou surpreso, mas tambm parecia sentir-se estimulado.

  -- Quando voc quer comear?

  -- Que tal hoje mesmo? Se voc tiver tempo -- sugeriu ela.

  Alex deu uma olhada no interior da loja. Havia apenas uma pessoa comendo na rea
da churrasqueira e Roger estava apoiado no balco, conversando com o cliente.

  -- Ei, Roger. Voc se importa de cuidar da caixa registradora por uma hora?

  -- Sem problemas, chefe -- disse Roger. E ficou onde estava. Alex sabia que ele
no viria at a frente da loja a menos que fosse necessrio. Em uma manh comum de
um dia de semana, depois da correria inicial do caf da manh, no esperava ter muitas
pessoas no estabelecimento. Alex no se importava. Saiu de trs da caixa registradora.

  -- Est pronta?

 -- Acho que no -- disse ela, com os braos ao redor do corpo, nervosamente. --
Mas  algo que tenho que saber como se faz.

  Eles saram da loja e foram at o jipe de Alex. Ao entrar no carro, sentiu que Alex a
observava.

  -- Por que essa vontade repentina de aprender a dirigir? -- perguntou ele. -- J
cansou da bicicleta? -- disse ele, provocando-a.

  -- A bicicleta est tima para as coisas de que preciso. Mas quero tirar uma carteira
de motorista.

  Antes de hesitar, pegou as chaves do carro. V oltou-se para ela e,  medida que a
observava, ela percebeu um relance da personalidade de investigador que Alex tinha.
Ele estava alerta e Katie percebeu sua cautela.

  -- Aprender a dirigir  apenas uma parte do processo. Para conseguir a habilitao,
o estado exige identificao. Uma certido de nascimento, carto de seguro social,
coisas como essas.

  -- Eu sei -- disse ela.

  Alex escolheu suas palavras com cuidado. -- Esse tipo de informao pode ser
rastreada. Se voc conseguir uma habilitao, as pessoas podem conseguir te
encontrar.

  -- J estou usando um outro nmero de seguro social, um que no est ligado 
minha identidade real -- disse ela. -- Se Kevin soubesse, ele j saberia onde estou. E
se vou ficar em Southport, isso  algo que preciso fazer.

  Alex balanou a cabea negativamente. -- Katie...

  Ela se inclinou e o beijou no rosto. -- Est tudo bem. Meu nome no  Katie,
lembra?

 Alex percorreu a curva do rosto dela com o dedo. -- Para mim, voc sempre ser
Katie.

  Ela sorriu. -- Tenho um segredo. Meu cabelo no  naturalmente castanho. Na
verdade, sou loira.

  Alex se recostou no assento, processando aquela nova informao. -- Tem certeza
de que voc realmente quer me contar isso?

  -- Imagino que, algum dia, voc ia acabar descobrindo. Quem sabe? Talvez eu volte
a ser loira algum dia.

  -- Por que est fazendo tudo isso? Querendo aprender a dirigir, me dando todas
essas informaes?

      oc
  -- V me disse que podia confiar em voc -- disse ela, dando de ombros. -- E eu
acredito no que voc disse.

  -- S isso?

  -- Sim. Sinto-me como se pudesse lhe dizer qualquer coisa.

  Alex olhou para sua mo e a dela, que estavam entrelaadas sobre o apoio para o
brao do assento, antes de olhar nos olhos de Katie.

  -- Ento vou direto ao ponto. V  oc tem certeza de que seus documentos sero
aceitos? No podem ser cpias. Precisam ser os originais.

  -- Eu sei -- disse ela.
  Alex percebeu que no seria adequado perguntar mais nada. Colocou a chave na
ignio, mas no deu a partida no motor.

  -- O que foi? -- perguntou ela.

  -- J que voc quer aprender a dirigir, talvez seja melhor comearmos agora.

  Ele abriu a porta e saiu do carro. -- Vamos ver como voc se sai ao volante.

  Os dois trocaram de lugar. Assim que Katie sentou-se no lado do motorista, Alex lhe
mostrou os aspectos bsicos: os pedais do acelerador e do freio, como engatar e trocar
as marchas, luzes de seta, faris, alm dos limpadores de para-brisa e os indicadores
do painel. Era sempre melhor comear pelo comeo.

  -- Est pronta?

  -- Acho que sim -- disse ela, concentrando-se.

  -- Como este carro tem cmbio automtico, voc usa somente um p. Ele vai estar
no acelerador ou no freio. Entendeu?

  -- Sim -- disse ela, deixando o p esquerdo mais perto da porta.

  -- Agora, pise no freio enquanto engata a marcha  r. No use o acelerador. Em vez
disso, v soltando o freio com cuidado. Depois, vire o volante para sair da vaga do
estacionamento, sempre mantendo o p sobre o freio, com uma presso leve.

  Ela fez exatamente como Alex lhe disse e tirou o carro da vaga cautelosamente antes
que ele a instrusse sobre como tirar o carro do estacionamento. Pela primeira vez, ela
hesitou.

  -- Voc tem certeza de que quer que eu dirija na estrada?

  -- Se houvesse muito trnsito, eu diria no. Se voc tivesse 16 anos, eu tambm
diria no. Mas acho que voc tem condies de fazer isso e estou aqui para ajudar.
              oc
Est pronta? V vai virar  direita e ns vamos seguir essa via at a prxima curva.
Depois viraremos novamente  direita. Quero que voc sinta o carro.
  Eles passaram quase uma hora dirigindo por estradas rurais. Como a maioria dos
iniciantes, ela teve problemas ao esterar o carro um pouco demais nas curvas e, por
vezes, acabou entrando na rea do acostamento. Tambm levou algum tempo para se
acostumar a estacionar o carro, mas, com exceo dessas dificuldades, ela se saiu
melhor do que qualquer um deles esperava. Quando estavam perto de terminar, Alex
fez com que ela estacionasse em uma das ruas do centro da cidade.

 Ele apontou para uma pequena cafeteria. -- Pensei que voc gostaria de celebrar.
Voc se saiu muito bem.

  -- No sei. No me senti como se realmente soubesse o que estava fazendo.

  -- Isso vem com o tempo. Quanto mais voc dirigir, mais natural isso vai lhe
parecer.

  -- Posso dirigir amanh tambm? -- perguntou ela.

   --  claro que pode. Mas ser que podemos fazer isso durante a manh? Agora que
Josh terminou as aulas, ele e Kristen esto passando as manhs em um clube que tem
atividades para crianas. Eles voltam para casa por volta do meio-dia.

  -- As manhs so timas -- disse ela. -- Voc acha que eu realmente dirigi bem?

  -- V oc provavelmente conseguiria passar na parte do teste que envolve dirigir
pelas ruas com mais alguns dias de prtica. Claro, voc precisa passar na prova escrita
tambm, mas basta estudar um pouco.

  Katie estendeu os braos e lhe deu um abrao espontneo. -- Obrigada por fazer
tudo isso por mim.

  Ele correspondeu ao abrao. -- Fico feliz por ajudar. Mesmo que voc no tenha um
carro,  algo que voc provavelmente deveria saber. Por que voc no...

   -- Aprendi a dirigir quando era mais nova? -- disse ela, dando de ombros. --
Quando era adolescente nossa famlia tinha somente um carro e geralmente meu pai
ficava o dia inteiro com ele. Mesmo que eu tivesse uma carteira de motorista, no
poderia dirigir, e, assim, nunca me pareceu algo muito importante. Depois que sa de
casa, no tive condies de comprar um carro e, novamente, no me importei muito
com isso. Mais tarde, quando me casei, Kevin no queria que eu tivesse meu prprio
carro.

  Ela se virou. -- E aqui estou eu. Uma ciclista de 27 anos.

  -- Voc tem 27 anos?

  -- Voc j sabia.

  -- Na verdade, eu no sabia.

  -- E da?

  -- Achei que j estivesse com 30.

  Ela lhe deu um leve tapa no brao. -- Por causa disso, vou fazer voc me comprar
um croissant tambm.

  -- Nada mais justo. E, como voc est a fim de contar seus segredos, gostaria de
ouvir a histria sobre como voc finalmente conseguiu escapar.

  Ela hesitou por um breve momento. -- Tudo bem.


EM UMA MESA PEQUENA do lado de fora da cafeteria, Katie relatou a histria de sua fuga
-- as ligaes telefnicas redirecionadas, a viagem para a Filadlfia, as trocas
constantes de emprego e os hotis vagabundos em que morou, at a viagem para
Southport. Diferente da primeira vez, agora ela foi capaz de descrever suas
experincias tranquilamente, como se estivesse falando sobre outra pessoa. Quando
terminou, Alex balanou a cabea.

  -- O que foi?

  -- Estava s tentando imaginar como voc deve ter se sentido depois de desligar
quando Kevin fez sua ltima ligao. Quando ele ainda pensava que voc estava em
casa. Aposto que voc se sentiu aliviada.
  -- Me senti, sim. Mas tambm estava aterrorizada. E, naquele ponto, ainda no havia
encontrado um emprego e no sabia o que ia fazer.

  -- Mas voc conseguiu.

  -- Sim... consegui -- disse ela, com o olhar fixo em algum ponto distante. -- Mas
no era o tipo de vida que tinha imaginado para mim.

  O tom de voz de Alex era gentil. -- No tenho certeza de que a vida de qualquer
pessoa no mundo acontea exatamente do jeito que se imagina. O que podemos fazer 
tentar sempre agir para que tudo acontea da melhor maneira possvel. Mesmo quando
tudo parece impossvel.

   Katie sabia que ele estava falando por si mesmo, tanto quanto estava falando por ela,
e, durante um longo momento, nenhum deles disse nada.

  -- Eu amo voc -- sussurrou ele, finalmente.

  Ela se inclinou para a frente e lhe tocou o rosto. -- Eu sei. E eu amo voc tambm.
                                        26



NO FINAL DE JUNHO, os jardins e os canteiros floridos de Dorchester, que brilhavam
com as cores vibrantes da primavera, estavam comeando a murchar; as flores
assumiam uma colorao marrom e se retorciam sobre a terra. A umidade do ar estava
aumentando e os becos na rea central de Boston comeavam a cheirar a comida
podre, urina e mofo. Kevin disse a Coffey e Ramirez que ele e Erin iriam passar o fim
de semana em casa, assistindo a filmes e cuidando do jardim. Coffey havia perguntado
sobre a viagem a Provincetown e Kevin mentira, falando sobre o hotel onde haviam se
hospedado e alguns dos restaurantes que haviam visitado. Coffey disse que j havia
visitado todos aqueles lugares e perguntou se Kevin havia pedido o bolo salgado de
carne de caranguejo em um deles. Kevin disse que no, mas que pediria da prxima
vez.

  Erin havia desaparecido, mas Kevin ainda procurava por ela por toda a parte. No
conseguia evitar. Quando dirigia pelas ruas de Boston e via um relance de loiro ou
dourado nos ombros de alguma mulher, sentia seu corao preso na garganta.
Procurava pelo nariz delicado, pelos olhos verdes e pela maneira graciosa de andar.
s vezes, ficava do lado de fora da confeitaria fingindo que estava esperando por ela.

   J deveria ter conseguido encontr-la, mesmo que ela tivesse lhe escapado na
Filadlfia. As pessoas deixavam pistas. Documentos deixavam rastros. Na Filadlfia,
ela havia usado um nome e um nmero de seguro social fajutos, mas aquilo no poderia
durar para sempre. A menos que estivesse disposta a continuar morando em hotis
baratos e trocando de emprego a cada semana. At este ponto, porm, ela no usara seu
prprio nmero de seguro social. Um oficial de outra delegacia, que tinha contatos
importantes, verificou para ele. Aquele oficial era a nica pessoa que sabia sobre Erin
ter desaparecido, mas manteve a boca fechada porque Kevin tambm sabia que ele
tinha um caso com uma garota ainda menor de idade, que trabalhava como bab de seus
filhos. Kevin se sentia sujo sempre que tinha que conversar com ele, porque o policial
era um pervertido e deveria estar na cadeia. Afinal, a Bblia diz: Que no haja
imoralidade sexual entre vs. Entretanto, neste momento, Kevin precisava dele para
poder encontrar sua esposa e traz-la de volta para casa. Marido e mulher devem ficar
juntos, porque fizeram seus votos diante de Deus e da famlia.

  Tinha certeza de que a encontraria em maro. Estava certo de que ela apareceria em
abril. Teve um forte pressentimento de que o nome dela surgiria em maio, mas a casa
continuava vazia. Agora, junho havia chegado e seus pensamentos se encontravam
dispersos e, s vezes, eram tudo o que ele podia manter para continuar com a rotina
dos procedimentos policiais. Era difcil se concentrar e a vodca no parecia mais
ajudar tanto. Ele tinha que mentir para Coffey e Ramirez e se afastar deles enquanto os
dois faziam comentrios maldosos pelas suas costas.

   De uma coisa ele tinha certeza: ela no estava mais correndo. No iria se mudar de
um lugar para outro, ou de um emprego para o outro para sempre. Ela no tinha aquele
perfil. Gostava de coisas bonitas e queria t-las ao seu redor. E isso significava que
Erin deveria estar usando a identidade de alguma outra pessoa. A menos que estivesse
disposta a viver constantemente fugindo, ela precisava de uma certido de nascimento
real e de um nmero de seguro social vlido. Hoje em dia, os empregadores exigem
identificao, mas onde e como ela poderia ter conseguido assumir a identidade de
outra pessoa? Kevin sabia que a maneira mais comum era encontrar algum de idade
similar que houvesse morrido recentemente e, da por diante, assumir a identidade do
morto. A primeira parte era plausvel, pois, apesar de tudo, Erin continuara fazendo
visitas frequentes  biblioteca. Ele podia imagin-la examinando os obiturios nos
arquivos de microfilme, procurando por um nome que pudesse roubar. Ela tramava
planos e artimanhas na biblioteca enquanto fingia procurar livros nas estantes e fizera
essas coisas mesmo depois de Kevin t-la levado at l durante seu horrio de
trabalho. Ele lhe dava carinho e gentilezas e ela retribua com aquela traio. Ficava
furioso ao pensar em como Erin ria dele enquanto fazia coisas assim. Imaginar aquilo o
enfurecia tanto que pegou um martelo e estraalhou o jogo de pratos e xcaras de
porcelana chinesa que haviam recebido como presente de casamento. Depois de se
acalmar, conseguiu concentrar-se no que tinha que fazer. Durante os meses de maro e
abril, Kevin passou horas na biblioteca, assim como ela teria feito, tentando encontrar
a nova identidade que Erin estaria usando. Mas, mesmo que encontrasse o nome, como
ela poderia ter conseguido os documentos? Onde ela estaria agora? E por que no
havia voltado para casa?

  Aquelas eram as perguntas que o atormentavam e, s vezes, tudo era to confuso que
ele no conseguia parar de chorar. Sentia muita saudade, queria que ela voltasse para
casa e detestava ficar sozinho. No entanto, outras vezes, pensar que Erin o abandonara
fazia com que Kevin pensasse no quanto ela era egosta e tudo o que queria fazer era
mat-la.



JULHO CHEGOU E COM ELE o tempo quente como as baforadas de um drago: quente,
mido e com um horizonte que tremulava como uma miragem quando visto a distncia.
O fim de semana do feriado da Independncia havia passado e outra semana comeara.
O aparelho de ar-condicionado havia quebrado e Kevin no chamara um tcnico para
fazer o conserto. Sempre sentia dor de cabea pelas manhs, quando ia para o trabalho.
Por tentativa e erro, Kevin descobriu que a vodca funcionava melhor do que os
comprimidos de Tylenol, mas a dor continuava l, fazendo suas tmporas latejarem.
No ia mais  biblioteca. Coffey e Ramirez perguntaram mais uma vez sobre sua
esposa. Kevin disse que ela estava bem, mas nada alm disso. E mudou de assunto. Ele
ganhou um novo parceiro, Todd Vannerty, recm-promovido, que no se importava em
deixar que Kevin fizesse a maior parte das perguntas quando falava com as
testemunhas e as vtimas, alis, o prprio Kevin no se importava com essa situao.

  Kevin lhe disse que, quase sempre, a vtima conhecia o assassino. Mas nem sempre
de maneira bvia. Ao fim de sua primeira semana de trabalho juntos, eles foram
chamados at um apartamento a menos de trs quarteires da delegacia, onde
encontraram um garoto de 10 anos que havia morrido por causa de um ferimento  bala.
O atirador havia emigrado da Grcia recentemente e estava celebrando a vitria da
seleo grega em um jogo de futebol quando disparou sua arma em direo ao cho. A
bala atravessou o teto do apartamento de baixo e matou o garoto, que comia um pedao
de pizza. A bala perfurou o topo de sua cabea e ele tombou para frente, batendo o
rosto em cima da pizza. Quando viram o garoto, sua testa estava coberta de queijo e
molho de tomate. A me do menino gritou e chorou por duas horas e tentou agredir o
grego nas escadarias, que j estava sendo levado para fora do prdio, algemado. Ela
acabou se desequilibrando e rolando escada abaixo, e os policiais tiveram que chamar
uma ambulncia.

  Kevin e Todd foram para um bar depois do expediente, e Todd tentou fingir que
podia esquecer o que havia visto. Entretanto, ele bebeu trs cervejas em menos de
quinze minutos. Disse a Kevin que havia sido reprovado na primeira vez em que
prestara a prova para ser promovido a investigador, antes de finalmente conseguir
passar na segunda vez. Kevin bebeu vodca, mas, como Todd estava com ele, pediu ao
barman que acrescentasse um pouco de suco de framboesas  bebida.

   Era um bar frequentado por policiais. Muitos policiais, preos baixos, pouca
iluminao e mulheres que gostavam de se envolver com aquele tipo de homem. O
barman deixava as pessoas fumarem, mesmo que aquilo fosse contra a lei, porque a
maioria dos fumantes eram policiais. Todd no era casado e j estivera naquele bar
vrias vezes. Kevin nunca havia estado ali antes e no tinha certeza de que gostava do
lugar. Mesmo assim, no queria voltar para casa.

  Todd foi ao banheiro e, quando voltou, se inclinou em direo
a Kevin.

  -- Acho que aquelas duas no canto do bar esto olhando para ns.

 Kevin se virou. Assim como ele, as mulheres pareciam ter cerca de 30 anos. A
morena percebeu que ele a olhava antes de se voltar para sua amiga ruiva.

  -- Uma pena voc ser casado, hein? Elas so bem bonitas.

  Elas pareciam envelhecidas, pensou Kevin. No eram como Erin, que tinha a pele
sedosa e cheirava a limo e menta, o perfume que ele havia lhe dado de presente no
Natal.

  -- V at l falar com elas, se quiser.

  -- Acho que vou, sim -- disse Todd. Ele pediu outra cerveja e andou at o lugar
onde as duas estavam, sorrindo. Provavelmente disse algo imbecil, mas foi o bastante
para fazer as duas mulheres rirem. Kevin pediu uma vodca dupla, sem suco de
framboesas, e viu o reflexo delas pelo espelho que ficava atrs do balco do bar. Os
olhos da morena encontraram os seus no reflexo e ele no desviou o olhar. Dez minutos
depois, ela se aproximou e sentou-se na banqueta que Todd ocupava alguns minutos
antes.

  -- No est a fim de conhecer pessoas hoje? -- perguntou a morena.

  -- No sou muito bom para puxar assunto.

  A morena pareceu considerar aquelas palavras. -- Meu nome  Amber -- disse ela.

  -- Kevin -- respondeu ele e, novamente, no soube o que dizer. Ele tomou um gole
da bebida pensando que o gosto parecia quase como o da gua.

  A morena se inclinou em direo a ele. Cheirava a almscar, bem diferente do cheiro
de limo e menta. -- Todd disse que vocs trabalham com homicdios.

  --  verdade.

  --  um trabalho difcil?

   -- s vezes -- disse ele. Kevin terminou a bebida e levantou o copo. O barman lhe
trouxe outro. -- E voc? O que faz?

  -- Eu administro o escritrio da confeitaria do meu irmo. Ele faz doces e produtos
para restaurantes.

  -- Parece interessante.

  Ela lhe deu um sorriso cnico. -- No parece, no, mas ajuda a pagar as contas --
disse ela. O branco de seus dentes brilhou em meio  penumbra. -- Nunca vi voc aqui
antes.

  -- Foi Todd que me trouxe at aqui.

  Ela olhou em direo a Todd. -- Eu j o vi algumas vezes. Ele d em cima de
qualquer pessoa que esteja usando uma saia e que ainda esteja respirando. E eu acho
que nem  to necessrio que a pessoa esteja realmente respirando. Minha amiga adora
este lugar, mas geralmente no suporto esse bar. Ela me fora a vir aqui com ela.
  Kevin assentiu e se mexeu em seu assento. Ele se perguntou se Coffey e Ramirez
vinham at este lugar.

  -- Eu estou lhe incomodando? -- perguntou ela. -- Posso deix-lo em paz se voc
quiser.

  -- No, voc no est me incomodando.

  Ela mexeu o pescoo e jogou o cabelo e Kevin notou que ela era mais bonita do que
ele imaginara a princpio. -- Quer me pagar um drinque? -- sugeriu ela.

  -- O que voc quer beber?

  -- Um cosmopolitan -- disse ela, e Kevin fez um sinal para o barman. O
cosmopolitan havia chegado.

  -- No sou muito bom nisso -- admitiu Kevin.

  -- No  bom no qu?

  -- Nisso.

  -- Estamos s conversando -- disse ela. -- E voc est indo bem.

  -- Sou casado.

  Ela sorriu. -- Eu sei. Percebi sua aliana.

  -- Isso a incomoda?

  -- Como disse, estamos apenas conversando.

  Ela deslizou o dedo pelo vidro do copo e ele percebeu a umidade se concentrar na
pele dela.

  -- Sua esposa sabe que voc est aqui? -- perguntou ela.

  -- Minha esposa est fora da cidade. Uma amiga dela est doente e ela foi at l
para ajud-la.
 -- E ento, voc achou que seria uma boa ideia ir at alguns bares? Conhecer
mulheres?

  -- No sou esse tipo de homem. Eu amo minha mulher -- disse Kevin.

  -- E voc deveria mesmo. Afinal, voc se casou com ela.

  Ele queria outra vodca dupla, mas no queria pedi-la em voz alta na presena de
Amber, porque j havia feito isso. Em vez disso, como se pudesse ler sua mente, ela
fez um sinal para o barman e ele trouxe outra dose. Kevin tomou um grande gole, ainda
pensando que a bebida tinha gosto de gua.

  -- Voc se importa por eu ter feito isso? -- perguntou ela.

  -- Est tudo bem -- disse ele.

  Ela olhou para ele, com uma expresso sensual. -- Eu no contaria  sua esposa que
voc esteve aqui, se eu fosse voc.

  -- Por que no? -- perguntou ele.

                                                           oc
  -- Porque voc  bonito demais para um lugar como este. V nunca sabe quem vai
tentar dar em cima de voc.

  -- Voc est dando em cima de mim?

  Ela demorou um momento para responder. -- Voc ficaria ofendido se eu dissesse
que sim?

 Ele girou o copo lentamente sobre o balco do bar. -- No -- disse ele. -- Isso no
me ofende.


DEPOIS DE BEBER e flertar por cerca de duas horas, os dois estavam no apartamento de
Amber. Ela percebeu que ele preferia ser discreto, e ento lhe deu seu endereo.
Depois que Amber e sua amiga saram, Kevin ficou no bar com Todd por mais meia
hora, antes de dizer a Todd que tinha que voltar para casa e telefonar a Erin.
  Enquanto dirigia, ele percebeu o mundo ficar embaado nos limites do seu campo
visual. Seus pensamentos estavam confusos e em desordem e ele sabia que estava
dirigindo descuidadamente pelas ruas, mas era um bom policial. Mesmo que fosse
parado no seria preso, porque policiais no prendem uns aos outros. Alm disso, que
problema havia em tomar alguns drinques?

  Amber morava em um apartamento a alguns quarteires de distncia do bar. Ele
bateu na porta e quando a porta se abriu, ela no vestia nada por baixo do lenol que
havia enrolado ao redor do corpo. Ele a beijou e a levou para o quarto, sentindo os
dedos dela desabotoando sua camisa. Colocou-a na cama, despiu-se e apagou as luzes,
porque no queria se lembrar de que estava traindo sua esposa. O adultrio era um
pecado e, agora que estava ali, Kevin no queria fazer sexo com ela, mas havia bebido.
O mundo parecia estar borrado. E Amber no vestia nada alm de um lenol. Tudo era
confuso demais.

  Ela no era como Erin. Seu corpo era diferente, suas formas eram diferentes e seu
cheiro era diferente. Era um cheiro adocicado, quase animalesco. As mos dela se
moviam demais e tudo o que Kevin fazia com Amber era novo. Ele no gostava
daquilo, mas no conseguia parar. Ouviu Amber chamar seu nome, dizer palavras
sujas. Kevin quis mand-la calar a boca para que pudesse pensar em Erin, mas era
difcil se concentrar. Tudo era confuso demais.

  Apertou os braos dela e a ouviu gemer e dizer em seguida: -- No to forte! --
Kevin suavizou a pegada, mas logo voltou a apertar os braos de Amber, porque era
aquilo que queria fazer. Desta vez, ela no disse nada. Ele pensou em Erin, imaginou
onde ela poderia estar, se ela estaria bem e voltou a pensar no quanto sentia saudade
dela.

  Ele no devia ter batido em Erin, porque ela era doce, gentil e carinhosa e no
merecia ser socada ou chutada. Kevin era o culpado por Erin haver desaparecido. Fora
ele quem a afastara, mesmo que a amasse. Havia procurado por ela e no tinha
conseguido encontr-la. Esteve na Filadlfia procurando por ela. E agora estava com
uma mulher chamada Amber, que no sabia o que fazer com as mos e fazia rudos
estranhos. Tudo parecia estar errado.

  Quando terminaram, ele no quis mais ficar ali. Em vez disso, levantou-se da cama e
comeou a se vestir. Ela acendeu o abajur ao lado da cama e se sentou. Ao olhar para
ela, Kevin se lembrou de que ela no era Erin e repentinamente sentiu seu estmago
embrulhar. A Bblia diz: O homem que comete adultrio  um tolo, pois destri sua
prpria alma.

  Tinha que sair de perto de Amber. No sabia por que tinha ido at ali e, ao olhar
para ela, seu estmago se retorcia.

  -- Voc est bem? -- ela perguntou.

  -- No deveria estar aqui -- respondeu ele. -- No devia ter vindo.

  -- Acho que  um pouco tarde para pensar nisso.

  -- Tenho que ir embora.

  -- Vai sair assim? Simplesmente ir embora?

  -- Sou casado -- disse ele novamente.

  -- Eu sei -- disse ela, com um sorriso cansado. -- E no h nenhum problema.

  --  claro que h -- disse ele. Depois de se vestir, ele a deixou no apartamento e
correu pela escada, descendo at a rua e entrando no carro. Dirigiu velozmente, mas
no fez curvas perigosas ou cruzou as faixas de trnsito. A culpa que sentia era como
um forte tnico para seus sentidos. V oltou para casa e viu uma luz acesa na casa dos
Feldmans, sabendo que eles espiariam pela janela quando ele estacionasse. Os
Feldmans eram vizinhos ruins. Nunca o cumprimentavam e diziam s crianas para no
pisarem em seu gramado. Eles perceberiam o que ele havia feito, pois eram pessoas
ruins. Ele havia feito uma coisa ruim e pessoas ruins sempre andam juntas.

  Quando entrou, Kevin precisava de uma bebida. Mesmo assim, s de pensar na
vodca, sentiu-se enjoado. Estava inquieto. Havia trado sua esposa e a Bblia dizia:
Sua vergonha nunca ser apagada. Havia quebrado um dos mandamentos de Deus,
quebrado os votos que fizera com Erin, e sabia que a verdade apareceria. Amber
sabia, Todd sabia e os Feldmans tambm sabiam. Eles acabariam contando a algum,
que contaria a outra pessoa, at que a histria chegaria aos ouvidos de Erin. Ele andou
de um lado para outro na sala de estar, com a respirao acelerada porque sabia que
no conseguiria explicar aquilo a Erin de uma maneira que ela pudesse entender. Ela
era sua esposa e nunca o perdoaria. Ficaria furiosa e o mandaria dormir no sof. Pela
manh, o olharia, cheia de decepo, pois ele era um pecador, e nunca mais voltaria a
confiar nele. Ele estremeceu, sentindo nuseas. Havia dormido com outra mulher e a
Bblia dizia: No te envolvas com pecado sexual, impureza, luxria e desejos
vergonhosos. Tudo era confuso demais. Queria parar de pensar, mas no era capaz.
Queria beber, mas no era capaz. E tinha a sensao de que Erin apareceria
repentinamente na porta da casa.

   A casa estava suja e desorganizada e sua querida esposa perceberia o que ele fizera.
Mesmo que seus pensamentos estivessem confusos, ele sabia que aquelas duas coisas
estavam ligadas. Andou freneticamente pela sala, de um lado para o outro. Sujeira e
traio estavam ligadas, porque trair era uma coisa suja. Erin saberia que ele a havia
trado, porque a casa estava suja e as duas coisas estavam associadas. De repente,
parou de andar pela sala e correu para a cozinha. L, encontrou um saco de lixo
debaixo da pia. Na sala, ajoelhou-se e rastejou pelo cmodo, enchendo o saco com as
embalagens vazias de comida para viagem, as revistas velhas, os talheres de plstico,
as garrafas de vodca vazias e as caixas de pizza. J passava da meia-noite e ele no
teria que trabalhar na manh seguinte. Assim, Kevin ficou acordado limpando a casa,
lavando os pratos e passando o aspirador de p que comprara para Erin. Limpou a
casa para que ela no descobrisse o que ele havia feito. Sujeira e traio estavam
associadas. Colocou as roupas sujas na mquina de lavar e, quando elas j estavam
limpas, colocou-as na secadora. Em seguida, dobrou-as e guardou-as  medida que
outra leva de roupas enchia a mquina. O sol nasceu e ele tirou as almofadas do sof,
passando o aspirador por baixo delas at que todas as migalhas desaparecessem.
Enquanto trabalhava, ele olhava pela janela, sabendo que Erin poderia chegar em casa
a qualquer momento. Esfregou o vaso sanitrio, limpou as manchas de comida da
geladeira e lavou o piso da cozinha. O alvorecer se transformou em manh e a manh
j avanava em direo  hora do almoo. Kevin lavou os lenis, abriu as cortinas e
tirou o p da moldura da foto do seu casamento. Aproveitou tambm para aparar o
gramado e jogou a grama cortada na lata do lixo. Quando terminou, saiu para fazer
compras. Comprou peru, presunto, mostarda Dijon e po de centeio fresco na padaria.
Comprou flores e as colocou sobre a mesa. Acrescentou velas tambm. Ao terminar,
ele respirava com dificuldade. Serviu-se de um copo grande de vodca gelada e
sentou-se na cozinha para esperar por Erin. Ficou feliz porque limpara a casa e aquilo
significava que Erin nunca saberia o que ele havia feito. Teriam o tipo de casamento
que ele sempre quisera. Confiariam um no outro e seriam felizes. Ele a amaria para
sempre e nunca iria tra-la. Afinal, por que ele faria algo to desprezvel?
                                        27



KATIE CONSEGUIU SUA CARTEIRA de motorista na segunda semana de julho. Nos dias que
precederam o teste, Alex a levava para dirigir regularmente. Apesar de alguns
deslizes, ela passou com uma pontuao quase perfeita. O documento chegou pelo
correio aps alguns dias e, quando Katie abriu o envelope, sentiu uma forte tontura.
Havia uma fotografia sua ao lado de um nome que ela nunca imaginou que teria, mas
que, de acordo com o estado da Carolina do Norte, era to real como qualquer outra
pessoa que residia no estado.

  Naquela noite, Alex a levou para jantar em Wilmington. Depois, os dois caminharam
pelas ruas do centro da cidade de mos dadas, olhando as vitrines das lojas. De vez em
quando, ela percebia que Alex a olhava com admirao.

  -- O que foi? -- perguntou ela, finalmente.

 -- Eu estava pensando que o nome Erin no combina com voc. Katie se encaixa
muito melhor.

  --  melhor que seja assim. Esse  o meu nome e eu tenho uma carteira de motorista
para provar.

  -- Eu sei que voc tem. Agora, tudo o que voc precisa  de um carro.

  -- Por que eu precisaria de um carro? -- disse ela, dando de ombros. -- A cidade 
pequena e eu tenho uma bicicleta. E, quando chove, h um homem que est disposto a
me levar para qualquer lugar que eu precise ir.  quase como ter meu prprio
motorista particular.

  --  mesmo?
  -- , sim. E eu tenho certeza de que, se eu pedisse, ele at me emprestaria seu carro.
Ele est praticamente comendo na minha mo.

  Alex levantou uma sobrancelha. -- No me parece uma atitude muito masculina da
parte dele.

  -- Ah, ele  timo -- disse ela, provocando. -- Parecia um pouco desesperado no
comeo, com todas aquelas mercadorias que me deu de graa. Mas, depois de um
tempo, me acostumei com isso.

  -- Voc tem um corao de ouro.

  --  bvio que tenho -- disse ela. -- A chance de encontrar algum como eu  de
uma em um milho.

  Alex riu. -- Estou comeando a achar que voc finalmente est saindo da concha
onde se escondia e estou comeando a perceber quem  a verdadeira Katie.

  Ela deu alguns passos em silncio. -- V     oc conhece a pessoa que sou
verdadeiramente -- disse ela, parando para olhar nos olhos dele. -- Mais do que
qualquer outra pessoa.

  -- Eu sei -- disse ele, puxando-a para um abrao. -- E  por isso que, de alguma
forma, acho que o destino nos unir algum dia.


EMBORA A LOJA ESTIVESSE to movimentada quanto sempre estivera, Alex resolveu tirar
frias. Era a primeira vez em alguns anos que fazia isso e ele passou a maioria das
tardes com Katie e seus filhos, aproveitando os dias preguiosos do vero de uma
maneira que no fazia desde que era criana. Ele pescou com Josh, construiu casas de
boneca com Kristen e levou Katie para um festival de jazz em Myrtle Beach. Durante
as noites em que os vaga-lumes enchiam os jardins das casas, eles saam para ca-los
com redes e os colocavam em um pote de vidro. Depois observavam o luzir dos
insetos com uma mistura de espanto e fascinao, at que Alex finalmente abria a
tampa e os soltava.

  Passeavam de bicicleta e iam ao cinema e, nas noites em que Katie no trabalhava,
Alex gostava de acender a churrasqueira. As crianas almoavam e depois nadavam no
riacho at a hora em que o sol se punha. Depois que tomavam banho e iam dormir,
Alex e Katie se sentavam no pequeno ancoradouro atrs da casa, com as pernas
balanando sobre a gua, enquanto a lua cruzava lentamente o cu. Bebiam vinho e
conversavam sobre trivialidades, e Alex comeou a apreciar bastante aqueles
momentos tranquilos a dois.

  Kristen, especialmente, adorava ter Katie por perto. Quando os quatro estavam
andando juntos, no era raro que Kristen buscasse pela mo de Katie; quando caa no
cho do playground, ela corria em direo  moa. Embora seu corao se alegrasse
ao ver aquilo, Alex sempre sentia uma pontada de tristeza, tambm, ao se lembrar de
que ele nunca poderia ser tudo que sua filha precisava, independente do quanto se
esforasse. Mesmo assim, quando Kristen vinha correndo at ele e perguntava se a
senhorita Katie poderia lev-la para fazer compras, Alex era incapaz de dizer no.
Embora fizesse questo de lev-la para comprar o que fosse necessrio uma ou duas
vezes por ano, ele geralmente via aqueles passeios mais como uma obrigao de pai
do que uma oportunidade para se divertir. Em contrapartida, Katie se deliciava com a
ideia. Depois de dar algum dinheiro  Katie, Alex lhe entregou as chaves do jipe e
acenou do estacionamento quando elas saram.

  Por mais que a presena de Katie alegrasse Kristen, os sentimentos de Josh no eram
to bvios. No dia anterior, Alex fora busc-lo em uma festa oferecida na casa de um
amigo, e o filho no trocou qualquer palavra com o pai ou com Katie pelo resto da
noite. Naquele dia, ainda pela manh, ele tambm estava mais reservado do que de
costume. Alex sabia que alguma coisa o incomodava e sugeriu que os dois pegassem
suas varas de pescar logo depois que o sol se ps. As sombras comearam a se
estender por sobre a gua escura e o riacho estava tranquilo, um espelho enegrecido
refletindo as nuvens que cruzavam lentamente o cu.

  Eles pescaram por cerca de uma hora, enquanto o cu se tingia de violeta para
depois adquirir um tom de ndigo. As iscas e os anzis criavam ondulaes em forma
de anis quando se mexiam na superfcie da gua. Josh continuava estranhamente
quieto. Em outras ocasies, aquele teria sido um momento tranquilo, mas Alex tinha a
sensao incmoda de que alguma coisa estava errada. Quando estava prestes a
perguntar a Josh sobre aquilo, seu filho se virou em sua direo.
  -- Pai?

  -- Sim?

  -- Voc ainda pensa na mame?

  -- O tempo todo -- disse ele.

  Josh assentiu. -- Eu tambm penso nela.

  --  bom que o faa. Ela o amava muito. Sobre o que voc pensa?

  -- Eu me lembro de quando ela fez biscoitos para ns. Ela me deixou colocar o
glac neles.

                            oc
  -- Eu me lembro disso. V ficou com o rosto todo coberto de glac rosa. Ela tirou
uma foto sua. Ainda est pregada na porta da geladeira.

  -- Acho que  por isso que eu me lembro -- disse ele, apoiando a vara de pescar
sobre o colo. -- Voc sente saudades dela?

  --  claro que sinto. Eu a amava muito -- disse Alex, olhando nos olhos de Josh. --
O que est havendo, Josh?

  -- Ontem, na festa... -- Josh esfregou o nariz, hesitando.

  -- O que aconteceu?

  -- A maioria das mes ficou l o tempo todo. Conversando e coisa e tal.

  -- Eu teria ficado se voc quisesse.

  Josh baixou os olhos e, em meio ao silncio, ele percebeu o que seu filho quis dizer.
-- Eu devia ter ficado por ali tambm, no ? Uma reunio entre pais e filhos -- disse
ele, mais em tom de afirmao do que de pergunta. -- Mas voc no quis me pedir isso
porque eu seria o nico pai ali, no meio de vrias mes, no ?

  Josh assentiu novamente, com um olhar de culpa. -- No quero que voc fique bravo
comigo.

  Alex colocou o brao ao redor de seu filho. -- No estou bravo.

  -- Tem certeza?

  -- Absoluta. Nunca ficaria bravo com voc por causa disso.

  -- Voc acha que a mame teria ido? Se ela ainda estivesse aqui?

  --  claro que teria. Ela no perderia essa festa por nada.

  Do outro lado do riacho, uma tainha pulou e as pequenas ondulaes comearam a
vir na direo de Josh e Alex.

  -- O que voc faz quando sai com a senhorita Katie? -- perguntou ele.

  Alex mudou de posio levemente. -- Mais ou menos as coisas que fizemos na praia
hoje. Ns comemos, conversamos e, s vezes, samos para dar um passeio.

  -- Voc tem passado bastante tempo com ela ultimamente.

  --  verdade.

  Josh pensou naquilo. -- E sobre o que vocs conversam?

  -- Sobre coisas comuns -- disse Alex, inclinando a cabea. -- E falamos sobre
voc e sua irm tambm.

  -- E o que vocs dizem?

  -- Falamos sobre o quanto gostamos de passar o tempo com vocs dois e sobre as
boas notas que voc est tirando na escola, ou sobre como voc mantm seu quarto
limpo e organizado.

  --V  oc vai contar a ela sobre eu no ter lhe dito que voc deveria ter ficado na
festa?

  -- Voc quer que eu conte a ela?
  -- No -- disse ele.

  -- Ento no vou dizer nada.

  -- Voc promete? Porque no quero que ela fique brava comigo.

   Alex levantou os dedos. -- Palavra de escoteiro. Mas, para que voc fique mais
tranquilo, ela no ficaria brava com voc, mesmo se eu contasse a ela. Ela acha que
voc  um timo garoto.

  Josh se sentou com as costas eretas e comeou a recolher sua linha. -- Que bom. Eu
tambm gosto muito dela.


A CONVERSA COM JOSH tirou o sono de Alex naquela noite. Ele se apanhou estudando o
retrato de Carly em seu quarto, enquanto tomava sua terceira cerveja naquela noite.

  Kristen e Katie haviam voltado para casa animadas e cheias de energia e mostravam
a Alex as roupas que tinham comprado. De maneira surpreendente, Katie devolveu
quase metade do dinheiro que ele havia lhe dado dizendo apenas que tinha um talento
para achar peas em promoo. Alex se sentou no sof e sua pequena filha vestiu e
desfilou um modelo que havia comprado para logo em seguida desaparecer em seu
quarto e voltar com um conjunto totalmente diferente. At mesmo Josh, que geralmente
no se importaria nem um pouco com aquilo, deixou seu Nintendo de lado. Quando
Kristen saiu da sala, ele se aproximou de Katie.

  -- V oc pode me levar para fazer compras tambm? -- pediu ele, quase
sussurrando. -- Preciso de umas camisas novas e outras coisas tambm.

  Depois, Alex ligou para um restaurante chins e pediu que entregassem comida em
sua casa. Eles se sentaram ao redor da mesa, comeram e riram. Em um certo momento
do jantar, Katie tirou uma pulseira de couro de sua bolsa e olhou para Josh.

  -- Achei essa pulseira muito bonita -- disse ela, entregando-a a Josh. A surpresa
dele se transformou em satisfao quando ele a colocou no pulso; e Alex percebeu
como os olhos de Josh se fixaram continuamente em Katie durante o resto da noite.
  Durante momentos como aquele era que Alex, ironicamente, sentia mais saudade de
Carly. Embora ela nunca tivesse vivenciado noites em famlia como esta -- as crianas
eram muito novas quando ela morreu --, ele conseguia imagin-la  mesa com muita
facilidade.

   Talvez aquele fosse o motivo que o deixara com insnia, mesmo depois de Katie ter
voltado para casa e Kristen e Josh terem se recolhido aos seus quartos para dormir.
Afastando os lenis, ele foi at o armrio e abriu o cofre que havia instalado h
alguns anos. Ali ficavam documentos importantes sobre finanas e seguros, empilhados
ao lado de tesouros do seu casamento. Eram objetos que Carly havia juntado: fotos de
sua lua de mel, um trevo de quatro folhas que haviam encontrado durante as frias que
passaram em Vancouver, o buqu de begnias e lrios que ela havia usado no dia de
seu casamento, imagens de ultrassom de Josh e Kristen quando eles ainda estavam em
seu ventre, com as roupas que cada um vestia no dia em que saram da maternidade.
Negativos fotogrficos e discos com fotos digitais que registravam os anos que
passaram juntos. Aqueles objetos estavam carregados de significado e lembranas e,
desde a morte de Carly, Alex no havia acrescentado nada ao cofre, exceto as cartas
que sua esposa havia escrito. Uma delas estava endereada a ele. A outra, como no
tinha qualquer nome no envelope, permanecia fechada e ele no se atrevera a abri-la,
afinal de contas, uma promessa devia ser honrada.

  Ele pegou a carta que j havia lido uma centena de vezes e deixou a outra dentro do
cofre. Desconhecia completamente a existncia daquelas cartas at que ela lhe entregou
os envelopes pouco menos de uma semana antes de morrer. quela altura, Carly
passava os dias acamada e s conseguia engolir lquidos. Quando ele a levava ao
banheiro, parecia muito leve, como se, de algum modo, tivesse sido esvaziada. Nas
poucas horas em que a esposa conseguia ficar acordada, Alex estava ao seu lado.
Geralmente, voltava a dormir depois de alguns minutos e ele a olhava por longos
momentos, temendo se afastar caso ela precisasse de alguma coisa, ao mesmo tempo
receoso de permanecer por perto, sem querer interromper seu repouso. No dia em que
ela lhe deu os envelopes, ele viu que eles haviam sido colocados sob os cobertores,
aparecendo como que por mgica. Mais tarde, Alex soube que Carly havia escrito as
cartas dois meses antes e que sua sogra as estava guardando.

  Agora, ele abriu o envelope e tirou a carta que j havia sido bastante manipulada.
Estava escrita em papel amarelo pautado. Trazendo-a para perto do nariz, ainda
conseguiu identificar a loo que Carly sempre usava. Lembrou-se da surpresa que
sentiu na ocasio e a maneira como os olhos da esposa imploravam para que ele
entendesse.

  -- Voc quer que eu leia esta aqui primeiro? --lembrou-se de haver perguntado.
Apontou para o envelope que tinha seu nome inscrito e ela assentiu levemente. Carly
relaxou e sua cabea afundou nos travesseiros, enquanto ele tirou a carta de dentro do
envelope.

  Meu querido Alex,

  H sonhos que nos visitam e que nos deixam com uma sensao de plenitude
quando acordamos e h sonhos que fazem com que valha a pena viver a vida. Voc,
meu querido e doce marido,  esse sonho e eu fico triste por ter que colocar em
palavras o que sinto por voc.

  Estou escrevendo esta carta agora, enquanto ainda tenho foras e, mesmo assim,
no tenho certeza sobre como dizer o que pretendo. No sou escritora e as palavras
me parecem muito inadequadas neste momento. Como posso descrever o quanto o
amo? Ser mesmo possvel descrever um amor assim? No sei, mas, enquanto estou
aqui, sentada, com a caneta na mo, sei que tenho que tentar.

  Eu sei que voc gosta de contar a histria sobre como me fiz de difcil quando nos
conhecemos, mas, quando penso na ocasio em que nos conhecemos, acho que
percebi naquela noite que era nosso destino ficarmos juntos. Eu me lembro
claramente daquela noite, assim como me lembro da sensao exata de sentir sua
mo tocando a minha e de cada detalhe daquela tarde nublada na praia, quando
voc se ajoelhou e me pediu em casamento. At voc entrar na minha vida, eu nunca
percebera o quanto algumas coisas me faziam falta. Eu nunca soubera que um toque
poderia ter tanto significado, ou que uma expresso facial pudesse ser to
eloquente; nunca me dera conta de que um beijo poderia literalmente me tirar o
flego. Voc , e sempre foi, tudo o que eu sempre quis em um marido. Voc  gentil,
forte, carinhoso e inteligente; voc me alegra, e, como pai,  melhor do que imagina
ser. Tem talento para lidar com crianas, um modo de fazer com que elas confiem
em voc e eu no sou capaz de expressar a alegria que sinto quando o vejo com
nossos filhos nos braos quando eles adormecem com a cabea apoiada no seu
ombro.

  Minha vida  infinitamente melhor com voc ao meu lado. E  isso que torna tudo
isso to difcil;  por isso que no consigo encontrar as palavras de que preciso. Eu
sinto medo quando penso que tudo vai acabar em breve. No estou com medo apenas
por mim -- sinto medo tambm por voc e pelos nossos filhos. Sinto meu corao se
despedaar por saber que vou causar tanta dor a vocs. Eu no sei o que fazer para
melhorar isso. Posso apenas lembr-lo das razes pelas quais me apaixonei por
voc desde o comeo. Tambm quero expressar minha tristeza por mago-lo, assim
como aos nossos lindos filhos. Di muito pensar que seu amor por mim tambm ser
a fonte de tanta angstia.

  Mas eu realmente acredito que, embora o amor possa ferir, ele tambm seja capaz
de curar... E  por isso que eu escrevi uma outra carta.

  Por favor, no a leia. Eu no a escrevi para voc, para nossas famlias ou mesmo
para nossos amigos. Duvido muito que eu ou voc j conheamos a mulher que
dever receber a outra carta. Perceba: aquela carta deve ser entregue para a
mulher que ir lhe curar, aquela que far com que voc volte a se sentir inteiro.

  Eu sei que, neste momento, voc no consegue imaginar algo assim. Pode levar
meses, pode levar anos, mas, depois de algum tempo, voc entregar essa carta para
outra mulher. Confie nos seus instintos, assim como eu fiz na noite em que se
aproximou de mim pela primeira vez. Voc saber o momento e o local para fazer o
que lhe peo, assim como saber quem  a mulher que merece l-la. E, quando
souber quem  essa pessoa, confie nestas palavras: Em algum lugar, de algum modo,
estarei sorrindo e feliz por vocs dois.



  Com amor,

  Carly


DEPOIS   DE RELER A CARTA,   Alex a colocou de volta em seu envelope e guardou-a no
cofre. Do lado de fora da janela, o cu estava cheio de nuvens iluminadas pelo luar,
brilhando com uma incandescncia quase sobrenatural. Ele olhou para cima, pensando
em Carly e em Katie. Carly lhe disse para confiar em seus instintos; disse-lhe que
saberia o que fazer com a carta. E, repentinamente, percebeu que Carly tinha razo.
Pelo menos, em metade de suas afirmaes. Ele sabia que queria entregar a carta a
Katie. Mas ainda no tinha certeza se ela estava preparada para receb-la.
                                       28


-- EI, KEVIN -- disse Bill, acenando para ele. -- Pode vir at meu escritrio por um
momento?

  Kevin havia quase chegado  sua escrivaninha e Coffey e Ramirez o seguiam com os
olhos. Seu novo parceiro, Todd, j estava em sua prpria mesa e lhe deu um sorriso
fraco, mas a expresso desapareceu antes que ele virasse o rosto repentinamente.

  Sua cabea latejava. No queria conversar com Bill logo pela manh, mas no
estava preocupado. Tinha talento para lidar com testemunhas e vtimas, sabia quando
os criminosos estavam mentindo, efetuava vrias prises e os culpados eram
condenados.

  Bill fez um gesto para que ele se sentasse. Embora Kevin no quisesse se sentar, se
acomodou na cadeira e comeou a se perguntar silenciosamente por que Bill havia lhe
pedido isso, afinal, sempre ficava em p quando conversava com o capito. A dor em
sua tmpora ardia, como se algum tivesse lhe enfiado um lpis na cabea e, por um
momento, Bill apenas olhou fixamente para ele. At que finalmente se levantou, fechou
a porta do escritrio e sentou-se na beirada da escrivaninha.

  -- Como esto as coisas, Kevin?

  -- Est tudo bem -- respondeu ele. Queria fechar os olhos para aliviar a dor, mas
percebeu que Bill o estudava. -- O que houve?

  Bill cruzou os braos. -- Chamei voc aqui para lhe informar que recebemos uma
queixa a seu respeito.

  -- Que tipo de queixa?

  -- O assunto  srio, Kevin. A Corregedoria est envolvida e, a partir de agora,
voc est suspenso de suas funes. Vai ser investigado.

  As palavras pareceram se misturar. Nada daquilo fazia sentido. Pelo menos, no a
princpio. Entretanto, conforme se concentrava, percebeu a expresso de Bill e desejou
no ter acordado com aquela dor de cabea. Desejou tambm no precisar tomar tanta
vodca.

  -- Do que voc est falando?

  Bill pegou alguns papis de sua mesa. -- O assassinato de Gates. O garoto que foi
alvejado por uma bala que atravessou o teto de seu apartamento, lembra-se? No
comeo do ms?

  -- Eu me lembro. O rosto dele estava coberto de molho de pizza.

  -- Como ?

  Kevin piscou. -- O garoto. Ns o encontramos assim. Foi horrvel. Todd ficou bem
abalado.

  Bill franziu as sobrancelhas. -- Uma ambulncia foi chamada.

  Kevin inspirou, depois exalou. Concentrando-se.

  -- Foi para a me do garoto -- disse Kevin. -- Ela estava alterada, obviamente, e
quis pegar o grego que havia disparado a bala. Eles se atracaram e ela rolou pela
escada abaixo. Ns chamamos a ambulncia imediatamente. At onde eu sei, ela foi
levada para o hospital.

  Bill continuou a olhar fixamente para ele antes de finalmente colocar os papis sobre
a mesa. -- Voc conversou com ela antes disso tudo, no foi?

  -- Eu tentei... Mas ela estava bastante histrica. Tentei acalm-la, mas ela
enlouqueceu. O que h mais para dizer? Est tudo no meu relatrio.

  Bill pegou os papis em sua mesa novamente. -- Eu vi o que voc escreveu. Mas a
mulher alega que voc disse para ela empurrar o perpetrador para que ele casse pelas
escadas.
  -- O qu?

  Bill leu as pginas que tinha nas mos. -- Ela alega que voc estava falando sobre
Deus e disse a ela, entre aspas: "O homem era um pecador e merecia ser punido,
porque a Bblia diz: No matars". Consta no depoimento que voc tambm lhe disse
que o cara iria ficar em liberdade vigiada, mesmo que tivesse matado seu filho. Assim,
ela deveria fazer justia com as prprias mos. Porque os malfeitores merecem ser
punidos. Voc se lembra de dizer isso?

                                                                oc
 Kevin sentiu o sangue lhe subir ao rosto. -- Isso  ridculo. V sabe que ela est
mentindo, no ?

  Ele esperava que Bill concordasse imediatamente com ele, que dissesse que sabia
que a Corregedoria iria inocent-lo. Mas Bill no o fez. Em vez disso, seu chefe
simplesmente se inclinou para a frente.

  -- O que foi que voc disse a ela exatamente? Palavra por palavra.

  -- Eu no disse nada a ela. Eu perguntei  mulher o que havia acontecido, subi as
escadas e prendi o vizinho depois que ele admitiu haver feito o disparo. Eu o algemei e
comecei a conduzi-lo pelas escadas. Quando dei por mim, ela j estava pulando sobre
ele.

                                                         oc
  Bill estava em silncio, seu olhar firme em Kevin. -- V nunca falou a ela sobre
pecados?

  -- No.

       oc
  -- V nunca chegou a dizer estas palavras: A vingana  minha, e eu irei retaliar,
disse o Senhor.

  -- No.

  -- Nada disso lhe parece familiar?

 Kevin sentiu a fria crescer dentro de si, mas forou-se a se controlar. -- Nada. So
mentiras. Voc sabe como essas pessoas so. Ela provavelmente quer processar a
cidade para receber uma indenizao enorme.

  Os msculos da mandbula de Bill estavam tensionados e demorou um bom tempo at
que ele falasse.

  -- Voc bebeu antes de conversar com a mulher?

   -- No sei de onde ela tirou essa ideia. No. Eu no fao isso. Eu no faria isso.
V oc sabe que estou limpo. Sou um bom investigador -- disse Kevin, levantando as
mos, quase cego pela dor latejante em sua cabea. -- Vamos l, Bill. Ns
trabalhamos juntos h anos.

  --  por isso que estou conversando com voc, em vez de simplesmente demiti-lo.
Nos ltimos meses, Kevin, voc no tem sido voc mesmo. E eu tenho ouvido os
rumores.

  -- Que rumores?

  -- De que voc chega ao trabalho bbado.

  -- No  verdade.

  -- Quer dizer, ento, que se eu fizer voc passar pelo bafmetro o resultado ser
negativo, certo?

  Kevin podia sentir seu corao martelando dentro do peito. Ele sabia mentir e era
bom nisso, mas tinha que manter a voz firme.

  -- Olhe, ontem  noite, fiquei acordado at tarde com um amigo e ns estvamos
bebendo. Pode ser que ainda haja alguns traos de lcool na minha corrente sangunea,
mas no estou bbado. E no bebi antes de vir para o trabalho esta manh. Nem no dia
em que o garoto foi morto. Ou em qualquer outro dia.

  Bill olhava fixamente para ele. -- Diga-me o que est havendo com Erin.

 -- Eu j lhe disse. Ela est ajudando uma amiga em Manchester. Ns viajamos para
Cape Cod h algumas semanas.
  --V  oc disse a Coffey que esteve em um restaurante em Provincetown com Erin,
mas o lugar fechou h seis meses. Tambm no houve qualquer registro em seu nome
no hotel que voc mencionou. E ningum v ou recebe notcias de Erin h meses.

  Kevin sentiu o sangue lhe subir  cabea e aquilo s piorou o latejar que ele sentia.
-- Voc me investigou?

 -- Faz algum tempo que voc est bebendo durante o horrio de servio e voc vem
mentindo para mim h algum tempo.

  -- Eu no...

  -- Pare de mentir para mim! -- gritou o capito, repentinamente. -- Consigo sentir o
cheiro do seu hlito daqui de onde estou!

  Os olhos dele estavam faiscando de raiva. -- E, a partir deste momento, voc est
suspenso de suas funes.  melhor voc ligar para o seu representante no sindicato
antes de conversar com a Corregedoria. Deixe sua arma e o distintivo na minha mesa e
v para casa.

  -- Por quanto tempo? -- Kevin conseguiu perguntar.

  -- No momento, a suspenso  o menor dos seus problemas.

  -- Para sua informao, eu no disse nada para aquela mulher.

  -- Eles o ouviram! -- gritou Bill. -- Seu parceiro, o paramdico, os investigadores
que vistoriaram a cena do crime, o namorado dela.

  Bill parou de falar, tentando se acalmar. -- Todos ouviram o que voc disse --
disse ele, de maneira definitiva. Repentinamente, Kevin sentiu como se tivesse perdido
o controle de tudo. E ele sabia que Erin era culpada por tudo aquilo.
                                        29



O MS DE AGOSTO CHEGOU E, embora Alex e Katie estivessem apreciando os dias
quentes e morosos que passavam juntos naquele vero, as crianas estavam comeando
a ficar entediadas. Pretendendo fazer algo diferente, Alex levou Katie e as crianas
para ver o rodeio dos macacos em Wilmington. Katie no acreditou quando percebeu
que o espetculo fazia jus ao nome: macacos, vestidos com roupas de cowboy,
cavalgavam cachorros e arrebanhavam carneiros por quase uma hora antes de um show
de fogos de artifcios quase to exuberante quanto os que aconteciam durante o feriado
de 4 de julho. Ao sarem, Katie se virou para ele com um sorriso.

  -- Acho que isso foi a coisa mais louca que j vi -- disse ela, balanando a cabea.

  -- Provavelmente voc achava que ns aqui dos estados do sul no tnhamos cultura.

  Ela riu. -- De onde as pessoas tiram essas ideias?

  -- Eu nem imagino. Mas foi bom saber que esse tipo de coisa existe. Eles vo ficar
na cidade apenas por alguns dias -- disse ele, procurando por seu carro no
estacionamento.

 --  difcil imaginar como minha vida seria vazia se eu nunca tivesse visto macacos
montados em cachorros.

  -- As crianas gostaram! -- protestou Alex.

  -- As crianas adoraram -- concordou Katie. -- Mas no sei se os macacos
gostaram. Eles no me pareceram muito felizes.

  Alex apertou os olhos. -- No sei se consigo identificar o quanto um macaco est
feliz ou no.
  --  exatamente o que quero dizer -- retrucou ela.

  -- Ei, no  minha culpa ainda haver mais um ms at as aulas de Josh e Kristen
comearem. E estou sem ideias sobre atividades que eu poderia fazer com eles.

  -- Eles no precisam fazer algo especial todos os dias.

  -- Eu sei. E no fazem. Mas tambm no quero que eles passem o dia inteiro
assistindo  televiso.

  -- Seus filhos no assistem tanto  TV.

  -- Isso acontece porque eu os trago para ver o rodeio dos macacos.

  -- E na semana que vem?

  -- Vai ser fcil. Um daqueles parques de diverses que atravessam o pas vai chegar
 cidade.

  Ela sorriu. -- Os brinquedos desses parques sempre me causam enjoo.

                                                                          oc
  -- Mesmo assim, as crianas os adoram. Mas isso me lembra outra coisa. V vai
ter que trabalhar no prximo sbado?

  -- No sei ainda. Por qu?

  -- Gostaria que voc pudesse vir ao parque conosco.

  -- Voc quer que eu fique enjoada?

  --V  oc no vai ter que andar nos brinquedos se no quiser. Mas queria pedir um
favor.

  -- E o que seria?

  -- Que voc cuidasse das crianas na noite do sbado. A filha de Joyce vai chegar
ao aeroporto de Raleigh e ela perguntou se eu poderia lev-la ao aeroporto para
receber sua filha. Joyce no gosta de dirigir  noite.
  -- Ser um prazer cuidar deles.

  -- Voc ter que ficar na minha casa, para que eles durmam em um horrio
adequado.

  Katie olhou para ele. -- Na sua casa? Eu nunca passo muito tempo na sua casa.

  -- Bem, eu...

  Alex no sabia o que dizer em seguida e ela sorriu.

  -- No se preocupe. Vai ser divertido. Talvez possamos assistir a um filme e fazer
pipocas.

                                                                      oc
  Ele caminhou em silncio por alguns momentos at que perguntou: -- V pretende
ter filhos?

  Katie hesitou. -- No tenho certeza -- disse ela, finalmente. -- Nunca pensei muito
nisso.

  -- Nunca?

  Ela balanou a cabea. -- Quando morava em Atlantic City, eu era jovem demais.
Quando estava com Kevin, no suportava a ideia de ter filhos e, nos ltimos meses,
estou com a cabea ocupada com outras coisas.

  -- Mas e se voc pensasse a respeito? -- insistiu ele.

  -- Mesmo assim, ainda no sei. Acho que dependeria de muitas coisas.

  -- Como o qu?

  -- Como a questo de me casar, por exemplo. E, como voc sabe, no posso me
casar.

  -- Erin no pode se casar -- disse ele. -- Mas Katie provavelmente poderia. Ela
tem uma carteira de motorista, lembre-se.
  Katie caminhou alguns passos em silncio. -- Talvez ela possa, mas no faria isso
at encontrar o homem certo.

  Alex riu e colocou seu brao ao redor dela. -- Sei que trabalhar no Ivan's era
                                                                   oc
exatamente o que voc precisava quando chegou a Southport, mas... V j pensou em
fazer alguma outra coisa?

  -- Como o qu?

  -- No sei. Voltar para a faculdade, se formar, encontrar um emprego que voc
realmente ame.

  -- E o que lhe faz pensar que eu no amo servir mesas em um restaurante?

  Ele deu de ombros. -- Estava apenas curioso para saber outra coisa que poderia lhe
interessar.

  -- Quando era mais nova, assim como todas as outras garotas que eu conhecia,
adorava animais e imaginava que um dia seria veterinria. Mas no estou disposta a
voltar a estudar para isso agora. Levaria tempo demais.

                                                        oc
  -- Existem outras maneiras de trabalhar com animais. V pode treinar os macacos
de rodeio, por exemplo.

  -- Acho que no. Ainda no sei se os macacos gostaram de fazer isso.

  -- Voc tem um carinho especial por aqueles macacos, no ?

  -- E quem no teria? Alis, quem diabos teve essa ideia?

  -- Corrija-me se eu estiver errado, mas acho que ouvi voc rir.

  -- No queria fazer com que vocs se sentissem mal.

  Ele riu novamente e puxou-a para mais perto de si. Mais  frente, Josh e Kristen j
estavam encostados na lateral do jipe. Ela sabia que eles provavelmente cairiam no
sono antes de voltarem a Southport.
      oc
  -- V no respondeu  minha pergunta -- disse Alex. -- Quando perguntei o que
voc quer fazer com sua vida.

  -- Talvez meus sonhos no sejam to complicados. Talvez eu ache que um emprego
 simplesmente um emprego.

  -- E o que isso significa?

  -- Que talvez eu no queira ser definida por aquilo que fao. Que talvez eu queira
ser definida por quem eu sou.

  Ele considerou aquela resposta. -- Certo. E quem voc quer ser?

  -- Voc realmente quer saber?

  -- Eu no perguntaria se no quisesse.

  Ela parou e o olhou nos olhos dele. -- No quis dizer isso agora h pouco, mas, na
verdade, eu gostaria de ser uma esposa e me -- disse Katie, finalmente.

   Alex franziu as sobrancelhas. -- Voc afirmou que no tinha certeza se queria ter
filhos...

  Inclinando a cabea e parecendo ainda mais bonita do que ele j a tinha visto antes,
perguntou: -- E o que toda essa conversa tem a ver?


AS CRIANAS ADORMECERAM antes que Alex chegasse  rodovia. A viagem de volta para
casa no demoraria muito, talvez meia hora. Mesmo assim, nem Alex nem Katie
queriam arriscar acordar os meninos com sua conversa. Em vez disso, eles se
contentaram em ficar de mos dadas, em silncio, durante o percurso at Southport.

  Quando Alex estacionou o carro em frente  casa de Katie, ela viu que Jo estava
sentada nos degraus da varanda, como se estivesse esperando por ela. Alex a
reconheceu, mas, naquele exato momento, Kristen se mexeu no banco traseiro e ele se
virou em seu assento para ter certeza de que ela no havia acordado. Katie se inclinou
e o beijou.
  -- Acho que  melhor eu ir e conversar com ela -- sussurrou Katie.

  -- Com quem? Kristen?

  -- Com minha vizinha -- disse Katie, com um sorriso, apontando com o dedo por
cima de seu ombro. -- Ou, melhor dizendo, talvez ela queira conversar comigo.

  Alex assentiu. -- Tudo bem -- disse ele, olhando em direo  varanda de Jo e de
volta para Katie. -- Eu me diverti muito esta noite.

  -- Eu tambm.

   Alex a beijou antes que ela abrisse a porta e, quando ligou o motor e partiu para a
sua casa, Katie caminhou em direo  casa de sua vizinha. Jo sorriu e acenou e Katie
sentiu a tenso se amenizar um pouco. Elas no conversavam desde aquela noite no bar
e, quando ela se aproximou, Jo se levantou e veio at o beiral da varanda.

  -- Em primeiro lugar, queria me desculpar pela maneira como falei com voc --
disse ela, sem qualquer prembulo. -- Fiz algo que no devia. Estava errada e isso no
vai acontecer novamente.

  Katie subiu as escadas at a varanda e se sentou, acenando para que Jo se sentasse
ao seu lado, no ltimo degrau. -- Est tudo bem. No fiquei brava.

  -- Ainda me sinto horrvel por ter feito aquilo -- disse Jo. O remorso que ela sentia
era bvio. -- No sei o que deu em mim.

                                         oc
  -- Eu sei -- disse Katie. --  bvio. V se importa com eles. E voc quer cuidar
deles.

  -- Mesmo assim, no devia ter falado com voc como fiz.  por isso que andei um
pouco afastada. Aquilo me envergonhou e eu sabia que voc nunca me perdoaria.

  Katie lhe tocou o brao. -- Eu agradeo o pedido de desculpas, mas no 
necessrio. Na verdade, voc fez com que eu percebesse algumas coisas importantes
sobre mim mesma.

  --  mesmo?
  Katie fez que sim com a cabea. -- E, para que voc saiba, eu acho que vou
continuar a morar em Southport por algum tempo.

  -- Eu vi voc dirigindo h alguns dias.

  --  difcil acreditar, no ? Ainda no me sinto totalmente confortvel ao volante.

  -- Isso no vai demorar a acontecer. E  melhor do que andar de bicicleta.

  -- Eu ainda pedalo todos os dias -- disse ela. -- No tenho condies de comprar
um carro.

  -- Eu diria que voc pode usar o meu se quiser, mas ele voltou para a oficina.
Aquela coisa sempre tem um defeito ou outro. Eu provavelmente ficaria mais feliz com
uma bicicleta.

  -- Cuidado com o que deseja.

  -- Agora voc est falando as mesmas coisas que eu digo -- disse Jo, olhando em
                                                                             oc
direo  estrada. -- Estou feliz por voc e Alex. E pelas crianas tambm. V faz
bem a elas, sabia?

  -- Como voc pode ter certeza?

  -- Porque eu vejo a maneira que ele olha para voc. E a maneira que voc olha para
todos eles.

  -- Ns passamos bastante tempo juntos -- disse Katie, saindo pela tangente.

  Jo balanou a cabea. --  mais do que isso. Vocs dois parecem estar apaixonados
-- disse ela, mudando de posio no degrau sob o olhar de constrangimento que Katie
lhe deu. -- Tudo bem, eu admito. Mesmo que voc no tenha me visto, vamos dizer
que eu vi como vocs dois se beijam quando se despedem.

  -- Voc fica nos espionando?

  --  claro -- disse Jo, com uma careta. -- Como voc acha que vou conseguir me
ocupar? Afinal, nada de interessante acontece por aqui -- disse ela, antes de ficar em
silncio por um momento. -- Voc realmente o ama, no ?

  Katie concordou com a cabea. -- E amo as crianas tambm.

  -- Isso me deixa muito feliz -- disse Jo, unindo as mos como se estivesse fazendo
uma orao.

  Katie tambm se deixou ficar em silncio por um momento.

  -- Voc conheceu a esposa dele?

  -- Sim -- disse Jo.

  Katie deixou seu olhar se perder na estrada. -- E como ela era? Digo... Alex falou
sobre ela e eu fao uma ideia de como ela podia ser, mas...

  Jo no a deixou terminar a frase. -- De acordo com o que vi, ela era muito parecida
com voc. E eu digo isso de forma positiva. Ela amava Alex e amava as crianas. Eles
eram o que havia de mais importante em sua vida. E isso  tudo o que voc precisa
saber sobre ela.

  -- Voc acha que ela gostaria de mim?

  -- Sim -- disse Jo. -- Tenho certeza de que ela a adoraria.
                                        30



ERA O MS DE AGOSTO e Boston estava fervendo.

  Kevin se lembrava vagamente de ver a ambulncia do lado de fora da casa dos
Feldmans, mas no pensou muito no caso. Os Feldmans eram maus vizinhos e ele no
se importava com eles. Somente agora, quando percebeu os carros estacionados dos
dois lados da rua, foi que ele se dera conta de que Gladys Feldman havia morrido.
Kevin havia sido suspenso por duas semanas e no gostava de ver carros estacionados
em frente  sua casa, mas as pessoas vieram  cidade para o funeral e ele no tinha a
menor energia para pedir a eles que tirassem os carros dali.

  Ele no tomava banho com tanta frequncia desde que fora suspenso e estava sentado
na varanda, bebendo vodca direto na garrafa, observando as pessoas entrando e saindo
da casa dos Feldmans. Sabia que o funeral seria realizado  tarde e as pessoas estavam
reunidas naquela casa porque iriam juntas  cerimnia, em grupo. Sempre que havia um
funeral as pessoas se juntavam, como um grupo de gansos.

  No havia conversado com Bill, Coffey, Ramirez, Todd, Amber, nem mesmo com
seus pais. Como ele no sentia fome, no havia caixas de pizza no cho da sala de estar
nem sobras de comida chinesa na geladeira. A vodca era suficiente e ele bebeu at que
a casa dos Feldmans se transformou em um borro. Do outro lado da rua, viu uma
mulher sair da casa para fumar um cigarro. Ela usava um vestido preto e Kevin se
perguntou se ela sabia que os Feldmans gritavam com as crianas da vizinhana.

   Observou a mulher porque no queria assistir ao canal sobre casa e jardim na
televiso. Erin costumava assistir aos programas daquele canal, mas ela tinha fugido
para a Filadlfia, passou a se chamar rica e depois desapareceu. Ele havia sido
suspenso do seu emprego, mas, antes disso, era um bom investigador.
  A mulher de preto terminou de fumar seu cigarro e o soltou na grama, pisando nele a
seguir. Deu uma olhada na rua e o avistou, sentado em sua varanda. Hesitou antes de
atravessar a rua at onde ele estava. Ele no a conhecia. Nunca a vira antes.

  Kevin no sabia o que ela queria, mas largou a garrafa de vodca e desceu os degraus
da varanda. Ela parou na calada em frente.

  -- Voc  Kevin Tierney? -- perguntou ela.

  -- Sim -- disse ele, e sua voz parecia estranha. Era a primeira vez em vrios dias
que ele falava.

 -- Meu nome  Karen Feldman -- disse ela. -- Meus pais, Larry e Gladys Feldman,
moram na casa do outro lado da rua.

  Ela parou por um momento, mas Kevin no disse nada. Ela prosseguiu. -- Eu estava
imaginando se Erin tem planos de vir ao funeral.

  -- Erin? -- disse ele, finalmente.

  -- Sim. Meus pais adoravam quando ela vinha visit-los. Ela costumava lhes fazer
tortas e s vezes ajudava-os a limpar a casa, especialmente depois que minha me
comeou a ficar doente. Cncer de pulmo. Foi horrvel -- disse ela, balanando a
cabea. -- Erin est em casa? Eu esperava poder encontr-la. O funeral comea s 2
horas.

  -- No, ela no est aqui. Foi a Manchester para ajudar uma amiga que est doente.

  -- Oh... Bem, obrigada.  uma pena. Desculpe-me por incomodar.

  A mente de Kevin comeou a clarear e ele percebeu que Karen estava prestes a
voltar para a casa dos pais. -- Lamento por sua perda. Contei a Erin sobre o que
aconteceu e ela ficou triste por no poder estar aqui. Vocs receberam as flores?

  -- Oh, provavelmente sim. No verifiquei. A funerria est cheia de flores.

  -- No h problema. Gostaria que Erin pudesse estar aqui -- respondeu Kevin.
  -- Eu tambm. Sempre quis conhec-la. Minha me dizia que Erin fazia com que ela
se lembrasse de Katie.

  -- Katie?

  -- Minha irm mais nova. Ela faleceu h seis anos.

  -- Lamento ouvir isso.

  -- Eu tambm. Todos ns sentimos a falta dela, especialmente minha me.  por isso
que ela se dava to bem com Erin. Elas at mesmo se pareciam fisicamente. Tinham a
mesma idade e outras caractersticas.

 Se Karen percebeu a expresso vazia de Kevin, no deu qualquer sinal. -- Minha
me costumava mostrar a Erin o lbum de recortes que fez com as lembranas de
Katie... Ela sempre foi muito paciente com minha me. Erin  uma mulher doce e
meiga. Voc  um homem de sorte.

  Kevin se forou a sorrir. -- Sim, eu sei.


ELE ERA UM BOM INVESTIGADOR, mas, na verdade, s vezes as respostas apareciam num
golpe de sorte. Novas evidncias surgiam, uma testemunha desconhecida se
apresentava, uma cmera de vigilncia na rua captava uma placa de carro. Neste caso,
ele havia conversado com uma mulher vestida de preto chamada Karen Feldman, que
atravessou a rua em uma manh em que ele estava bebendo e lhe falou sobre sua irm
que havia falecido.

  Embora sua cabea ainda doesse, ele despejou o resto da garrafa de vodca pelo ralo
da pia e pensou a respeito de Erin e dos Feldmans. Erin os conhecia e visitava, embora
nunca tivesse mencionado que ia at a casa deles. Kevin lhe telefonava e vinha at a
casa em momentos inesperados e ela sempre estava em casa. De algum modo ele nunca
descobriu. Ela nunca lhe contou nada e, quando ele reclamava sobre os Feldmans
serem maus vizinhos, Erin nunca disse qualquer palavra.

  Erin tinha um segredo.
  Sua mente estava mais limpa do que esteve nos ltimos tempos. Entrou no chuveiro,
tomou banho e vestiu um terno preto. Preparou um sanduche de presunto e peito de
peru, temperou com mostarda Dijon e o comeu. Em seguida, fez outro e o comeu
tambm. A rua estava cheia de carros e ele observou o movimento das pessoas que
entravam e saam da casa. Karen saiu da casa e fumou outro cigarro.  medida que
esperava, enfiou um pequeno bloco de notas e uma caneta em seu bolso.

    tarde, as pessoas comearam a entrar em seus carros. Ele ouviu os motores sendo
ligados e, um a um, os carros comearam a se afastar. J passava da uma hora da tarde
e eles estavam indo para a cerimnia. Levou quinze minutos para que todos sassem
quando ele viu Larry Feldman ir at o carro, amparado por Karen. Ela se sentou no
banco do motorista e saiu dirigindo pela rua, at que finalmente no havia mais nenhum
carro na rua ou em frente  casa.

   Ele esperou outros dez minutos, certificando-se de que todos haviam sado antes de
finalmente sair pela porta da frente. Atravessou o gramado e se encaminhou para a casa
dos Feldmans. No se apressou nem tentou esconder suas aes. Percebeu que vrios
vizinhos haviam ido ao funeral e aqueles que no foram iriam se lembrar apenas de
mais uma pessoa que usava um terno preto. Foi at a porta da frente e constatou que ela
estava trancada, mas muitas pessoas haviam estado na casa. Deu a volta e foi at o
quintal. L, encontrou outra porta, destrancada. Entrou na casa.

  Tudo estava em silncio. Ele parou, tentando identificar o som de vozes ou passos,
mas no ouviu nada. Havia copos de plstico sobre o balco e pratos de comida na
mesa. Caminhou pela casa. Tinha tempo, mas como no sabia quanto, decidiu comear
pela sala de estar. Abriu e fechou portas de armrios, deixando tudo do jeito que
estava. Procurou na cozinha e no quarto e finalmente foi at o escritrio. Havia livros
nas estantes, uma poltrona e um televisor. Em um dos cantos, viu um pequeno armrio
de arquivos.

   Kevin foi at o arquivo e o abriu. Rapidamente, examinou as etiquetas de cada pasta.
Encontrou uma com a etiqueta "Katie" e a retirou. Abriu-a e examinou o que havia
dentro. Havia um artigo de jornal -- ela havia se afogado depois de caminhar sobre o
gelo quebradio em uma lagoa que ficava nas proximidades -- e fotos que foram
tiradas nos tempos de escola. Na sua foto de formatura, ela se parecia bastante com
Erin. No fundo da pasta, encontrou um envelope. Abriu-o e viu que ele continha um
velho boletim escolar. Na frente do envelope havia um nmero de seguro social e
Kevin copiou o nmero no bloco de notas que tinha em seu bolso. No encontrou o
carto do seguro, mas tinha o nmero. A certido de nascimento era uma cpia, embora
estivesse marcada e desgastada, como se algum a tivesse amassado e depois tentado
alis-la novamente.

  Como j tinha o que precisava, saiu do lugar. Assim que chegou  sua casa, ligou
para o policial da outra delegacia, aquele que dormia com a bab de seus filhos. No
dia seguinte, recebeu a ligao com uma resposta.

  Katie Feldman recentemente havia tirado uma carteira de motorista e nos registros
constava um endereo em Southport, na Carolina do Norte.

  Kevin desligou o telefone sem outra palavra em mente, sabendo exatamente o que
havia encontrado.

  Erin.
                                         31



RESTOS DE UMA TEMPESTADE tropical ainda castigavam Southport, com a chuva caindo
durante a maior parte da tarde e da noite. Katie trabalhou no horrio do almoo, mas o
mau tempo espantou uma boa parte da clientela do restaurante, o que fez Ivan deix-la
sair mais cedo. Ela havia pegado o jipe de Alex emprestado e, depois de passar uma
hora na biblioteca, foi at a loja para entregar o carro. Quando Alex a levou para casa,
ela o convidou para voltar at ali mais tarde para jantar com as crianas.

  Ela passou a tarde inteira sentindo-se inquieta. Queria acreditar que tinha algo a ver
com o mau tempo, mas, enquanto observava a tempestade pela janela da cozinha,
vendo os galhos das rvores se dobrarem ao vento e a chuva caindo em rajadas, sabia
que aquela sensao estava relacionada  apreenso que sentia ao perceber que tudo
em sua vida parecia estar perfeito demais ultimamente. Seu relacionamento com Alex e
as tardes que passava com as crianas preenchiam um vazio que ela no dera conta que
existia. No entanto, Katie aprendera h muito tempo que as coisas boas no duravam
para sempre. A alegria era to efmera como uma estrela cadente cruzando o cu, uma
luz que pode se apagar a qualquer momento.

  Mais cedo, naquele mesmo dia, lera algumas matrias da edio on-line do The
Boston Globe em um dos computadores da biblioteca e soube da morte de Gladys
Feldman, anunciada no obiturio. Ela sabia que Gladys estava doente e sabia do seu
diagnstico terminal de cncer antes de fugir de casa. Embora verificasse os obiturios
de Boston regularmente, a descrio lacnica sobre sua vida e os entes queridos que
havia deixado a atingiu com uma fora inesperada.

  Katie nunca quis roubar a identificao dos arquivos dos Feldmans. No tinha nem
mesmo considerado aquela possibilidade at que
Gladys abrisse a pasta para lhe mostrar a foto de formatura de sua filha Katie. Ela viu
a certido de nascimento e o carto com o nmero do seguro social ao lado da foto e
foi quando percebeu que era sua oportunidade. Na sua prxima visita  casa, ela pediu
licena para usar o banheiro e, em vez disso, foi at o arquivo de pastas. Mais tarde,
enquanto comia uma torta de mirtilos com eles, os documentos pareciam queimar
dentro de seu bolso. Uma semana depois, aps tirar uma cpia da certido de
nascimento na biblioteca, dobr-la e amass-la para que parecesse antiga, colocou o
documento de volta no arquivo. Teria feito o mesmo com o carto do seguro social,
mas no conseguiu fazer uma reproduo muito boa. Assim, esperava que, quando
percebessem que o carto no estava ali, eles imaginassem que ele se perdera ou se
extraviara.

  Ela pensou que Kevin nunca descobriria o que ela havia feito. Ele no gostava dos
Feldmans e o sentimento era recproco. Ela suspeitava que os Feldmans sabiam que ele
a agredia. Percebia aquilo nos olhos deles, a maneira como a observavam quando ela
atravessava a rua correndo para visit-los, o modo como fingiam no notar os
hematomas em seus braos ou a expresso sria no rosto deles sempre que mencionava
Kevin. Queria pensar que eles entenderiam as razes pelas quais ela teve que fazer
aquilo, que eles gostariam que ela ficasse com a identificao, porque sabiam que ela
precisava daqueles documentos e queriam que escapasse.

  Os Feldmans eram as nicas pessoas de Dorchester de quem Katie sentia saudade e
ela imaginava como Larry estaria. Eles foram seus amigos quando ela no tinha mais
ningum com quem conversar. Queria dizer a Larry que lamentava pela perda de
Gladys. Queria chorar ao lado dele, falar sobre Gladys e dizer-lhe que, por causa
deles, sua vida estava melhor agora. Queria dizer a Larry que havia encontrado um
homem que a amava e que, pela primeira vez em vrios anos, estava feliz.

  Mas no faria nada. Em vez disso, ela simplesmente foi at a varanda da casa e, com
os olhos cheios de lgrimas, observou enquanto a tempestade arrancava as folhas das
rvores.


-- VOC EST MUITO QUIETA esta noite. Est tudo bem? -- perguntou Alex.

  Ela havia preparado uma caarola de atum para o jantar e Alex a estava ajudando a
lavar os pratos. As crianas estavam na sala de estar, ambos brincando com
videogames portteis. Ela ouvia os bips e blimps sobre o som da torneira.
  -- Uma amiga faleceu -- disse ela, entregando-lhe um prato para enxugar. -- Sabia
que isso aconteceria, mas, mesmo assim,  triste.

  -- Sempre  triste quando algo assim acontece -- concordou ele. -- Eu lamento.

  Alex sabia que no era adequado fazer mais perguntas sobre o assunto. Em vez
disso, ele aguardou em silncio, esperando que ela se animasse a dizer mais alguma
coisa. Entretanto, ela lavou outro copo e mudou de assunto.

  -- Quanto tempo voc acha que a tempestade vai durar? -- perguntou ela.

  -- No por muito mais tempo. Por qu?

  -- Eu estava imaginando se a chuva vai forar os organizadores do parque de
diverses itinerante a cancelar o evento. Ou se o voo da filha de Joyce ser cancelado.

  Ele olhou pela janela. -- Acho que no vai haver problemas. A tempestade j est se
dissipando. Tenho quase certeza de que ela vai perder a fora.

  -- Bem a tempo para o fim de semana.

  --  claro. A natureza no se atreveria a interferir nos planos dos donos do parque
de diverses. Ou nos planos de Joyce tambm.

  Ela sorriu. -- Quanto tempo voc vai demorar para lev-la at Raleigh para
recepcionar sua filha?

  -- Provavelmente quatro ou cinco horas. Raleigh no  um destino muito conveniente
para quem vem at Southport.

  -- Por que ela no pega um voo para Wilmington? Ou simplesmente aluga um carro?

  -- No sei. No perguntei o motivo, mas imagino que seja para poupar dinheiro.

  -- Voc sabe que est fazendo uma boa ao, no ? Ajudando Joyce dessa maneira.

  Alex deu de ombros como se aquilo no fosse nada de mais. -- Vocs vo se
divertir amanh.
  -- No parque de diverses ou na sua casa com as crianas?

  -- Em ambos os lugares. E, se voc me pedir com carinho, lhe compro at mesmo
um sorvete frito.

  -- Sorvete frito? Parece meio nojento.

  -- Na verdade, at que  bem gostoso.

  -- As pessoas s comem frituras por aqui?

  -- Se algo puder ser frito, as pessoas encontraro uma maneira de faz-lo. No ano
passado, havia at mesmo um quiosque que vendia manteiga frita.

  Ela quase engasgou. -- Voc est brincando.

  -- No estou. Parece horrvel, mas as pessoas formavam filas para comprar isso.
Era a mesma coisa que entrar em uma fila para ganhar um ataque cardaco.

  Katie lavou e enxaguou o ltimo copo e depois o entregou a Alex.

       oc
 -- V acha que as crianas gostaram do jantar que eu preparei? Kristen no comeu
muito.

  -- Kristen nunca come muito. Mas o mais importante foi que eu gostei. Achei que
estava delicioso.

  Ela balanou a cabea. -- Quem  que se importa com as crianas, no ? Desde que
voc esteja feliz...

  -- Ah, me desculpe. No fundo, sou um narcisista.

  Katie esfregou a esponja ensaboada em um prato e o enxaguou. -- Estou ansiosa
para passar a noite na sua casa.

  -- Por qu?

  -- Porque ns sempre estamos aqui e no l. Mas no me entenda mal; eu entendo
que isso  a coisa certa a fazer por causa das crianas.

  "E por causa de Carly tambm", pensou ela, mas no chegou a dizer aquilo. -- Vou
ter a oportunidade de ver como voc vive.

  Alex pegou o prato. -- Voc j esteve na minha casa.

  -- Sim, mas nunca fiquei mais do que alguns minutos e, mesmo assim, somente na
cozinha e na sala de estar. No tive a chance de espiar seu quarto ou bisbilhotar o
armrio do seu banheiro.

  -- Voc no ousaria fazer isso -- disse Alex, fingindo estar escandalizado.

  -- Talvez eu fizesse, se tivesse uma chance.

  Ele enxugou o prato e o guardou no armrio. -- Fique  vontade para passar quanto
tempo quiser no meu quarto.

  Ela riu. -- Isso  papo tpico dos homens.

  -- Estou apenas dizendo que no me importaria. E fique  vontade para espiar o
armrio do meu banheiro tambm. No tenho segredos.

  -- Isso  o que voc diz -- disse ela, provocando-lhe. -- Voc fala como algum
que tem vrios segredos.

  -- No em relao a mim mesmo.

  Ela concordou, com uma expresso sria no rosto. -- No em relao a voc mesmo.

  Ela lavou mais dois pratos e os entregou a ele, sentindo uma onda de satisfao
tomar conta de si enquanto observava Alex enxug-los e guard-los.

  Ele pigarreou.

  -- Posso perguntar uma coisa? No quero que voc me entenda mal, mas estou
curioso a respeito -- disse ele.
  --  claro.

  Ele usou o pano de prato que tinha em seus braos, enxugando alguma loua e
ganhando tempo. -- Eu queria saber se voc pensou no que eu disse no fim de semana
passado. No estacionamento, depois do rodeio dos macacos.

  -- Voc disse vrias coisas -- disse ela, cautelosamente.

  -- No se lembra? V  oc me disse que Erin no poderia se casar, mas Katie
provavelmente poderia.

 Katie sentiu seu corpo enrijecer, no tanto por lembrar-se da conversa que tiveram,
mas tambm pela seriedade do tom de voz de Alex.

  -- Eu me lembro -- disse ela, tentando forar-se a parecer despreocupada. -- Acho
que eu disse que teria que encontrar o homem certo.

  Ao ouvir aquelas palavras, os lbios de Alex se contraram, como se ele estivesse
em dvida sobre se devia continuar. -- Eu s queria saber se voc pensou no caso.
Sobre a possibilidade de nos casarmos daqui a algum tempo.

  A gua ainda estava quente quando ela comeou a lavar os talheres. -- Voc teria
que pedir minha mo antes.

  -- E se eu a pedisse?

  Ela encontrou um garfo e o esfregou. -- Eu acho que diria a voc que o amo.

  -- Mas voc aceitaria?

  Ela hesitou. -- No quero me casar novamente.

  -- Voc no quer ou no acha que conseguiria?

  -- Qual  a diferena?

  A expresso dela continuou firme e desafiadora. -- Voc sabe que eu ainda sou
casada. Bigamia  ilegal.
      oc                 oc
 -- V no  mais a Erin. V  a Katie. Como voc mesma disse, sua carteira de
motorista confirma isso.

  -- Mas eu tambm no sou a Katie! -- esbravejou ela, antes de se virar em direo a
Alex. -- V oc no entende? Eu roubei esse nome de um casal com quem eu me
importava! Pessoas que confiavam em mim -- disse ela, olhando fixamente para ele,
voltando a sentir a tenso que lhe atormentara durante o dia, rememorando com
intensidade renovada a gentileza e a piedade de Gladys, sua fuga e os anos de pesadelo
que vivera com Kevin. -- Por que voc no pode aceitar as coisas do jeito que elas
so? Por que voc tem que me pressionar tanto a ser a pessoa que voc quer que eu
seja em vez de me deixar ser a pessoa que eu sou?

  Ele recuou. -- Eu amo a pessoa que voc .

  -- Mas voc est estabelecendo uma condio para isso!

  -- No estou!

  -- Est sim! -- insistiu ela. Ela sabia que estava levantando a voz, mas no
conseguiu evitar. -- Voc tem uma ideia fixa sobre o que quer da sua vida e est
tentando fazer com que eu me encaixe nessa ideia!

  -- No  nada disso -- protestou Alex. -- Eu apenas lhe fiz uma pergunta.

  -- Mas voc quer uma resposta especfica! V oc quer a resposta correta e, se no
conseguir obt-la voc vai tentar me convencer a fazer o que voc quer. Como se eu
devesse fazer o que voc quer! Como se eu devesse fazer tudo o que voc quer!

  Pela primeira vez desde que se conheceram, Alex lhe lanou um olhar duro. -- No
faa isso -- disse ele.

  -- Fazer o qu? Dizer a verdade? Dizer-lhe como eu me sinto? Por qu? O que voc
vai fazer? Vai me bater? Fique  vontade.

  Alex se afastou, como se ela tivesse lhe dado um tapa. Ela sabia que suas palavras
haviam atingido o alvo. Entretanto, em vez de se irritar, Alex colocou o pano de prato
sobre o balco e deu um passo para trs.
  -- Eu no sei o que est havendo, mas peo desculpas por ter tocado nesse assunto.
No foi minha inteno coloc-la contra a parede ou tentar convenc-la a fazer
qualquer coisa. Estava apenas tentando conversar.

  Ele esperava que ela dissesse alguma coisa, mas Katie continuou em silncio.
Balanando a cabea, virou-se para sair da cozinha, antes de parar. -- Obrigado pelo
jantar -- murmurou ele.

  Na sala de estar, ela o ouviu dizer s crianas que estava ficando tarde e ouviu a
porta da frente se abrir com um rangido. Alex fechou a porta calmamente por trs de si
e a casa repentinamente ficou em silncio e Katie sozinha com seus pensamentos.
                                        32


KEVIN SENTIA DIFICULDADE em se manter entre as faixas da rodovia. Queria manter a
mente alerta, mas sua cabea havia comeado a latejar e ele sentia um n em seu
estmago, que o fez parar em uma loja de bebidas para comprar uma garrafa de vodca.
A bebida ajudou a aliviar a dor e quando sorveu o lquido com um canudo, s
conseguia pensar em Erin e em como ela havia mudado seu nome para Katie.

  A rodovia interestadual era um borro aos seus olhos. Os faris dos carros,
agulhadas duplas de luz branca, cresciam em intensidade conforme se aproximavam do
outro lado da estrada e logo desapareciam ao passarem por ele. Um depois do outro.
Milhares. Pessoas viajando e fazendo coisas. Kevin dirigia para o sul, em direo ao
estado da Carolina do Norte, para encontrar sua esposa15. Deixou Massachusetts,
atravessou Rhode Island e Connecticut, Nova York e Nova Jersey. A lua subiu,
alaranjada e furiosa antes de ficar branca, e atravessou o cu enegrecido acima dele.
As estrelas tambm pontilhavam o cu.

  Um vento quente soprava pela janela aberta e Kevin segurou o volante firmemente.
Seus pensamentos eram como um quebra-cabeas feito de peas que no se
encaixavam. Aquela cachorra o abandonara. Ela abandonara seu casamento, deixara-o
para trs para que apodrecesse, e acreditava que era mais esperta do que ele. No
entanto, ele a descobriu. Karen Feldman atravessou a rua e ele soube que Erin tinha um
segredo. Mas no mais. Ele sabia onde Erin morava, sabia onde ela estava se
escondendo. Seu endereo estava rabiscado em um pedao de papel no banco do
passageiro, sob a pistola Glock que trouxera de casa. No banco de trs havia uma
bolsa de viagem com roupas, algemas e fita adesiva do tipo silver-tape. Ao sair da
cidade, passou em um caixa eletrnico e retirou algumas centenas de dlares. Queria
bater no rosto de Erin at lhe quebrar todos os ossos, deixando apenas uma massa feia
e ensanguentada em seu lugar. Queria beij-la, abra-la e implorar para que ela
voltasse para casa. Encheu o tanque do carro perto da Filadlfia e se lembrou de como
a havia rastreado at ali.

  Ela o havia feito de palhao levando uma vida secreta que ele no fazia a menor
ideia que ela tinha. Visitando os Feldmans, cozinhando e limpando a casa para eles
enquanto tramava, fazia planos e mentia. Sobre o que mais ela teria mentido? Era o que
ele se perguntava. Outro homem? Talvez no naquela poca, mas agora provavelmente
haveria algum. Beijando-a. Acariciando-a. Tirando-lhe as roupas. Rindo dele. Eles
deviam estar na cama agora. Ela e o homem. Os dois rindo dele pelas suas costas. "Eu
mostrei a ele, no foi?" Era o que ela estaria dizendo enquanto ria. "Kevin nem
percebeu o que estava acontecendo".

  Pensar naquilo o enlouquecia, o deixava furioso. Kevin j estava na estrada h horas,
mas continuava dirigindo. Ele bebia sua vodca e piscava rapidamente para clarear a
viso. No passou do limite de velocidade. No queria ser parado por algum policial
rodovirio. No com uma arma no banco do passageiro, ao seu lado. Ela tinha medo de
armas e sempre lhe pedia para trancar sua arma no estojo ao fim do expediente. Ele
sempre fazia o que ela pedia.

  Mas no era o bastante. Ele podia lhe comprar uma casa, mveis e roupas bonitas,
lev-la  biblioteca e ao salo de beleza e, mesmo assim, no era o bastante. Quem
poderia entender? Ser que era to difcil limpar a casa e preparar o jantar? Kevin
nunca quis bater nela. S fazia aquilo quando no tinha mais nenhuma escolha. Quando
ela era imbecil, descuidada ou egosta. Ela o forou a fazer tudo aquilo.

  O motor continuava a roncar, o rudo estava firme em seus ouvidos. Erin tinha uma
carteira de motorista agora e era garonete em um restaurante chamado Ivan's. Antes
de sair, ele passou algum tempo na internet e fez alguns telefonemas. No foi difcil
encontr-la, porque a cidade era pequena. Ele conseguiu descobrir onde ela trabalhava
em menos de vinte minutos. Tudo o que ele teve que fazer foi discar o nmero e
perguntar se Katie estava l. No quarto telefonema, algum disse sim. Ele desligou sem
dizer qualquer palavra. Ela pensou que podia se esconder para sempre, mas ele era um
bom investigador e a encontrara. "Estou chegando", pensou ele consigo mesmo. "Sei
onde voc mora e onde voc trabalha. Voc no vai escapar de novo".

  Passou por placas de propaganda e rampas de sada e, em Delaware, a chuva
comeou a cair. Levantou o vidro da janela e sentiu o vento empurrar o carro
lateralmente. Um caminho  sua frente estava ziguezagueando pela pista, com as rodas
da carreta passando por cima das faixas de sinalizao. Ligou os limpadores de para-
brisa e sua viso se clareou. Mas a chuva comeou a cair ainda mais forte e ele se
inclinou sobre o volante, apertando os olhos para enxergar alm das manchas
luminosas dos faris que vinham na direo oposta. Sua respirao comeou a
embaar o vidro e ele ligou o desembaador. Dirigiria a noite inteira e encontraria
Erin amanh. Ele a traria para casa e eles recomeariam sua vida mais uma vez.
Marido e mulher, vivendo juntos, da maneira como devia ser. Felizes.

   Eles eram felizes. Costumavam fazer coisas divertidas juntos. Ele se lembrava de
que, logo depois de se casarem, ele e Erin visitavam casas que estavam  venda nos
fins de semana. Ela se sentia alegre por poder comprar uma casa e ele a escutava
conversando com os corretores de imveis, sua voz ressoando como msica pelas
casas vazias. Erin gostava de passar um bom tempo andando pelos quartos e Kevin
sabia que ela estava decidindo onde colocar os mveis. Quando encontraram a casa em
Dorchester, ele percebeu que ela a queria pela maneira que seus olhos brilharam.
Naquela noite, deitada na cama, ela traou pequenos crculos com os dedos em seu
peito enquanto lhe implorou para fazer uma oferta e ele se lembrou de ter pensado que
faria qualquer coisa que ela quisesse, pois a amava.

   Exceto ter filhos. Erin dizia que queria ter filhos, que queria comear uma famlia.
Durante o primeiro ano do casamento, ela falava sobre isso o tempo todo. Ele tentou
ignor-la. No desejava dizer que lhe desagradava a ideia de v-la gorda e inchada,
que mulheres grvidas eram feias, que no queria ouvi-la reclamando do quanto estava
cansada ou como seus ps estavam inchados. No queria um beb gritando e chorando
quando ele voltasse para casa do trabalho. No queria que ela ficasse com o rosto
inchado e o corpo flcido, ou ouvi-la perguntando se o seu traseiro estava ficando
gordo demais. Kevin se casou com ela porque queria uma esposa, no uma me. Mas
ela insistia em falar sobre aquilo, no se cansava de tocar naquele assunto. At que ele
finalmente lhe deu um tapa e mandou-a calar a boca. Depois daquele dia, ela nunca
mais falou sobre ter filhos. Entretanto, ele agora se perguntava se devia ter dado a Erin
o que ela queria. Ela no o teria abandonado se tivesse um filho. No seria capaz de
fugir se houvesse uma criana. Pelo mesmo raciocnio, ela nunca mais seria capaz de
fugir.
   Ele decidiu que eles teriam um filho. Os trs viveriam em Dorchester e ele
trabalharia como investigador de polcia.  noite, ele voltaria para casa para encontrar
sua linda esposa e, quando as pessoas os vissem no supermercado, todos ficariam
encantados, dizendo "so uma famlia tipicamente americana".

  Ele se perguntou se o cabelo dela estaria loiro novamente. Esperava que estivesse
longo e que ele pudesse deslizar seus dedos por eles. Ela gostava quando Kevin fazia
isso, sempre sussurrando, dizendo as palavras que ele gostava, excitando-o. Mas
aquilo no era real, no se ela estivesse planejando abandon-lo. Erin havia mentido.
Mentira durante todo aquele tempo. Semanas. Meses, talvez. Furtou coisas dos
Feldmans, o telefone celular, o dinheiro que tirava de sua carteira. Tramando e fazendo
planos; e ele no fazia ideia do que ela estava armando. E, agora, outro homem estava
dormindo em sua cama. Passando-lhe os dedos pelos cabelos, ouvindo-a gemer,
sentindo suas mos no corpo dele. Kevin mordeu seu lbio e sentiu o gosto de sangue,
odiando-a. Queria soc-la e chut-la, queria atir-la pelas escadas. Tomou mais um
gole da garrafa que estava ao seu lado, enxaguando o gosto metlico que havia ficado
em sua boca.

   Ela o havia enganado porque era bonita. Tudo o que havia em Erin era bonito. Os
seios, os lbios, at mesmo a curva das suas costas. No cassino, em Atlantic City,
quando se encontraram pela primeira vez, ele pensou que ela era a mulher mais linda
que ele j havia visto e, durante os quatro anos do seu casamento, nada daquilo havia
mudado. Erin sabia que Kevin a desejava e usava aquilo em benefcio prprio.
Vestia-se de maneira sexy. Ia ao salo de beleza para tratar dos cabelos. Usava
lingeries de renda. Tudo aquilo fez com que ele baixasse a guarda, fez com que ele
pensasse que ela o amava.

  Mas ela no o amava. Ela nem se importava com ele. No se importava com os
vasos de flores quebrados, com os pratos de porcelana estilhaados, no se importava
por ele ter sido suspenso do trabalho e no se importava por ele chorar sozinho na,
cama, todas as noites antes de dormir, desde que ela tinha partido. No se importava
pela vida de Kevin que estava se despedaando. Tudo o que importava eram as coisas
que ela queria. Mas ela sempre fora egosta e agora estava rindo dele. Rindo h meses
e pensando apenas em si mesma. Ele a amava e a odiava e no conseguia saber ao
certo o que sentia por ela. Sentiu as lgrimas comearem a se formar e piscou os olhos
para que elas no rolassem pelo seu rosto.

  Delaware. Maryland. Os arredores de Washington D. C. Virginia. Horas perdidas
para a noite que nunca terminava. No comeo chovia forte, mas a chuva gradualmente
se dissipou. Ele parou perto de Richmond quando o dia comeou a raiar e pediu o caf
da manh. Dois ovos, quatro fatias de bacon, torrada de po de trigo. Bebeu trs
xcaras de caf. Colocou mais gasolina no carro e voltou para a rodovia interestadual.
Entrou na Carolina do Norte sob um cu azul. Havia insetos esmagados contra o para-
brisa do seu carro e suas costas comearam a doer. Teve que colocar os culos
escuros para que no tivesse que apertar os olhos e sua barba comeou a coar.

  "Estou chegando, Erin", pensou ele. "Logo estarei a".
                                        33



KATIE ACORDOU EXAUSTA. Ficou um bom tempo rolando de um lado para o outro na
cama, sem conseguir dormir, relembrando as coisas horrveis que havia dito a Alex.
No sabia por que havia feito aquilo. Sim, ela estava desconcertada pela situao dos
Feldmans, mas, por pior que fosse a situao, no conseguia se lembrar como a
discusso havia comeado. Ou melhor: ela se lembrava, mas aquilo no fazia sentido.
Sabia que ele no a estava pressionando ou tentando for-la a fazer algo que ainda
no se sentia pronta para fazer. Sabia que ele no era nem um pouco parecido com
Kevin, em nenhum aspecto. O que foi mesmo que ela dissera a ele?

  O que voc vai fazer? Vai me bater? Fique  vontade.

  Por que ela disse algo assim?

  S conseguiu adormecer depois das 2 horas da manh, quando o vento e a chuva
comearam a abrandar. Depois que o sol nasceu, o cu estava limpo e era possvel
ouvir o canto dos pssaros em meio s rvores. Ao chegar  varanda, percebeu os
efeitos da tempestade: galhos partidos cobrindo a rua, folhas e frutos dos pinheiros
cobrindo seu jardim at o meio-fio da rua. O ar j estava denso com a umidade. Aquele
seria um dia escaldante, provavelmente o mais quente do vero. Ela pensou consigo
mesma que devia dizer a Alex para no deixar as crianas muito tempo ao sol, antes de
se dar conta de que talvez ele no quisesse que ela os acompanhasse. Talvez ele ainda
estivesse irritado com ela.

  "Nada de talvez", corrigiu-se. Era quase certo que ele ainda estava bravo com ela. E
sentindo-se magoado tambm. Alex no deixara nem mesmo as crianas se despedirem
dela na noite passada.

  Ela se sentou nos degraus da varanda e olhou em direo  casa de Jo, imaginando se
sua vizinha j estaria acordada. Ainda era cedo. Provavelmente era cedo demais para
bater em sua porta. No sabia o que diria a ela, nem se seria certo falar sobre aquilo.
No contaria o que dissera a Alex -- eram memrias que gostaria de poder apagar
completamente -- mas talvez Jo pudesse ajud-la a entender a ansiedade que sentia.
Depois que Alex fora embora, ela sentira a tenso nos msculos dos seus ombros e, na
noite passada, pela primeira vez em vrias semanas, preferira dormir com a luz do
quarto acesa.

  Sua intuio lhe dizia que havia alguma coisa errada, mas no conseguia saber
exatamente o que era, embora seus pensamentos no conseguissem se afastar dos
Feldmans. De Gladys. s mudanas inevitveis na casa. O que aconteceria se algum
notasse que as informaes relativas  Katie haviam desaparecido? Seu estmago se
revirava s de pensar naquilo.

  -- Vai ficar tudo bem -- ouviu ela, repentinamente. Virando-se, ela viu Jo em p, no
primeiro degrau da escada, calada com seus tnis de corrida. Seu rosto estava corado
e sua camiseta, molhada de suor.

  -- De onde voc veio?

  -- Fui correr um pouco -- disse Jo. -- Estava tentando evitar o calor, mas,
obviamente, no funcionou. O dia est to mido e abafado que eu mal consegui
respirar e achei que fosse morrer de insolao. Mesmo assim, acho que estou melhor
do que voc, que parece estar bem triste.

  Ela subiu os degraus e Katie abriu espao para que ela se sentasse ao seu lado.

  -- Alex e eu brigamos ontem  noite.

  -- E o que mais?

  -- Eu disse algo horrvel a ele.

  -- Voc pediu desculpas?

  -- No -- disse Katie. -- Ele foi embora antes que eu pudesse faz-lo. Eu deveria
ter pedido desculpas, mas no pedi. E agora...
  -- O que foi? V  oc acha que  tarde demais? -- disse ela, apertando levemente o
joelho de Katie. -- Nunca  tarde demais para fazer a coisa certa. V at l e converse
com ele.

  Katie hesitou. Sua ansiedade era visvel. -- E se ele no me perdoar?

  -- Ento ele no  quem voc pensou que fosse.

  Ela levantou os joelhos at o peito e apoiou seu queixo sobre eles. Jo afastou o
tecido da camiseta de sua pele, tentando se abanar antes de prosseguir. --  claro que
ele a perdoar. V oc sabe disso, no ? Ele pode estar irritado e voc pode t-lo
magoado, mas ele  um bom homem.

  Jo abriu um sorriso. -- Alm disso, todo casal precisa de algumas discusses ruins
de vez em quando. Apenas para provar que o relacionamento  forte o bastante para
sobreviver a elas.

  -- Isso parece conversa de psiclogo.

  -- Na realidade . Mas  a verdade. Relacionamentos longos, os nicos que tm
importncia, so aqueles que conseguem resistir aos altos e baixos. E voc ainda est
pensando em ter um relacionamento longo, no ?

  -- Sim -- disse Katie, assentindo. -- Estou, sim. E voc est certa. Obrigada.

  Jo deu uma palmadinha na perna de Katie e piscou enquanto se levantava para descer
os degraus. -- Amigas so para essas coisas, certo?

  Katie se levantou tambm. -- Quer uma xcara de caf? Vou preparar um bule.

  -- Hoje no. O dia est quente demais. Preciso  de um copo de gua gelada e de
uma ducha fria. Sinto-me como se estivesse derretendo.

  -- Voc vai ao parque de diverses hoje?

  -- Talvez. Ainda no decidi. Mas, se eu for, vou tentar encontr-la -- prometeu Jo.
-- Agora v at a casa de Alex e faa o que tem que fazer, antes que voc mude de
ideia.
KATIE CONTINUOU SENTADA nos degraus por mais alguns minutos antes de voltar para
dentro de casa. Tomou um banho e preparou uma xcara de caf. Mas Jo tinha razo --
estava quente demais para beber aquilo. Assim, ela vestiu um short e calou sandlias
antes de dar a volta ao redor da casa para pegar sua bicicleta.

  Apesar da chuva recente, a rua de cascalhos j estava secando e ela conseguiu
pedalar sem gastar muita energia. E aquilo era bom. No fazia ideia como Jo
conseguira correr nessa temperatura, mesmo que ainda fosse bem cedo. Aparentemente,
tudo estava tentando fugir do calor. Normalmente, haveria esquilos ou pssaros, mas,
quando entrou na estrada principal, no notou qualquer movimento.

  Na estrada, o trnsito estava tranquilo. Alguns carros passaram rapidamente por ela,
deixando nuvens de fumaa para trs. Katie pedalou em frente e, ao contornar uma
curva, avistou a loja. J havia meia dzia de carros parados no estacionamento.
Clientes habituais que vinham para comer biscoitos.

  A conversa com Jo havia ajudado, pensou ela. Pelo menos um pouco. Ainda estava
ansiosa, mas a sensao estava menos relacionada com os Feldmans ou outras
memrias dolorosas do que com as coisas que ia dizer a Alex. E, principalmente, com
o que ele iria lhe dizer em resposta.

  Pedalou at a frente da loja. Alguns homens mais velhos estavam sentados nos
bancos, se abanando para abrandar o calor. Passou por eles e foi at a porta. Joyce
estava atrs da caixa registradora, calculando o valor das compras de um cliente. Ela
sorriu.

  -- Bom dia, Katie.

  Katie deu uma rpida olhada na loja. -- Alex est por aqui?

                                       oc
  -- Est l em cima com as crianas. V conhece o caminho, no ? As escadas na
parte de trs da loja?

  Ela saiu da loja e deu a volta na casa. No ancoradouro, vrios barcos estavam
enfileirados, esperando para abastecer.
  Ao chegar em frente  porta, hesitou por alguns momentos antes de bater. Do lado de
dentro, ouviu passos que se aproximavam. Quando a porta se abriu, Alex estava  sua
frente.

  Ela tentou abrir um sorriso. -- Oi -- disse ela.

  Ele assentiu, com uma expresso no rosto impossvel de se identificar. Katie limpou
a garganta.

  -- Queria lhe pedir desculpas pelo que eu disse. Eu estava errada.

  A expresso no rosto de Alex permaneceu neutra. -- Tudo bem. Obrigado por se
desculpar.

  Por um momento, nenhum dos dois disse qualquer coisa e Katie sentiu um desejo
repentino de no ter ido at ali. -- Eu posso ir embora se voc quiser. S preciso
saber se ainda quer que eu cuide das crianas hoje  noite.

 Novamente, ele no disse nada e, em meio ao silncio, Katie balanou a cabea.
Quando ela se virou para ir embora, o ouviu dando um passo em sua direo.

  -- Katie... espere -- disse ele, virando a cabea para olhar para as crianas por
cima do ombro, antes de fechar a porta por trs de si.

  -- O que voc disse ontem  noite... -- comeou ele. Alex deixou a frase morrer no
ar, incerto.

  -- Eu falei sem pensar -- disse ela, com a voz suave. -- No sei o que deu em mim.
Eu estava preocupada com outras coisas e descontei em voc.

  -- Eu admito que aquilo me incomodou. No tanto suas palavras, mas o fato de voc
achar que eu seria capaz de... fazer aquilo.

 -- Eu no acho que voc seria capaz de fazer algo assim. Eu nunca pensaria dessa
maneira sobre voc.

  Ele pareceu absorver aquelas palavras, mas Katie sabia que Alex ainda tinha mais a
dizer.
  -- Quero que voc saiba que valorizo muito o que existe entre ns agora e, mais do
que qualquer coisa, quero que voc se sinta confortvel. Da maneira que achar melhor.
Desculpe-me por fazer voc se sentir como se a estivesse colocando contra a parede.
No era isso que eu estava tentando fazer.

  -- Ah, estava sim -- disse ela, com um sorriso de cumplicidade. -- Pelo menos um
pouco. Mas est tudo bem. Afinal, quem sabe o que o futuro nos reserva, no ? Como
hoje  noite, por exemplo.

  -- Por qu? O que vai acontecer hoje  noite?

  Ela se apoiou contra o batente da porta. -- Bem, depois que as crianas estiverem
dormindo e, dependendo da hora que voc voltar, pode ser tarde demais para que eu
volte para casa de bicicleta. Talvez voc me encontre deitada na sua cama...

   Quando Alex percebeu que Katie no estava brincando, ele levou a mo ao queixo,
fingindo estar pensando no assunto. -- Isso seria um dilema.

  -- Por outro lado, pode ser que no haja muito trnsito e voc queira chegar em casa
cedo o bastante para me levar at minha casa.

  -- Geralmente costumo dirigir com segurana. No gosto de correr na estrada.

  Apoiando-se agora em seu peito, sussurrou no ouvido de Alex. --  muito prudente
de sua parte.

  -- , eu tento ser -- sussurrou ele, antes que seus lbios se encontrassem com os
dela. Quando se afastou, percebeu que havia uns cinco ou seis proprietrios de barcos
olhando para eles. Mas Alex no se importava. -- Quanto tempo voc levou para
ensaiar esse discurso?

  -- Eu no ensaiei. As palavras simplesmente surgiram de dentro de mim.

  Ele ainda sentia o beijo. -- J tomou seu caf da manh?

  -- No.
-- Quer comer cereal comigo e as crianas? Antes de irmos ao parque de diverses?

-- Comer cereal com vocs  uma ideia deliciosa.
                                        34



A CAROLINA DO NORTE era um lugar feio. Uma faixa de asfalto ensanduichada entre
extenses montonas de pinheiros e cadeias de colinas. Ao longo da rodovia havia
aglomeraes de trailers e outros lares mveis, pequenas propriedades agrcolas e
celeiros apodrecidos cobertos de trepadeiras. Kevin saiu de uma rodovia interestadual
e entrou em outra, dirigindo rumo a Wilmington, e bebeu mais um pouco de vodca para
espantar o tdio.

  Enquanto cruzava a paisagem que permanecia igual, pensava em Erin. Pensou no que
faria quando a encontrasse. Esperava que estivesse em casa quando chegasse, mas,
mesmo que estivesse trabalhando, seria apenas uma questo de tempo at que ela
voltasse para casa.

  A rodovia passava ao largo de cidades sem qualquer atrativo e nomes pouco
memorveis. s 10 horas da manh havia chegado a Wilmington. Atravessou a cidade
e entrou em uma estrada vicinal estreita. Continuou dirigindo para o sul, com o sol
batendo forte na janela do motorista. Colocou a arma em seu colo e depois deixou-a
novamente sobre o assento do passageiro e continuou dirigindo.

  Finalmente, chegou  cidade onde ela estava morando. Southport.



KEVIN DIRIGIU LENTAMENTE pela cidade, desviando de sua rota, por causa de um parque
de diverses itinerante, ocasionalmente consultando a rota que tinha imprimido em seu
computador antes de sair de casa. Tirou uma camisa de dentro da bolsa de viagem e
colocou-a sobre a pistola para escond-la.

  Southport era uma cidade pequena, com casas limpas e bem cuidadas. Algumas
tinham uma arquitetura tpica do sul dos Estados Unidos, com varandas amplas, vrias
trepadeiras com magnlias e bandeiras americanas tremulando em mastros. Outras
faziam com que ele se lembrasse das casas da regio da Nova Inglaterra. Havia
manses em frente ao mar. O sol refletia-se na gua, visvel por entre as casas, e o dia
estava quente feito o inferno. Quase como uma sauna.

  Alguns minutos depois, encontrou a ruela de cascalhos onde ela morava.  esquerda,
mais adiante, havia uma loja de convenincia e ele estacionou ali para abastecer o
carro e comprar uma lata de Red Bull. Ficou na fila atrs de um homem que estava
comprando carvo e fluido de isqueiro. Entregou o dinheiro  velha senhora que se
encontrava atrs da caixa registradora. Ela sorriu e o agradeceu por vir, comentando,
de uma maneira bisbilhoteira, comum entre velhas senhoras, que nunca o havia visto
por ali antes. Kevin disse a ela que viera  cidade para ir ao parque de diverses.

  Ao voltar para a estrada, sua pulsao acelerou ao se dar conta de que seu destino
no estava longe agora. Contornou uma curva e diminuiu a velocidade do carro. Ao
longe, uma ruela de cascalhos entrou em seu campo visual. As folhas que tinha
imprimido lhe diziam que deveria virar para entrar naquela rua, mas ele passou reto.
Se Erin estivesse em casa, reconheceria seu carro imediatamente e Kevin no queria
que aquilo acontecesse. No at que tivesse tudo pronto.

   Deu meia-volta com o carro, procurando algum lugar discreto onde pudesse
estacionar. Foi difcil encontrar. Talvez no estacionamento da loja de convenincia,
mas algum poderia perceber se ele estacionasse ali. V     oltou a passar pela loja,
examinando a rea. As rvores que ladeavam a estrada poderiam lhe dar cobertura, ou
talvez no. No queria se arriscar a levantar as suspeitas de algum que estivesse
passando pela estrada e percebesse um carro abandonado junto s rvores.

  A cafena fazia com que suas mos tremessem e ele mudou para a vodca para
acalmar seus nervos. Por Deus, era impossvel encontrar um lugar onde pudesse
esconder o carro. Que diabo de lugar era esse? Deu meia-volta novamente, irritando-
se. No deveria ser to difcil. Devia ter alugado um carro. Entretanto, no havia feito
aquilo e agora no conseguia encontrar uma maneira de se aproximar o bastante da
casa de Erin sem que ela o percebesse.

  A loja era sua nica opo e ele voltou ao estacionamento, parando ao lado da casa.
Ficava a quase um quilmetro e meio de distncia da casa de Erin, mas Kevin no
sabia mais o que fazer. Passou alguns minutos revirando a ideia na cabea antes de
desligar o motor. Quando abriu a porta, o calor o cercou. Esvaziou a bolsa de viagem,
jogando as roupas no banco de trs, e colocou a sua pistola, as cordas, as algemas e a
fita silver-tape, alm de mais uma garrafa de vodca. Jogando a bolsa sobre o ombro,
deu uma olhada em volta. Ningum o observava. Imaginou que poderia deixar seu
carro ali por uma hora ou duas antes que algum desconfiasse.

  Kevin se afastou do estacionamento e caminhava pelo acostamento da estrada
quando sentiu a dor lhe atacar a cabea. O calor estava insuportvel. Como se fosse
uma coisa viva. Caminhou pela estrada, olhando fixamente para os motoristas que
passavam por ele. No viu Erin nem qualquer outra mulher que tivesse cabelo
castanho.

  Chegou at a rua de cascalhos e entrou por ela. A via, empoeirada e cheia de
buracos, parecia no levar a lugar nenhum, at que ele finalmente viu duas cabanas
pequenas depois de andar mais de meio quilmetro. Sentiu seu corao acelerar. Erin
vivia em uma delas. Kevin foi para um dos lados da estrada, andando junto s rvores,
tentando se esconder. Esperava que houvesse alguma sombra, mas o sol estava alto e o
calor o castigava. Sua camisa estava ensopada, o suor lhe escorria pelo rosto,
deixando seus cabelos num estado lastimvel. Sua cabea latejava e ele parou para
beber, tomando a vodca diretamente na garrafa.

   Observando-as a distncia, nenhuma das casas parecia estar ocupada. Diabos,
nenhuma delas parecia sequer habitvel. No eram nada parecidas com a casa que
tinham em Dorchester, com suas venezianas, msulas decorativas e a porta de entrada
vermelha. Na cabana mais prxima, a tinta estava descascando e os cantos das tbuas
estavam apodrecendo. Continuando em frente, ele observou as janelas, buscando por
sinais de movimento. No notou nada.

  Ele no sabia em qual das cabanas ela vivia. Parou para estud-las mais de perto. As
duas eram horrveis, mas uma delas parecia praticamente abandonada. Foi em direo
 que estava em melhores condies, tentando se esquivar da janela.

  Demorou trinta minutos para chegar at l, vindo pelo trajeto que comeara na loja
de convenincia. Quando surpreendesse Erin, ele sabia que ela tentaria escapar.
Talvez tentasse at mesmo lutar. Ele a amarraria e cobriria sua boca com silver-tape e
depois iria buscar o carro. Quando voltasse com ele, a colocaria no porta-malas at
que estivessem bem longe dessa cidade. Chegou  lateral da casa e se encostou contra
a parede. Aguou os ouvidos, tentando ouvir algum som, portas se abrindo, gua
correndo ou talheres batendo contra os pratos, mas no ouviu nada.

  Sua cabea ainda doa e ele sentia sede. O calor ainda o castigava e sua camisa
estava encharcada. Ele estava respirando rpido demais, mas estava muito perto de
Erin agora. Pensou novamente em como ela o abandonara e como no se importara
quando ele chorou. Ela ria pelas suas costas. Ela e o homem com quem estava, quem
quer que fosse ele. Havia um homem, Kevin sabia. Ela no conseguiria fazer tudo
aquilo sozinha.

   Ele espiou por trs da casa, mas no viu nada. Aproximou-se lentamente,
observando.  sua frente havia uma pequena janela. Decidiu arriscar e olhou para
dentro da casa. As luzes estavam apagadas e seu interior estava limpo e organizado,
com um pano de prato pendurado sobre a pia da cozinha. Aproximou-se
silenciosamente da porta e girou a maaneta. Estava destrancada.

  Prendendo a respirao, ele abriu a porta e entrou na casa, novamente parando para
tentar ouvir algum rudo, mas no havia nada. Atravessou a cozinha e foi at a sala.
Depois, at o quarto e o banheiro. Disse um palavro, ao perceber que ela no estava
em casa.

  Presumindo que estivesse na casa certa,  claro. No quarto, ele viu uma cmoda e
abriu a gaveta de cima. Encontrando uma pilha de calcinhas, ele as remexeu, esfregou-
as entre o indicador e o polegar, mas fazia tanto tempo que Erin havia desaparecido
que ele no conseguia se lembrar se eram as mesmas que ela tinha quando ainda estava
com ele. No reconheceu as outras roupas, mas eram do tamanho que ela usava.

   Reconheceu o xampu e o condicionador e tambm a marca da pasta de dentes. Na
cozinha, revirou as gavetas, abrindo uma por uma at encontrar uma conta de
eletricidade. Estava endereada  Katie Feldman e ele se apoiou contra o armrio da
cozinha, olhando fixamente para o nome, com uma sensao de completude dentro de
si.
  O nico problema era que Erin no estava ali e ele no sabia quando ela retornaria.
Sabia que no poderia deixar seu carro na loja para sempre, mas, ao mesmo tempo,
sentia-se exausto. Queria dormir, precisava dormir. Havia dirigido durante a noite
inteira e sua cabea estava latejando. Instintivamente, foi at o quarto dela. Ela havia
arrumado a cama e, quando puxou as cobertas, sentiu o cheiro de Erin nos lenis.
Arrastou-se sobre a cama, respirando fundo, inspirando o aroma dela. Sentiu as
lgrimas encherem seus olhos ao perceber quantas saudades sentia dela, o quanto a
amava e que eles poderiam ter sido felizes se ela no fosse to egosta.

  No conseguia permanecer acordado e disse a si mesmo que dormiria apenas por
alguns minutos. No por muito tempo. Apenas o suficiente para que, quando ela
voltasse, naquela noite, sua mente estivesse alerta e ele no cometesse erros. Ele e
Erin poderiam voltar a ser marido e mulher.
                                       35



ALEX, KATIE E AS CRIANAS foram de bicicleta ao parque de diverses, porque seria
praticamente impossvel estacionar no centro da cidade. Da mesma forma, seria ainda
pior tentar voltar para casa, quando os carros estivessem saindo do estacionamento.

  Havia quiosques vendendo artesanato dos dois lados da rua e o ar estava denso com
o aroma de cachorros-quentes, hambrgueres, pipoca e algodo-doce. No palco
principal, uma banda estava tocando uma verso cover de Little deuce coupe, dos
Beach Boys. Havia corridas de saco e uma faixa anunciando um campeonato que
premiaria a pessoa capaz de comer a maior quantidade de melancias naquela tarde.
Havia jogos de azar tambm, alm de outras brincadeiras, como acertar bales com
dardos, arremessar argolas ao redor de gargalos de garrafas, arremessar trs vezes
uma bola de basquete numa cesta para ganhar um animal de pelcia. A roda-gigante, do
outro lado do parque, se erguia acima de tudo, atraindo famlias como se fosse um
farol.

   Alex entrou na fila para comprar os ingressos e Katie ficou logo atrs com as
crianas, indo em direo aos carrinhos de batida e s xcaras-malucas. Havia longas
filas por todos os lados. Mes e pais se agarravam s mos das crianas enquanto os
adolescentes andavam em grupos. O ar se enchia com o barulho dos geradores e de
rudos metlicos conforme os brinquedos do parque giravam sem parar.

  O cavalo mais alto do mundo podia ser observado por um dlar. Outro dlar
comprava o ingresso da tenda ao lado, que abrigava o menor cavalo do mundo. Pneis
cansados e esbaforidos andavam em crculos, amarrados a uma roda, com as cabeas
baixas.

  As crianas estavam animadas e queriam ir a todas as atraes. Alex gastou uma
pequena fortuna comprando os ingressos, que se esgotaram rapidamente, pois cada um
dos brinquedos cobrava de trs a quatro dlares para ser usado. O custo cumulativo
chegava s raias do absurdo, e Alex tentou fazer com que eles durassem um bom
tempo, insistindo que os meninos deviam fazer outras coisas tambm.

  Eles assistiram a um homem fazer malabarismos com pinos de boliche e vibraram
com um cachorro que era capaz de andar por uma corda bamba. Comeram pizza na
hora do almoo em um dos restaurantes que havia nas proximidades e ouviram uma
banda country tocar algumas msicas. Depois, assistiram a uma corrida de jet-skis no
rio Cape Fear antes de voltarem ao parque de diverses. Kristen comeu um algodo-
doce e Josh ganhou uma tatuagem temporria.

  E assim as horas passaram, num misto de calor, de barulho e de prazeres tpicos de
cidade pequena.




KEVIN ACORDOU DUAS HORAS mais tarde, com o corpo ensopado de suor e o estmago
dolorido pelas clicas que sentia. Os sonhos que teve, induzidos pelo calor, foram
vvidos e intensos e ele teve dificuldade para se lembrar de onde estava. Sentia que
sua cabea estava prestes a se partir em duas. Saiu do quarto cambaleando e foi at a
cozinha, saciando sua sede diretamente na torneira. Sentia-se tonto e fraco e ainda mais
cansado do que quando se deitara para dormir.

  Mas ele no podia deixar vestgios. No devia nem mesmo ter dormido. Foi at o
quarto e arrumou a cama para que Erin no percebesse que ele estivera ali. J estava
saindo da casa quando se lembrou da caarola de atum que vira na geladeira. Estava
faminto e lembrou-se de que ela no lhe preparava o jantar h meses.

  A temperatura devia estar perto dos 40 graus dentro daquele barraco abafado.
Quando abriu a geladeira, permaneceu por um longo tempo em frente ao aparelho,
sentindo o ar gelado que saa de dentro. Pegou a panela de atum e revirou as gavetas
at encontrar um garfo. Retirando o papel-filme que cobria a panela, comeu um pedao
e depois outro. Aquilo no ajudou a melhorar a forte dor de cabea que sentia, mas
acalmou seu estmago e as clicas comearam a diminuir de intensidade. Podia ter
comido todo o peixe, mas comeu apenas mais um pedao antes de colocar a caarola
de volta no refrigerador. Erin no podia perceber que ele havia estado ali.

  Kevin lavou o garfo, enxugou-o e guardou-o novamente na gaveta. Alisou o pano de
prato e deu uma ltima olhada na cama, certificando-se de que estava do mesmo jeito
que a encontrara quando entrou na casa.

  Satisfeito, saiu da casa e voltou para a estrada de cascalhos, indo em direo  loja
de convenincia.

  O teto do carro queimava ao toque e, quando abriu a porta, sentiu como se estivesse
entrando em uma fornalha. No havia ningum no estacionamento. Estava quente
demais para ficar ao ar livre. Tudo parecia ferver, sem que houvesse qualquer nuvem
no cu e sem que uma brisa soprasse. "Quem, em nome de Deus, iria querer morar em
um lugar como este?".

  Na loja, ele pegou uma garrafa de gua mineral e bebeu-a inteira enquanto ficava
perto dos refrigeradores. Pagou pela embalagem vazia e a velha senhora no caixa a
jogou fora. Ela lhe perguntou se havia gostado do parque de diverses. Kevin
respondeu afirmativamente  velha bisbilhoteira.

   De volta ao carro, bebeu mais vodca sem se importar que a bebida estivesse 
mesma temperatura que uma xcara de caf. Desde que aquilo diminusse a dor que
sentia, no fazia diferena. Estava quente demais para pensar e ele j poderia estar na
estrada, rumo a Dorchester, se Erin estivesse em casa. Talvez quando levasse Erin de
volta e Bill percebesse o quanto eles estavam felizes, ele lhe deixaria voltar a
trabalhar. Era um bom investigador e o capito precisava dele.

  Enquanto bebia, a dor que latejava em suas tmporas comeou a perder fora, mas
ele comeou a ver tudo o que havia  sua volta dobrado, mesmo sabendo que deveria
ver imagens individuais. Precisava manter sua mente alerta, mas a dor e o calor
estavam lhe fazendo mal e ele no sabia mais o que fazer.

  Kevin deu a partida no carro e entrou na estrada principal, dirigindo em direo ao
centro de Southport. Vrias ruas estavam fechadas e ele perdeu a conta de quantas
vezes teve que desviar do caminho at encontrar um lugar para estacionar. Quilmetros
e quilmetros sem nenhuma sombra; apenas um calor sufocante e infernal. Tinha a
sensao de que ia vomitar.

  Pensou em Erin e onde ela poderia estar. No Ivan's? No parque de diverses? Devia
ter ligado para perguntar se ela estaria trabalhando hoje. Deveria ter se hospedado em
algum hotel ontem  noite. No havia motivo para se apressar, porque ela no estava
em casa. Mas ele no sabia disso at entrar na casa onde ela morava. E ficou furioso
ao pensar que ela provavelmente estaria rindo daquilo tambm. Rindo e rindo do pobre
Kevin Tierney enquanto o traa com outro homem.

  Ele trocou de camisa e enfiou a arma por dentro da cintura do seu jeans, caminhando
em direo  orla do rio. Sabia que o Ivan's ficava naquela regio, pois j havia
pesquisado a localizao do restaurante no computador. Estaria se arriscando caso
fosse at l, por isso chegou a dar meia-volta duas vezes. Mas tinha que encontr-la.
Estivera na casa onde ela morava e sentira o cheiro dela nos lenis. Mas aquilo no
havia sido o bastante.

  Multides estavam por toda parte. As ruas o lembravam de uma feira agropecuria,
mas sem os porcos, os cavalos e as vacas. Comprou um cachorro-quente e tentou
com-lo, mas seu estmago se rebelou e ele jogou quase todo o sanduche no lixo.
Andando por entre as pessoas, viu a orla do rio ao longe e logo em seguida a fachada
do Ivan's. Avanava vagarosamente entre toda aquela gente. Sentia sua boca
completamente seca quando chegou  porta do restaurante.

   O Ivan's estava lotado e havia uma fila de pessoas esperando por mesas. Devia ter
trazido um chapu e culos escuros, mas no conseguia pensar direito. Sabia que ela o
reconheceria instantaneamente. Mesmo assim, foi at a porta e entrou.

  Avistou uma garonete, mas no era Erin. Olhou em volta, viu outra, mas tambm no
era Erin. A recepcionista era jovem e estava atarefada, tentando encontrar a melhor
maneira de acomodar o prximo grupo de clientes. Havia muito barulho no ambiente
-- pessoas conversando, talheres batendo contra os pratos, copos sendo recolhidos em
bacias e levados  cozinha para serem lavados. Muito rudo, muita confuso, sua dor
de cabea no passava e agora seu estmago tambm queimava.

  -- Erin est trabalhando hoje? -- perguntou ele  recepcionista, levantando a voz
para que ela o ouvisse em meio a todo aquele barulho.
  Ela olhou em sua direo, confusa. -- Quem?

  -- Katie -- disse ele. -- Eu quis dizer Katie Feldman.

   -- No -- gritou a recepcionista, em resposta. -- Ela est de folga. Mas estar
trabalhando amanh -- disse ela, com um meneio de cabea em direo s janelas. --
Provavelmente ela est l fora, no meio de toda aquela gente. Acho que a vi passar
aqui em frente durante a manh.

  Kevin se virou e saiu, esbarrando nas pessoas enquanto se afastava ignorando tudo
aquilo. Do lado de fora, foi at um camel. Comprou um bon de beisebol e um par de
culos escuros baratos. E recomeou a caminhar.


A RODA-GIGANTE GIRAVA sem parar. Alex e Josh estavam em um assento e Kristen e
Katie estavam em outro, sentindo o vento quente bater em seus rostos. Katie colocou o
brao ao redor de Kristen, sabendo que, apesar do sorriso que a menina tinha no rosto,
ela estava nervosa com a altura. Enquanto a roda-gigante girava, levando o assento at
o ponto mais alto, revelando uma vista panormica da cidade, Katie percebeu que,
embora tambm no estivesse muito animada com a altura, ela estava mais preocupada
com a estrutura do brinquedo. Aquela coisa parecia ter sido montada com arame e
clipes de papel, mesmo depois de haver passado por uma inspeo municipal naquela
manh.

   Ela se perguntava se Alex havia realmente dito a verdade sobre a inspeo, ou se ele
a ouvira comentar sobre a possibilidade de que o brinquedo fosse perigoso. Entretanto,
j era tarde demais para se preocupar com aquilo, supunha Katie. Assim, procurou se
ocupar olhando para a multido de pessoas que enchia as ruas. Ainda mais gente veio
ao parque de diverses no perodo da tarde, mas, se desconsiderasse os esportes
aquticos, no havia muita coisa para fazer em Southport. Era uma cidade pequena e
tranquila e ela imaginava que um evento como aquele era o mais importante do ano
todo.

  A roda-gigante diminuiu a velocidade e parou, deixando-os parados no ar enquanto
os primeiros passageiros saam e outros entravam nos assentos que acabavam de ficar
desocupados. Girou mais alguns momentos e Katie comeou a observar a multido
mais atentamente. Kristen parecia estar mais relaxada e fazia o mesmo.

  Katie reconheceu um casal tomando sorvetes de casquinha, frequentadores habituais
do Ivan's, e imaginou quantos outros haveria por perto. Seus olhos comearam a se
desviar de um grupo para outro e, por algum motivo, ela se lembrou de que costumava
fazer a mesma coisa quando comeara a trabalhar no restaurante. Quando ainda vigiava
seus arredores, atenta  presena de Kevin.


KEVIN PASSOU PELOS QUIOSQUES que estavam dos dois lados da rua, andando a esmo e
tentando pensar como Erin. Deveria ter perguntado  recepcionista do restaurante se
ela havia visto Erin com um homem, pois sabia que ela no iria ao parque de diverses
sozinha. Era difcil ter em mente que ela agora tinha cabelos curtos e castanhos, porque
ela o havia cortado e tingido. Devia ter pegado uma cpia da carteira de motorista de
Erin com o policial pedfilo na outra delegacia, mas no estava pensando direito
quando entrou em contato com ele. Entretanto, aquilo no importava mais, porque sabia
onde ela morava e voltaria at l.

   Sentiu a arma pressionar sua cintura. A sensao era desconfortvel, pois o metal
irritava sua pele. Estava muito quente debaixo do bon de beisebol, especialmente
porque ele estava apertado em sua cabea e parecia que ela estava prestes a explodir.

  Ele andou por entre grupos de pessoas e filas que se formavam. Entre peas de
artesanato. Frutos de pinheiros decorados, vitrs coloridos em molduras, mensageiros
dos ventos e penduricalhos. As pessoas estavam se entupindo de comida: pretzels,
sorvetes, nachos e confeitos aucarados. Viu carrinhos de bebs e se lembrou
novamente de que Erin queria ter um filho. Decidiu que lhe daria um. Menina ou
menino, no importava; mesmo assim, ele preferia que fosse um menino, porque
meninas eram egostas e no gostariam da vida que ele lhes daria. Meninas eram assim.

  As pessoas conversavam e sussurravam  sua volta e ele achou que algumas delas
estavam olhando diretamente para ele, como Coffey e Ramirez faziam. Ignorou-os,
concentrando-se em sua busca. Famlias. Adolescentes que andavam com os braos um
ao redor do outro. Um rapaz que usava um sombrero. Dois funcionrios do parque
estavam encostados em um poste, fumando. Magros e cheios de tatuagens, com dentes
cariados. Provavelmente usurios de drogas, com longas fichas criminais. Teve um
mau pressentimento em relao a eles. Era um bom investigador e sabia como analisar
as pessoas, por isso no confiou neles. Mas nenhum dos dois fez qualquer coisa
quando Kevin passou.

  Desviou para a direita e para a esquerda, andando firmemente por entre a multido,
estudando os rostos das pessoas. Parou enquanto um casal obeso passou lentamente 
sua frente, comendo salsichas empanadas, os rostos vermelhos e inchados. Detestava
gente gorda. Pensava que eram fracas e no tinham disciplina. Pessoas que viviam
reclamando de sua presso arterial, diabetes e problemas cardacos e que no paravam
de se queixar sobre o custo dos remdios, mas que no conseguiam fazer o menor
esforo para fechar a boca. Erin sempre fora magra, mas seus seios eram grandes e
agora ela estava aqui, com outro homem. Um homem que a acariciava e tocava seus
seios  noite, e aquele pensamento fez com que ele se sentisse queimar por dentro. Ele
a odiava. Mas ele tambm a queria. A amava. Era difcil distinguir entre aqueles
sentimentos em sua cabea. Ele vinha bebendo demais e o calor estava abrasador. Por
que diabos ela tinha vindo parar em um lugar to infernal?

  Andou por entre os brinquedos do parque de diverses e viu que estava perto da
roda-gigante. Ele se aproximou, esbarrando em um homem que usava uma camiseta
regata, ignorando os resmungos dele sobre sua falta de modos. Olhou para os assentos
da roda-gigante, seu olhar passando por cada rosto. Erin no estava ali, nem na fila.

  Continuou a andar, caminhando sob o calor em meio s pessoas gordas, procurando
pela figura magra de Erin e o homem que tocava em seus seios  noite. A cada passo,
ele pensava na sua Glock.


OS BALANOS SUSPENSOS, girando no sentido dos ponteiros do relgio, fizeram sucesso
com as crianas. Haviam brincado ali duas vezes pela manh e, depois de sarem da
roda-gigante, Kristen e Josh imploraram para voltarem aos balanos. S havia alguns
tickets sobrando e Alex concordou, explicando que, ao final daquela rodada, eles
teriam que ir para casa. Ele queria voltar a tempo de tomar um banho, jantar e talvez
descansar um pouco antes de ir para Raleigh.

 Apesar de seus esforos, ele no conseguia parar de pensar na sugesto excitante que
Katie fizera anteriormente. Ela parecia capaz de ler seus pensamentos. Alex percebeu
que ela o olhava fixamente vrias vezes durante o dia, com um sorriso leve e
provocante nos lbios.

  Agora ela estava ao seu lado, sorrindo para as crianas. Aproximou-se dela,
colocando-lhe o brao ao redor da cintura, e sentiu quando ela se inclinou contra seu
corpo. No disse nada. No havia necessidade de palavras. Katie tambm no disse
nada. Em vez disso, inclinou a cabea, pousando-a sobre o ombro de Alex. E ele teve a
sensao de que nada no mundo poderia ser melhor do que aquilo.


ERIN NO ESTAVA NAS xcaras-malucas, nem no labirinto de espelhos, nem no trem-
fantasma. Ele vigiou as atraes perto da fila para comprar ingressos, tentando se
misturar  multido, querendo v-la antes que ela percebesse sua presena. Tinha a
vantagem, pois sabia que ela estava aqui, mas Erin no fazia a menor ideia de que ele
estava por perto. s vezes, as pessoas tinham sorte e coisas estranhas aconteciam. Ele
relembrou o dia em que conversou com Karen Feldman, quando ela revelou o segredo
de Erin.

  Ele desejou no ter deixado sua vodca dentro do carro. No parecia haver qualquer
lugar por perto onde ele pudesse comprar mais, nenhum bar  vista. No viu nem
mesmo um quiosque que estivesse vendendo cerveja. No gostava daquela bebida, mas
teria comprado uma garrafa se no tivesse outra escolha. O cheiro da comida lhe
causava nuseas e fazia com que seu estmago doesse de fome ao mesmo tempo, e ele
sentia o suor ensopando sua camisa, com manchas escuras lhe surgindo nas costas e nas
axilas.

  Andou entre os jogos de azar, administrados por trambiqueiros. Desperdcio de
dinheiro, pois eram feitos de modo que o dono nunca perdesse muito. Mesmo assim,
vrios idiotas faziam fila para jogar. Procurou por rostos. Nada de Erin.

  Andou at os outros brinquedos. Havia crianas brincando nos carrinhos de batida,
pessoas inquietas na fila. Do outro lado, estavam os balanos giratrios e ele foi
naquela direo. Deu a volta ao redor das pessoas, procurando um ngulo melhor para
observar o lugar.
OS BALANOS COMEARAM a perder velocidade, mas Kristen e Josh ainda sorriam,
alegres. Alex tinha razo quando decidira ir embora depois daquele ltimo passeio; o
calor havia deixado Katie exausta e seria bom poder se refrescar um pouco. Se havia
uma coisa ruim na cabana onde ela morava -- bem, na verdade, havia mais do que
apenas uma coisa ruim, imaginava Katie -- era o lugar no ter ar-condicionado. Ela
tinha se acostumado a deixar as janelas abertas  noite, mas aquilo no ajudava muito.

  Os balanos pararam e Josh desafivelou o cinto de segurana antes de descer.
Kristen demorou um pouco mais at conseguir se desvencilhar, mas, um momento
depois, as duas crianas j estavam correndo em direo  Katie e a seu pai.


KEVIN VIU QUANDO os balanos diminuram a velocidade at pararem completamente e
um bando de crianas desceu deles, mas no era ali que sua ateno estava
concentrada. Em vez disso, procurou observar os adultos que estavam aglomerados ao
redor da cerca do brinquedo.

  Continuou andando, seus olhos indo de uma mulher a outra. Loira ou morena, no
importava. Procurou pelo corpo esguio de Erin. Do lugar de onde estava, Kevin no
conseguia ver os rostos das pessoas que estavam diretamente  sua frente; ento ele
mudou de lugar. Em alguns segundos, quando as crianas chegassem  sada, todos
voltariam a se espalhar pelo parque.

  Andou rapidamente. Havia uma famlia  sua frente, com ingressos na mo,
decidindo aonde iriam a seguir, discutindo em meio  confuso. Idiotas. Kevin deu a
volta ao redor deles, apertando os olhos para observar os rostos perto dos balanos.

  Nenhuma mulher magra, com exceo de uma. Uma morena de cabelos curtos, em p
ao lado de um homem de cabelos grisalhos, que havia colocado o brao ao redor da
cintura dela.

  Era inconfundvel. As mesmas pernas longas, o mesmo rosto, os mesmos braos
esbeltos.

  Erin.
                                        36


ALEX E KATIE CAMINHARAM de mos dadas em direo ao Ivan's, acompanhados pelas
crianas. Haviam deixado suas bicicletas perto da porta dos fundos, onde Katie
geralmente trancava a sua quando vinha trabalhar. Quando saram, Alex comprou gua
para Josh e Kristen antes de tomarem o caminho de casa.

  -- Gostaram do dia, garotos? -- perguntou Alex, agachando-se para destrancar as
bicicletas.

  -- O dia foi timo, papai -- respondeu Kristen, com o rosto vermelho pelo calor.

  Josh esfregou a boca na manga da camiseta. -- Podemos vir de novo amanh?

  -- Talvez -- disse Alex, tentando se esquivar da pergunta.

  -- Por favor, papai. Eu quero andar nos balanos de novo.

  Quando todos os cadeados estavam abertos, Alex colocou as correntes por cima do
ombro. -- Vamos ver -- disse ele.

   O toldo que ficava atrs do restaurante ainda dava alguma sombra, mas tambm fazia
bastante calor. Depois de perceber que o restaurante estava lotado, ao olhar pelas
janelas, Katie sentiu-se feliz por ter tirado o dia de folga, mesmo que tivesse que
trabalhar nos dois perodos no dia seguinte e na segunda-feira. Valia a pena. O dia foi
bom e ela conseguiria relaxar e assistir a um filme com as crianas enquanto Alex
estivesse fora,  noite. E, mais tarde, quando ele voltasse...

  -- O que foi? -- perguntou Alex.

  -- Nada.
  -- Voc estava me olhando como se fosse me devorar.

  -- S estava com o pensamento longe por um segundo -- disse ela, piscando o olho.
-- Acho que o calor est me fazendo mal.

  -- Ah, claro -- disse ele, assentindo. -- Como se eu no soubesse.

  -- Quero apenas lembr-lo de que h ouvidos jovens prestando ateno em ns neste
momento, ento cuidado com o que vai dizer -- disse ela, beijando-o antes de tocar
seu peito afetuosamente.

  Nenhum dos dois percebeu o homem com um bon de beisebol e culos escuros que
os observava ao lado da entrada do restaurante vizinho.

  Kevin sentiu-se atordoado enquanto observava Erin e o homem de cabelos grisalhos
se beijando, enquanto observava o jeito como ela flertava com ele. Viu o jeito como
ela acariciava os cabelos do garoto que estava junto a eles. Observou que o homem
grisalho apertou seu traseiro quando as crianas no estavam olhando. E Erin -- sua
esposa -- estava adorando a situao. Deliciando-se. Estimulando aquilo. Traindo-o
com sua nova famlia, como se Kevin e seu casamento nunca houvessem existido.

  Eles montaram em suas bicicletas e comearam a pedalar, dando a volta no
restaurante, afastando-se de Kevin. Erin pedalava ao lado do homem grisalho. Ela
usava um short e sandlias, expondo suas pernas, mostrando sua sensualidade para
outra pessoa.

  Kevin os seguiu. Os cabelos dela eram loiros e longos, esvoaantes... Mas, em
seguida, ele piscou e eles estavam novamente curtos e castanhos. Fingindo que no era
Erin, andando de bicicleta com sua nova famlia, beijando outro homem, sorrindo,
sorrindo, sem qualquer preocupao. Aquilo no era real, disse a si mesmo. No era
nada alm de um sonho. Um pesadelo. Do outro lado da rua, no ancoradouro, os barcos
atracados balanavam sobre a gua enquanto as bicicletas os deixavam para trs.

  Deu a volta na esquina. Eles estavam pedalando e Kevin estava a p, mas eles iam
devagar para que a garotinha conseguisse acompanh-los. Ele estava se aproximando e
estava perto o bastante para ouvir o riso de Erin, numa demonstrao de felicidade.
Levou a mo  cintura e pegou sua Glock, mas em seguida colocou-a por dentro da
camisa, pressionando-a contra a pele. Tirou o bon de beisebol e usou-o para esconder
a arma das pessoas que passavam por ele.

  Seus pensamentos ricocheteavam como bolas de sinuca em uma partida disputada em
alta velocidade, batendo umas nas outras, de um lado para o outro, em todas as
direes. Erin mentia, traa, tramava e fazia planos. Fugira e encontrara um amante.
Falava e ria pelas suas costas. Sussurrava no ouvido do homem grisalho, dizendo
palavras sujas, sentindo as mos daquele homem em seus seios, respirando com
dificuldade. Fingindo que no era casada, ignorando tudo o que ele tinha feito por ela,
todos os sacrifcios, ter raspado sangue das solas dos sapatos, Coffey e Ramirez
sempre fazendo fofoca a seu respeito, as moscas que zumbiam ao redor dos
hambrgueres, porque ela havia fugido e o obrigara a ir ao churrasco sozinho e no
pudera dizer a Bill, o capito, que ele no era apenas mais um dos rapazes como todos
os outros.

  E ali estava ela, pedalando tranquilamente, com os cabelos curtos e tingidos, linda
como sempre, sem nem sequer pensar em seu marido. Sem nunca se importar com ele.
Esquecendo-se dele e do casamento para que pudesse viver com o homem grisalho,
acariciando seu peito e beijando-o com uma expresso sonhadora no rosto. Indo a
parques de diverses, andando de bicicleta. Ela provavelmente cantarolava no
chuveiro enquanto ele chorava e se lembrava do perfume que lhe havia comprado no
Natal. Nada daquilo lhe importava, porque ela era egosta e pensava que podia jogar
seu casamento fora como se fosse uma embalagem de pizza vazia.

   Inconscientemente, Kevin acelerou o passo. A multido nas ruas fazia com que eles
tivessem que pedalar mais devagar e ele sabia que podia simplesmente levantar sua
arma e mat-la agora. Seu dedo foi at o gatilho e ele liberou a trava de segurana,
porque a Bblia dizia: Honrai o casamento acima de tudo, e no deixes que a cama
seja maculada, mas percebeu que, se fizesse aquilo, teria que matar o homem grisalho
tambm. Poderia mat-lo na frente de Erin. Tudo o que tinha que fazer era puxar o
gatilho. Entretanto, atingir alvos mveis quela distncia era quase impossvel com
uma Glock, e havia pessoas por toda parte. Eles veriam a arma e gritariam. Seria quase
impossvel acertar o tiro. Tirou o dedo do gatilho.

  -- Pare de guiar sua bicicleta para cima de sua irm! -- disse o homem grisalho, 
frente, sua voz quase perdida na distncia. Mas suas palavras eram reais e Kevin
imaginou as palavras sujas que ele dizia para Erin. Sentiu a raiva crescer dentro de si.
E ento, de repente, as crianas viraram em uma esquina e foram seguidas por Erin e
pelo homem grisalho.

  Kevin parou, respirando com dificuldade e sentindo-se doente. Enquanto ela fazia a
curva para virar na esquina, ele a viu de perfil sob a forte luz do sol e pensou
novamente como ela era linda. Erin sempre fazia com que ele se lembrasse de uma flor
delicada, linda e bastante refinada. Ele se lembrou de que a salvara de ser estuprada
por brutamontes depois que sara do cassino e como ela costumava lhe dizer que se
sentia segura quando estava ao seu lado. Nem mesmo aquilo havia sido o bastante para
impedir que o abandonasse.

  Gradualmente, comeou a ouvir as vozes das pessoas que passavam por ele.
Conversando sobre nada importante, sem se dirigir a qualquer lugar importante, mas
aquilo o trouxe de volta  ao. Comeou a correr, tentando alcanar a esquina onde
eles viraram, cada passo fazia-o sentir que ia vomitar debaixo daquele sol inclemente.
Sua palma estava suada, encharcada ao redor da arma. Chegou at a esquina e comeou
a procur-los.

  No havia ningum  vista. Entretanto, dois quarteires  frente, havia barricadas
que bloqueavam a rua para dar espao ao parque de diverses. Eles deveriam ter
virado na esquina logo antes dos obstculos. No havia outra alternativa. Pensou que
teriam virado  direita, o nico caminho para sair do centro da cidade.

  Precisava fazer uma escolha. Persegui-los a p e arriscar-se a ser notado, ou voltar
correndo para o carro e tentar segui-los com o veculo. Tentou pensar como Erin e
imaginou que voltariam para a casa onde o homem grisalho morava. A casa de Erin era
pequena demais, quente demais para os quatro, e ela preferiria ir para uma casa bonita,
cheia de mveis caros, porque acreditava que merecia uma vida como aquela.

  Era hora de escolher. Segui-los a p ou de carro. Ele se endireitou, piscando os
olhos e tentando pensar, mas estava quente demais, tudo estava confuso demais, sua
cabea latejava e a nica coisa em que ele conseguia pensar era em Erin dormindo com
um homem grisalho. Aquela imagem fez com que ele sentisse seu estmago se revirar.
  Ela provavelmente se vestia com peas de renda e danava para ele, sussurrava
palavras que o excitavam. Implorava-lhe para que a deixasse lhe dar prazer, para que,
em troca, pudesse morar em sua casa cheia de coisas elegantes. Havia se tornado uma
prostituta, vendendo sua alma em troca de uma vida de luxo. Vendendo-se a troco de
prolas e caviar. Provavelmente dormia em uma manso agora, depois que o homem
grisalho a levava para jantar em restaurantes refinados.

  Sentiu-se enjoado ao imaginar tudo aquilo. Magoado e trado. A fria ajudou a
clarear seus pensamentos e ele percebeu que estava parado no mesmo lugar enquanto
eles se afastavam cada vez mais. Seu carro estava a alguns quarteires de distncia,
mas ele se virou e comeou a correr. No parque de diverses, correu rapidamente por
entre as pessoas, empurrando-as para que sassem do seu caminho, ignorando seus
gritos e protestos.

   -- Saiam da frente! Saiam da frente! -- gritava Kevin e algumas pessoas se
afastavam enquanto outras eram empurradas. Ele alcanou um lugar onde no havia
tanta gente e teve que parar para vomitar ao lado de um hidrante. Dois adolescentes
riram dele e Kevin sentiu vontade de atirar nos dois. Entretanto, depois de enxugar a
boca, ele simplesmente puxou a arma e a apontou para os dois, que se calaram
imediatamente.

  Cambaleando para frente, sentiu como se uma estaca de metal estivesse lhe
atravessando o crebro. Estocada e dor, estocada e dor. Cada maldito passo que dava
se traduzia em uma estocada e dor e Erin provavelmente estava dizendo ao homem
grisalho sobre as coisas sensuais que os dois fariam na cama. Falando sobre Kevin ao
homem grisalho e rindo, sussurrando, "Kevin nunca conseguiu me dar prazer do jeito
que voc d", mesmo que aquilo no fosse verdade.

  Levou uma eternidade para chegar at o carro. Quando o alcanou, o sol fazia o
veculo arder como se estivesse dentro de um forno. O calor o alcanou em jatos
quentes e o volante estava quase fervendo ao toque. Maldito inferno. Erin decidiu
morar no meio do inferno. Ele deu a partida no carro e abriu as janelas, dando meia-
volta em direo ao parque de diverses e buzinou para afastar as pessoas que
enchiam a rua.

  De novo os desvios. Barricadas. Queria passar por cima deles, explodi-los em
pedaos, mas mesmo neste lugar havia policiais e eles o prenderiam. Policiais
estpidos, gordos e preguiosos. Policiais tpicos de filmes de comdia. Idiotas.
Nenhum deles era um bom investigador, mas eles tinham armas e distintivos. Kevin
entrou pelas ruas laterais, tentando alcanar a direo para onde Erin ia. Erin e seu
amante. Os dois adlteros, e a Bblia dizia: Aquele que olhar uma mulher com desejo
cometeu o adultrio em seu corao.

  Pessoas por toda parte. Atravessando a rua desordenadamente. Forando-o a parar.
Ele se inclinou por cima do volante, esforando-se para enxergar pelo para-brisas, at
que conseguiu avist-los, finalmente. Quatro figuras minsculas ao longe. Estavam logo
atrs de outra barricada, indo em direo  estrada que levava  casa dela. Havia um
policial na esquina, outro idiota, gordo e preguioso.

   Ele acelerou e o carro avanou, apenas para ser parado quando um homem
repentinamente apareceu na frente de seu carro, socando a tampa do cap. Um caipira
com um cabelo no estilo mullet, caveiras na camiseta e tatuagens. Esposa gorda e
filhos sujos. Fracassados, todos eles.

  -- Olhe por onde anda! -- gritou o caipira.

  Mentalmente, Kevin atirou em todos eles, bang-bang-bang-bang, mas forou-se a
no reagir. O policial na esquina o observava. Bang, pensou ele mais uma vez.

  Fez uma curva, acelerando, e atravessou o bairro. Virou  esquerda e acelerou
novamente. Mais uma curva  esquerda. Outra barricada  sua frente. Kevin deu meia-
volta mais uma vez, tomou a direita e depois virou  esquerda no quarteiro seguinte.

  Mais barricadas. Estava preso em um labirinto, como um rato de laboratrio. A
cidade conspirava contra ele enquanto Erin fugia. Engatou a marcha  r e acelerou
com fora. Encontrou a rua onde j estivera e virou para depois correr at o prximo
cruzamento. Tinha que estar perto agora. Virou  esquerda e viu uma fila de carros
adiante, indo na direo que ele queria. Virou e entrou na via, forando seu carro a
passar entre duas caminhonetes.

  Queria acelerar, mas no podia. Carros e caminhonetes cobriam a estrada  sua
frente, alguns com adesivos da bandeira dos estados confederados nos para-choques e
outros com suportes para armas de fogo no teto. Caipiras. As pessoas que estavam na
rua faziam com que fosse impossvel avanar com os carros, todas andando como se os
carros no existissem. Elas andavam ao seu lado, movendo-se mais rpido do que ele
podia. Pessoas gordas que ainda comiam. Provavelmente passaram o dia inteiro
comendo e agora atrapalhavam o trnsito enquanto Erin se distanciava cada vez mais
dele.

  Seu carro andou mais alguns metros e parou. Inmeras vezes. Kevin sentia vontade
de gritar, mas havia gente por toda parte. Se ele no tomasse cuidado, algum acabaria
dizendo alguma coisa e o policial gordo e preguioso viria investigar. Ele se lembraria
da placa do carro de Kevin, uma placa de outro estado, e provavelmente o prenderia
imediatamente, simplesmente por ele no ser um dos moradores da cidade.

   Avanando e parando, vrias vezes, repetidamente. Seu progresso podia ser medido
em centmetros, at que chegou  esquina. Pensou que aquele cruzamento iria aliviar o
trnsito, mas no foi o que aconteceu. Adiante, Erin e o homem grisalho haviam
desaparecido. Havia apenas uma longa fila de carros e caminhonetes  sua frente em
uma estrada que no levava a lugar nenhum, mas, ao mesmo tempo, a todos os lugares.
Tudo exatamente ao mesmo tempo.
                                        37



HAVIA UMA DZIA DE CARROS estacionados em frente  loja quando Katie levou as
crianas pela escada em direo  casa. Josh e Kristen haviam reclamado durante todo
o trajeto, queixando-se de que suas pernas estavam cansadas, mas Alex ignorou aquilo,
lembrando-os periodicamente de que estavam chegando perto. Quando a estratgia
deixou de funcionar, ele simplesmente comentou que estava ficando cansado tambm e
que no queria ouvir mais nenhuma palavra sobre aquilo.

   As reclamaes terminaram quando chegaram  loja. Alex deixou que pegassem
picols e garrafas de Gatorade antes de subirem para casa e o jato de ar frio do ar-
condicionado, que sentiram logo que a porta se abriu, era incrivelmente refrescante.
Alex levou Katie at a cozinha e ela o observou encharcar o rosto e o pescoo na
torneira da pia. Na sala, as crianas j estavam deitadas no sof, com a televiso
ligada.

  -- Desculpe -- disse ele. -- dez minutos atrs, achava que ia morrer.

  -- Voc no disse nada.

  --  porque eu sou duro -- disse ele, fingindo estufar o peito. Pegou dois copos no
armrio e colocou cubos de gelo neles antes de servir-se com a gua que estava em
uma jarra dentro da geladeira.

  --V oc tambm  uma tima atriz -- disse ele, entregando-lhe um dos copos. --
Parece uma sauna, l fora.

  -- No consigo acreditar que ainda tem tanta gente no parque de diverses -- disse
ela, tomando um gole.

  -- Sempre me perguntei por que eles no trocam a data para maio ou outubro,
quando est mais fresco. Mesmo assim, parece que as pessoas vo at o parque
independentemente da temperatura.

  Katie olhou para o relgio da parede. -- A que horas voc tem que sair?

  -- Dentro de uma hora, mais ou menos. Mas provavelmente estarei de volta antes
das 11.

  "Cinco horas", pensou ela. -- Quer que eu prepare algo especial para o jantar das
crianas?

  -- Elas gostam de comer massa. Kristen gosta que tenha manteiga e Josh gosta de
molho marinara. Tem um vidro de molho na geladeira. Eles passaram o dia todo
comendo doces e salgados no parque, ento provavelmente no comero muito.

  -- A que horas eles vo dormir?

 -- A hora que voc disser. Sempre antes das 10, mas, s vezes, por volta das 8.
Coloque-os na cama quando achar melhor.

  Ela segurou o copo de gua gelada contra o rosto e deu uma olhada ao redor da
cozinha. No passara muito tempo na casa de Alex, mas, agora que estava aqui,
percebia os resqucios de um toque feminino. Coisas pequenas -- as costuras da
cortina feitas com linha vermelha, os pratos e as xcaras de porcelana exibidos dentro
de um armrio envidraado e os versos da Bblia pintados em azulejos de cermica
perto do fogo. A casa estava cheia de evidncias da vida de Alex com outra mulher,
mas, para sua surpresa, aquilo no a incomodava.

       ou
  -- V tomar um banho. Se importa em ficar sozinha por alguns minutos? --
perguntou Alex.

  --  claro que no -- respondeu ela. -- Posso bisbilhotar sua cozinha e pensar no
que vou fazer para o jantar?

  -- O macarro est naquele armrio -- disse ele, apontando para o lugar. -- Olhe,
quando eu sair, se voc quiser que eu a leve at sua casa para que voc possa tomar
banho e se trocar, podemos fazer isso. Ou voc pode tomar um banho aqui mesmo.
Faa como preferir.

  Ela fez uma pose sensual. -- Isso  um convite?

  Os olhos de Alex se arregalaram e ele olhou rapidamente em direo s crianas.

                                                  ou
  -- Eu estava brincando -- disse ela, rindo. -- V tomar banho depois que voc
sair.

  -- Quer ir buscar uma muda de roupas antes? Caso contrrio, pode pegar uma das
minhas camisetas ou uma cala de moletom... A cala provavelmente vai ficar larga
para voc, mas  s ajustar o cordo da cintura.

  De algum modo, a ideia de vestir as roupas dele parecia extremamente sexy para
Katie. -- No se preocupe, no sou to seletiva quando preciso escolher o que vou
vestir. Vou apenas assistir a filmes com as crianas, lembra-se?

  Alex bebeu toda a sua gua antes de colocar o copo na pia. Ele se inclinou e a beijou
e depois foi para o quarto.

  Quando ele se foi, Katie se virou em direo  janela da cozinha. Ela observou a
estrada que passava em frente  casa, sentindo uma ansiedade indefinvel tomar conta
de si. Havia sentido a mesma coisa naquela manh e imaginava que fosse um resqucio
da discusso que tivera com Alex na noite anterior. Entretanto, apanhou-se pensando
nos Feldmans novamente. E em Kevin.

  Pensou nele quando estava na roda-gigante. Enquanto observava as pessoas, ela
sabia que no estava procurando por clientes habituais do restaurante. Realmente no
estava. Estava procurando por Kevin. Acreditando, por alguma razo inexplicvel, que
ele poderia estar no meio da multido. Pensando que ele estava l.

   Mas aquilo era apenas sua paranoia aflorando novamente. No havia qualquer
possibilidade de que ele soubesse onde ela estava, nenhuma chance de que pudesse
saber sua identidade. Era impossvel, disse ela a si mesma. Kevin nunca conseguiria
lig-la  filha dos Feldmans; ele nem mesmo conversava com eles. Mesmo assim, por
que ela passara o dia inteiro sentindo-se como se algum a estivesse seguindo, mesmo
quando saram do parque de diverses?
  Ela no tinha poderes paranormais e tambm no acreditava nessas coisas. Mas
acreditava que o subconsciente tinha a capacidade de juntar peas quando a mente
consciente as deixava passar. Entretanto, enquanto se perdia em pensamentos na
cozinha de Alex, as peas ainda estavam misturadas, sem qualquer tipo de forma
definida ou ordem; e, depois de observar uma dzia de carros passarem na estrada em
frente  casa, ela finalmente se virou. Provavelmente eram apenas seus velhos medos
insistindo em aparecer.

  Balanou a cabea e pensou em Alex no chuveiro. A ideia de tomar banho com ele
fez com que sentisse uma onda de calor por dentro de si. E, mesmo assim, no era to
simples, mesmo que as crianas no estivessem por perto. Mesmo que Alex pensasse
nela como Katie, Erin ainda era casada com Kevin. Desejou poder ser outra mulher,
uma mulher que pudesse simplesmente se entregar nos braos do seu amado sem
qualquer hesitao. Afinal, foi Kevin quem quebrou todas as regras do casamento
quando levantou seus punhos para lhe agredir pela primeira vez. Quando Deus olhasse
dentro do seu corao, Katie sabia que Ele concordaria que o que ela estava fazendo
no era um pecado. No  mesmo?

  Ela suspirou. "Alex..." Ele era a nica coisa em que ela conseguia pensar agora.
Mais tarde, era no que ela conseguia pensar. Ele a amava e a queria. E, mais do que
qualquer coisa, ela queria lhe mostrar que sentia o mesmo por ele. Queria sentir seu
corpo contra o dela, queria-o por inteiro, pelo tempo que ele a quisesse. Para sempre.

  Katie se obrigou a parar de visualizar a si mesma com Alex, a parar de pensar no
que iria acontecer. Balanou a cabea para espantar aqueles pensamentos e foi at a
sala de estar, sentando-se no sof ao lado de Josh. Eles estavam assistindo a algum
programa do canal Disney que ela no reconhecia. Depois de alguns momentos, ela
olhou para o relgio e percebeu que apenas dez minutos haviam passado. A sensao
era de que uma hora j havia transcorrido.

  Depois de sair do banho, Alex fez um sanduche e sentou-se ao lado dela no sof
para comer. Ele cheirava a limpeza e as pontas do seu cabelo ainda estavam midas,
aderindo  sua pele de uma maneira que fazia com que Katie sentisse vontade de
deslizar seus lbios ali. As crianas, com os olhos grudados na tela, os ignoravam
completamente, mesmo depois de Alex ter pousado o prato na mesa de canto e
comeado a tocar a coxa dela com a ponta dos dedos.
  -- Voc est linda -- sussurrou Alex em seu ouvido.

  -- Estou horrvel -- retrucou ela, tentando ignorar a linha de fogo que fazia a pele
de sua coxa queimar. -- Nem tomei banho ainda.

  Quando chegou a hora de Alex ir embora, ele beijou as crianas na sala de estar. Ela
o seguiu at a porta. Quando a beijou em despedida, deixou que sua mo percorresse o
corpo dela, bem abaixo da linha de cintura, sentindo os lbios macios dela nos seus.
Obviamente apaixonado, obviamente desejando-a, certificando-se de que ela soubesse
o quanto. Estava levando-a  loucura e parecia aproveitar cada momento.

  -- Vejo voc daqui a pouco -- disse ele, afastando-se.

  -- Dirija com cuidado -- sussurrou ela. -- As crianas vo ficar bem.

  Quando ouviu os passos de Alex descendo as escadas, ela se encostou contra a porta
para inspirar fundo, recobrando o flego. "Meu Deus", pensou ela. Com ou sem votos
de matrimnio, com ou sem culpa, decidiu que, mesmo que ele no estivesse no clima
para o que aconteceria mais tarde, ela certamente estaria.

  Ela voltou a olhar para o relgio, com a certeza de que aquelas seriam as cinco
horas mais longas de sua vida.
                                        38



-- DESGRAA! -- era o que Kevin no parava de dizer. -- Desgraa!

  Ele estava dirigindo h horas. Parou para comprar quatro garrafas de vodca em um
supermercado. Uma delas j estava pela metade e, enquanto dirigia, enxergava tudo
dobrado, a menos que apertasse os olhos, mantendo um deles fechado.

  Estava procurando por bicicletas. Quatro, incluindo uma com cestinhas. Na situao
em que se encontrava, era como se estivesse procurando por um peixe especfico no
meio de um oceano. Indo por uma rua e voltando por outra, conforme a tarde avanava
e a noite comeava a cair. Olhava de um lado para o outro. Sabia onde ela morava,
sabia que, mais cedo ou mais tarde, ela voltaria para casa. Entretanto, naquele
momento, o homem grisalho estava em algum lugar com Erin, rindo dele, dizendo ao
seu ouvido: "Sou muito melhor do que Kevin, meu bem".

  Ele gritava palavres dentro do carro, socando o volante. Deslizou a trava de
segurana da arma vrias vezes, de um lado para o outro, imaginando que Erin beijava
o homem grisalho, o brao dele ao redor de sua cintura. Lembrando-se do quanto ela
parecia estar feliz, pensando que havia enganado seu marido. Traindo-o. Gemia e
murmurava debaixo do seu amante enquanto ele arfava sobre ela.

  Kevin mal conseguia enxergar, lutando contra a viso embaada com apenas um
olho. Um carro se aproximou dele por trs  medida que dirigia pelas ruas do bairro,
seguindo-o de perto e depois piscando os faris. Ele diminuiu a velocidade do carro e
parou ao lado do meio-fio, dedilhando sua pistola. Detestava pessoas grosseiras,
dessas que achavam que eram as donas da rua. Bang.

  O entardecer transformou as ruas em um labirinto de sombras, fazendo com que fosse
difcil identificar os contornos esguios das bicicletas. Quando passou pela rua de
cascalhos novamente, Kevin decidiu dar meia-volta e visitar a casa de Erin novamente.
Parou o carro logo antes de avistar a casa dela e desceu. Um gavio voava em crculos
no cu e ele ouviu as cigarras cantando, mas, de maneira geral, o lugar parecia deserto.
Comeou a andar em direo  casa, porm, ainda  distncia, viu que no havia
nenhuma bicicleta encostada em frente. Nenhuma lmpada acesa tambm. Mesmo
assim, ainda no havia escurecido e ele foi at a porta dos fundos. Destrancada, assim
como estava antes.

  Ela no estava em casa e Kevin imaginou que Erin no havia voltado at ali desde
que ele visitara a casa, mais cedo. Ele tinha certeza de que ela abriria as janelas,
tomaria um copo d'gua, poderia at mesmo tomar um banho. Nada. Ele saiu pela porta
dos fundos, olhando para a casa vizinha. Estava em pssimas condies.
Provavelmente abandonada. Isso era bom. Mesmo assim, o fato de Erin no estar em
casa significava que ela estava com o homem grisalho, que havia ido at a casa dele.
Traindo, fingindo que no era casada. Esquecendo-se da casa que Kevin havia lhe
comprado.

   Sua cabea latejava no mesmo compasso das batidas do seu corao, como uma faca
que no se cansasse de apunhal-lo. Punhalada. Punhalada. Punhalada. Era muito
difcil conseguir se concentrar enquanto fechava a porta por trs de si. Pelo amor de
Deus, estava mais fresco fora da casa do que dentro. Ela vivia em uma sauna, suando
com um homem grisalho. Eles estavam suando juntos agora, em algum lugar,
contorcendo-se entre lenis, com os corpos entrelaados. Coffey e Ramirez estavam
rindo daquilo, rindo tanto que no conseguiam mais falar, divertindo-se s custas do
seu sofrimento. "Eu queria poder transar com ela tambm", dizia Coffey a Ramirez.
"Ah, voc no sabia? Ela transou com metade da delegacia enquanto Kevin estava
trabalhando. Todo mundo sabe disso", respondeu Ramirez. Bill acenava do seu
escritrio, com os documentos da suspenso na mo. "Eu transei com ela tambm,
todas as teras, durante um ano inteiro. Ela  uma fera na cama. Sempre diz as coisas
mais sujas".

   Voltou a passos trpegos para o carro, com o dedo no gatilho da pistola.
Desgraados, todos eles. Kevin os odiava. Imaginou-se entrando na delegacia e
descarregando a Glock, esvaziando todo o pente de balas, mostrando a eles. Mostrando
a todos eles. E a Erin tambm.
  Ele parou e se curvou ao lado da estrada, vomitando novamente. Com o estmago
dolorido pelas clicas, uma sensao de que havia algo lhe corroendo por dentro,
como um animal preso dentro de seu corpo, que tentava lhe rasgar a carne com as
garras para se libertar. Vomitou de novo e depois teve espasmos secos. O mundo girou
quando tentou se levantar. O carro estava perto e ele cambaleou at o veculo. Pegou a
vodca e bebeu, tentando pensar como Erin, mas olhou em volta e viu que estava em um
churrasco, segurando um bife de hambrguer coberto por moscas enquanto todos lhe
apontavam o dedo e riam.

  De volta ao carro. A vadia tinha que estar em algum lugar. Ela iria assistir quando o
homem grisalho morresse. Observar quando todos morressem. Queimar no inferno,
queimar, queimar, todos eles. Com cuidado, ele entrou e deu a partida no carro. Deu
marcha  r e acabou batendo em uma rvore  medida que tentava dar meia-volta.
Logo depois, xingando, acelerou com fora para sair dali, fazendo voar os pedregulhos
que cobriam a rua.

  A noite no demoraria a cair. Ela veio nesta direo, tinha que estar por perto.
Crianas pequenas no eram capazes de pedalar por tanto tempo. Cinco ou seis
quilmetros, talvez sete. Ele havia passado por todas as ruas naquela regio, olhara em
cada casa. Nenhuma bicicleta  vista. Podiam estar dentro de alguma garagem ou
estacionadas no quintal de alguma casa. Ele esperaria e ela acabaria voltando para
casa em algum momento. Esta noite. Amanh. Amanh  noite. Ele enfiaria a arma na
boca de Erin, apontaria para os seus seios. "Me diga quem  ele", diria Kevin. "Quero
apenas conversar com ele". Ele encontraria o homem grisalho e mostraria a ele o que
acontece com homens que dormem com as esposas de outros homens.

  Parecia que ele estava sem dormir h semanas, sem comer h semanas. No
conseguia entender por que tudo estava escuro e comeou a imaginar o que estaria
acontecendo. No se lembrava exatamente de quando chegara at ali. Lembrou-se de
avistar Erin, lembrou-se de tentar segui-la e de dirigir, mas no tinha certeza nem
mesmo de onde estava.

  Uma loja apareceu  sua direita, um lugar parecido com uma casa com uma varanda
em frente. "Gasolina e lanchonete", dizia uma placa. Ele se lembrava daquele lugar,
mas no sabia h quanto tempo havia estado ali. Diminuiu a velocidade do carro
involuntariamente. Precisava de comida, precisava dormir. Precisava encontrar um
lugar para passar a noite. Seu estmago se revirou. Ele pegou a garrafa, colocou o
gargalo na boca e engoliu o lquido, sentindo a garganta queimar, sentindo o alvio que
a vodca lhe trazia. Mas, assim que largou a garrafa, seu estmago se revirou em outro
espasmo.

   Entrou no estacionamento, lutando para no vomitar a bebida, sentindo a boca se
encher de saliva. O tempo estava se esgotando. Pisou com fora nos freios e o carro
derrapou antes de parar em frente  loja. Ele desceu num salto. Foi at a frente do
carro e vomitou no escuro. O corpo tremia, as pernas estavam bambas. O estmago
estava a ponto de lhe sair pela boca. O fgado tambm. Tudo o que tinha dentro de si.
Percebeu que, de algum modo, ainda estava com a garrafa nas mos, no a havia
largado. Respirou fundo e bebeu, usando a vodca para enxaguar o gosto azedo que
tinha na boca, engolindo o lquido depois. Deu fim em mais uma garrafa.

  E bem ali, como se estivesse em meio a um sonho, nas sombras escuras atrs da
casa, viu quatro bicicletas encostadas lado a lado.
                                        39



KATIE FEZ COM QUE AS CRIANAS tomassem banho antes de vestirem seus pijamas.
Depois, ela entrou no chuveiro, permanecendo sob os jatos de gua e desfrutando da
sensao deliciosa do xampu e do sabonete enxaguando o sal do seu corpo depois de
um dia sob o sol.

  Preparou o macarro das crianas e, depois do jantar, olharam a coleo de DVDs,
tentando encontrar um que os dois quisessem assistir, at que finalmente concordaram
em ver Procurando Nemo. Ela se sentou entre Josh e Kristen no sof, com uma tigela
de pipocas no colo e as pequenas mos deles vinham at a tigela automaticamente, de
ambos os lados. Ela usava uma cala de moletom confortvel que Alex havia deixado
sobre a cama e uma camiseta velha do time de futebol americano Carolina Panthers.
Estava sentada com as pernas cruzadas no sof enquanto assistiam ao filme, sentindo-
se relaxada pela primeira vez no dia.

  Do lado de fora, o cu se tingia de vrias tonalidades diferentes, quase como num
show de fogos de artifcios. As cores vibrantes do arco-ris se esmaeceram em tons
pastis antes de finalmente darem lugar ao azul-acinzentado do crepsculo e ao azul-
ndigo da noite. As estrelas comearam a tremeluzir no cu enquanto as ltimas ondas
de calor subiam do cho.

  Kristen havia comeado a bocejar conforme o filme avanava, mas sempre que a
personagem Dory aparecia na tela, a garota dizia: "Ela  a minha favorita, mas eu no
me lembro por qu!" Do outro lado do sof, Josh se esforava para ficar acordado.

  Quando o filme acabou e Katie se inclinou para desligar o DVD, Josh levantou a
cabea e desabou no sof. Como ele era grande demais, ela no conseguiu carreg-lo,
ento cutucou-o no ombro, dizendo-lhe que era hora de ir para a cama. Ele resmungou
e reclamou antes de se sentar. Bocejou e se levantou e, com Katie ao seu lado,
cambaleou at o quarto. Deitou-se sem reclamar e ela lhe deu um beijo de boa-noite.
Sem saber se ele preferia dormir com o abajur ligado, ela acendeu a luz do corredor e
deixou a porta entreaberta.

  Kristen foi a prxima. Ela pediu a Katie que se deitasse ao seu lado por alguns
minutos e Katie o fez, olhando para o teto, sentindo o calor e o cansao do dia
comeando a tirar suas foras. A menina adormeceu logo e Katie teve que se esforar
para conseguir ficar acordada antes de sair do quarto na ponta dos ps.

  Depois, aproveitou para limpar o que havia sobrado do jantar e esvaziou a tigela de
pipocas. Olhando pela sala de estar, percebeu as evidncias da presena das crianas
por toda a parte: uma pilha de quebra-cabeas em uma estante, um cesto de brinquedos
no canto da sala e sofs revestidos em couro, admiravelmente  prova de
derramamento de lquidos. Estudou tambm os enfeites que estavam distribudos pelo
cmodo: um relgio antigo, que precisava que algum lhe desse corda todos os dias,
um conjunto antigo de enciclopdias em uma estante ao lado da poltrona, um vaso de
cristal sobre a mesa ao lado da janela. Nas paredes, fotografias em preto e branco de
antigos celeiros usados para armazenar tabaco. Eram uma coisa tpica do sul dos
Estados Unidos e ela se lembrava de haver visto vrias daquelas cenas rsticas
enquanto viajava pela Carolina do Norte.

  Havia tambm indcios da vida catica de Alex: uma mancha vermelha no tapete em
frente ao sof, marcas e ranhuras no piso de madeira, poeira acumulada nos rodaps.
Mesmo assim, enquanto observava os detalhes da casa, no conseguiu deixar de sorrir,
porque todas aquelas coisas refletiam a pessoa que Alex era. Um pai solteiro, fazendo
o melhor que podia para manter uma casa organizada, mesmo que no conseguisse
fazer tudo com perfeio. A casa era um retrato de sua vida e ela gostava daquela
sensao tranquila e confortvel.

  Katie apagou as luzes e se deixou cair no sof. Pegou o controle remoto e comeou a
procurar algo interessante nos canais da TV a cabo, algo que no precisasse de tanta
ateno. J eram quase 10 horas e Alex ainda levaria uma hora para chegar. Ela se
deitou no sof e comeou a assistir a um programa no canal Discovery, um programa
sobre vulces. Percebeu que havia um reflexo na tela da televiso e se esticou para
desligar o abajur na mesinha de canto, deixando a sala mais escura. Melhor assim.
  Assistiu ao programa por alguns minutos, quase sem notar que, toda vez que piscava,
seus olhos se fechavam por uma frao de segundo mais longa que a anterior. Sua
respirao ficou mais lenta e ela comeou a afundar entre as almofadas. As imagens
comearam a correr por sua mente. Incoerentes a princpio. Imagens dos brinquedos do
parque de diverses, a vista do alto da roda-gigante. Pessoas em grupos aleatrios,
jovens e velhos, adolescentes e casais. Famlias. E, em algum ponto ao longe, um
homem que usava culos escuros e um bon de beisebol andando entre a multido,
movendo-se com um objetivo em mente antes que ela o perdesse de vista. Katie
reconheceu alguns aspectos: o jeito de caminhar, o contorno do queixo, a maneira
como ele movia os braos.

   Estava quase dormindo agora, relaxando e se lembrando. As imagens comeavam a
ficar borradas, o som da televiso ficava mais suave. Relaxou ainda mais e sua mente
insistia em se lembrar da vista que tinha do alto da roda-gigante. E,  claro, do homem
que havia visto, um homem que se movia como um caador na floresta,  procura de
sua caa.
                                        40



KEVIN OLHAVA FIXAMENTE para as janelas do primeiro andar, bebendo lentamente da sua
garrafa de vodca, a terceira naquele dia. Ningum olhava para ele mais de uma vez.
Estava em p no ancoradouro atrs da casa; havia trocado de roupas e agora vestia
uma camisa preta de mangas compridas e um jeans escuro. Apenas seu rosto estava
visvel, mas ele estava em p sob a sombra de um cipreste, escondido atrs do porta-
malas. Observando as janelas, observando as luzes, procurando por algum sinal de
Erin.

  Durante um longo tempo, nada aconteceu. Ele bebia, querendo sorver todo o
contedo da garrafa. As pessoas entravam e saam da loja a cada poucos minutos,
frequentemente usando seus cartes de crdito para comprar gasolina na bomba.
Movimento, movimento, mesmo ali, no meio de lugar nenhum. Ele foi at uma das
laterais da loja, olhando para cima, em direo s janelas. Reconheceu o brilho azul e
                                                                  ,
oscilante de um aparelho de televiso. Os quatro, assistindo  TV agindo como uma
famlia feliz. Ou talvez as crianas j estivessem dormindo, cansadas depois do
passeio no parque de diverses. Talvez estivessem na sala apenas Erin e o homem
grisalho, rolando no sof, trocando beijos e carcias enquanto Meg Ryan ou Julia
Roberts se apaixonavam por algum na tela.

  Tudo doa. Ele estava cansado e seu estmago continuava a se revirar. Poderia ter
subido as escadas e arrombado a porta com um pontap, poderia j ter matado os dois
uma dzia de vezes e queria acabar logo com isso, mas havia pessoas na loja. Carros
no estacionamento. Havia empurrado seu prprio carro at um lugar sob a rvore nos
fundos da loja, para que no fosse visto por pessoas que estivessem passando por ali.
Queria apontar a Glock e puxar o gatilho, queria observ-los enquanto morriam, mas
tambm queria se deitar e dormir. Nunca se sentira to cansado em sua vida e, quando
acordasse, queria encontrar Erin ao seu lado, sonhando que ela nunca o abandonara.
  Algum tempo depois, viu a silhueta dela na janela, viu-a sorrir enquanto se virava e
soube que ela estava pensando no homem grisalho. Pensando sobre sexo, e a Bblia
dizia: Aqueles que se entregarem  fornicao e aos prazeres da carne sero
punidos de maneira exemplar, sofrendo a vingana do fogo eterno.

  Ele era um anjo do Senhor. Erin havia pecado, e a Bblia dizia: Que ela seja
atormentada com o fogo e a luz sagrada na presena dos anjos.

  Na Bblia sempre havia fogo, porque o fogo purificava e condenava, e Kevin
entendia aquilo. O fogo era poderoso, a arma dos anjos. Ele bebeu os ltimos goles de
vodca que restavam em sua garrafa e chutou-a para debaixo de alguns arbustos. Um
carro estacionou ao lado das bombas de gasolina e um homem saiu do veculo. Inseriu
seu carto de crdito na bomba e comeou a abastecer o carro. A placa ao lado da
bomba informava s pessoas que fumar era ilegal, pois a gasolina era inflamvel.
Dentro da loja havia fluido de isqueiro para ser usado com carvo. Kevin se lembrava
do homem que estava  sua frente na fila do caixa, com uma lata de fluido na mo.

  Fogo.


ALEX SE MEXEU NO ASSENTO do carro e ajustou suas mos ao volante, tentando encontrar
uma posio confortvel. Joyce e sua filha estavam no banco traseiro e no paravam de
falar desde o momento em que entraram no carro.

  O relgio no painel mostrava que estava ficando tarde. As crianas j estavam na
cama, ou estavam indo se deitar e ele se sentiu aliviado ao pensar naquilo. Na viagem
de volta, havia bebido uma garrafa de gua, mas ainda sentia sede e debatia consigo
mesmo se devia parar novamente. Tinha certeza de que Joyce e sua filha no se
importariam, mas no queria parar. Queria apenas voltar logo para casa.

  Enquanto dirigia, sentiu sua mente devanear. Pensou em Josh e Kristen, pensou em
Katie e relembrou-se de alguns momentos que passara com Carly. Tentou imaginar o
que Carly diria a respeito de Katie e se Carly gostaria que sua carta fosse entregue a
ela. Lembrou-se do dia em que vira Katie ajudando Kristen a vestir sua boneca e
lembrou-se do quanto estava bonita na noite em que lhe preparara o jantar. Saber que
ela estava em sua casa, lhe esperando, fez com que ele sentisse o desejo de pisar fundo
no acelerador.

  Do outro lado da rodovia, pontos brilhantes de luz apareciam no horizonte, ficando
maiores, faris dos carros que vinham em sentido contrrio. Maiores e mais brilhantes
at que passavam por ele. No espelho retrovisor, luzes vermelhas se afastavam at
sumirem ao longe.

  Um claro brilhou ao sul, fazendo com que o cu se iluminasse por alguns instantes.
Passou por uma casa rural que estava  direita da estrada, com as luzes acesas no
andar trreo. Ultrapassou um caminho com placas do estado da Virgnia e agitou os
ombros, tentando aliviar a fadiga que sentia. Passou pela placa que indicava quantos
quilmetros ainda faltavam para que chegasse a Wilmington e suspirou. Ainda tinha um
longo caminho pela frente.


AS PLPEBRAS DE KATIE se agitavam enquanto ela sonhava. Seu subconsciente estava
trabalhando ferozmente. Pedaos, partes e fragmentos tentando se conectar uns com os
outros.

  O sonho acabou. Alguns minutos depois ela levantou os joelhos e se virou,
deitando-se de lado, quase acordada. Sua respirao voltou a ficar mais lenta.


S 10 HORAS DA NOITE, o estacionamento estava quase vazio. Faltava pouco para que o
expediente do dia se encerrasse e Kevin deu a volta na casa, indo at a porta da loja,
apertando os olhos quando a luz da porta iluminou seu rosto. Na caixa registradora
havia um homem usando um avental. Kevin lembrava-se vagamente dele, mas no sabia
de onde. O avental do homem era branco, com o nome "Roger" escrito do lado direito.

  Kevin passou pela caixa registradora, esforando-se para balbuciar as palavras. --
Fiquei sem gasolina na estrada.

  -- Os gales de gasolina esto na prateleira do outro lado da loja -- respondeu
Roger, sem levantar os olhos. Quando finalmente o fez, ele os abriu e fechou
rapidamente. -- Voc est bem?

  -- Estou apenas cansado -- disse Kevin, j no corredor, tentando no atrair ateno
sobre si mesmo, mas ciente de que o homem o observava. A Glock estava na sua
cintura e tudo o que Roger tinha que fazer era cuidar da prpria vida. Na prateleira do
fundo da loja, Kevin viu trs gales plsticos de 18 litros e pegou dois deles. Em
seguida, levou-os  caixa registradora e deixou o dinheiro sobre o balco.

  -- Vou pagar depois de ench-los -- disse ele.

  Do lado de fora, ele encheu um dos gales com gasolina, observando enquanto os
nmeros giravam na bomba. Encheu o segundo e voltou para dentro da loja. Roger o
encarava. Hesitou na hora de lhe dar o troco.

  --  muita gasolina para carregar sozinho.

  -- Erin vai precisar.

  -- Quem  Erin?

  Kevin piscou os olhos. -- Posso pagar pela maldita gasolina ou no?

  -- Tem certeza de que est em condies de dirigir?

  -- Passei mal hoje -- resmungou Kevin. -- Fiquei vomitando o dia inteiro.

  No tinha certeza se Roger acreditava nele. Depois de um momento, Roger pegou o
dinheiro e lhe deu o troco. Kevin deixou os gales ao lado das bombas de gasolina e
foi at l para peg-los. Era como levantar dois gales de chumbo. Fez fora, sentiu o
estmago se revirar, a dor pulsando entre as orelhas. Andou em direo  estrada,
deixando as luzes da loja para trs.

  No escuro, ele escondeu os dois gales no meio do capim alto ao lado da estrada.
Depois, deu a volta e foi para os fundos da loja. Esperando at que Roger fechasse a
loja, esperando que as luzes se apagassem. Esperando at que todos estivessem
dormindo no andar de cima. Pegou a outra garrafa de vodca que estava no carro e
tomou um gole.


EM WILMINGTON, Alex comeou a se animar, sabendo que estava chegando perto de
casa. No demoraria muito, talvez meia hora at chegar a Southport. Levaria mais
alguns minutos para levar Joyce e sua filha at em casa e depois ele poderia finalmente
descansar.

  Imaginou se encontraria Katie esperando por ele na sala de estar ou se a encontraria
em sua cama, como ela havia insinuado.

  Era o tipo de coisa que Carly costumava fazer. Poderiam estar falando sobre a loja
ou sobre a possibilidade de que seus pais estivessem gostando de viver na Flrida,
quando, sem qualquer motivo aparente, ela diria que estava entediada e perguntaria a
ele se queria ir para o quarto e se divertir um pouco.

  Olhou mais uma vez para o relgio. Dez e quinze. Katie estava esperando. Ao lado
da estrada, Alex percebeu seis ou sete cervos paralisados sobre a grama, com os olhos
refletindo a luz dos faris, brilhando como se algo sobrenatural estivesse acontecendo.
Como se estivessem amedrontados.


KEVIN OBSERVOU QUANDO AS LUZES fluorescentes instaladas sobre as bombas de gasolina
se apagaram. As luzes da loja se apagaram a seguir. Do lugar onde estava escondido,
ele avistou Roger trancando a porta. Deu um puxo na maaneta, certificando-se de que
o lugar estava seguro antes de se virar. Foi at uma caminhonete marrom estacionada
no canto mais distante do estacionamento e entrou no veculo.

   O motor ligou com um rangido. Uma das correias estava solta. Roger aumentou a
rotao do motor, ligou os faris e engatou a marcha da caminhonete. Deu a volta para
ir at a estrada e se dirigiu ao centro da cidade.

  Kevin esperou cinco minutos, para ter certeza de que Roger no daria meia-volta e
retornasse. A estrada em frente  loja estava silenciosa agora. Nenhum carro ou
caminhonete vindo de qualquer direo. Correu at os arbustos onde havia escondido
os gales. Observou a estrada novamente. Levou um dos gales at os fundos da loja.
Fez o mesmo com o segundo galo, colocando-os ao lado de latas de lixo metlicas,
abarrotadas com comida apodrecida. O mau cheiro era insuportvel.

  No andar de cima, a televiso continuava a banhar uma das janelas com luz azul. No
havia outras luzes acesas na casa e ele sabia que os dois estavam nus. Sentiu a raiva
crescer dentro de si. "Agora", pensou ele. Quando estendeu a mo para pegar os gales
de gasolina, viu que havia quatro ao seu lado. Fechou um dos olhos e, novamente, eram
apenas dois. Tropeou ao dar um passo e quase caiu para frente, desequilibrando-se,
agitando os braos enquanto tentava agarrar o canto da parede para no cair. No
conseguiu e desabou no cho, a cabea batendo no cascalho. Viu estrelas e fascas,
sentiu uma dor dilacerante. Era difcil respirar. Tentou se levantar e caiu novamente.
Rolou no cho, deitado, e sentiu o cascalho nas costas, e olhou fixamente para as
estrelas.

  No estava bbado, porque nunca ficava bbado, mas havia algo errado. Luzes
cintilantes giravam e giravam, capturadas em um redemoinho que ficava cada vez mais
veloz. Fechou os olhos com fora, mas a sensao de que tudo estava girando ficou
ainda pior. Rolou no cho e ficou deitado de lado, vomitando no cascalho. Algum
devia ter lhe dado algum tipo de droga, porque ele passara o dia inteiro sem beber
praticamente nada e nunca em sua vida havia passado to mal.

   Ele tateou s cegas, tentando encontrar a lata de lixo. Segurou-se na tampa e tentou
us-la para se equilibrar, mas puxou com muita fora. A tampa se soltou e um saco de
lixo se desprendeu, caindo no cho com um barulho ensurdecedor.


NO ANDAR DE CIMA, Katie acordou agitada, ouvindo o som de alguma coisa caindo com
um estrondo. Estava perdida em seu sonho e demorou um instante at que seus olhos se
abrissem. Um pouco atordoada, ela tentou prestar ateno no rudo, mas no sabia por
que estava fazendo aquilo, no tinha certeza se havia sonhado com o barulho ou no.
Mas no havia nada.

  Voltou a se deitar, permitindo-se adormecer novamente e o sonho continuou do ponto
onde havia parado. Ela estava no parque de diverses, na roda-gigante, mas no era
mais Kristen que estava sentada ao seu lado.

  Era Jo.


KEVIN FINALMENTE conseguiu se levantar, sem que voltasse a cair. No conseguia
entender o que estava lhe acontecendo. Concentrou-se e tentou recuperar o flego,
respirando, inspirando, expirando, inspirando, expirando. Viu os gales de gasolina e
andou em direo a eles, quase caindo novamente durante aquele curto trajeto.

  Mas no caiu. Levantou uma lata e depois andou a passos lentos e trpegos na
direo das escadas na parte de trs da casa. Estendeu o brao para segurar o
corrimo, mas sua mo no tocou em nada. Tentou mais uma vez. Finalmente sentiu a
mo pegar em algo slido. Puxou o galo de gasolina escada acima, em direo 
porta. Parecia que estava escalando uma montanha, levando um peso de uma tonelada
nas mos. Por fim, alcanou o ltimo degrau, arfando, e se agachou para remover a
tampa. O fluxo de sangue lhe encheu a cabea, deixando-o estonteado, mas ele se
apoiou no galo para no cair novamente. Demorou um pouco at que ele conseguisse
abrir a tampa, porque ela teimava em escorregar por entre seus dedos.

  Quando o galo estava aberto, ele levantou o recipiente e ensopou a varanda que
levava at a entrada da casa, jogando a gasolina contra a porta. A cada movimento o
galo ficava mais leve, a gasolina se espalhava em arcos, encharcando a parede.
Estava ficando mais fcil agora. Ele esparramava o lquido de um lado para o outro,
tentando atingir os dois lados da estrutura. Comeou a descer as escadas, molhando
tudo o que estava  sua volta. O cheiro da gasolina o deixava enjoado, mas ele no
parou.

  No restava muita gasolina no galo quando ele chegou ao cho e aproveitou para
descansar. Estava respirando com dificuldade, o vapor da gasolina de novo lhe deu
nuseas, mas ele comeou a se mover novamente, com um propsito. Determinado.
Jogou o galo vazio para longe e pegou o outro. No conseguiu jogar a gasolina nas
partes mais altas da parede, mas fez o que era possvel. Encharcou um lado e depois o
outro. Acima dele, a janela ainda brilhava com a luz que vinha da televiso, mas tudo
estava em silncio.

   Kevin virou todo o contedo do galo do outro lado da casa e foi quando percebeu
que no tinha mais combustvel para a parte da frente. Olhou para a estrada; no tinha
nenhum carro vindo, nenhum movimento em ambas as direes. No andar de cima, Erin
e o homem grisalho estavam nus, rindo dele. Erin fugiu de casa e ele quase a encontrou
na Filadlfia, mas naquela poca ela dizia que seu nome era rica, no Erin, e agora
fingia que seu nome era Katie.
   Ficou parado em frente  loja, pensando nas janelas. Talvez houvesse algum alarme,
talvez no. Ele no se importava. Precisava de fluido de isqueiro, leo para motor,
removedor, qualquer coisa que queimasse com facilidade. Quando quebrasse a janela,
ele no teria muito tempo.

  Golpeou a janela com o cotovelo, estilhaando o vidro, mas no ouviu nenhum
alarme. Retirando os pedaos de vidro, nem chegou a sentir seus dedos cortados e
sangrando. Mais estilhaos de vidro e algumas partes da janela comearam a se abrir.
Pensou que a abertura era grande o bastante para que ele pudesse atravess-la, mas seu
brao se prendeu em um estilhao longo e afiado. Puxou o brao e sua carne se rasgou.
Mas no podia parar agora. O sangue escorreu, misturando-se com os cortes em seus
dedos.

  Os refrigeradores no fundo da loja ainda estavam iluminados e ele andou pelo
corredor, imaginando se caixas de cereal queimariam com facilidade ou se pacotes de
po seriam inflamveis. Ou DVDs. Ele encontrou o carvo e o fluido de isqueiro --
apenas duas latas, no havia muito. No era o bastante. Piscou, olhando em volta e
tentando encontrar alguma outra coisa. Viu a churrasqueira e a chapa de hambrgueres
do outro lado da loja.

  Gs de cozinha.

  Ele se aproximou da rea da lanchonete e ficou em frente  chapa. Acendeu um dos
bicos de gs e depois outro. Provavelmente havia uma vlvula em algum lugar, mas
no sabia onde ela estava e no tinha tempo para procur-la. Algum poderia chegar e
Coffey e Ramirez estavam falando sobre ele, rindo e perguntando se havia comido o
bolo de carne de caranguejo em Provincetown.

  O avental de Roger estava pendurado em uma prateleira e Kevin o jogou no fogo.
Abriu a lata de fluido de isqueiro que tinha na mo e espalhou o contedo nas laterais
da chapa. O sangue deixava a lata escorregadia e ele se perguntava de onde vinha todo
aquele sangue. Subiu no balco e espalhou um pouco do fluido no teto antes de voltar
para o cho. Fez uma trilha de fluido na frente da loja e percebeu que o avental havia
comeado a queimar. Esvaziou a lata e jogou-a no cho. Abriu a segunda lata e a
apertou, lanando jatos de fluido de isqueiro em direo ao teto. As chamas do avental
comearam a se espalhar pelo teto e pelas paredes. Foi at a caixa registradora,
procurou por um isqueiro e achou um monte deles em uma caixa de plstico ao lado
dos cigarros. Apertou a lata de fluido e espalhou o lquido sobre a caixa registradora e
sobre a pequena mesa que havia atrs dela. Esvaziou a lata e cambaleou em direo 
janela que havia quebrado h alguns minutos. Atravessou-a para sair, pisando nos
cacos de vidro, ouvindo-os se partir sob seus ps. Ao lado da casa, acendeu o isqueiro
e segurou-o contra a parede encharcada de gasolina, observando a madeira pegar fogo.
Nos fundos, ateou fogo nos degraus da escada e as chamas se elevaram rapidamente,
alcanando a porta e se espalhando pelo telhado. A seguir, a outra lateral.

  O fogo se ergueu por toda a parte. O exterior da casa tremia com as chamas. Erin era
uma pecadora, seu amante era um pecador, e a Bblia dizia: Sofrero o castigo da
destruio eterna.

  Ele se afastou, observando o fogo comeando a consumir a casa, esfregou o rosto e
deixou uma trilha de sangue. Banhado pela luz alaranjada das chamas, Kevin parecia
um monstro.


EM SEU SONHO, Jo no estava sorrindo ao lado de Katie na roda-gigante. Parecia
procurar algo ou algum na multido abaixo, com uma expresso de concentrao em
seu rosto.

  Ali, disse ela, apontando. Logo ali. Voc consegue v-lo?

  "O que voc est fazendo aqui? Onde est Kristen?"

  Ela est dormindo. Mas voc precisa se lembrar.

  Katie olhou, mas havia gente demais, movimento demais. "Onde?" Perguntou ela.
"No consigo ver nada."

  Ele est aqui, disse Jo.

  "Quem?"

  Voc sabe.

  Em seu sonho, a roda-gigante parou de girar repentinamente, com um rudo alto e
estridente, como o de uma vidraa se estilhaando, e pareceu assinalar uma mudana.
As cores do parque de diverses comearam a se esmaecer e a cena abaixo se
dissolveu em uma nvoa que no estava ali antes. Como se o mundo estivesse
lentamente sendo apagado, quando, em seguida, tudo ficou escuro. Ela estava cercada
por uma escurido impenetrvel, interrompida apenas por algumas centelhas estranhas
na periferia do seu campo de viso e pelo som de uma pessoa falando.

  Katie ouviu a voz de Jo, quase como um sussurro.

  Est sentindo esse cheiro?

  Katie inspirou o ar, ainda perdida em meio  escurido. Seus olhos se abriram. Por
algum motivo eles ardiam e ela tentou olhar em volta para ver o que estava
acontecendo. A televiso ainda estava ligada, quando ela percebeu que havia
adormecido no sof. As lembranas do sonho j estavam se dissolvendo, mas ouviu as
palavras de Jo claramente dentro de sua cabea:

  Est sentindo esse cheiro?

  Katie respirou fundo  medida que movia o corpo para se sentar no sof e
imediatamente comeou a tossir. Levou apenas um instante para que percebesse que a
sala estava tomada pela fumaa. Ela se levantou do sof num pulo.

  Fumaa era sinal de fogo e agora ela era capaz de ver as chamas do lado de fora da
janela, danando e se contorcendo em tons de laranja. A porta estava em chamas e a
fumaa entrava pela cozinha em nuvens espessas. Ouviu um estrondo, um som parecido
com o de um trem, e o barulho de madeira crepitando e cedendo s rachaduras, sua
mente recebendo todas aquelas informaes ao mesmo tempo.

  "Oh, meu Deus. As crianas."

  Ela disparou em direo ao corredor, amedrontada ao ver que a fumaa saa dos
dois quartos em grossas nuvens negras. A primeira porta era a do quarto de Josh, e
Katie correu para dentro, agitando os braos para afastar a fumaa.

  -- Josh! Acorde! A casa est pegando fogo! Precisamos sair daqui!
  Ele estava a ponto de reclamar, mas ela o puxou para que se levantasse, impedindo-o
de falar.

  -- Vamos logo! -- gritou. Josh imediatamente comeou a tossir, com o corpo
curvado enquanto ela o arrastava para fora do quarto. O corredor era uma muralha
impenetrvel de fumaa, mas mesmo assim Katie correu para frente, puxando Josh logo
atrs de si. Apalpando a parede, encontrou o batente da porta do quarto de Kristen do
outro lado do corredor.

  No estava to ruim quanto o quarto de Josh, mas ela sentiu o calor enorme que
estava se formando atrs deles. Josh continuava a tossir, respirando com dificuldade,
lutando para continuar em p e ela sabia que no poderia soltar a mo do garoto por
nada. Correu para a cama de Kristen e balanou seu corpo, puxando-a para fora das
cobertas com a outra mo.

  O barulho do fogo queimando era to alto que Katie mal conseguia ouvir o som da
sua prpria voz. Tentando tirar as crianas da casa, mesmo que tivesse que carreg-las
ou arrast-las, viu um brilho alaranjado, quase invisvel em meio  fumaa, na entrada
do corredor. As chamas estavam tomando as paredes e o teto e vinham em direo a
eles. Katie no tinha tempo para pensar, apenas para agir. Ela se virou e empurrou as
crianas de volta pelo corredor, em direo ao quarto de Alex, onde no havia tanta
fumaa.

  Correu para o quarto, acendendo a luz. Ainda funcionava. A cama de Alex ficava
encostada em uma das paredes e havia uma cmoda na parede oposta. Logo em frente
havia uma cadeira de balano e janelas que, por sorte, ainda no haviam sido tocadas
pelo fogo. Ela fechou a porta com fora atrs de si.

  Tomada pelos espasmos da tosse, avanou a passos trpegos, arrastando Josh e
Kristen. Ambos choravam em meio aos fortes acessos de tosse. Ela tentou se
desvencilhar deles para abrir a janela do quarto, mas Kristen e Josh estavam agarrados
a ela.

  -- Eu preciso abrir a janela! -- gritou Katie, agitando-se. --  a nica sada!

  Em pnico, Josh e Kristen no entendiam o que ela dizia, mas Katie no tinha tempo
para explicar. Desesperada, puxou a tranca da janela em estilo antigo com fora e
tentou abrir a vidraa. O vidro no se moveu. Olhando mais de perto, Katie percebeu
que o batente tinha uma camada de tinta que o impedia de se abrir. Algum havia
aplicado aquela camada de tinta havia vrios anos. No sabia o que fazer, mas a
imagem de duas crianas olhando diretamente em seus olhos, tomadas pelo terror,
clareou suas ideias. Ela olhou ao redor, buscando desesperadamente por alguma coisa
que pudesse servir, at que finalmente pegou a cadeira de balano.

  Era pesada, mas, de algum modo, Katie conseguiu levant-la acima dos ombros e
lan-la em direo  janela com toda sua fora. O vidro trincou, mas no abriu. Ela
tentou mais uma vez, chorando, com um ltimo esforo impulsionado pela adrenalina e
o medo e, desta vez, a cadeira de balano atravessou o vidro e bateu contra o toldo que
havia abaixo. Movendo-se rapidamente, Katie correu at a cama e arrancou o edredom
que a cobria. Enrolou-o ao redor de Josh e Kristen e comeou a empurr-los em
direo  janela.

   Um forte rudo de vigas rachando ressoou por trs dela, ao mesmo tempo em que
uma parte da parede se cobria de chamas, com o fogo atingindo e se espalhando pelo
teto. Katie se virou em pnico, parando por um momento ao notar o retrato que estava
pendurado na parede. Olhou fixamente para a foto, j sabendo que aquela era a esposa
de Alex, porque no poderia ser qualquer outra pessoa. Ela piscou, pensando que fosse
uma iluso, uma distoro criada pela fumaa e pelo medo. Deu um passo involuntrio
em direo ao rosto que lhe era estranhamente familiar quando ouviu um estrondo logo
acima da cabea. O teto comeava a ceder.

  Girando sobre os calcanhares, ela forou o corpo contra a janela, com os braos ao
redor das crianas e rezando para que o edredom os protegesse dos cacos de vidro. A
queda pareceu durar uma eternidade. Katie tentou girar enquanto caam de modo que as
crianas ficassem por cima dela. Suas costas atingiram o toldo com um baque surdo.
No foi uma queda muito grande, talvez cerca de um metro e meio; mesmo assim, o
impacto lhe tirou o flego antes que a dor lhe atingisse em ondas.

  Josh e Kristen estavam soluando, com medo, chorando e tossindo. Mas estavam
vivos. Ela piscou, tentando no desmaiar, com a certeza de que havia fraturado a
coluna. Mas percebeu que aquilo no acontecera; moveu uma perna e depois a outra.
Balanou a cabea para clarear sua viso. Josh e Kristen estavam se agitando sobre
ela, tentando se livrar do edredom. Acima, lnguas de fogo comeavam a sair pela
janela quebrada do quarto. Havia chamas por toda a parte agora, cobrindo todas as
superfcies da casa e ela sabia que tinham apenas alguns segundos de vida. A menos
que conseguisse encontrar foras para se mover.




DEPOIS DE DEIXAR JOYCE e sua filha em casa, Alex percebeu o brilho alaranjado no cu,
logo acima do contorno enegrecido das copas das rvores nos arredores da cidade.
No tinha visto aquilo quando entrou na cidade e dirigiu pelas ruas at a casa de Joyce.
Agora, entretanto, ele estranhou aquela luminescncia enquanto ia naquela direo.
Algo dentro de si lhe dizia que havia perigo adiante e ele pensou naquilo apenas
durante um instante antes de pisar fundo no acelerador.


JOSH E KRISTEN j estavam sentados quando Katie rolou de lado. O cho ficava a cerca
de trs metros do toldo, mas ela tinha que arriscar. Seu tempo estava se esgotando.
Josh continuava a chorar, mas no protestou quando Katie explicou rapidamente o que
iria acontecer a seguir. Ela o pegou pelos braos, tentando manter a voz firme.

  -- Vou abaix-lo o mximo que eu puder, mas depois voc vai ter que pular.

  Ele assentiu, aparentemente ainda em choque, e ela rapidamente se arrastou para a
borda, levando Josh consigo. O toldo estava balanando agora, com o fogo tomando
rapidamente suas colunas de sustentao. Josh desceu pela borda, deixando suas
pernas suspensas por um momento, segurando-se, e Katie deslizando de bruos em
direo  borda. Baixando-o... sentindo a agonia nos braos. Pouco mais de um metro,
no mais do que isso. O garoto no cairia de uma altura muito grande e provavelmente
suas pernas absorveriam o impacto.

  Ela o soltou quando algumas vigas do telhado cederam, fazendo a casa estremecer.
Tremendo, Kristen veio engatinhando at onde Katie estava.

  -- Venha, querida.  sua vez agora. Me d sua mo -- disse Katie, com uma
expresso urgente nos olhos.
  Fez a mesma coisa com a menina, prendendo o flego quando a soltou. Um momento
depois, os dois estavam em p no cho, olhando fixamente para ela. Estavam
esperando por Katie.

  -- Corram! -- gritou ela. -- Afastem-se daqui!

  Suas palavras foram engolidas por outro acesso de tosse e Katie sabia que tinha que
agir. Agarrou a borda do toldo e deixou uma das pernas balanar, suspensa, e depois a
outra. Ficou pendurada apenas por um instante antes de suas mos fraquejarem.

  Katie caiu no cho e sentiu seus joelhos dobrarem antes de seu corpo rolar at a
entrada da loja. A agonia da dor que sentia em sua perna era suficiente para lhe fazer
gritar, mas ela precisava levar as crianas para um local seguro. Foi apressadamente
at eles, pegando-os pelas mos e puxando-os para longe.

  O fogo danava pela estrutura, saltando, cuspindo chamas em direo ao cu.
rvores prximas tambm estavam pegando fogo, com os ramos mais altos brilhando
como fogos de artifcios. Houve um forte estrondo, alto o bastante para deixar seus
ouvidos zunindo. Olhando rapidamente por sobre o ombro, viu as paredes da casa
desabarem. Em seguida veio o som ensurdecedor de uma exploso e Katie e as
crianas foram jogadas para trs pelo forte deslocamento de ar quente.

   Quando os trs conseguiram recuperar o flego e se virar para olhar, a loja havia se
transformado em um gigantesco cone de fogo.

  Mas eles haviam conseguido se salvar. Ela trouxe Josh e Kristen para perto de si. Os
dois estavam chorando em voz baixa. Colocou os braos ao redor deles e beijou-lhes
na cabea. -- Vocs esto bem agora -- sussurrou ela. -- Esto seguros agora.

  Foi somente quando uma sombra apareceu  sua frente que Katie percebeu que
estava errada.

  Era ele, em p, bem diante dela, com uma pistola na mo.

  Kevin.
NO JIPE, Alex pisou fundo no acelerador, ficando mais preocupado a cada segundo que
passava. Embora o fogo ainda estivesse longe para que ele pudesse ter certeza de sua
localizao, seu estmago comeou a se revirar. No havia muitas propriedades
naquela direo. A maioria eram algumas propriedades rurais isoladas. E,  claro, sua
loja.

  Ele se inclinou sobre o volante, como se aquilo pudesse forar o carro a ganhar
velocidade. Mais rpido.


KATIE TEVE DIFICULDADES para entender o que estava vendo.

  -- Onde est ele? -- disse Kevin, com a voz rouca. As palavras atropelavam umas
s outras, mas ela reconheceu aquela voz, mesmo com o rosto dele parcialmente oculto
pelas sombras. As chamas ardiam por trs dele e seu rosto estava coberto de fuligem e
sangue. Tambm havia manchas em sua camisa de algo que ela imaginou ser sangue.
Em sua mo, a Glock brilhava, como se tivesse sido imersa em um barril de leo.

  Ele est aqui, foi o que Jo dissera no sonho de Katie.

  "Quem?"

  Voc sabe.

  Kevin levantou a arma, apontando-a para a cabea dela. -- Eu quero apenas
conversar com ele, Erin.

  Katie se levantou. Kristen e Josh se agarraram a ela, com o medo estampado nos
rostos. Os olhos de Kevin tinham uma expresso animalesca e seus movimentos
aconteciam em espasmos. Deu um passo em direo a eles, quase perdendo o
equilbrio. A arma balanava para frente e para trs. Sem firmeza.

  Ela percebeu que ele estava pronto para matar todos ali. J havia tentado mat-los
com o fogo. Mas estava bbado, muito bbado. Mais do que em qualquer ocasio em
que j houvesse bebido. Estava fora de controle, alm de qualquer possibilidade de
argumentao.
  Tinha que tirar as crianas dali, tinha que lhes dar uma chance de correr.

  -- Oi, Kevin -- disse ela, ronronando. Forou-se a sorrir. -- Por que est segurando
essa arma? Voc veio me buscar? Est tudo bem com voc, querido?

  Kevin piscou os olhos. Aquela voz, suave, sedutora, doce. Ele gostava quando ela
falava daquele jeito e achou que estivesse sonhando. Mas no era um sonho. Erin
estava bem  sua frente. Ela sorriu e deu um passo  frente. -- Eu amo voc, Kevin. Eu
sempre soube que voc viria.

  Ele a olhava fixamente. Havia duas Erin  sua frente e depois apenas uma. Kevin
havia dito s pessoas que ela estava em Manchester, cuidando de uma amiga doente,
mas no havia nenhuma pegada na neve. Suas ligaes foram transferidas para outro
nmero, um garoto havia sido baleado e havia molho de tomate na sua testa. E agora
Erin estava aqui, dizendo que o amava.

  "Mais perto", pensou Katie. "S mais um pouco". Ela deu mais um passo  frente,
empurrando as crianas para trs de si.

  -- Pode me levar para casa? -- sua voz quase implorava a ele, suplicando como
Erin costumava fazer, mas seu cabelo estava curto e castanho e ela estava se
aproximando. Ele no sabia por que ela no estava amedrontada. Queria puxar o
gatilho, mas a amava. Se conseguisse apenas fazer com que sua cabea parasse de
latejar...

  Repentinamente, Katie se precipitou para frente, empurrando o cano da arma para
outra direo. A pistola disparou, com o som de um tapa violento, mas ela continuou
forando o movimento, indo em frente, agarrada ao pulso de Kevin, sem soltar. Kristen
comeou a gritar.

  -- Corram! -- gritou Katie por cima dos ombros. -- Josh, tire Kristen daqui, corra!
Ele tem uma arma! Vo para longe e se escondam!

  O pnico na voz de Katie fez com que Josh se desse conta do perigo. Ele agarrou a
mo de Kristen e disparou para longe. Foram em direo  estrada, correndo para a
casa de Katie. Fugindo para salvar suas vidas.
  -- Vadia! -- gritou Kevin, tentando livrar o brao. Katie baixou a cabea e mordeu
com toda a fora que tinha e Kevin soltou um grito feroz. Tentando desvencilhar o
brao, golpeou a cabea dela com o outro punho. Instantaneamente, ela viu lampejos de
luz branca se aproximando. Mordeu novamente, os dentes encontrando o polegar de
Kevin desta vez, e ele gritou, largando a arma. A arma caiu no cho com um rudo e ele
voltou a socar Katie, atingindo-a em uma das mas rosto, lanando-a ao cho.

  Kevin lhe deu um chute nas costas e o corpo de Katie se arqueou com a dor. Mas ela
continuou se movendo, em pnico agora, impulsionada pela certeza de que ele queria
matar a todos, ela e as crianas. Tinha que lhes dar tempo para fugir. Ficou de quatro e
comeou a engatinhar, movendo-se rapidamente, ganhando velocidade. Finalmente
conseguiu ficar em p e disparou como uma corredora olmpica.

  Correu o mais rpido que podia, forando-se a avanar para longe, mas sentiu
quando o corpo de Kevin se chocou contra o seu por trs e novamente estava deitada
no cho, sem flego. Ele agarrou-a pelos cabelos e lhe bateu no rosto novamente.
Agarrou um dos braos de Katie e tentou torc-lo para trs das costas dela, mas estava
desequilibrado e ela conseguiu se virar. Levantando uma das mos, ela arranhou o
rosto dele, alcanando um dos olhos e cravando-lhe as unhas com fora.

  Lutando por sua vida, a adrenalina lhe enchia os braos e as pernas. Lutando por
todas as vezes em que no conseguira fazer aquilo. Lutando para dar s crianas tempo
de correr e se esconder. Gritando, xingando-o, odiando-o, recusando-se a deixar que
ele a agredisse novamente.

  Kevin tentou agarrar os dedos de Katie, cambaleando sem equilbrio, e ela usou a
oportunidade para se desvencilhar dele. Sentiu-o tentando agarrar suas pernas, mas no
conseguiu peg-la com fora o bastante e Katie conseguiu soltar uma das pernas.
Levantando o joelho at a altura do queixo, ela o chutou com toda sua fora, deixando-
o atordoado quando seu p atingiu-lhe o queixo. Ela chutou mais uma vez, observando
desta vez enquanto ele desabava sobre o cho, de lado, os braos tentando agarrar
alguma coisa inutilmente.

  Katie conseguiu se levantar e comeou a correr mais uma vez, mas Kevin no
demorou a se levantar. A alguns metros de distncia ela enxergou a pistola. E correu
em direo a ela.
ALEX DIRIGIA A UMA VELOCIDADE perigosamente alta, rezando pela segurana de Kristen,
Josh e Katie, sussurrando seus nomes em meio ao pnico que sentia.

  Passou pela via de cascalhos e contornou a curva. Seu estmago se revirou conforme
sua premonio se tornou realidade.  sua frente, a rea at o rio apareceu inteira,
como se fosse um retrato do inferno.

  Ele percebeu que havia movimento ao lado da estrada,  sua frente. Duas pessoas
pequenas, vestindo pijamas brancos. Josh e Kristen. Pisou nos freios com fora.

  Mesmo antes de o jipe parar completamente, ele j havia sado do carro e estava
correndo em direo a eles. Seus filhos gritavam seu nome enquanto corriam e ele se
abaixou para peg-los nos braos.

  --V  ocs esto bem agora -- murmurou ele, vrias vezes, segurando-os firmemente
contra seu corpo. -- Vocs esto bem, est tudo bem agora.

  No comeo, Kristen e Josh estavam chorando e soluando e Alex no entendeu o que
eles diziam, pois no estavam falando sobre o incndio. Estavam chorando por causa
de um homem com uma arma, dizendo que a senhorita Katie estava lutando com ele. E,
repentinamente, Alex percebeu, sem qualquer sombra de dvida, o que havia
acontecido. Ele os colocou dentro do jipe e deu a volta, correndo em direo  casa de
Katie enquanto seus dedos procuravam pelos nmeros armazenados em seu telefone
celular. Uma Joyce assustada atendeu  sua ligao ao segundo toque e Alex lhe disse
para pedir  filha que a trouxesse at a casa de Katie imediatamente, que era uma
emergncia, e que ela deveria ligar para a polcia. Em seguida, desligou.

  O cascalho voou quando ele parou o carro em frente  casa de Katie. Ele deixou as
crianas ali e disse-lhes que corressem para dentro, que ele estaria de volta assim que
pudesse. Contou os segundos enquanto dava meia-volta e acelerou em direo  loja,
rezando para que no fosse tarde demais.

  Rezando para que Katie ainda estivesse viva.


KEVIN   VIU A ARMA   no mesmo instante em que Katie e saltou em direo  pistola,
conseguindo alcan-la. Pegou a arma e apontou-a para Katie, enfurecido. Agarrou-a
pelos cabelos e encostou o cano da arma em sua cabea enquanto a arrastava pelo
estacionamento.

  -- Me abandonou, no ? Voc no pode me abandonar!

  Atrs da loja, debaixo de uma rvore, ela viu seu carro, com as placas do estado de
Massachusetts. O calor do fogo castigava o rosto de Katie, chamuscando os pelos em
seus braos. Kevin vociferava com ela, sua voz confusa e rouca.

  -- Voc  minha mulher!

  Ao longe, ela ouviu o som de sirenes, mas pareciam estar longe demais.

  Quando chegaram at o carro, ela tentou lutar novamente. Kevin segurou sua cabea
e bateu-a contra o cap. Ela quase desmaiou com o impacto. Ele abriu o porta-malas e
tentou empurr-la para dentro. De algum modo, ela se virou e conseguiu desferir uma
forte joelhada em sua virilha. Ela o ouviu arfar e sentiu que suas mos se
enfraqueceram por um momento.

  Katie o empurrou s cegas, livrando-se do aperto das mos dele e comeou a correr
para salvar sua vida. Sabia que a bala viria. Sabia que estava prestes a morrer.


ELE NO CONSEGUIA entender por que ela estava lutando. Mal conseguia respirar por
causa da dor que sentia. Ela nunca havia revidado antes, nunca arranhou seus olhos,
chutou ou mordeu. Ela no estava agindo como sua esposa e seu cabelo estava
castanho. Mas a voz era a mesma de Erin... Ele comeou a cambalear, tentando
persegui-la, levantando a arma, apontando, mas havia duas Erins e as duas estavam
correndo.

  Ele puxou o gatilho.


KATIE RESPIROU FUNDO quando ouviu o disparo, esperando pela dor lancinante, mas no
sentiu nada. Continuou a correr e, repentinamente, constatou que ele havia errado. Ela
correu em ziguezague, pela esquerda e pela direita, ainda no estacionamento,
procurando desesperadamente por algum tipo de abrigo. Mas no havia nada.


KEVIN CAMBALEAVA, tentando persegui-la, suas mos escorregadias pelo sangue, seu
dedo escorregando no gatilho. Sentia que ia vomitar novamente. Ela estava se
distanciando, indo de um lado para o outro e ele no conseguia mant-la  vista. Ela
estava tentando fugir, mas no faria isso. Ela era sua esposa. Ele a levaria para casa
porque a amava e depois iria bale-la at que ela morresse porque a odiava.


KATIE VIU OS FARIS de um carro na estrada, em disparada, como se fosse um carro de
corridas. Ela queria chegar at l, fazer sinal para o carro parar, mas sabia que no
conseguiria chegar  estrada a tempo. Para sua surpresa, o carro comeou a diminuir a
velocidade e ela reconheceu o jipe quando ele virou para entrar no estacionamento.
Percebeu que Alex estava ao volante.

  Passando por ela, acelerando em direo a Kevin.

  As sirenes estavam se aproximando agora. Havia pessoas a caminho e ela sentiu uma
pontada de esperana.


KEVIN VIU O JIPE se aproximando e levantou a arma. Comeou a disparar, mas o jipe
insistia em vir em sua direo. Ele pulou para se desviar quando o jipe passou a toda
velocidade, mas o veculo atingiu sua mo, quebrando todos os ossos e lanando a
pistola para algum lugar na escurido.

  Kevin gritou em agonia, instintivamente protegendo sua mo conforme o jipe se
afastava, passando pelos restos do incndio da loja, derrapando sobre o cascalho e
batendo de frente contra o depsito de ferramentas.

  Ele ouviu sirenes ao longe. Queria ir atrs de Erin, mas seria preso se ficasse ali. O
medo tomou conta dele e Kevin comeou a mancar em direo ao seu carro, sabendo
que tinha que sair dali e pensando em como tudo havia dado to errado.


KATIE   OBSERVOU   Kevin sair em disparada do estacionamento em direo  estrada,
fazendo pedregulhos voarem. Virando-se, viu que o jipe de Alex estava com a frente
enterrada no depsito de ferramentas, o motor ainda funcionando, e ela correu at l. O
fogo jogava sua luz sobre a traseira do carro e Katie sentiu o pnico comeando a lhe
consumir, rezando para que Alex aparecesse.

  Estava se aproximando do carro quando seu p atingiu uma coisa dura, fazendo com
que tropeasse. Percebendo que quase havia pisado na pistola, ela a pegou e voltou a
andar em direo ao carro.

  Adiante, a porta do carro se abriu um pouco, mas estava bloqueada por destroos
dos dois lados. Ela sentiu uma onda de alvio ao perceber que Alex estava vivo, mas,
ao mesmo tempo, lembrou-se de que Josh e Kristen haviam desaparecido.

 -- Alex! -- gritou ela ao chegar  traseira do jipe e comeou a socar a lataria. --
Voc tem que sair da! As crianas esto na estrada, precisamos encontr-las!

  A porta ainda estava presa, mas ele conseguiu abrir a janela. Quando se inclinou
para fora, viu que sua testa sangrava e que ele falava com uma voz fraca.

  -- Eles esto bem... eu os levei para sua casa...

  Ela sentiu seu corpo gelar. -- Oh, meu Deus... -- conseguiu dizer, numa voz
embargada, pensando "No, no, no..."

  -- Saia logo da! -- disse ela, socando a traseira do carro. -- Saia da! Kevin fugiu!

  Katie ouviu o som cruel do medo em sua prpria voz. -- Ele est indo na direo da
minha casa!


A DOR EM SUA MO era algo muito mais forte do que qualquer coisa que ele j havia
sentido e a perda de sangue tambm lhe causava uma forte tontura. Nada mais parecia
valer a pena e sua mo estava intil agora. Ouvia sirenes se aproximando, mas
esperaria por Erin em sua casa. Sabia que ela voltaria para casa hoje ou amanh.

  Ele estacionou o carro atrs da outra cabana, a que parecia abandonada.
Estranhamente, viu Amber em p atrs de uma rvore. Ela perguntava a Kevin se ele
gostaria de lhe pagar uma bebida, mas sua imagem logo desapareceu. Ele se lembrava
de que havia limpado a casa e cortado a grama, mas nunca soubera lavar roupas. E
agora Erin dizia que seu nome era Katie.

  No havia nada para beber e ele estava ficando muito cansado. O sangue manchava
suas calas e ele percebeu que seus dedos e o brao tambm estavam sangrando, mas
no conseguia se lembrar como aquilo havia acontecido. Queria muito poder dormir.
Precisava descansar por alguns momentos, porque a polcia iria comear a procurar
por ele. Precisava estar alerta quando eles se aproximassem.

   O mundo ao seu redor estava ficando distante e enevoado, como se o visse com um
telescpio virado ao contrrio. Ouviu as rvores balanando para frente e para trs,
mas, em vez de uma brisa, s conseguia sentir o ar quente do vero. Comeou a tremer,
mas estava suando tambm. Sangue demais, escorrendo pelas suas mos e pelo brao,
sem parar. Ele precisava descansar. No conseguia mais ficar acordado. Seus olhos
comearam a se fechar.


ALEX ENGATOU a marcha  r e pisou no acelerador, ouvindo os pneus girarem no
cascalho, mas o jipe no saiu do lugar. Sua mente trabalhava a toda velocidade,
sabendo que Josh e Kristen estavam em perigo.

  Ele tirou o p do acelerador, acionou a trao nas quatro rodas e tentou mais uma
vez. Desta vez o jipe comeou a se mover. Os espelhos retrovisores foram arrancados,
os destroos do depsito arranharam e amassaram a lataria. O jipe se desprendeu com
um ltimo impulso. Katie puxou inutilmente a porta do lado do passageiro at que Alex
virou-se e deu um chute, abrindo-a. Katie pulou para dentro.

  Alex deu meia-volta com o jipe e acelerou com fora, chegando  estrada enquanto
os caminhes dos bombeiros se aproximavam. Nenhum deles disse qualquer palavra
enquanto ele forava o acelerador. Alex nunca esteve to amedrontado em toda a sua
vida.

  Depois da curva, a rua de cascalhos. Entrou na viela com uma forte guinada, quase
derrapando. A traseira do jipe danou sobre os cascalhos e ele acelerou novamente.
Adiante, viu as cabanas, com as luzes acesas nas janelas da casa de Katie. Nenhum
sinal do carro de Kevin e ele exalou o ar, antes de perceber que estava prendendo a
respirao.


KEVIN OUVIU O    SOM   de um motor se aproximando pela rua de cascalhos e acordou
sobressaltado.

  "A polcia", pensou ele, e automaticamente levou a mo destroada em direo 
arma. Gritou com a dor e a confuso, constatando que a pistola no estava l. Ele a
havia deixado no banco do passageiro, mas no estava l agora e nada daquilo fazia
sentido.

  Desceu do carro e olhou na direo de onde vinha o barulho. O jipe se aproximou,
aquele que estava no estacionamento da loja, aquele que quase o matou. O carro parou
e Erin saiu de dentro dele. No incio, no conseguiu acreditar em sua sorte, mas logo
depois se lembrou de que ela morava ali e que era por aquele motivo que tambm
estava ali.

  Sua outra mo, a que ainda estava boa, estava tremendo bastante quando ele abriu o
porta-malas e retirou o p de cabra de dentro. Ele viu Erin e seu amante correrem em
direo  varanda. Cambaleando e mancando, foi em direo  casa, sem querer e sem
conseguir parar. Erin era sua esposa, ele a amava e o homem grisalho tinha que morrer.


ALEX PAROU EM FRENTE  casa, derrapando sobre os cascalhos, e os dois saltaram do
carro simultaneamente, correndo em direo  porta e chamando os nomes das
crianas. Katie ainda estava com a arma na mo. Chegaram  porta assim que Josh a
abriu e, assim que viu o filho, Alex o tomou nos braos. Kristen saiu de trs do sof e
correu em direo a eles. Alex abriu seus braos para abra-la tambm, agarrando-a
com facilidade quando ela saltou.

  Katie havia parado poucos passos depois de passar pela porta, observando a cena
com lgrimas de alvio nos olhos. Kristen estendeu-lhe os braos tambm e Katie se
aproximou, aceitando o abrao da menina com um sentimento cego de felicidade.

  Perdidos em meio  emoo do encontro, nenhum deles percebeu quando Kevin
apareceu sob o batente da porta, com o p de cabra nas mos, segurando-o acima da
cabea. Ele golpeou com fora, fazendo com que Alex desabasse no cho e as crianas
cassem de costas, tomadas pelo horror e pelo choque.




KEVIN OUVIU COM SATISFAO o baque do p de cabra, sentiu a vibrao lhe correr pelo
brao. O homem grisalho estava deitado no cho e Erin gritava.


NAQUELE INSTANTE, Alex e as crianas eram tudo o que importava para ela. Katie
instintivamente correu em direo a Kevin, empurrando-o para fora da casa. Havia
apenas dois degraus, mas aquilo era o bastante. Kevin caiu de costas e desabou sobre o
cho de terra.

  Katie se virou. -- Tranquem a porta! -- gritou ela e desta vez Kristen foi a primeira
a agir, enquanto Katie ainda gritava.

  O p de cabra havia cado da mo de Kevin e ele tentava rolar pelo cho e se
levantar. Katie levantou a arma, apontando-a, quando Kevin finalmente conseguiu se
pr em p. Ele cambaleou, quase perdendo o equilbrio, seu rosto plido como o de um
esqueleto. No conseguia enxergar direito e Katie sentia que seus olhos estavam se
enchendo de lgrimas.

  -- Eu te amava -- disse ela. -- Eu me casei com voc porque te amava.

  Ele pensou que era Erin, mas seu cabelo estava curto e escuro e Erin era loira.
Conseguiu colocar um p adiante e quase caiu novamente. Por que ela estava lhe
dizendo isso?

  -- Por que voc comeou a me bater? -- gritou ela, chorando. -- Eu nunca soube
por que voc no conseguia parar, mesmo quando prometia.

 Sua mo tremia e a arma parecia pesar muito, quase como um bloco de chumbo. --
Voc me bateu na nossa lua de mel porque eu deixei meus culos escuros na piscina...

  Aquela era a voz de Erin e ele imaginou que poderia estar sonhando.
  -- Eu amo voc -- balbuciou ele. -- Eu sempre te amei. No sei por que voc me
abandonou.

   Ela sentia os soluos crescendo em seu peito, sufocando-a. As palavras saram aos
                                                               oc
borbotes, irrefreveis e sem sentido, anos de sofrimento. -- V no permitia que eu
dirigisse ou que tivesse amigos, escondia o dinheiro e me fazia implorar por ele. Eu
quero saber por que voc pensou que podia fazer isso comigo. Eu era sua esposa e eu
te amava!

  Kevin nem sequer conseguia ficar em p. O sangue escorria pelos seus dedos e
braos e pingava no cho, deixando tudo escorregadio. Queria conversar com Erin,
queria encontr-la, mas aquilo no era real. Ele estava dormindo, Erin estava ao seu
lado na cama, e eles estavam em Dorchester. Seus pensamentos ficaram confusos e ele
estava em um apartamento sujo e havia uma mulher chorando.

  -- Havia molho de tomate na testa do garoto -- murmurou ele, cambaleando para
frente. -- No garoto que foi baleado, mas a me caiu pelas escadas e ns prendemos o
grego.

  Katie no conseguiu entender nada do que ele dizia, no entendia o que ele queria.
Ela o odiava com uma fria que estava sufocada h anos. -- Eu cozinhei para voc,
limpei a casa para voc e nada disso importou! Tudo o que voc fazia era beber e me
bater!

  O corpo de Kevin balanava, como se estivesse a ponto de tombar. Suas palavras
estavam confusas, atropelando-se, ininteligveis. -- No havia pegadas na neve. Mas
os vasos de flores esto quebrados.

      oc                               oc
  -- V deveria ter me deixado partir! V no devia ter me seguido at aqui. Por
que voc no conseguiu simplesmente me deixar partir? Voc nunca me amou!

   Kevin se lanou em direo a ela, tentando acertar a arma, tir-la das mos de Katie.
Mas estava sem foras e ela conseguiu manter o pulso firme. Ele tentou agarr-la, mas
gritou em agonia quando sua mo ferida a acertou no brao. Agindo por instinto, tentou
atingi-la com o ombro, empurrando-a contra a parede da casa. Precisava tirar a arma
dela e segurar a pistola contra a cabea de Erin. Ele a olhava com olhos arregalados e
cheios de dio, puxando-a para si, tentando pegar a arma com a mo que ainda estava
boa, usando seu peso contra ela.

 Sentiu o cano da arma tocar nas pontas dos seus dedos e instintivamente dedilhou o
metal  procura do gatilho. Tentou empurrar a arma em direo a ela, mas a pistola se
moveu na direo errada e agora estava apontando para baixo.

  -- Eu te amava! -- soluou ela, lutando contra cada pedao de si, cada grama de
fora que ainda tinha. Kevin sentiu que algo se afastava e sentiu um momento de
clareza.

  -- Ento voc nunca devia ter me abandonado -- sussurrou ele, o hlito quente com
o cheiro do lcool. Ele puxou o gatilho e a arma disparou com um alto estampido, e foi
quando percebeu que tudo estava quase terminado. Erin iria morrer, porque ele lhe
disse que a encontraria e a mataria se ela fugisse novamente. Ele mataria qualquer
homem que a amasse.

  Mas, estranhamente, Erin no caiu, nem mesmo gemeu. Em vez disso, ela
simplesmente olhou para ele com seus olhos castanho-esverdeados, ferozes, sem
piscar.

  Nesse momento, Kevin sentiu algo. Algo que queimava seu abdmen, fogo. Sua
perna esquerda fraquejou e ele tentou se manter em p, mas seu corpo no respondia
mais s suas intenes. Ele desabou na varanda, cobrindo a barriga com a mo.

  -- Volte para casa comigo -- sussurrou ele. -- Por favor.

  O sangue jorrava pelo ferimento, passando por entre seus dedos. Acima dele, seus
olhos no conseguiam focar direito na imagem de Erin. Seu cabelo ficava loiro e
depois voltava a ficar castanho. Ele a viu na lua de mel, usando um biquni, antes de
esquecer seus culos escuros na piscina. E era to bonita que Kevin no conseguia
entender por que ela quis se casar com ele.

  "Linda. Ela sempre foi linda", pensou ele. E se sentiu cansado novamente. Sua
respirao ficou arrastada e ele comeou a sentir frio. Muito frio. Comeou a tremer.
Exalou mais uma vez, com um som parecido com aquele que sai de um pneu furado.
Seu peito parou de se mover. Seus olhos estavam abertos e arregalados, sem entender.
  Katie estava em p ao lado dele, tremendo enquanto o olhava fixamente. "No",
pensou ela. "Nunca irei com voc. Eu nunca quis voltar."

  Mas Kevin no sabia o que ela estava pensando, porque estava morto. E ela se deu
conta de que tudo, finalmente tudo, havia terminado.
                                        41



O HOSPITAL MANTEVE KATIE em observao quase a noite inteira antes de lhe dar alta.
Depois, ela permaneceu na sala de espera do hospital. No estava disposta a sair dali
at ter certeza de que Alex estava bem.

  A pancada de Kevin quase rachou o crnio de Alex e ele ainda estava inconsciente.
A luz da manh iluminou as janelas estreitas e retangulares da sala de espera.
Enfermeiras e mdicos trocavam de turno e a sala comeou a se encher de gente: uma
criana com febre, um homem com dificuldade para respirar. Uma mulher grvida e o
seu marido, ambos em pnico, entraram correndo pela porta. Sempre que ouvia a voz
de um dos mdicos ela levantava os olhos, esperando que seria chamada para ver
Alex.

  Seu rosto e braos estavam manchados pelos hematomas e seu joelho estava inchado,
quase com o dobro do tamanho normal. Entretanto, aps os exames necessrios e o
raio X, o mdico de planto havia simplesmente lhe dado bolsas de gelo para os
hematomas e Tylenol para a dor. Era o mesmo mdico que estava cuidando de Alex,
mas ele disse  Katie que no podia prever com certeza quando Alex acordaria,
acrescentando que os exames de tomografia computadorizada eram inconclusivos.

  -- Ferimentos na cabea podem ser srios -- disse o mdico. -- Com sorte,
saberemos mais em algumas horas.

  Ela no conseguia pensar, no conseguia comer, no conseguia dormir, no
conseguia parar de se preocupar. Joyce havia levado as crianas do hospital para sua
casa e Katie esperava que eles no tivessem pesadelos. Esperava que os eventos da
noite passada no lhes trouxessem pesadelos para sempre. Esperava que Alex se
recuperasse completamente. Rezava para que aquilo acontecesse.
  Tinha medo de fechar os olhos. Toda vez que fazia isso, Kevin reaparecia. Katie via
as manchas de sangue em seu rosto e sua camisa, seus olhos ensandecidos. De algum
modo ele a havia encontrado. Veio a Southport para arrast-la de volta para casa ou
para mat-la e quase conseguiu. Em uma nica noite, ele destruiu a frgil iluso de
segurana que Katie conseguira construir desde que havia chegado  cidade.

  As vises horrveis de Kevin voltavam a cada momento, repetindo-se infinitamente,
com variaes, e s vezes mudando inteiramente. Houve momentos em que ela se viu
sangrando e morrendo na varanda, olhando para cima, olhando nos olhos do homem
que odiava. Quando aquilo aconteceu, instintivamente apalpou a barriga, procurando
por ferimentos que no existiam. Mas ela logo estava de volta ao hospital, sentada e
esperando sob as lmpadas fluorescentes.

  Preocupava-se com Kristen e Josh. Eles logo chegariam ao hospital; Joyce os traria
para visitar seu pai. Ela se perguntava se as crianas a odiariam por tudo o que havia
acontecido e aquele pensamento fez com que as lgrimas ardessem em seus olhos.
Cobriu o rosto com as mos, desejando que pudesse se enterrar em um buraco
profundo, to profundo que ningum a encontraria. To profundo que Kevin nunca
conseguisse encontr-la, pensou Katie, para em seguida se lembrar de que ela o vira
morrer na varanda. As palavras "ele est morto" ecoavam como um mantra, uma
cantilena da qual ela no podia escapar.

  -- Katie?

  Ela levantou o rosto e viu o mdico que estava cuidando de Alex.

  -- Posso lev-la at ele agora -- disse o mdico. -- Ele acordou h dez minutos.
Ainda est na UTI, ento voc no poder ficar l por muito tempo. Ele quer v-la.

  -- Ele est bem?

  -- Neste momento ele est bem, apesar da situao. Levou um golpe muito forte.

  Mancando um pouco, ela seguiu o mdico, andando por entre os corredores at o
quarto de Alex. Ela respirou fundo e endireitou a postura antes de entrar, dizendo a si
mesma que no iria chorar.
  A UTI estava cheia de mquinas e luzes piscantes. Alex estava em uma cama no
canto, com a cabea envolta em bandagens. Ele se virou quando ela entrou no quarto,
com os olhos semicerrados. Um monitor soltava bips regularmente ao seu lado. Ela
caminhou at o lado da cama e pegou em sua mo.

  -- Como esto as crianas? -- sussurrou ele. As palavras saram lentamente, com
um certo esforo.

  -- Esto bem. Esto com Joyce agora. Ela os levou para a casa dela.

  Um sorriso suave e quase imperceptvel surgiu nos lbios de Alex.

  -- E voc?

  -- Estou bem -- disse ela, assentindo.

  -- Amo voc -- disse ele.

  Ela se esforou ao mximo para no se desfazer em lgrimas novamente. -- Amo
voc tambm, Alex.

  Ele lutava para no fechar os olhos, sem conseguir focar o olhar. -- O que
aconteceu?


ELA FEZ UM RELATO abreviado das ltimas doze horas, mas, no meio da histria, viu que
os olhos dele se fecharam. Quando acordou novamente mais tarde, ele havia se
esquecido de algumas partes do que ela havia lhe contado. Assim, Katie repetiu a
histria, tentando soar tranquila e casual.

   Joyce trouxe Josh e Kristen e, embora no fosse permitido que crianas entrassem na
UTI, o mdico deixou que visitassem seu pai por alguns minutos. Kristen havia lhe
trazido um desenho de um homem em uma cama de hospital, com as palavras
"Melhore, papai" escritas no alto da pgina. Josh lhe deu uma revista especializada em
pesca.

  Conforme o dia avanou, Alex ficou mais coerente.  tarde, ele no mais adormecia
e acordava em intervalos irregulares. Embora reclamasse de uma dor de cabea
monstruosa, sua memria, de forma geral, havia retornado. Sua voz j estava mais forte
e, quando disse  enfermeira que sentia fome, Katie abriu um sorriso aliviado,
finalmente, com a certeza de que ele ficaria bem.


ALEX RECEBEU ALTA no dia seguinte e o xerife veio at a casa de Joyce para recolher
seus depoimentos formais. Disse que o nvel de lcool na corrente sangunea de Kevin
estava to alto que ele havia praticamente envenenado a si mesmo. Combinado com a
perda de sangue que sofrera, era incrvel que ainda houvesse se mantido consciente e
com um certo grau de coerncia durante a noite. Embora tivesse relatado os eventos
daquela noite ao xerife, Katie no lhe contou tudo. Tambm no contou tudo a Alex --
como poderia, quando as coisas nem sequer faziam sentido para ela? No contou a eles
que, nos momentos seguintes  morte de Kevin, quando correu para perto de Alex, ela
havia chorado por ambos os homens. Parecia impossvel que, mesmo enquanto revivia
o terror daquelas ltimas horas com Kevin, ela tambm se lembrasse dos raros
momentos felizes que tiveram juntos; como eles riam das situaes que haviam
compartilhado ou como se deitavam juntos tranquilamente no sof.

  Ela no sabia como reconciliar aquelas partes conflitantes do seu passado e o horror
que havia vivido durante a noite. Mas havia algo mais tambm. Algo que ela no
entendia. Katie ficou na casa de Joyce porque tinha medo de voltar para sua casa.


MAIS TARDE, naquele mesmo dia, Alex e Katie estavam no estacionamento, olhando
para os escombros chamuscados que restavam da loja. Aqui e ali, ela conseguia
reconhecer alguns objetos: o sof, queimado pela metade, inclinado sobre cascalho;
uma prateleira usada para guardar comida; uma banheira enegrecida pelo fogo.

  Alguns bombeiros estavam revistando os escombros. Alex pediu a eles que
procurassem pelo cofre que ele havia instalado dentro do armrio. Ele tinha retirado as
bandagens da cabea e Katie conseguia ver o lugar onde os mdicos haviam raspado
seus cabelos para aplicar os pontos. O local estava inchado e tingido de preto e roxo.

  -- Eu lamento -- disse Katie. -- Por tudo.
  Alex balanou a cabea. -- Voc no tem culpa de nada. No foi voc que fez isso.

  -- Mas Kevin veio atrs de mim.

  -- Eu sei -- disse Alex, ficando em silncio por um momento. -- Kristen e Josh me
contaram sobre como voc os ajudou a sair da casa. Josh disse que, depois que voc
agarrou o brao de Kevin, voc disse a eles para correr. Disse que voc o distraiu. Eu
queria agradec-la por isso.

  Katie fechou os olhos. -- V oc no pode me agradecer por isso. Se alguma coisa
acontecesse com eles, eu no suportaria viver com isso dentro de mim.

  Ele fez que sim com a cabea, mas no conseguia olhar para ela. Katie chutou uma
pequena pilha de cinzas que havia se espalhado pelo estacionamento. -- O que voc
vai fazer agora? Em relao  loja?

  -- Acho que vou reconstruir.

  -- E onde voc vai morar?

   -- Ainda no sei. Vamos ficar na casa de Joyce por algum tempo, mas vou tentar
encontrar um lugar tranquilo, um lugar com uma vista agradvel. Como no posso
trabalhar, vou tentar aproveitar meu tempo livre.

  Katie sentia-se enjoada. -- No consigo nem imaginar como voc est se sentindo
agora.

  -- Anestesiado. Triste pelas crianas. Chocado.

  -- Sente raiva tambm?

  -- No. No sinto raiva.

  -- Mas voc perdeu tudo.

  -- No perdi tudo -- disse ele. -- No perdi as coisas importantes. Meus filhos
esto em segurana. V oc est segura.  isso que me importa. Isso tudo -- disse ele,
apontando para os restos da loja --  apenas prejuzo material. A maior parte pode ser
readquirida. Vai apenas levar algum tempo.

 Ao terminar de falar, ele apertou os olhos, olhando em direo a alguma coisa em
meio aos destroos. -- Espere aqui um momento.

  Alex andou em direo a uma pilha de escombros chamuscados e retirou uma vara
de pescar que estava enfiada entre tbuas de madeira enegrecidas. Estava coberta de
fuligem, mas no parecia estar danificada. Pela primeira vez desde que chegaram, Alex
sorriu.

  -- Josh vai ficar feliz com isso -- disse ele. -- Eu gostaria de poder encontrar uma
das bonecas de Kristen.

  Katie cruzou os braos em frente ao corpo, sentindo as lgrimas lhe encherem os
olhos. -- Eu vou comprar uma boneca nova para ela.

  -- Voc no precisa fazer isso. Eu tenho uma boa aplice de seguros.

  -- Mas eu quero. Nada disso teria acontecido se eu no tivesse entrado na sua vida.

  Alex olhou para ela. -- Eu sabia no que estava me envolvendo quando a convidei
para sair.

  -- Mas voc no poderia esperar que algo assim acontecesse.

  -- No -- admitiu ele. -- Nada como o que aconteceu. Mas vai ficar tudo bem.

  -- Como pode dizer uma coisa dessas?

  -- Porque  verdade. Ns sobrevivemos e  isso que importa.

  Ele estendeu a mo, buscando a mo de Katie, e ela sentiu seus dedos se
entrelaarem com os dele. -- Ainda no tive a oportunidade de dizer que lamento.

  -- Lamenta pelo qu?

  -- Por sua perda.
  Ela sabia que ele estava falando sobre Kevin e no tinha certeza do que dizer em
resposta. Ele parecia entender que ela, ao mesmo tempo, amava e odiava seu marido.

  -- Nunca quis que ele morresse -- comeou ela. -- Eu s queria ser deixada em
paz.

  -- Eu sei.

  Ela se virou para ele, com expectativa. -- Ser que vamos ficar bem? Depois de
tudo isso?

  -- Acho que isso depende de voc.

  -- De mim?

  -- Meus sentimentos no mudaram. Eu ainda te amo, mas voc precisa descobrir se
os seus sentimentos ainda so os mesmos.

  -- Eles no mudaram em nada.

  -- Ento vamos encontrar uma maneira de superar tudo isso juntos, porque eu sei
que quero passar o resto da minha vida com voc.

  Antes que ela pudesse responder, um dos bombeiros os chamou e eles se viraram na
direo do homem. Ele estava fazendo fora para retirar um objeto dos escombros e,
quando se levantou, tinha um pequeno cofre nas mos.

  -- Voc acha que ele foi danificado?

  -- Provavelmente no.   prova de fogo. Foi por isso que o comprei.

  -- E o que h nele?

  -- Alguns registros e documentos, mas vou precisar deles. Alguns discos com fotos
e negativos. Coisas que eu queria proteger.

  -- Fico feliz por terem encontrado.
  -- Eu tambm fico -- disse Alex. -- Porque h algo dentro do cofre que preciso
entregar a voc.
                                        42



DEPOIS DE DEIXAR ALEX na casa de Joyce, Katie finalmente dirigiu o jipe de volta  sua
casa. No queria realmente voltar at ali, mas sabia que no podia adiar o inevitvel
para sempre. Mesmo que no pretendesse ficar ali por muito tempo, ela precisava
pegar alguns de seus pertences.

  A poeira se levantou do cascalho e ela sentiu as ondulaes da rua at estacionar em
frente  casa. Ficou sentada no jipe -- amassado e riscado, mas ainda funcionando bem
-- e olhou para a porta, lembrando-se de como Kevin havia sangrado at a morte em
sua varanda, com o olhar fixo no rosto dela.

  Katie no queria ver as manchas de sangue. Tinha medo de se lembrar, ao abrir a
porta, da expresso de dor de Alex quando Kevin o atingira com o p de cabra. Ela
praticamente podia ouvir o choro histrico de Kristen e Josh enquanto se agarravam ao
seu pai. No se sentia preparada para reviver tudo aquilo.

  Em vez disso, ela andou em direo  casa de Jo. Em suas mos, ela tinha a carta que
Alex havia lhe entregado. Quando lhe perguntou por que ele havia escrito uma carta,
ele balanou a cabea.

  -- No fui eu que a escrevi -- disse ele. Katie o olhou, confusa. -- Voc vai
entender quando ler o que est escrito.

  Quando se aproximou da casa de Jo, sentiu os resqucios de uma memria ganharem
vida. Algo havia acontecido na noite do incndio. Algo que ela havia visto, mas que
no conseguia se lembrar realmente. Quando sentia que estava quase identificando a
sensao, a lembrana parecia escapar novamente. Diminuiu o passo conforme se
aproximou da casa de sua vizinha, com uma expresso confusa marcando-lhe o rosto.
  Havia teias de aranha na janela e uma das venezianas havia cado sobre a grama,
despedaando-se com o impacto. O corrimo da varanda estava quebrado e era
possvel ver algumas ervas daninhas brotando por entre as tbuas. Seus olhos
buscavam todos os detalhes, mas ela no conseguiu processar a cena que tinha diante
de si: uma maaneta enferrujada, pendendo do seu encaixe na porta; uma grossa
camada de sujeira nas janelas, como se elas no fossem limpas h anos.

  No havia cortinas...

  No havia capacho em frente  porta...

  No havia mensageiro dos ventos pendurado na varanda...

  Ela hesitou, tentando entender o que estava vendo. Sentiu-se estranha e curiosamente
sem qualquer peso, como se estivesse sonhando acordada. Quanto mais ela se
aproximava, mais a casa parecia envelhecer e apodrecer perante seus olhos.

  Katie piscou e percebeu que a porta tinha uma rachadura no meio, com uma ripa de
madeira pregada no sentido transversal, fixando-a ao batente da porta que j se
esfarelava.

  Piscou novamente e viu que uma parte da parede, em um dos cantos superiores, havia
apodrecido, deixando um buraco com bordas irregulares.

  Piscou pela terceira vez e percebeu que a parte inferior da janela estava rachada e o
vidro, quebrado. O cho estava coberto de cacos de vidro.

  Katie subiu os degraus da varanda, sem conseguir se conter. Espiou pelas janelas,
observando o interior da cabana escura.

   Poeira, sujeira, mveis quebrados, pilhas de lixo. Nada estava pintado, nada estava
limpo. Com um sobressalto, Katie deu um passo atrs, voltando  varanda, quase
tropeando no degrau quebrado.

  "No."

  No era possvel. Simplesmente no era possvel. O que havia acontecido com a Jo
e com todas as melhorias que ela fizera na pequena cabana? Katie viu Jo pendurar o
mensageiro dos ventos. Jo veio at a casa de Katie, queixando-se sobre ter que pintar e
limpar. Tomaram caf, beberam vinho e comeram queijo; Jo fez comentrios
maliciosos sobre a bicicleta. Jo a encontrou depois do trabalho e elas foram a um bar.
A garonete as viu juntas. Katie pediu vinho para as duas...

  "Mas Jo no tocou em seu copo de vinho", lembrou-se.

  Katie massageou suas tmporas. Sua mente estava funcionando em uma velocidade
alucinada, buscando por respostas. Ela se lembrou de que Jo estava sentada nos
degraus quando Alex a trouxera para casa. At mesmo Alex a vira ali...

  "Ser que ele realmente a vira?"

  Katie se afastou da casa envelhecida. Jo era real. No era possvel ser apenas um
produto de sua imaginao. Ela no a havia criado.

  "Mas Jo gostava de tudo que voc fazia; bebia exatamente o mesmo caf que voc
preparava, gostava das roupas que voc comprava e as opinies dela sobre os
funcionrios do Ivan's eram um reflexo das suas".

  Dzias de pequenos detalhes rapidamente comearam a encher a mente de Katie e as
vozes duelavam em sua cabea.

  Ela morava aqui!

  "Por que, ento, o lugar est to abandonado?"

  Ns olhamos para as estrelas, estvamos juntas!

  "Voc ficou olhando as estrelas sozinha.  por isso que ainda no sabe os nomes
delas."

  Bebemos vinho na minha casa!

  "Voc bebeu a garrafa inteira sozinha. Foi por isso que ficou to desorientada."

  Foi ela que me falou sobre Alex! Ela queria que ficssemos juntos!
  "Ela nunca mencionou o nome dele at que voc o soubesse. E voc estava
interessada nele desde o incio."

  Ela foi a psicloga que ajudou as crianas!

  "Essa foi a desculpa que voc usou para nunca falar sobre ela a Alex."

  Mas...

  Mas...

  Mas...

  Uma a uma, as respostas vieram to rpido quanto Katie conseguia pensar nelas. O
motivo pelo qual ela nunca soubera o sobrenome de Jo, ou por que nunca a vira
dirigindo um carro... a razo pela qual Jo nunca a convidara para entrar ou aceitara sua
ajuda para pintar a casa... como Jo conseguira aparecer inesperadamente ao lado de
Katie usando roupas de corrida...

  Katie sentiu algo ceder dentro de si quando todas as peas do quebra-cabea se
encaixaram.

  Repentinamente, ela percebeu a realidade. Jo nunca chegara a existir.
                                        43



SENTINDO-SE COMO SE AINDA estivesse sonhando, Katie voltou  sua casa com passos
hesitantes. Ela se sentou na cadeira de balano e olhou longamente para a casa de Jo,
considerando a possibilidade de que teria enlouquecido completamente.

  Ela sabia que a criao de amigos imaginrios era comum entre crianas, mas ela
no era uma criana. Sim, ela estava sob um forte estresse quando chegou a Southport.
Sozinha e sem amigos, fugindo, sempre olhando por cima do ombro, aterrorizada pela
possibilidade de que Kevin a encontrasse. Quem no sentiria a presso dessa
ansiedade? Mas ser que aquilo fora o bastante para ter provocado a criao de um
alter ego? Talvez alguns psiquiatras dissessem que sim, mas ela no tinha tanta
certeza.

  O problema era que Katie no queria acreditar naquilo. No podia acreditar, porque
lhe pareceu to... real. Ela se lembrava daquelas conversas, ainda se recordava das
expresses de Jo, ainda ouvia o som de sua risada. As memrias que tinha de Jo eram
to reais como suas memrias de Alex. Claro, provavelmente ele tambm no era real.
Provavelmente sua mente o havia criado tambm. Assim como Kristen e Josh. Ela
provavelmente estava amarrada a alguma cama em um manicmio, perdida em um
mundo inteiro que sua mente havia criado. Balanou a cabea, frustrada, confusa e
mesmo assim...

  Havia outra coisa que a perturbava. Algo que no conseguia realmente identificar.
Estava se esquecendo de alguma coisa. Algo que era importante.

  Por mais que tentasse, no era capaz de discernir aquilo. Os eventos dos ltimos dias
a deixaram exausta e abalada. Ela olhou para o cu. O crepsculo estava comeando a
se espalhar e a temperatura estava caindo. Perto das rvores, uma nvoa comeava a se
formar.
  Desviando os olhos da casa de Jo -- era assim que ela sempre viria a se referir
quele lugar, independente do estado de esprito que aquilo implicasse -- Katie
examinou a carta. No havia nenhuma palavra ou nome escrito do lado de fora do
envelope.

  Havia algo de assustador naquela carta lacrada, embora ela no soubesse o que era.
Talvez fosse a expresso de Alex quando ele lhe entregara o envelope. De alguma
forma, ela sabia que aquilo no era apenas srio, mas tambm importante para ele. E
Katie se perguntou por que ele no havia lhe dito nada a respeito.

  Ela no sabia, mas em breve escureceria e estava certa de que seu tempo estava
acabando. Girando o envelope nos dedos, abriu o lacre. Na luz esmaecida, deslizou
seu dedo por cima do papel amarelo antes de desdobrar as pginas. Finalmente,
comeou a ler.

   mulher que meu marido ama.

  Se voc acha que  estranho ler estas palavras, por favor, acredite em mim quando
digo que a sensao que eu tenho ao escrev-las  to estranha quanto a que voc
sente ao l-las. Por outro lado, nenhum aspecto desta carta me parece normal. H
tantas coisas que quero dizer, tantas coisas que eu quero lhe contar e, quando decidi
escrever esta carta, tudo parecia estar claro na minha mente. Agora, entretanto,
percebo que estou confusa e no sei por onde devo comear.

   Acho que posso comear dizendo isto: eu passei a acreditar que, na vida de cada
um, h um momento inegvel de mudana; um conjunto de circunstncias que,
repentinamente, faz com que tudo se transforme. Para mim, este momento ocorreu
quando conheci Alex. Embora eu no saiba quando ou onde voc est lendo esta
carta, eu sei que isso significa que ele a ama. Tambm significa que ele quer
compartilhar sua vida com voc e, se no houver nada mais, pelo menos ns teremos
isto em comum.

  Meu nome, como voc provavelmente sabe,  Carly. Entretanto, durante a maior
parte da minha vida, meus amigos me chamavam de Jo...

  Katie parou de ler e olhou para a carta em suas mos, incapaz de absorver aquelas
palavras. Respirando fundo, ela releu aquela frase: durante a maior parte da minha
vida, meus amigos me chamavam de Jo...

  Ela segurou as pginas com fora, finalmente desvelando a memria que vinha
lutando para recobrar. Repentinamente, ela se viu novamente no quarto de Alex na
noite do incndio. Sentiu a dor nos braos e nas costas quando jogou a cadeira de
balano pela janela, sentiu a onda de pnico quando envolveu Josh e Kristen com o
edredom, logo antes de ouvir o som das rachaduras atrs de si. Com uma clareza
absoluta, lembrou-se de girar sobre os calcanhares e ver o retrato que estava
pendurado na parede, o retrato da esposa de Alex. Na noite do incndio, ela estava
confusa, com os nervos  flor da pele em meio ao inferno de fumaa e medo.

  Mas ela havia visto aquele rosto. Sim, havia at mesmo dado um passo em direo
ao retrato para olhar melhor.

  "Ela se parece muito com Jo", lembrou-se de pensar na ocasio, mesmo que sua
mente no tivesse condies de processar a informao. Mas agora, sentada na varanda
sob um cu que escurecia aos poucos, ela teve a certeza de que estava errada. Errada a
respeito de tudo. Levantou os olhos para olhar em direo  casa de Jo novamente.

  Katie repentinamente percebeu que a esposa de Alex se parecia com Jo porque
realmente era Jo. Espontaneamente, ela se recordou de outro momento, na primeira
manh em que Jo viera at sua casa.

  Meus amigos me chamam de Jo, disse ela, ao se apresentar.

  Oh, meu Deus.

  Katie empalideceu.

  ... Jo...

  Percebeu, de repente, que no havia imaginado Jo. No fora sua imaginao que a
criara.

  J o esteve aqui; e Katie sentiu sua garganta se apertar. No porque no acreditava
nela, mas porque ela finalmente compreendera que sua amiga Jo -- sua nica amiga
verdadeira, sua sbia conselheira, a pessoa que a apoiava e a quem confiava seus
segredos -- nunca mais voltaria.

  Elas nunca voltariam a tomar caf, nunca mais dividiriam outra garrafa de vinho,
nunca mais conversariam na varanda. Ela nunca voltaria a ouvir o som do riso de Jo ou
observaria a maneira que ela tinha de arquear a sobrancelha. Ela nunca mais ouviria Jo
se queixar de ter que fazer trabalhos braais... ento comeou a chorar, lamentando a
perda da maravilhosa amiga que nunca tivera a oportunidade de conhecer em vida.


KATIE NO SABIA AO CERTO quanto tempo se passara antes que ela fosse capaz de voltar
a ler. Estava escurecendo e, com um suspiro, ela se levantou e abriu a porta da frente.
Dentro da casa, sentou-se  mesa da cozinha. Ela se lembrava de que, certa vez, Jo
havia se sentado na cadeira em frente  sua e, por algum motivo que no conseguia
explicar, sentiu que comeava a relaxar.

  "Tudo bem", pensou ela consigo mesma. "Estou pronta para ouvir o que voc tem a
dizer."

  ... Durante a maior parte da minha vida, meus amigos me chamavam de Jo. Por
favor, fique  vontade para me chamar por qualquer um dos nomes. E, para que voc
se sinta melhor, saiba que eu j a considero uma amiga. Espero que, ao final desta
carta, voc sinta o mesmo em relao a mim.

   Morrer  uma coisa estranha e no vou aborrec-la com os detalhes. Posso ainda
ter algumas semanas, ou talvez meses de vida. Embora eu saiba que isso  um clich,
a verdade  que muitas das coisas nas quais eu acreditei serem importantes no o
so mais. Eu no leio mais o jornal, no me importo com o mercado de aes nem
me preocupo se vai chover durante minhas frias. Em vez disso, eu me apanho
refletindo sobre os momentos essenciais da minha vida. Eu penso em Alex e no
quanto ele estava bonito no dia em que nos casamos. Eu me lembro do orgulho e da
exausto que senti quando segurei Josh e Kristen em meus braos. Eles eram bebs
lindos. Eu costumava deit-los sobre meu colo e olhar para eles enquanto dormiam.
Eu podia ficar horas assim, simplesmente olhando para eles, tentando descobrir se
eles haviam herdado meu nariz ou o de Alex, os olhos dele ou os meus. s vezes,
enquanto estavam sonhando, as mozinhas deles se fechavam ao redor do meu dedo,
e eu me lembro de pensar que nunca sentira uma forma de alegria to pura.

  Foi apenas quando tive filhos que eu realmente compreendi o significado do amor.
No me entenda mal. Eu amo Alex com todo o meu corao, mas  diferente do amor
que eu sinto por Josh e Kristen. No sei como explicar e no sei se preciso. Tudo o
que sei  que, apesar da minha doena, me sinto abenoada, porque fui capaz de
vivenciar ambos. Vivi uma vida plena e feliz e senti o tipo de amor que muitas
pessoas nunca conhecero.

  Mas a minha situao me assusta. Eu tento demonstrar coragem quando Alex est
por perto e as crianas ainda so muito novas para entender o que realmente est
acontecendo. Nos momentos tranquilos em que estou sozinha, as lgrimas me vm
rapidamente e eu, s vezes, me pergunto se elas vo parar algum dia. Embora eu
saiba que no deveria, me apanho pensando no fato de que nunca vou acompanhar
meus filhos at a escola, ou que nunca vou ter outra chance de observar a alegria
deles na manh de natal. Nunca terei a oportunidade de ajudar Kristen a escolher
um vestido para o baile de formatura, nunca vou assistir aos jogos de beisebol de
que Josh vai participar. H muitas coisas que nunca verei ou farei com eles e, s
vezes, eu me desespero, pensando que nunca serei nada alm de uma memria
distante quando chegar a poca em que eles decidirem se casar.

  Como vou poder dizer que os amo, se no estarei mais aqui?

   Alex. Ele  o meu sonho e meu companheiro, meu amante e meu amigo. Ele  um
pai dedicado. Porm, mais do que isso, ele  meu marido ideal. No posso descrever
o conforto que sinto quando ele me toma em seus braos, ou o quanto anseio por
poder me deitar ao seu lado,  noite. H um senso inabalvel de humanidade nele,
uma f na bondade da vida e eu sinto meu corao se partir quando imagino que ele
ficar sozinho.  por isso que eu pedi a ele que entregasse essa carta a voc; penso
que isso  uma maneira de faz-lo manter a promessa que me fez quando disse que
iria voltar a encontrar algum especial -- algum que o ame e algum que ele possa
amar. Ele precisa disso.

  Sou abenoada por passar cinco anos casada com ele. Agora, minha vida est
quase terminada e voc vai assumir meu lugar. Voc se tornar a esposa que vai
envelhecer ao lado de Alex e voc se tornar a nica me que meus filhos iro
conhecer. Voc no pode imaginar o quanto  terrvel estar deitada em uma cama,
olhar para minha famlia, saber dessas coisas e perceber que no posso fazer nada
para mudar essa situao.

   aqui que voc entra. Eu quero que voc faa uma coisa por mim.

  Se voc ama Alex agora, ento o ame para sempre. Faa-o rir novamente e
valorize os momentos que passarem juntos. Saiam para caminhar juntos, saiam para
pedalar suas bicicletas, aconcheguem-se juntos no sof e assistam a filmes sob um
cobertor. Prepare o caf da manh para ele, mas no o mime. Deixe que ele lhe
prepare o caf da manh tambm, para que ele demonstre que voc  especial para
ele. Beije-o e faa amor com ele, e considere-se uma pessoa de sorte por t-lo
encontrado. Ele  o tipo de homem que vai provar que voc est certa.

  Eu tambm quero que voc ame meus filhos da mesma forma que eu os amo.
Ajude-os a fazer sua lio de casa. Beije seus joelhos e cotovelos machucados
quando eles carem. Passe a mo pelos cabelos deles e garanta-lhes que
conseguiro fazer qualquer coisa e que basta se esforarem para tal. Coloque-os na
cama  noite e ajude-os com suas oraes. Faa o lanche que eles levaro para a
escola e apoie-os com suas amizades. Adore-os, ria com eles, ajude-os a crescer e a
se transformarem em adultos gentis e independentes. O amor que voc lhes der ser
retribudo e multiplicado por dez com o tempo. Eles aprendero a fazer isso com
Alex.

  Por favor, eu lhe imploro. Faa essas coisas por mim. Afinal, agora eles so sua
famlia, no mais a minha.

  No sinto cime ou raiva por voc me substituir; como j mencionei, considero-a
uma amiga. Voc trouxe a felicidade ao meu marido e aos meus filhos e eu gostaria
de poder estar por perto para agradec-la pessoalmente. Em vez disso, a nica coisa
que posso fazer  assegurar que voc ter minha gratido eterna.

  Se Alex escolheu voc, ento eu quero acreditar que eu tambm a escolhi.

  Da sua amiga,

  Carly Jo
  Quando Katie terminou de ler a carta, ela enxugou as lgrimas e deslizou o dedo
pelas pginas antes de voltar a guard-las no envelope. Ela se sentou em silncio,
pensando nas palavras que Jo havia escrito, j sabendo que faria exatamente o que ela
pedia.

  "No por causa da carta", pensou ela, mas porque sabia que, de alguma maneira
inexplicvel, fora Jo quem a estimulara gentilmente a dar uma chance a Alex.

  Ela sorriu. -- Obrigada por confiar em mim -- sussurrou ela, e soube que Jo sempre
estivera certa, o tempo todo. Ela havia se apaixonado por Alex e pelas crianas e j
sabia que no era capaz de imaginar seu futuro sem a presena deles. "Hora de ir para
casa", pensou ela. Hora de ir ver sua famlia.

  Fora da cabana, a lua era um disco branco e brilhante que a guiava enquanto ela se
dirigia para o jipe. Antes de entrar, entretanto, ela deu uma ltima olhada sobre o
ombro em direo  casa de Jo.

  As luzes estavam acesas e as janelas da cabana brilhavam com uma luminosidade
amarela. Na cozinha pintada, ela viu Jo em p ao lado da janela. Embora estivesse
longe demais para perceber qualquer coisa alm daquilo, Katie teve a impresso de
que ela lhe sorria. Jo levantou a mo em um aceno amistoso e Katie se lembrou mais
uma vez de que o amor  capaz de alcanar o impossvel.

  Entretanto, quando Katie piscou, a cabana estava novamente s escuras. No havia
nenhuma luz acesa e Jo desaparecera, mas achou que podia ouvir as palavras da carta
sendo levadas pela brisa suave que soprava.

  Se Alex escolheu voc, ento eu quero acreditar que eu tambm a escolhi.

  Katie sorriu e se virou, sabendo que aquilo no era uma iluso ou algo criado pela
sua imaginao. Ela sabia o que havia visto.

  Ela sabia no que acreditava.
                                                  Notas
1  Nos Estados Unidos, o ano letivo geralmente comea no incio do outono, no ms de setembro. Vrias escolas
espalhadas pelo pas no adotam uniformes para seus alunos. (N.T.)
2 Base do exrcito americano localizada no estado do Kansas que conta com uma priso de segurana mxima e um
centro disciplinar. (N.T.)
3 Filme de 1946, dirigido por Frank Capra e estrelado por James Stewart e Donna Reed. O filme foi indicado a cinco
Oscars e conquistou o Globo de Ouro na categoria de melhor diretor. (N.T.)
4 Espcie de uva de colorao vermelha cultivada no estado da Califrnia. Essa denominao tambm  usada para
os vinhos tintos feitos com essa variedade de uva. (N.T.)
5 Memorial Day, celebrado nos Estados Unidos no dia 30 de maio, em honra aos soldados americanos mortos em
combate. (N.T.)
6 Canal da televiso americana especializado na transmisso de eventos esportivos. (N.T.)
7 New England Patriots, time tradicional de futebol americano que compete pela NFL (National Football League).
(N.T.)
8 Nome dado ao jogo final do campeonato de futebol americano, um dos eventos esportivos mais assistidos em todo o
planeta. (N.T.)
9 Terceira maior ilha do arquiplago do Hava, onde se localiza Honolulu, a capital do estado. Tem atraes como a
praia de Waikiki e a base militar de Pearl Harbor. (N.T.)
10 Candelabro judaico de sete velas usado durante o perodo de festas. Cada uma das velas simboliza um dos dias da
criao do universo. (N.T.)
11 Prato tpico da culinria mexicana que, em sua forma mais bsica,  feito com carne moda, feijes e pimenta.
(N.T.)
12 A distncia entre as cidades de Dorchester e Filadlfia, por via terrestre,  de aproximadamente 520 quilmetros.
(N.T.)
13 Teatro e casa de espetculos construdo em 1870 e ainda em operao nos dias de hoje. (N.T.)
14 As distncias entre as cidades, por via terrestre, so as seguintes: Da Filadlfia a Nova York, cerca de 155
quilmetros; de Nova York a Omaha, cerca de 2.000 quilmetros. (N.T.)
15 O percurso entre Dorchester, no estado de Massachusetts, e Southport, na Carolina do Norte, por via terrestre,
tem cerca de 1.380 quilmetros. (N.T.)
